Carmen Portinho
Carmen Velasco Portinho foi uma engenheira, urbanista e feminista brasileira. Em 1919, lutou junto de Bertha Lutz e outras mulheres pelo direito ao voto. Foi vice-presidente da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e uma das co-fundadoras.
Nascida em Corumbá, em 1903, primogênita de nove irmãos, era filha de Francisco Sertório Portinho, gaúcho, e de Maria Velasco, boliviana. Mudou-se ainda bastante jovem, em 1911, para o Rio de Janeiro, capital federal na época, onde logo envolveu-se aos movimentos feministas, junto de Bertha Lutz, pelo direito das mulheres ao voto. Nas campanhas das décadas de 1920 e 1930 por mais cidadania para as mulheres, lutou incansavelmente pela igualdade entre homens e mulheres. Era ativista pela educação de mulheres e pela valorização do trabalho feminino fora da esfera doméstica. Graudou-se em 1925 na Escola Politécnica da antiga Universidade do Brasil, hoje a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Casou-se no início dos anos 1930 com médico Gualter Adolpho Lutz (1903-1969), irmão de Bertha Lutz, do qual se separou poucos anos depois. Casou-se novamente com Afonso Eduardo Reidy, um arquiteto brasileiro que projetou o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
Em 1926, assim que se formou, foi nomeada engenheira-auxiliar pelo então prefeito do Distrito Federal, Alaor Prata e assim Carmem ingressou no quadro de engenheiros da Diretoria de Obras e Viação da Prefeitura do Distrito Federal. Foi professora do Colégio Pedro II, o que foi um escândalo para a época, já que este era um internato masculino. O ministro da justiça tentou interferir em sua nomeação para o colégio, mas Carmem permaneceu lecionando por mais três anos antes de se demitir da cátedra. Devido ao machismo dentro da Diretoria de Viação e Obras da prefeitura da parte de colegas que questionavam sua competência e conhecimento, Carmem foi desafiada diversas vezes no trabalho. Sua primeira tarefa na diretoria foi a de vistoriar um pára-raios instalado no alto do antigo edifício da prefeitura, o que seus colegas acreditavam que ela não superaria. Carmem, no entanto, cumpriu a tarefa porque tinha treinamento em alpinismo, tendo escalado todos os morros da cidade do Rio de Janeiro quando ainda era estudante.
Habitação popular
Carmen é uma das responsáveis pela introdução do conceito de habitação popular no Brasil . Influenciada pelas experiências na Europa e em sua visita ao arquiteto francês Le Corbusier, Carmen propôs ao então prefeito do Rio de Janeiro a construção de conjuntos habitacionais populares que fossem equipados com serviços sociais, fugindo das construções isoladas em blocos ou de casas individuais. Os exemplos mais importantes de habitação coletiva realizados no Rio de Janeiro são os do conjunto de Pedregulho (1948) e o da Gávea (1952). Ambos foram idealizados como uma fita ondulante – associação com a proposta da faixa urbana contínua que Le Corbusier formulou ainda em 1929 – que se moldava sobre a acidentada topografia de ambos terrenos.
Capital federal
A ideia de transferir a capital federal do Rio de Janeiro para outra localidade não era nova. Quando Carmen defendeu seu doutorado em urbanismo em 1939, fica evidente seu interesse pela nova disciplina introduzida nos currículos de engenheiros e arquitetos, o urbanismo. Várias concepções arquitetônicas inovadoras foram idealizadas a partir de 1928 em congressos e simpósios internacionais, aliados às teses urbanísticas de Le Corbusier. A nova concepção da arquitetura moderna era a de organizar a área residencial de centros urbanos em unidades de habitação, separando as funções em um centro administrativo e de negócios, com ênfase em um sistema viário eficiente e equacionado.
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
A única mulher em um canteiro com mais de 450 operários, Carmen comandava todas as decisões referentes à obra. O museu, que lutou por dois anos para sair do papel, em 1954, era de concepção de Afonso Eduardo Reidy, com uma estrutura toda metálica na Avenida Beira-Mar. Além do urbanismo, Carmen também avançava pelas artes plásticas, consciente do papel do museu para a arte local e para o novo projeto urbanístico do Rio de Janeiro. Carmen organizou e realizou várias exposição de arte e arquitetura, levando nomes brasileiros renomados para o exterior, como os de Ivan Serpa, Fayga Ostrower, Arthur Luiz Piza - todos jovens ligados à arte abstrata - e arquitetos, como Oscar Niemeyer, Alcides Rocha Miranda, Jorge Moreira e Affonso Eduardo Reidy.
Imagem: User:Carmen-Portinho · BY-SA · Openverse
Carmen morreu em 25 de junho de 2001, aos 96 anos, na cidade do Rio de Janeiro.


