Carlos IV da Lorena
Carlos IV da Lorena foi um Duque da Lorena e de Bar, de jure de 1625 a 1675.
A vida conjugal do duque foi tão confusa como a sua ação política. Em primeiras núpcias, Carlos casou, a 23 de maio de 1621, com a sua prima direita Nicole de Lorena (1608-657), filha do seu tio paterno, o duque Henrique II da Lorena, e de Margarida Gonzaga. Deste casamento não houve descendência. Após ter excluído a mulher do poder, Carlos tenta anular o seu casamento fazendo condenar, em 1631, por feitiçaria, o padre Melchior de la Vallée, que batizara Nicole. Carlos separa-se da mulher em 1635, com o pretexto que não fora livre de escolher a noiva. Mas o Papa não aceita anular o casamento e Nicole acaba por ir viver para Paris, de acordo com instruções do rei Luís XIII que, entretanto, invadira a Lorena. Apesar de tudo, o duque casa em segundas núpcias, a 9 de abril de 1637, com a sua amante, Beatriz de Cusance (1614-1663), viúva de Leopoldo Eugénio de Oiselay, de quem herdara o baronato de Belvoir e principado de Cantecroix.
Juventude
Neto do duque Carlos III, o Grande, e sobrinho do duque Henrique II, era conhecido sob o nome de Carlos de Lorena, príncipe de Vaudémont, ou simplesmente Carlos de Vaudémont. Filho de Francisco, Conde de Vaudémont, e de Cristina de Salm. Passa a sua infância na corte de França, sendo um companheiro de brincadeira do futuro Luís XIII, mais velho apenas 3 anos. O seu pai fora equacionado como um partido possível para Maria de Médici antes desta se tornar rainha de França. Regressado à Lorena, onde o seu tio paterno, o duque Henrique II não tinha descendência masculina, Carlos considerava-se como o herdeiro dos ducados, tendo em conta um pretenso testamento do duque Renato II que especificava que os ducados deviam ser transmitidos em linha masculina. Só que o duque, seu tio, respeitando a tradição lorena, entendia deixar o ducado à sua filha mais velha, Nicole, o que fez com que Carlos se afastasse da Lorena.
Primeira abdicação e regresso ao poder
Carlos não se contentava com a posição de consorte. Com o apoio do seu pai, ele pretendia obter a totalidade do poder. En novembro de 1625, Francisco de Vaudémont (o pai de Carlos), apoiando-se nos termos do pretenso testamento do duque Renato II, reivindica a coroa ducal. Os Estados Gerais dos ducados avaliam a legitimidade do seu pedido e Nicole e Carlos IV abdicam conjuntamente em seu favor. Francisco de Vaudémont torna-se duque a 21 de novembro de 1625 sob o nome de Francisco II da Lorena, mas abdica cinco dias mais tarde a favor do seu filho que, assim, se torna o Duque Soberano Carlos IV, mas sem ficar dependente dos direitos da sua mulher.
Dificuldades com a França
As relações entre a França e a Lorena degradam-se, uma vez que Luís XIII recusa-se a reconhecer os princípios do direito que havia levado Carlos ao poder, já que a França tinha todo o interesse em que os ducados pudessem ser transmitidos por via feminina, na eventualidade de uma herdeira vir a casar com um príncipe francês. Por outro lado, o fim das guerras e das ambições francesas na Itália tinham deslocado as frentes de conflito para norte. A política de Luís XIII de França e do seu poderoso ministro, o Cardeal Richelieu era deslocar a fronteira do reino até às margens do Reno. Sem o apoio dos seu tios (o eleitor Maximiliano I da Baviera e o imperador Fernando II), o duque Carlos IV procura outras alianças e rompe com a política ultra-católica dos seu antecessores, aliando-se com os huguenotes franceses, com os Ingleses e com o Duque de Saboia.
Ligações perigosas
Com uma diplomacia ativa mas confusa, Carlos apoiou discretamente os inimigos do Cardeal de Richelieu, acolhendo os conspiradores que, assim, escapavam à justiça real francesa entre os quais se encontrava Gastão de França, Duque de Orleães, irmão do rei e herdeiro do trono de França. Em setembro de 1629, Gastão de França refugiou-se na Lorena e, sem o consentimento do seu irmão, o rei, casa em 1632 com aquela que ele chamaria toda a sua vida o Anjo, a princesa Margarida de Lorena, irmã do duque Carlos. Na Primavera de 1631, Gustavo Adolfo, rei da Suécia, desembarca na Pomerânia dando início à Guerra dos Trinta Anos que assolou a Europa. Carlos envia o seu exército para apoiar o Imperador. No Outono desse ano, as tropas francesas invadem a Lorena e o duque considera mais prudente um compromisso assinando o tratado de Vic (6 de janeiro de 1632.
Segunda abdicação e regresso ao poder
Em junho de 1632, Luís XIII invade uma segunda vez a Lorena e Bar, ocupando os ducados. Carlos vê-se constrangido a assinar o Tratado de Liverdum (26 de junho de 1632) que, na verdade, ele pensava em não respeitar. Em setembro de 1633, as tropas francesas invadem por uma terceira vez a Lorena e Carlos julga ser mais favorável abdicar em 19 de janeiro de 1634 a favor do seu irmão Nicolau Francisco que vem a reinar como Nicolau II da Lorena. Carlos vai comandar as tropas imperiais na guerra contra os suecos e, mais tarde, contra os franceses, obtendo diversos sucessos. Em 1635, é derrotado quando tentava reconquistar os ducados - os suecos saqueiam os ducados e causam tanta devastação que o ano de 1635 fica na memória como "o ano dos suecos".
Últimos tempos
Mas Carlos IV não renuncia às suas atividades militares e continua a combater em benefício dos seus vizinhos. Inicia trabalhos para reabilitar as estradas da Lorena e de Barrois, sobrecarregando de impostos os seus súditos já arruinados pela Guerra dos Trinta Anos. Em 1669 recusa destroçar os seus exércitos tal como exigido por Luís XIV e as tropas francesas invadem, de novo, os ducados no verão de 1670. Carlos IV põe-se em fuga e, sem alternativa, dissolve o seu exército. Após ter vencido os franceses em 11 de agosto de 1675 na batalha de Ponte de Konz (Konzer Brücke), fica doente vindo a falecer no mês seguinte com 71 anos. A Lorena e Barrois foram ocupados pelas tropas francesas até ao Tratado de Ryswick que devolve a Leopoldo da Lorena, sobrinho neto de Carlos IV, os seus estados (1697).


