Carlos, Duque da Borgonha
Carlos I da Borgonha, também conhecido como Carlos, o Audaz ou o Temerário, foi duque da Borgonha de 1467 a 1477.
Carlos, o Temerário, nasceu em Dijon, terceiro filho de Filipe, o Bom e de Isabel de Portugal. Enquanto seu pai foi vivo (1433-1467), Carlos usou o título de Conde de Charolais; mais tarde, assumiu todos os títulos do pai, inclusive o de "Grão-Duque do Ocidente". Com apenas vinte dias de idade, tornou-se cavaleiro da Ordem do Tosão de Ouro, sendo empossado por Carlos I, Conde de Nevers e senhor de Croÿ. Foi educado sob a direção do senhor de Auxy, cedo mostrando grande aplicação para o estudo e também para os exercícios de combate. A corte de seu pai era a mais extravagante da Europa na época, além de um centro de artes e comércio. Ao longo da infância e da juventude, Carlos testemunhou os esforços do pai para unir seus domínios crescentes em um Estado único. Posteriormente, viria a concentrar seus próprios esforços na continuação e manutenção dos sucessos do pai.
Casamento
Em 1440, aos sete anos, Carlos casou-se com Catarina, filha de Carlos VII, rei de França e irmã do delfim (mais tarde Luís XI). A noiva, que era apenas cinco anos mais velha do que o noivo, morreu em 1446 aos dezoito anos. O casal não teve filhos. Em 1454, aos 21 anos de idade, estando viúvo há oito, Carlos casou-se pela segunda vez. Queria a Margarida de Iorque filha de um primo seu, o duque de York, que era irmã dos reis Eduardo IV e Ricardo III da Inglaterra, mas, de acordo com o Tratado de Arras de 1435, foi obrigado a casar-se com uma princesa real de França. Seu pai escolheu, em seu nome, Isabel de Bourbon, filha da irmã de Filipe, o Bom, e prima muito distante de Carlos VII de França. Isabel viria a morrer em 1465, deixando órfã Maria, única filha sobrevivente de Carlos e herdeira de todos os domínios borgonheses.
Primeiras batalhas
Ainda como Conde de Charolais e herdeiro do Duque de Borgonha, Carlos liderou a Liga do Bem Público, uma aliança que congregava os mais proeminentes senhores feudais em oposição à política de fortalecimento da autoridade real dirigida por Luis XI. A liga incluía entre suas figuras centrais, o próprio Duque de Berry, irmão mais novo de Luis XI e herdeiro presuntivo do trono naquela ocasião. Contava ainda com a participação de Francisco II, duque da Bretanha; João II, Senhor de Bourbon e o apoio de Frederico I, príncipe eleitor do Palatinado. Em 12 de abril de 1465, Filipe abdicou em favor de Carlos, que passou o verão seguinte conduzindo a guerra contra Luís XI. Carlos foi mestre de campo na batalha de Montlhéry (13 de julho de 1465), onde ele foi ferido, mas esta não impediu o rei de entrar novamente em Paris e nem assegurou a Carlos uma vitória decisiva. Ele teve sucesso, todavia, em impor a Luís o Tratado de Coflans (4 de outubro de 1465), pelo qual o rei lhe devolveu as vilas do Somme, os condados de Boulogne-sur-Mer e Guînes e vários outros pequenos territórios. Durante as negociações para o tratado, sua esposa Isabel morreu repentinamente em Les Quesnoy em 25 de setembro, tornando um casamento político possível. Como parte do Tratado, Luís prometeu-lhe a mão de sua jovem filha Anne, com Champagne e Ponthieu como dote, mas o casamento não aconteceu.
Tratado de Péronne
Alarmado pelos sucessos iniciais do novo duque da Borgonha e ansioso em ajustar várias questões relacionadas à execução do tratado de Conflans, Luís solicitou uma reunião com Carlos e corajosamente se colocou em suas mãos em Péronne. Durante as negociações o duque foi informado de uma nova revolta do Bispado de Liège secretamente fomentado por Luís. Após deliberar por quatro dias como tratar com seu adversário, que havia se colocado desastradamente à sua mercê, Carlos decidiu respeitar a palavra de honra que ele tinha dado e negociou com Luís (outubro de 1468); ao mesmo tempo o obrigou a ajudar a sufocar a revolta. A cidade foi assaltada e os seus habitantes massacrados; Luís não interveio em favor de seus antigos aliados.
Política doméstica
Outros assuntos, além disso, ocupavam sua atenção. Abrindo mão, se não de sua eminência majestosa, pelo menos de parte da extravagância que caracterizara a corte da Borgonha sob seu pai, ele direcionou todos seus esforços em direção ao desenvolvimento de seu poder político e militar. Desde o começo de seu governo ele se ocupou em reorganizar seu exército e a administração de seus territórios. Enquanto mantinha os princípios de recrutamento feudal, ele se empenhou em estabelecer um sistema de disciplina rígido entre suas tropas, que ele fortaleceu com o pagamento a mercenários estrangeiros, especialmente ingleses e italianos e pelo desenvolvimento de sua artilharia.
Construindo um reino
Além disto, ele não perdia oportunidades de ampliar o seu poder. Em 1469, o arquiduque da Áustria, Segismundo, vendeu-lhe o condado de Ferrette, o landgravato da Alsácia e algumas outras cidades, ficando ele com o direito de recomprá-las. Em outubro de 1470, seu cunhado, Eduardo IV, rei da Inglaterra e muitos seguidores de Iorque se refugiaram na corte borgonhesa quando o deposto Henrique VI de Inglaterra voltou ao trono na Redenção de Henrique VI. Em março do ano seguinte, com apoio burgúndio, Eduardo desembarcou de volta na Inglaterra e em maio assume novamente a coroa. Mas, no entretanto, como morre este Eduardo será a vez da mãe de Carlos, Isabel de Portugal e Lancaster, que vai se assumir como sua parente mais próxima, sua herdeira universal, e através de uma legitimada carta reivindica os seus direitos à coroa de Inglaterra. No entanto, Isabel não manteve por muito tempo a sua reivindicação. Apenas alguns meses depois, em 3 de novembro de 1471, ela cedeu seus direitos a este seu filho e que não se concretizou
Em 29 de agosto de 1475, o rei Luis XI firmou com os ingleses em Picquigny um tratado que pôs fim à Guerra dos Cem Anos, o que lhe permitiu dispor de recursos para confrontar o poderio do Duque de Borgonha. Politicamente isolado, Carlos, o Temerário, firma uma trégua com o rei francês e passa a atacar o Ducado de Lorena, visando reunir seus domínios da Borgonha às suas possessões nos Países Baixos, quiçá almejando a possibilidade de liberar-se de seus laços de vassalagem e constituir um novo reino, que reuniria em seu favor o território do antigo Reino da Lotaríngia. Progredindo com rapidez, as forças borgonhesas tomam Charmes e Epinal e por fim impõem um cerco a capital Nancy, que se rende em 24 de novembro de 1475, após um mês de assédio. O Duque de Lorena, Renato II refugia-se ao norte; na cidade de Joinville. Valendo-se do apoio velado de Luis XI, que dispõe dos recursos financeiros para contratar um exército de mercenários suíços, o Duque de Lorena lança um contra-ataque às forças borgonhesas.
Morte em Nancy
No início do ano de 1477, Nancy ainda resistia ao assédio das tropas borgonhesas. O Duque de Lorena, em acordo com seus aliados articula um contra-ataque. Carlos, o Temerário, inteirado da chegada do exército de Renato II, toma posição na colina de Jarville à 5 de janeiro, sendo surpreendido pela chegada da cavalaria suíça, que após uma marcha de duas horas emergiu dos taludes do bosque de Saurupt, carregando contra a ala direita das posições borgonhesas. As tropas suíças conseguem fazer a junção com o exército de Renato II, comprimindo as forças borgonhesas que ainda mantinham o controle da Ponte de Bouxieres. Decidido a resistir até o último homem, o Duque de Borgonha reuniu o restante de seus homens buscando abrir caminho entre os dois exércitos adversários, o que resultou no total aniquilamento de suas tropas.
A morte de Carlos, o temerário, desarticulou a oposição de parte da alta nobreza ao rei Luis XI, representando um importante passo em relação à política de centralização do poder real que levada adiante pelos seus sucessores culminou na instauração do regime absolutista. Luis XI anexou os territórios da Borgonha e do Franco-Condado à coroa francesa, tendo mais tarde restituído o Franco-Condado a Filipe de Habsburgo (neto de Carlos, o Temerário). Também a Confederação Helvética, incorporou ao seu território a cidade-estado de Friburgo (anteriormente ligada à casa de Sabóia, aliada de Carlos I). O restante dos seus territórios teve como herdeira sua única filha, Maria, de 19 anos, cujo casamento com o futuro imperador Maximiliano I de Habsburgo gerou grandes implicações na política europeia de então. Maria usou o título de duquesa de Borgonha e seus herdeiros se descreveram como duques de Borgonha, recusando-se a aceitar a perda do ducado. Em 1525, Carlos V, imperador do Sacro Império (neto de Maria) foi restaurado ao título e ao território pelo rei francês Francisco I, como parte do Tratado de Madrid; porém o Tratado foi repudiado pelo próprio Francisco I, pouco depois da assinatura, de modo que Carlos V nunca controlou de fato o ducado.


