Carimbó
O carimbó ou curimbó é uma manifestação cultural brasileira de origem afro-indígena, formado por gênero musical e dança, criado no século XVII no então Império das Amazonas/Conquista do Pará na então América Portuguesa/Brasil Colônia. Evoluindo como uma celebração interiorana entre amigos e familiares após pescarias e plantios acompanhado pelo batuque do tambor artesanal curimbó; do qual se originou o nome da manifestação.
Imagem: Santa Brígida · BY-SA · Openverse
A palavra "carimbó" é proveniente do instrumento que possui a denominação em tupi "korimbó", originado do instrumento percussivo indígena tradicional, resultado da junção dos termos "kori" que significa “pau oco”, e "m’bó" que significa “furado”, significando em português “pau furado que produz som". Devido a forte presença do instrumento curimbó, tambor que marca o rítmo, feito artesanalmente com a escavação de um tronco de árvore, encoberto com couro de animal e afinado ao calor do fogo. Na forma tradicional de execução, o carimbó é chamado do tipo "pau e corda", peculiar pela batida do tambor curimbó acompanhado por banjo e maraca, referido em algumas bibliografias como “samba de roda do Marajó”, ou “baião típico de Marajó”.
Imagem: Ana_Cotta · BY · Openverse
A presença de populações e culturas afrodescendentes é consequência direta do tráfico transatlântico de africanos escravizados, que, entre os séculos XVI e XIX, trouxe aproximadamente 4,8 milhões de pessoas do continente africano ao Brasil. Por volta de 1700, a escravidão negra tomou bastante fôlego no Maranhão e na Guiana Francesa, enquanto caminhava a passos mais lentos no Grão-Pará. O Cabo Norte era região fronteiriça, fracamente ocupada pelas forças coloniais europeias, rota de fuga e localização perfeita para africanos escravizados no Pará, Maranhão e Guiana Francesa constituírem mocambos (quilombos), de tal forma que as coroas francesa e portuguesa assinaram tratados de devolução mútua de escravizados em 1732, 1752 e 1762. A partir de 1750, a Coroa Portuguesa, na figura de Francisco Xavier de Mendonça Furtado, iniciou uma série de medidas modernizadoras para assegurar a posse e as fronteiras portuguesas na região amazônica: a fundação de vilas com colonos portugueses e a construção de fortificações militares, a tentativa de introdução de monoculturas de exportação; a abolição da escravidão dos indígenas e a submissão dos nativos ao trabalho compulsório assalariado, regulamentado pelo Diretório dos Índios e a criação da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão para estimular a entrada de pessoas negras trazidas da África.
Possíveis origens
Segundo a tradição oral, é difícil afirmar com exatidão onde surgiu o ritmo, estando na disputa os municípios paraense de Marapanim e Curuçá, além da Ilha de Marajó. Sabe-se que originalmente é um ritmo criado no século XVII por tupinambás, influenciado por negros africanos (ex-escravizados) da região nordeste do estado do Pará. No século XIX era apenas a música preferida pelos pescadores/ribeirinhos e agricultores paraenses, embora não conhecida como carimbó, sendo apenas uma celebração entre amigos e familiares após pescarias e plantios, uma representação rimada dos aspectos da vida simples local, acompanhado pelo curimbó. Uma necessidade cabocla de contrabalançar o trabalho diário com momentos de descontração (periódica evasão de espírito).
Preservação
Em setembro de 2014, o rítmo/gênero tornou-se patrimônio Cultural Imaterial do Brasil; o registro foi aprovado por unanimidade no conselho do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Em junho de 2015, ocorreu o I Congresso Estadual do Carimbó no município de Ananindeua (Região Metropolitana de Belém) em parceria com o instituto Iphan, um desdobramento do processo de registro do Carimbó como Patrimônio Cultural, com o objetivo de estimular o debate, a troca de experiências sobre uma das matrizes culturais do povo amazônida e, a valorização do patrimônio. O Congresso promoveu mesas-redondas e painéis, para definir as propostas de salvaguarda, como: escolher os representantes comunitários para o Coletivo Gestor da Salvaguarda e, discutir a criação da entidade coletiva e representativa do carimbó em âmbito estadual e nacional. Reunindo mestres, grupos carimbozeiros e comunidades, sobre a temática da salvaguarda e da auto-organização comunitária, garantindo representatividade política territorial.
Imagem: Santa Brígida · BY-SA · Openverse
As principais características rítmicas são comuns às muitas tradições musicais com influências africanas, tem-se: células rítmicas sincopadas, contraponto (polirritmia) e a preponderância percussiva dos tambores, com predominância de compasso dois por quatro e de uma estrutura poética de solista-coro. O instrumental geralmente inclui dois ou três tambores com timbres diferentes, onde o maior tem o timbre mais grave e é utilizado para a marcação do rítmo, já os outros, menos graves, fazem os repiniques, síncopes e outros fraseados. Seguidos pelos arpejos fraseados e frenéticos dos instrumentos de sopro, harmonizados pelas cordas do banjo. No município de Soure o carimbó difere-se de outras regiões, pela ocorrência de determinadas características técnicas, como: ritmo mais cadenciado, andamento mais lentom toanlidades menores, frases e melodias em escala decrescente com sensação serena, compasso binário, harmonização simples com estrutura de tônica, subdominante e dominante (I-IV-V-I ou I-II-V-I), melodia com repetição de frases no estilo solista-coro, acordes com sétima menor como tensão harmônica (dissonância) das músicas caribenhas.
Vertentes
Devido a imensidão do território paraense, inicialmente o carimbó desmembrou-se em três variações: o carimbó praieiro, o carimbó pastoril e o carimbó rural. Decorrentes do tipo de atividade desempenhada em cada região, diferenciando nas rimas que irão contar sobre o cotidiano local. Na capital Belém, teriam se organizado duas correntes de carimbó distintas: estilo tradicional e estilo moderno. O primeiro, representado pelo cantor Verequete, manteve a estrutura musical do referencial marapaniense. O segundo, representado pelo cantador Pinduca, alterou essa estrutura, a fim de atribuir-lhe uma feição de modernidade. Essa diferenciação criou uma histórica rivalidade entre defensores da tradição e da modernidade.
Dança
A dança de passos miúdos e em formação de dança de roda, com pares dançantes, mas sem haver contato do cavalheiro com a dama. Apresenta uma coreografia, seguindo uma tradição indígena, na qual os dançantes imitam elementos da fauna amazônida, animais como o macaco e o jacaré (personificados nos volteios dos dançarinos). misturado com: o rebolado sensual e o batuque ligeiro do negro, bem marcado e uníssono, com instrumentos de sopro e o modo de dançar girando, com a formação de casais dos portugueses. A dança apresentada em pares, começa com duas fileiras de homens e mulheres com a frente voltadas para o centro. Quando a música inicia, os homens vão em direção às mulheres, diante das quais batem palmas como uma espécie de convite para a dança. Imediatamente, os pares se formam, girando continuadamente em torno de si mesmo, ao mesmo tempo formando um grande círculo que gira em sentido contrário ao ponteiro do relógio. Nesta parte, observa-se a influência indígena, quando os dançarinos fazem alguns movimentos com o corpo curvado para frente, sempre puxando-o com um pé na frente, marcando acentuadamente o ritmo vibrante.
Imagem: Moisés Everton · BY-SA · Openverse
Atualmente o ritmo está tão associado a festividades religiosas (como por exemplo, a louvação de São Benedito celebrado em dezembro no município de Bragança), quanto a celebrações profanas como aniversários e confraternizações. Durante as festas, é comum haver uma estrutura coberta, onde há a apresentação dos grupos com espaço para a dança. O carimbó de Marapanim, como uma das matrizes musicais, também é festejado com o Festival do Carimbó de Marapanim, celebrado anualmente na segunda semana de novembro, reunindo cerca de trinta mil visitantes e turistas na apelidada de "Cidade Carimbó" (Praça da Bandeira). Promovido pela Associação marapaniense de agentes de turismo (AMATUR), ganhou abrangência nacional com apoio do Governo do Pará, através da lei Semear.
Imagem: Julien Karl · BY-NC-SA · Openverse
Alguns artistas com destaque no movimento incluem:


