Canção de gesta
As canções de gesta, são um conjunto de poemas épicos surgidos no raiar da literatura francesa, entre os séculos XI e XII.
Forma poética
Uma canção de gesta é um longo poema épico narrativo medieval que celebra os feitos de heróis do passado. O principal manuscrito d'A Canção de Rolando, a mais antiga canção de gesta preservada, tem um total de 4002 versos, mas algumas canções podiam chegar a dezenas de milhares de versos. Em geral as mais antigas possuem versos de dez sílabas com uma pausa (uma cesura) depois da quarta ou quinta sílaba. Inicialmente as canções não utilizavam a rima, e sim a assonância, ou seja, a repetição do som das vogais nos versos de uma estrofe. Os versos estão organizados em estrofes de tamanho variável chamadas laisses em francês. Mais tarde, várias canções passaram a utilizar a rima e versos dodecassílabos (versos alexandrinos). A língua das canções foi o francês antigo, mas muitas foram traduzidas a outras línguas ainda durante a Idade Média.
Origens
Como indica o nome, as canções de gesta foram pensadas para serem cantadas com acompanhamento musical. A audiência era composta por pessoas de variados estamentos sociais, em geral analfabetas, nas vilas, cidades e na cortes dos nobres da época. As canções eram recitadas por cantores profissionais - jográis e menestréis - e enquanto alguns deles limitavam-se a repetir as composições tradicionais, outros criavam novas canções ou adicionavam novos episódios às canções conhecidas, adaptando-as às diferentes audiências e garantindo o interesse em suas recitações. Não se sabe exatamente como surgiram as canções de gesta. A mais antiga conhecida, o manuscrito de Oxford d'A Canção de Rolando, data de cerca de 1100, mas apresenta um tal refinamento e complexidade em sua composição que é provável que já bem antes desta data houvesse uma tradição de canções do mesmo tipo.
Temática
Os temas de quase todas as canções estão ligadas à época da dinastia carolíngia (séculos VIII e IX), especialmente ao rei franco Carlos Magno e seus paladinos e nobres, e suas lutas contra os pagãos e contra os muçulmanos. Assim, a maioria das canções fazem parte da chamada Matéria de França da literatura medieval. Durante a Idade Média, Carlos Magno e, em menor medida, governantes carolíngios como Luís, o Piedoso e Carlos Martel, foram vistos como campeões da Cristandade, que lutaram e impediram que a Europa inteira fosse conquistada pelos mouros e sarracenos. Nos séculos XI e XII, a época em que surgem as canções de gesta, a lembrança de Carlos Magno ainda era muito viva, e a Europa sentia-se cercada pela ameaça muçulmana, que dominava a Península Ibérica a Ocidente e a Terra Santa a Oriente. Assim, no contexto das Cruzadas e da Reconquista, é natural que as canções de gesta tratassem majoritariamente do tema da guerra santa contra os muçulmanos.
Dependendo da temática, as 80 canções de gesta francesas conhecidas podem ser agrupadas em grupos ou ciclos. Já em 1215, um escritor de canções, Bertrand de Bar-sur-Aube, classificou-as de acordo à temática em três grupos; o Ciclo do rei (dedicado a Carlos Magno e seus paladinos), o Ciclo de Doon de Mayence (que coincide em grande parte com o que atualmente é chamado o Ciclo dos barões rebeldes) e o Ciclo de Garin de Monglane (relacionado a personagens relacionados ao conde Guilherme de Orange). Atualmente reconhecem-se alguns outros ciclos, mas a classificação de Bertrand continua sendo usada. Os mais importantes ciclos são:
Ciclo do rei
Agrupa os vários poemas em que os personagens principais são o rei franco, Carlos Magno e seus paladinos. Em algumas os sucessores imediatos de Carlos também são personagens. O tema mais importante é a luta de Carlos e seus guerreiros, como Rolando e Oliveiros, contra os muçulmanos. Exemplos importantes:
Ciclo de Guilherme d'Orange
Este ciclo de vinte e quatro canções desenvolve-se ao redor de Guilherme de Orange, conde de Tolosa em tempos carolíngios, que lutou contra os muçulmanos e terminou seus dias numa abadia como santo. O ciclo também é chamado Ciclo de Garin de Monglane, nome de um ancestral lendário de Guilherme.
Ciclo dos Barões Rebeldes
Neste grupo estão agrupadas várias canções que retratam nobres em conflito com outros nobres ou Carlos Magno. Acredita-se que estes poemas, datados de fins do século XII e século XIII, refletem a perda de poder dos barões frente a um poder real cada vez mais forte e centralizado. Apesar disso, os heróis rebeldes deste ciclo não questionam o princípio de autoridade feudal nem tentam depor os reis com os quais estão em conflito. O ciclo também é chamado Ciclo de Don de Mogúncia, por Don de Mogúncia (Doon de Mayence) ser o ancestral fictício de vários heróis rebeldes como Reinaldo de Montalvão e o mago Maugis.
Ciclo das Cruzadas
Conjunto de canções de gesta sobre a Primeira e a Terceira Cruzadas, composto por cerca de trinta poemas. Em várias o herói é Godofredo de Bulhão, conquistador de Jerusalém em 1099.
O termo "canção de gesta" (em espanhol, Cantar de gesta) também é usado em referência à poesia épica escrita em castelhano antigo durante a Idade Média. Apenas três poemas, dois dos quais de maneira fragmentária, estão preservados atualmente: Há textos em prosa e outros textos medievais que sugerem a existência de outras canções de gesta castelhanas hoje perdidas. Um exemplo é a hipotética Canção dos sete infantes de Lara, conhecida graças a versões em prosa, e a Canção de Fernán González, cujo argumento é conhecido graças ao Poema de Fernán González, do século XV. A épica medieval castelhana - representada especialmente pelo Poema de Mio Cid - diferencia-se da francesa em alguns aspectos. O mais chamativo é o realismo do argumento; as descrições geográficas são bastante precisas e de maneira geral não há explicações mágicas (intervenções divinas, milagres) na história.


