Canato de Cocande
O Canato de Cocande ou Cocanda foi um estado independente usbeque da Ásia Central centrado no vale de Fergana que existiu entre 1709 e 1876. Foi fundado pelo emir manguita da tribo Mingue Xaruque (Shahrukh), que se declarou independente do Canato de Bucara, estabelecendo um canato na parte oriental do vale de Fergana, no que é hoje a parte oriental do Usbequistão. Xaruque construiu uma cidadela para ser a sua capital na pequena localidade de Cocande, aí se iniciando o canato com o mesmo nome.
Segundo a genealogia oficial da dinastia de Cocande, que provavelmente tem pouco ou nada de verdadeira, o seu fundador, Xaruque, era descendente de Babur, membro da dinastia timúrida, trineto de Tamerlão, descendente de Gêngis Cã e fundador do Império Mogol. Após ter sido derrotado pelos xaibânidas, Babur foi para o Afeganistão, mas antes disso passou pelo vale de Fergana, de onde era natural e onde era o seu reino original. Nessa altura, uma das suas esposas tinha acabado de dar à luz um filho e como a viagem para o Afeganistão era perigosa por estarem a ser perseguidos, deixaram o recém-nascido num berço ricamente decorado, juntamente com muitas joias, numa área onde havia quatro aldeias onde quirques (kyrks), quipechaques, mingues [nt 2] (manguitas) e quirguizes viviam pacificamente lado a lado. Os locais encontraram o bebé, a que chamaram Altum-Bixique ("berço de ouro"), que criaram numa das aldeias. Quando Altum-Bixique cresceu, cada uma das aldeias deu-lhe uma esposa e a mais velha delas deu à luz Cudaiar (Khudayar ou Ilique-Sultão [Ilik-Sultan]), que é considerado o fundador da dinastia de Cocande. Altum-Bixique morreu em 1545 e o seu filho Tangriar tornou-se o governante de Fergana, embora não tivesse tomado o título de cã, mas sim de bei, o qual também foi usado pelos seus descendentes até ao século XIX.
Apesar de nominalmente o vale de Fergana ser um território do Canato de Bucara, tanto quanto se sabe, o poder efetivo no vale de Fergana no início do século XVIII estava muito fragmentado e nas mãos de clãs de saídes (seyids) ou cojas (khojas ou khwājas) Aparentemente, os líderes destes clãs foram nomeados governadores de várias cidades e adquiriram cada um deles um estatuto de independência. Foi neste contexto que surgiu Xaruque Begue (Shahrukh Bek ou Shahrukh Bi), que, apesar de ser da nobreza, não era de família real, que se tinha instalado há uns anos no vale de Fergana vindo da região do rio Volga. Xaruque, que segundo algumas fontes era de facto descendente de Gêngis Cã, casou com uma filha de Iadigar Coja, o governador da cidade de Currão Serai (Khurram Serai), e foi viver para Curcã, a um par de dezenas de quilómetros a oeste de onde agora se situa Cocande. Curcã é provavelmente a Cuacanda (Khuakend) mencionada pelo geógrafo e cronista do século X ibne Haucal.
Embora Xaruque e os seus primeiros sucessores não tivessem reclamado para si o título de cã, o estado então fundado era de facto independente, não se limitando à autonomia tutelada por Bucara que os cojas já tinham conseguido antes. Inicialmente, o território de Xaruque abrangia, além da capital Cocande, as cidades de Konibodom, Namangã, Marguilã, Isfara e as áreas vizinhas. [nt 3] Xaruque morreu em 1721, quando tinha 40 anos e foi sucedido pelo seu filho mais velho, Abdul Raim, que conquistou Cujanda, Andijã Samarcanda, Katta-kurgan e Jizaque. Raim reinou durante doze anos, morrendo c. 1733, quando tinha 33 anos, deixando um filho (Irdana; ou Erdeni) e três filhas. O trono foi ocupado pelo seu irmão, Abdul Carim Bei. No seu “Ansāb al-salātin was tawārikh al-khawāqin”, Mulā Mirzā Alim (Raim Tascandi, Rahim Tāshkandi) relata que Abdul Carim reorganizou a cavalaria do canato. Ainda durante o seu reinado, os calmucos ou zungares tomaram Osh, Andijã e Marguilã e aproximaram-se de Cocande, cujos habitantes se organizaram para defenderem a cidade. Os invasores foram repelidos com o apoio de Fazi Begue (Fāzil Bi), governante de Ura-tepe, que acorreu rapidamente em socorro da cidade com um exército. Abdul Carim também construiu uma nova cidadela na capital, que se juntou à que Xaruque tinha construído. Abdul Carim morreu em 1746, quando tinha 40 anos, tendo sido sucedido pelo seu filho.
Em 1840, Madali Cã, até aí um guerreiro destemido e vigoroso, tinha-se tornado um líder fraco e libertino, devido, diz-se, aos remorsos por ter mandado executar Haque Culi (Hak Kuli), que lhe tinha dado muitos conselhos valiosos. O seu governo autoritário também o tornou impopular e, segundo algumas fontes, devido a isso abdicou em 1841 a favor do seu irmão Mamude Sultão (Mahmud Sultan)[nt 7] mas a situação política não melhorou e conduziu a uma conspiração contra ele, liderada pelo Kushbegi Leshker[nt 8] de Tasquente, o cazi (kazi, cádi) Caliã, o comandante do exército Issa Coja (Isa Khoja) e outros. Os conspiradores decidiram derrubar Madali e colocar no trono um dos sobrinhos do cã Narbuta Bei, Xir Ali (Sher Ali ou Sheralixon), ou Murade Begue, filho de Alim Cã. Este último tinha vivido muitos anos com os quipechaques. Os conspiradores enviaram um emissário ao emir de Bucara Nasrulá ibne Haidar Tora com um pedido de apoio. Apesar da sua vontade ser atender o pedido, Nasrulá estranhou a ousadia do pedido e desconfiou que pudesse haver motivações obscuras por detrás dele, pelo que nada fez até receber um segundo pedido. Em abril de 1842, Bucara enviou um exército de 18 000 homens que acampou a um par de dezenas de quilómetros de Cocande. Amedrontado pela demonstação de força, Madali enviou o seu filho Mamomé Amim, o Kushbegi Leshker e o cádi Caliã para negociarem um acordo, que incluía o reconhecimento da suserania de Nasrulá sobre Cocande e a inclusão do nome de Nasrulá no Khutbeth e nas moedas de Kkand. Os emissários foram recebidos amigavelmente e dois deles foram voltaram a Cocande, mas o Kushbegi Leshker ficou detido e, numa audiência privada com o emir, comunicou a este que os líderes do canato e o povo estavam na disposição de se renderem.


