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Campo de Concentração do Tarrafal

O Campo de Concentração do Tarrafal, também designado Campo da Morte Lenta, foi um campo de concentração, que atualmente serve como museu, situado na aldeia de Chão Bom, no Concelho de Tarrafal, na ilha de Santiago em Cabo Verde.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 18/07/2026
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Designações e Instalações

Designações

O Campo de Concentração do Tarrafal também tem as designações de Campo do Tarrafal ou, oficialmente, Colónia Penal de Cabo Verde na primeira fase, e Campo de Trabalho de Chão Bom na segunda. Outros nomes dados pelos prisioneiros, além de Campo da Morte Lenta, eram a "Aldeia da Morte", o "Pântano da Morte" e ainda o "Inferno Amarelo".

Instalações

O campo de concentração fica a três quilómetros do centro da Cidade do Tarrafal. É dividido na parte destinada aos presos, que é cercada com um muro de 200 metros de comprimento por 150 metros de largura, seguidos de estruturas de suporte, no exterior, dedicadas aos guardas e outros funcionários. Hoje é possível reconhecer as diferentes funções de cada pavilhão destinado aos presos. No seu interior, ao lado de todo o muro de vedação, há uma vala em "forma de V" com quatro metros de largura e três de profundidade. Depois das valas, existe um talude de basalto, com três metros de altitude acima do nível do terreno. Em cada canto, e no meio duas taludes, existem torres de vigia, havendo também, nas taludes, uma plataforma para as sentinelas. O exterior do campo era dedicado à habitação dos guardas e funcionamento administrativo e logístico, existindo várias estruturas dedicadas ao funcionamento do campo e aos funcionários. É circunscrito por uma paisagem montanhosa.

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Fundação e primeira fase, 1936-1954

Fundação

O Campo de Concentração do Tarrafal foi estabelecido em 1936 pelo Decreto 26 539 de 23 de abril de 1936, no contexto da reorganização do sistema prisional do Estado Novo, com o objetivo de encarcerar presos políticos e sociais. A localização foi escolhida de forma estratégica, tanto por ser perfeita para que os testemunhos não viessem a público, tanto por ter um clima insalubre, com pouca água potável, e muitos mosquitos em épocas chuvosas, que facilitavam o aparecimento de doenças e do qual morreram muitos prisioneiros. A construção foi incumbência do Ministério das Obras Públicas e Telecomunicações, e o projeto foi elaborado por Cottinelli Telmo, com o nome de "Colónia Penal de Cabo Verde". Cândido de Oliveira afirma que não foi difundido o verdadeiro objetivo da construção por receio da opinião pública portuguesa e internacional. De acordo com o "Dossier do Tarrafal" da Editorial "Avante!", a maioria dos guardas eram membros da PSP ligados à PVDE e à Legião Portuguesa.

Objetivos

A "Colónia Penal do Tarrafal" foi apelidada pelos reclusos como campo de concentração por ser análoga aos campos de concentração nazis, sendo mais notoriamente conhecido como "Campo da Morte Lenta", já que tinha como principal objetivo aniquilar física e psicologicamente os opositores portugueses e africanos à ditadura Salazarista, afastando-os do resto do Mundo, em condições subhumanas de cativeiro, maus tratos e insalubridade. Na primeira fase, de 1936 a 1954, era local prisional para os opositores do regime fascista de Portugal. O historiador Fernando Rosas considera o Tarrafal o "pico da repressão em Portugal" e a "forma mais brutal de repressão que o fascismo encontrou" contra os resistentes, sendo "um terreno onde se junta a luta dos antifascistas portugueses com a luta dos anticolonialistas ou os patriotas dos movimentos de libertação nacional". A maneira do Tarrafal atuar e a sua forma de tratar presos era semelhante à de outros campos de concentração existentes naquela altura. Diariamente, os reclusos eram submetidos a castigos, tortura, trabalhos forçados, má alimentação e falta de assistência médica. Grande parte das detenções eram arbitrárias.

A Primeira Fase

A primeira fase decorreu de 1936 a 1954. Em 29 de outubro de 1936, chegaram os primeiros 157 presos políticos portugueses vindos de Lisboa, antifascistas, sendo 37 deles grevistas participantes na greve de 18 de janeiro de 1934 da Marinha Grande, e alguns participantes na Revolta dos Marinheiros de 1936, organizada pela Organização Revolucionária da Armada, ligada ao Partido Comunista Português. No começo, as instalações eram simples tendas de lona com capacidade de alojar doze presos, sem quaisquer condições, e o campo era circunscrito por arame farpado e uma vala de quatro metros de altura. Os edifícios de madeira eram reservados à secretaria e ao armazém. Isto deu-se concomitantemente à construção dos barracões. A eletricidade, a renovação do ar e a proteção contra os elementos naturais, principalmente ao sol — que é "insuportável devido às condições climáticas do país" — eram inexistentes. De acordo com Cândido de Oliveira, o arame farpado barrava qualquer contacto direto com o exterior, apesar de permitir ainda contacto visual. Manuel Francisco Rodrigues afirma que a construção de taludes beneficiou os guardas, limitou o espaço, e aumentou a tortura psicológica sobre os presos. O único edifício de pedra era a cozinha, que estava parcialmente construída.

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A Segunda Fase e encerramento, 1954-1974

A segunda fase

Em 14 de abril de 1961, o campo é reaberto como campo de trabalho pelo Ministério do Ultramar, rotulado com o nome "Campo de Trabalho de Chão Bom". Esta fase coincidiu com a construção dos primeiros pavilhões de pedra e a reconfiguração das proteções em forma de fortaleza. Tinha o objetivo de prender militantes da guerra de libertação nacional da guerra colonial portuguesa de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde, isolando-os e torturando-os. Em 17 de julho de 1961 é ampliado, em 1962 são construídos novos edifícios, e em 1967 foi construída uma muralha para aumentar a segurança. No total, estiveram presentes no Tarrafal cerca de 230 anticolonialistas africanos, dos quais 106 angolanos, 100 guineenses e 20 cabo-verdianos, tendo morrido um angolano e dois guineenses na sequência de doença e maus tratos.

Encerramento

No seguimento da revolução de 25 de abril de 1974 e com o fim da ditadura do Estado Novo, o campo é encerrado definitivamente a 1 de maio de 1974.

Pós-independência

Entre 1975 e 1985, passou a funcionar como centro de recrutamento e quartel militar, mas ficou abandonado após o seu encerramento. Em 2009 foi transformado no Museu da Resistência, e atualmente decorre um projeto que tem o objetivo de concorrer à Lista do Património Mundial da UNESCO. É o museu mais visitado do país, com mais de 9 000 visitas anuais. O Museu da Resistência integra-se no projeto de preservação e musealização do ex-Campo de Concentração do Tarrafal para dar dignidade ao espaço e às memórias das vítimas. A responsabilidade da sua gestão e conservação foi atribuída ao Instituto de Investigação do Património Cultural (IIPC).

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Relatos

A "Frigideira"

Pedro Martins descreveu a "Frigideira" como:.mw-parser-output .flexquote{display:flex;flex-direction:column;background-color:#F1F1F1;border-left:3px solid #C7C7C7;font-size:100%;margin:1em 4em;padding:.4em .8em}.mw-parser-output .flexquote>.flex{display:flex;flex-direction:row}.mw-parser-output .flexquote>.flex>.quote{width:100%}.mw-parser-output .flexquote>.flex>.separator{border-left:1px solid #C7C7C7;border-top:1px solid #C7C7C7;margin:.4em .8em}.mw-parser-output .flexquote>.cite{text-align:right}@media all and (max-width:600px){.mw-parser-output .flexquote>.flex{flex-direction:column}}@media screen{html.skin-theme-clientpref-night .mw-parser-output .flexquote{background-color:transparent}}@media screen and (prefers-color-scheme:dark){html.skin-theme-clientpref-os .mw-parser-output .flexquote{background-color:transparent}}

Segunda fase

Segundo Pedro Martins, então preso político Cabo Verdiano, o Campo de Concentração era "um sítio planificado, desenhado e construído para fazer sofrer as pessoas". Segundo o mesmo, o local de detenção dos cabo-verdianos era tão pequeno que se acomodavam "como sardinhas enlatadas". Referente à alimentação, diz que "[c]achupa com uns vestígios de atum era-nos servida diariamente", havendo variação mínima, e que quando se recusavam a comer peixe estragado "que nem os cães seriam capazes de comer", eram-lhes cortadas as refeições.

Após a revolução

O angolano Joel Pessoa refere-se à revolução de 25 de abril de 1974 afirmando que "[o] Tarrafal era uma prisão para o resto da vida. Se não fosse o 25 de abril iríamos morrer todos lá".

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Mortos no Tarrafal

Foram 37 os prisioneiros políticos que morreram no Tarrafal, 34 portugueses, um oriundo da Província Ultramarina de Angola, e dois da Guiné Portuguesa. Os 34 mortos portugueses só depois da revolução de 25 de abril de 1974, e do fechamento do campo a 1 de maio, puderam ter os seus corpos retornados a Portugal:

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Cultura

Músicas

O Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde, num disco de canções de protesto que patrocinou em 1973, está incluída a "Seis one na Tarrafal" (Seis anos no Tarrafal), onde é denunciada a situação vivida no Campo de Concentração. Em 1980, Jaqueline Fortes inclui a música Seis One na Tarrafal no seu primeiro disco.

Livros

Em Portugal, é ampla a literatura relacionada com o Tarrafal, com livros de depoimentos de antigos prisioneiros, descrições do local e do ambiente político de então.

Fontes consultadas

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