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Campanhas de Maurício nos Balcãs

As campanhas balcânicas do imperador Maurício foram uma série de expedições militares conduzidas pelo imperador bizantino Maurício (r. 582–602) para defender as províncias balcânicas do Império Bizantino dos avares e esclavenos.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 16/07/2026
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Península Balcânica antes de 582

Na época da ascensão de Maurício, as principais omissões de seus antecessores se encontravam na região dos Bálcãs. Justiniano I negligenciou as defesas contra os esclavenos, que ameaçavam a fronteira de 500 e saqueavam a região desde então. Mesmo tendo reconstruído as fortificações do limes do Danúbio, ele descartou campanhas contra os esclavenos em favor de outras nos teatros de guerra oriental e ocidental. Seu sobrinho e sucessor Justino II lançou os avares contra os gépidas e, posteriormente, contra os esclavenos. Mas esta política permitiu apenas que o Grão-Canato Avar se tornasse uma ameaça ainda mais poderosa que os gépidas ou os esclavenos: conforme Justino II permitia que os avares atacassem os esclavenos em território bizantino, os invasores logo perceberam onde estavam as melhores oportunidades de saque. Para piorar a situação, Justino II iniciou a Guerra bizantino-sassânida de 572-591, que prendeu suas forças no oriente justamente quando elas seriam mais necessárias nos Bálcãs. O predecessor de Maurício e seu sogro, Tibério II, esvaziou o tesouro imperial. Por tudo isso, as incursões eslavas nos Bálcãs seguiam com pouca resistência.

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582-591: incursões avares e eslavas

Em 583, os avares exigiram que o tributo fosse aumentado para 100 000 soldos, oque levou Maurício a encerrar de vez o pagamento, concluindo que concessões adicionais terminariam provocando novas demandas. As invasões avares reiniciaram no mesmo ano, com a captura de Singiduno após uma feroz resistência. Os avares rapidamente avançaram para o leste e tomaram Viminácio e Augusta, chegando até Anquíalo a sudeste em apenas três meses. Uma embaixada bizantina se encontrou com os avares perto dali, mas as negociações não deram em nada depois que o grão-cã ameaçou novas conquistas, o que provocou uma resposta furiosa de Comencíolo, um dos embaixadores bizantinos. Ainda assim, Maurício firmou uma paz no ano seguinte ao concordar pagar a demanda inicial avares de 100 000 soldos. Porém, os esclavenos, que não estavam limitados pelo tratado, começaram a avançar mais para o sul para atacar a Diocese da Macedônia e a região da Grécia, como se evidencia pela grande quantidade de tesouros de moedas encontrados na região, particularmente na Ática, perto de Atenas, e no Peloponeso.

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Campanhas de 591 a 595

No final do verão de 591, Maurício firmou a paz com o xá Cosroes II (r. 590–628), que cedeu a Armênia para os bizantinos. Finalmente, os veteranos das guerras persas estava à disposição do imperador, assim como todo o potencial de recrutamento da Armênia. A decrescente pressão persa e avar permitiu que os bizantinos se concentrassem nos esclavenos entre 590 e 591. Maurício já havia visitado Anquíalo e outras cidades na Trácia pessoalmente em 590 para supervisionar a reconstrução e aumentar o moral de suas tropas e da população local. Após a paz com a Pérsia, ele acelerou seus planos deslocando tropas para os Bálcãs. Em 592, seu exército retomou Singiduno, que, contudo, seria novamente perdida para os avares. Unidades bizantinas menores se envolveram em ações policiais contra saqueadores esclavenos na Mésia e restabeleceram as linhas de comunicação entre as cidades da região. Maurício queria também restabelecer a poderosa linha defensiva ao longo do Danúbio como Anastácio I Dicoro já havia feito um século antes, a fronteira da Mésia. Além disso, ele pretendia manter os avares e os esclavenos fora da península contra-atacando suas terras, o que tinha a vantagem adicional de permitir que suas tropas aumentassem seus ganhos pilhando em território inimigo, tornando a campanha como um todo mais atrativa.

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596-597: interlúdio

Após este raide avar de relativo sucesso na Dalmácia, houve apenas umas poucas ações ofensivas nos Bálcãs, durante cerca de um ano e meio. Desencorajados pela falta de sucesso, os avares encontraram maiores perspectivas de pilhagens no ocidente e, por isso, passaram a atacar os francos em 596. Enquanto isso, os bizantinos utilizaram Marcianópolis, perto de Odesso, como base de operações no baixo Danúbio contra os esclavenos, em vez de se aproveitar da ausência avar. Nenhum raide eslavo importante ocorreu no período.

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597-602: retomada das campanhas

Reforçados pelos saques aos francos, os avares retomaram as campanhas no Danúbio no outono de 597 pegando os bizantinos de surpresa, chegando a cercar o exército de Prisco em Tômis. Em 30 de março de 598, porém, eles abandonaram o cerco, pois Comencíolo havia iniciado uma campanha com um inexperiente exército através dos montes Hemo e estava marchando ao longo do Danúbio em direção a Zicidiba, perto da atual Medgidia, a apenas 30 quilômetros da região. Por razões desconhecidas, Prisco não perseguiu os avares para ajudar Comencíolo, que foi forçado a recuar para Iatro e, ainda assim, não conseguiu evitar que suas tropas fossem derrotadas e tivessem que lutar para conseguir atravessar o Hemo em direção ao sul. Os avares se aproveitaram da vitória e avançaram para Drizípara, perto de Arcadiópolis, entre Adrianópolis e Constantinopla, onde uma grade parte de seu exército e sete filhos do grão-cã foram mortos por uma peste. Comencíolo foi destituído de seu comando temporariamente e substituído por Filípico ao mesmo tempo que Maurício convocou as facções do circo e seus próprios guarda-costas para defender a longa muralha a leste da capital. Por um tempo, Maurício conseguiu subornar os avares e, no mesmo ano, um tratado de paz foi firmado com Beano I explicitamente permitindo expedições bizantinas na Valáquia. Os bizantinos utilizaram o resto do ano para reorganizar suas forças e avaliar as causas de tamanho fracasso.

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Península balcânica após 602

Maurício havia pacificado as fronteiras balcânicas, um feito que não ocorria desde os tempos de Anastácio I Dicoro, mantendo avares e esclavenos em xeque. As províncias estavam num estágio de potencial recuperação completa; a reconstrução e o reassentamento estavam em curso e eram a chave para re-estabelecer o controle bizantino novamente. Maurício havia planejado assentar na região camponeses armênios que pudessem ser alistados numa milícia quando necessário e também romanizar os camponeses esclavenos que já estavam ali. Após sua queda, porém, estes planos desandaram assim como as campanhas que certamente levariam à destruição ou submissão do Grão-Canato Avar. O novo imperador bizantino, Focas (r. 602–610), seria forçado a lutar contra os persas uma vez mais: os sassânidas ocuparam a Armênia logo no primeiro estágio da guerra. Assim, Focas não foi capaz de continuar suas campanhas na mesma escala de antes e nem conseguiu assentar nenhum armênio nos Bálcãs.

602–612/615: Campanhas de Focas nos Bálcãs? - silêncio antes da tempestade

A opinião generalizada de que o controle bizantino nos Bálcãs desmoronou imediatamente após a ascensão de Focas vai contra todas as evidências. Focas na realidade continuou as campanhas numa escala desconhecida (embora, muito provavelmente, com muito menos rigor e disciplina) e provavelmente transferiu forças para o front persa após 605. Mas mesmo após esta data, é improvável que ele tenha retirado todas as forças nos Bálcãs por conta de sua ascendência trácia. Não há evidências arqueológicas, como tesouros de moedas ou vestígios de destruição, que comprovem incursões eslavas ou avares e, muito menos, o total colapso do controle bizantino. Ao contrário, sabe-se que refugiados da Dardânia, Dácia e Panônia procuraram proteção em Tessalônica apenas durante o reinado de seu sucessor, Heráclio (r. 610–641). É possível até que uma moderada recuperação tenha ocorrido durante o reinado de Focas. É evidente que muitas fortalezas foram reconstruídas no final da época de Maurício ou sob Focas. Porém, foi a inação de Focas, mais ou menos impostas pela situação que se deteriorava rapidamente no front persa, que abriu caminho para as enormes invasões ocorridas na primeira década de Heráclio e para o eventual colapso do controle bizantino sobre os Bálcãs.

612-624:os grandes raides avares e esclavenos

É muito provável que Heráclio tenha retirado todas as forças bizantinas dos Bálcãs. A guerra civil contra Focas levou a uma deterioração do front persa de forma nunca vista antes, o que, somado ao sucesso das campanhas avares contra os lombardos em Friul em 610 e contra os francos em 611 encorajaram os avares e seus súditos esclavenos a reiniciarem suas incursões em algum momento depois de 612. No mais tardar, a queda de Jerusalém em 614 foi o evento chave que mostrou a incapacidade de reação dos bizantinos. O fato é que as crônicas do período relatam o reinício massivo das pilhagens e cidades como Justiniana Prima e Salona sucumbiram. Não se sabe ao certo em que momento cada região caiu frente às tribos eslavas, mas alguns fatos se destacam: a destruição de Nova após 613, a conquista de Naísso e Sérdica e a destruição de Justiniana Prima em 615, os três cercos de Tessalônica (604?, 615 e 617), a batalha de Heracleia às margens do mar de Mármara em 619, os raides esclavenos a Creta em 623 e cerco de Constantinopla em 626. A partir de 620, as evidências arqueológicas corroboram também o assentamento eslavo nas devastadas províncias balcânicas

Declínio lento dos Bálcãs após 626

Algumas cidades sobreviveram às incursões avares e eslavas e conseguiram manter a comunicação com Constantinopla por mar e rios. As crônicas mencionam um comandante de Singiduno no meio do reinado de Heráclio. Além disso, em muitos dos tributários do Danúbio, assentamentos bizantinos sobreviveram, como por exemplo na região de Tarnovo, no rio Yantra, que chegou a ter uma igreja construída no século VII. Heráclio se utilizou do breve período entre o fim da guerra contra a Pérsia em 628 e o início dos ataques árabes em 634 para tentar re-estabelecer alguma forma de autoridade na região. Uma evidência clara foi a construção da fortaleza de Nicópolis em 629. Heráclio também permitiu que os sérvios se assentassem nos Bálcãs como federados contra os avares e os croatas, na Dalmácia e na Panônia Inferior; os croatas empurraram a fronteira até Sava em 630. Tendo que lutar para se defender dos árabes no oriente, porém, ele não conseguiu finalizar seu projeto. O governo bizantino nas zonas rurais dos Bálcãs se limitava às áreas afetadas pelas curtas campanhas de verão. As cidades dos Bálcãs, tradicionalmente grandes centros da civilização romana, se degeneraram das populosas, ricas e autossuficientes pólis da Antiguidade para limitados e fortificados castros medievais. Incapazes de florescer novamente, elas foram incapazes de formar um núcleo cultural e econômico sobre o qual se sustentava o controle bizantino. Sua população foi, por conseguinte, assimilada pelos colonos esclavenos. Mesmo assim, algumas cidades ao longo do Danúbio mantiveram alguns traços romanos até a invasão dos proto-búlgaros em 679 e permaneceram sob controle bizantino até esta data. O fato de os novos invasores se utilizarem de uma foram alterada de grego como língua administrativa demonstra que uma população bizantina e algumas estruturas administrativas ainda existiam ali mesmo depois de 679. Na Dalmácia, idiomas românicos (dálmata) perduraram até o final do século XIX, enquanto que na Macedônia, os ancestrais dos modernos aromanianos sobreviveram como nômades. Um tema disputado até hoje é a origem dos romenos. De acordo com Robert Roesler, os ancestrais dos atuais romenos viviam anteriormente ao sul do Danúbio e se mudaram para a Romênia: uma tese cara para os húngaros mais nacionalistas em suas disputas com os romenos sobre a região da Transilvânia. A outra teoria, apoiada pelos nacionalistas romenos, é que existe uma continuidade dácio-romena iniciada na conquista romana da Dácia em 106. Na Albânia central, um pequeno grupo étnico, despercebido durante os séculos de controle romano-bizantino, manteve a sua língua pré-romana e também sobreviveu à chegada dos esclavenos, os ancestrais dos atuais albaneses.[carece de fontes?]

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Retrospectiva

No final, os sucessos das campanhas de Maurício foram desperdiçados por Focas. As esperanças de Maurício de reconstruir os Bálcãs e de reassentar os camponeses armênios na região não se realizaram. Heráclio conseguiu fazer ainda menos pela região. Assim, a única consequência imediata das campanhas foi um já mencionado atraso na invasão permanente dos avares e esclavenos. Por isso, assume-se geralmente, de forma incorreta e superficial, que as campanhas de Maurício nos Bálcãs teriam sido um fracasso. Provavelmente, as derrotas avares na parte final das campanhas, a partir de 599, tiveram um impacto de longo prazo. Os avares foram derrotados de forma sangrenta em seu próprio país e se mostraram incapazes de defender seu estado. Até as Batalhas de Viminácio, em 599, eles eram considerados invencíveis, o que lhes permitia explorar incansavelmente seus súditos. Após a derrota, as primeiras revoltas ocorreram, mas seriam esmagadas em 603. Os avares conseguiram contudo mais alguns sucessos contra lombardos, francos e bizantinos, mas eles jamais foram capazes de restaurar sua reputação anterior. Isto pode explicar as revoltas eslavas sob Samo em 623, três anos antes do fracassado cerco de Constantinopla.

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