Caldeirão de Santa Cruz do Deserto
O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto ou Caldeirão dos Jesuítas foi um dos movimentos messiânicos que surgiu nas terras do Crato, Ceará entre as décadas de 1920 e 1930. A comunidade era liderada pelo paraibano José Lourenço Gomes da Silva, mais conhecido por beato José Lourenço.
Sítio Baixa Dantas
José Lourenço, oriundo do município de Pilões de Dentro, trabalhava com sua família em latifúndios do sertão da Paraíba. Decidiu migrar para Juazeiro do Norte, onde conheceu o Padre Cícero e ganhou sua simpatia e confiança. Em Juazeiro, conseguiu arrendar um lote de terra no sitio Baixa Dantas, no município do Crato. Com bastante esforço de José Lourenço e os demais romeiros, em pouco tempo a terra prosperou, e eles produziram cereais e frutas. Diferente das fazendas vizinhas, na comunidade toda a produção era dividida igualmente. José Lourenço tornou-se líder daquele povoado, e se dedicou à religião, à caridade e a servir ao próximo. Mesmo analfabeto, era ele quem dividia as tarefas e ensinava agricultura e medicina popular. Para o sítio Baixa Dantas eram enviados, por Padre Cícero, assassinos, ladrões e miseráveis, enfim, pessoas que precisavam de ajuda para trabalhar e obter sua fé. Após o surgimento da Sedição de Juazeiro, da qual José Lourenço não participou, suas terras foram invadidas por jagunços. Com o fim da revolta, José Lourenço e seus seguidores reconstruíram o povoado.
Caldeirão de Santa Cruz do Deserto
Em 1926, o sítio Baixa Dantas foi vendido e o novo proprietário exigiu que os membros da comunidade saíssem das terras. Com isso, Padre Cícero resolveu alojar o beato e os romeiros em uma grande fazenda denominada Caldeirão dos Jesuítas, situada no Crato, onde recomeçaram o trabalho comunitário, criando uma sociedade igualitária que tinha como base a religião. Toda a produção do Caldeirão era dividida igualmente, o excedente era vendido e, com o lucro, investia-se em remédios e querosene. No Caldeirão cada família tinha sua casa e os órfãos eram afilhados do beato. Na fazenda também havia um cemitério e uma igreja, construídos pelos próprios membros. A comunidade chegou a ter mais de mil habitantes. Com a grande seca de 1932, esse número aumentou, pois lá chegaram muitos flagelados.
Massacre
Em setembro de 1936, sem a proteção de Padre Cícero, a fazenda foi invadida e destruída pelas forças do governo de Getúlio Vargas, que acusava a comunidade de comunismo. Os sertanejos sobreviventes dividiram-se, ressurgindo novamente pela mata em uma nova comunidade que, em 10 de maio de 1937, foi invadida novamente, dessa vez por terra e por ataques aéreos. Nessa ocasião houve um grande massacre, com o número oficial de 400 mortos (outras estimativas, entanto, chegam a mais de 1000). Os familiares e descendentes dos mortos nunca souberam onde encontram-se os corpos, pois o Exército Brasileiro e a Polícia Militar do Ceará nunca informaram o local da vala comum na qual os seguidores do Beato foram enterrados. Presume-se que a vala coletiva encontra-se no Caldeirão ou na Mata dos Cavalos, na Serra do Cruzeiro (região do Cariri).
Em 2022 a área da comunidade foi incluída no Parque Estadual Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, no município de Crato, com o objetivo de preservação ambiental e proteção do patrimônio histórico. Da época da comunidade existem ainda a capela branca (que tem como padroeiro Santo Inácio de Loyola) ao lado da ermida, duas casas, um muro de laje de um velho cemitério, um cruzeiro e no alto as ruínas da residência do beato José Lourenço. Atualmente, 47 famílias vivem num sítio denominado Assentamento 10 de Abril, a 37 km do centro do Crato. No local encontram-se 47 casas; dessas, 44 são de alvenaria e uma escola, porém sem ostentar as dimensões atingidas pelo então Caldeirão do beato José Lourenço. As famílias residentes mantêm atividade de horticultura comercial, agricultura de subsistência e apicultura. A ONG SOS Direitos Humanos entrou com uma ação civil pública no ano de 2008, na Justiça Federal do Ceará, contra o Governo Federal do Brasil e Governo do Estado do Ceará, requerendo que o Exército Brasileiro tornasse público o local da vala comum, realizasse a exumação dos corpos, identificasse as vítimas via exames de DNA, enterrasse os restos mortais, indenizasse no valor de R$ 500 mil todos os familiares das vítimas e os remanescentes, e incluísse na história oficial, à título pedagógico, a história do massacre do Sítio da Santa Cruz do Deserto, ou Sítio Caldeirão. A pedido do Ministério Público Federal da cidade de Juazeiro do Norte, a ação foi extinta sem julgamento de mérito pelo juiz da 16ª Vara Federal de Juazeiro do Norte. A ONG recorreu ao Tribunal Regional Federal da 5ª Região em Recife, Pernambuco, requerendo que a ação seja julgada o mérito porque o crime cometido contra a comunidade do Sítio Caldeirão é de lesa humanidade, e portanto, imprescritível.
Em 1986 o cineasta Rosemberg Cariry realizou o documentário "Caldeirão Da Santa Cruz Do Deserto", rico em depoimentos de sobreviventes do massacre. A Cia do Tijolo apresentou em 2010 um espetáculo que contava a história do Caldeirão, e exaltava também Patativa do Assaré, poeta nascido no nordeste brasileiro. Em 2017, a violinista Mariana Holshuh apresentou em Natal/RN a obra "O Caldeirão dos esquecidos", para violino solo, do compositor Danilo Guanais, inspirada em elementos da história do Caldeirão dos Jesuítas.


