Calakmul
Calakmul é um sítio arqueológico maia situado no estado mexicano de Campeche, nas profundezas das selvas da região da bacia de Petén. Encontra-se a 35 km da fronteira com a Guatemala. Calakmul é uma das maiores e mais poderosas cidades antigas alguma vez descobertas nas terras baixas maias. Calakmul é um nome moderno; na antiguidade o núcleo da cidade era conhecido como Ox Te' Tuun.
Calakmul situa-se no estado de Campeche no sudeste do México, cerca de 35 km a norte da fronteira com a Guatemala e 38 km a norte das ruínas de El Mirador. As ruínas de El Tintal encontram-se 68 km para sudoeste de Calakmul e estavam ligadas tanto a El Mirador como à própria Calakmul por uma calçada elevada. Calakmul situava-se 20 km a sul da contemporânea cidade de Oxpemul a aproximadamente 25 km para sudoeste de La Muñeca. A cidade situa-se numa elevação 35 m acima de um grande pântano sazonal que se estende para oeste, conhecido como o bajo El Laberinto (bajo é uma palavra espanhola usada na região para designar uma zona baixa de pântano sazonalmente alagadiça). Este pântano mede aproximadamente 34 por 8 km e era uma importante fonte de água durante a estação das chuvas. O bajo encontrava-se ligado a um sofisticado sistema de controlo hidráulico incluindo tanto estruturas naturais como artificiais como ravinas e canais que circundavam uma área de 22 km² em volta do núcleo do sítio, designada como Calakmul Interior. A localização de Calakmul na orla de um bajo fornecia duas vantagens adicionais: os solos férteis na bordadura do pântano e acesso a abundantes nódulos de sílex. A cidade situa-se sobre um promontório formado por um domo natural de calcário como 35 m de altura que se eleva sobre as terras baixas circundantes. Este domo foi artificialmente nivelado pelos maias. Durante os períodos Pré-Clássico e Clássico os assentamentos concentraram-se ao longo da orla do bajo El Laberinto, e durante o período Clássico foram também construídas estruturas em terreno mais elevado e em pequenas ilhas no pântano onde era extraído o sílex.
No seu auge no Período Clássico tardio, estima-se que a cidade teria uma população de 50 000 habitantes e cobriria uma área de 70 km². A cidade era a capital de um grande estado regional abrangendo uma área de 1 300 km². Durante o Período Clássico Terminal a população da cidade diminui dramaticamente e a população rural diminuiu até atingir apenas 10% do seu máximo. A densidade populacional de Calakmul no Período Clássico Tardio seria de 1000/km² no núcleo do sítio e 420/km² na periferia (uma área de 122 km²). Calakmul era uma verdadeira cidade urbana e não apenas um centro de elite rodeado por residências de gente comum. O núcleo do sítio de Calakmul era conhecido nos tempos antigos como Ox Te' Tuun ("Lugar das Três Pedras") o que poderia dever-se à pirâmide triádica (Estrutura 2). O Reino de Calakmul incluía 20 centros secundários, entre os quais as grandes cidades de La Muñeca, Naachtun, Sasilhá, Oxpemul e Uxul. Estima-se que a população total destes centros secundários totalizasse 200 000. O reino incluía também um grande número de sítios terciários e quaternários, a maioria dos quais bastante pequenos e consistindo de vários grupos dispostos em redor de pátios, embora existam também sítios rurais maiores situados em cristas ao longo das orlas dos bajos os quais incluem templos, palácios e estelas. Calcula-se que a população rural total do reino fosse 1,5 milhões de pessoas. A população total do reino de Calakmul, incluindo a própria cidade e a população rural na área de 1 300 km² do estado regional foi estimada em 1,75 milhões de pessoas no Período Clássico Tardio.
Os reis de Calakmul eram conhecidos como k'uhul kan ajawob ("Senhores Divinos do Reino da Serpente"). Esta lista não é contínua, pois o registo arqueológico é incompleto. Todas as datas d.C.
Calakmul tem uma longa história de ocupação e as escavações revelaram evidências desde o Pré-Clássico Médio até ao Pós-Clássico. A rede de acessos que ligava Calakmul às cidades de El Mirador, Nakbe e El Tintal sugere fortes ligações políticas entre as quatro cidades as quais poderão ter tido início durante o Pré-Clássico, quando tanto Calakmul como El Mirador eram cidades importantes, e continuado até ao período Clássico quando Calakmul era a cidade mais importantes da região. Calakmul é uma das maiores e mais poderosas antigas cidades maias alguma vez descoberta nas terras baixas maias.
Calakmul vs. Tikal
A história do período Clássico maia é dominada pela rivalidade entre Tikal e Calakmul, descrita como uma luta entre duas "super-potências" maias. Períodos anteriores tenderam a ser dominados por uma única grande cidade e por altura do Clássico Inicial Tikal encontrava-se a caminho de assumir esta posição após o domínio de El Mirador no Pré-Clássico Tardio e Nakbe no Pré-Clássico Médio. Porém, Calakmul era uma cidade rival com recursos equivalentes que desafiou a supremacia de Tikal e seguiu a estratégia de rodear Tikal com a sua própria rede de aliados. Entre a segunda metade do século VI e até final do século VII, Calakmul ganhou vantagem embora não tenha conseguido extinguir por completo o poder de Tikal e esta conseguiu inverter a situação face a Calakmul numa batalha decisiva ocorrida em 695. Meio século mais tarde Tikal conseguiu derrotar os aliados mais importantes de Calakmul. Eventualmente, ambas as cidades sucumbiram ao colapso maia.
Pré-Clássico
Calakmul já era uma grande cidade no período Pré-Clássico. A história inicial de Calakmul é obscura, embora tenha sido possível estabelecer uma lista dinástica que se estende até ao passado ancestral. Esta dinastia foi parcialmente reconstruída a partir de cerâmica do Clássico Tardio da região das grandes cidades pré-clássicas de El Mirador e Nakbe. Tal poderá indicar que, em última análise, Calakmul herdou a sua autoridade política de uma destas cidades, situando-se a origem da sua dinastia na bacia Mirador do período Pré-Clássico Tardio mudando-se para Calakmul durante o período Clássico após o colapso daquelas cidades.
Clássico Inicial
Tanto Calakmul como Tikal eram cidades de tamanho considerável do Pré-Clássico que sobreviveram até ao período Clássico. Textos hieroglíficos antigos nas estelas encontradas na Estrutura 2 registam a provável entronização do rei de Calakmul em 411 e registam também um governante não-real em 514. Após estes registos existe um hiato nos registos hieroglíficos que se estende por um século, embora a dinastia Kaan tenha experimentado uma grande expansão do seu poder durante este período. A falta de inscrições registando eventos deste período pode dever-se ao facto de a dinastia Kaan se encontrar sediada noutro local durante este tempo ou à destruição posterior dos templos.
Clássico Tardio
Testemunha do Céu foi rapidamente sucedido por Primeiro Lançador de Machado, o qual é mencionado num texto de Dzibanche sobre o fim do katun em 573. Primeiro Lançador de Machado governou durante cerca de seis anos. Em 579 Uneh Chan tornou-se rei de Calakmul. Uneh Chan envolveu-se numa campanha agressiva no ocidente da região maia e atacou Palenque em 23 de abril de 539 junto com o seu aliado Lakam Chak, senhor da pequena cidade de Santa Elena, situada 70 km a leste de Palenque, derrotando a rainha de Palenque Yohl Ik'nal e saqueando a cidade. A derrota está registada numa série de degraus hieroglíficos na própria Palenque e este acontecimento deu início a um prolongado ressentimento contra Calakmul. Yohl Ik'nal sobreviveu à batalha e governou por mais alguns anos, embora provavelmente pagasse tributo a Calakmul.
História moderna
A existência de Calakmul foi relatada pela primeira vez por Cyrus Lundell em 1931. Um ano mais tarde ele informou Sylvanus Morley da existência do sítio bem como da existência de mais de 60 estelas. Morley visitou as ruinas em nome da Carnegie Institution of Washington em 1932. Levantamentos efectuados na décadada de 1930 cartografaram o núcleo do sítio e registaram a ocorrência de 103 estelas. As investigações pararam em 1938 e os arqueólogos não regressaram ao sítio até 1982 quando William J. Folan dirigiu um projecto da Universidade Autónoma de Campeche, trabalhando até 1994. Calakmul é actualmente alvo de um projecto em grande escala do Instituto Nacional de Antropología e História (INAH) sob a direcção de Ramón Carrasco.
O núcleo do sítio de Calakmul cobre uma área de aproximadamente 2 km², e contém os restos de aproximadamente 1 000 estruturas. A periferia, ocupada por estruturas residenciais menores e situada para lá do núcleo do sítio, abrange uma área superior aos 20 km² no interior da qual os arqueólogos cartografaram cerca de 6 250 estruturas. Calakmul é equivalente a Tikal em tamanho e população estimada, embora a densidade daquela cidade aparente ter sido maior do que a desta. A pedra usada para construção no sítio é um calcário mole. Tal resultou em erosão severa das esculturas do sítio. A cidade foi construída de forma bastante concêntrica e pode ser dividida em zonas à medida que nos deslocamos para fora a partir do centro do sítio. A zona mais interior cobre uma área de aproximadamente 1,75 km². Contém a maior parte da arquitectura monumental e tem 975 estruturas cartografadas, das quais cerca de 300 foram construídas recorrendo a arcos de alvenaria. Cerca de 92 estruturas foram construídas sobre grandes pirâmides dispostas em redor de praças e pátios. O núcleo da cidade era limitado no lado norte por um muro com 6 m de altura que controlava o acesso desde o norte e que pode ter tido também uma função defensiva.
Controlo da água
O sítio está rodeado por uma extensa rede de canais e reservatórios. Existem cinco reservatórios principais, incluindo o maior exemplar do mundo maia, medindo 242 por 212 metros. Este reservatório é enchido por um pequeno rio sazonal durante a estação das chuvas e continua a reter água suficiente para poder ser usado pelos arqueólogos na actualidade. Foram identificados treze reservatórios em Calakmul. A capacidade combinada de todos estes reservatório está estimada em mais de 200 000 m³. Esta quantidade de água poderia abastecer entre 50 000 e 100 000 pessoas, não existindo evidências de que os reservatórios fossem usados para a irrigação de colheitas.
Acessos
Foram encontrados oito sacbeob (caminhos) em redor de Calakmul. Dois deles foram cartografados, três foram identificados visualmente no solo e três mais identificados por detecção remota. Foram designados como Sacbé 1 a 8. A rede de caminhos ligava Calakmul não só com sítios-satélite locais mas também com aliados e rivais mais distantes, como as grandes cidade de El Mirador, El Tintal e Nakbe. Os caminhos que atravessam terreno pantanoso são elevados acima dos terrenos húmidos circundantes e actualmente tendem a ter mais vegetação que a floresta em redor. Sacbé 1 tem 450 m de comprimento e encontra-se revestido e preenchido com pedras. Situa-se no interior da área urbana cartografada no núcleo do sítio. O Sacbé 1 foi cartografado pela primeira vez na década de 1930 pela Carnegie Institution of Washington.
Estruturas
A Estrutura 1 é uma pirâmide com 50 m de altura situada a leste do núcleo do sítio. Na sua base foram levantadas várias estelas por Yuknoom Took' K'awiil em 731. Construída sobre uma pequena colina, a Estrutura 1 parece ser mais alta que a Estrutura 2, embora não seja esse o caso., A Estrutura 2 é um grande templo-pirâmide voltado a norte, e um dos maiores do mundo maia. A sua base mede 120 m por 120 m e a sua altura ultrapassa os 45 m. Tal como muitas outras pirâmides-templo da zona cultural mesoamericana, a pirâmide de Calakmul foi aumentando progressivamente de volume por meio da sobreposição de várias fases construtivas. O núcleo do edifício (Estrutura 2A) é uma pirâmide triádica datada do período Pré-Clássico Tardio, sendo que esta construção antiga constitui hoje o ponto mais alto da estrutura. Durante o Clássico Inicial foi adicionada à frente da pirâmide uma grande ampliação, cobrindo um edifício mais antigo revestido de estuque no lado norte. Com esta ampliação foram construídos três novos santuários (Estruturas 2B, 2C e 2D), cada um deles com a sua própria escadaria de acesso. A Estrutura 2B era o santuário central, 2C estava do lado este e 2D do lado oeste. A fachada tinha seis grandes máscaras colocadas entre estas escadarias, três dispostas verticalmente de cada um dos lados da escadaria central. A Estrutura 2 é similar em idade, tamanho e desenho à pirâmide El Tigre de El Mirador, e a cerâmica associada é também semelhante. Posteriormente foram erguidas construções ao longo da base da fachada e cada uma delas continha estelas. No século VIII, a Estrutura 2B ficou enterrada debaixo de uma grande pirâmide e uma fachada escalonada coberta por máscaras gigantes. Mais tarde, outra fachada foi construída sobre esta fachada escalonada do século VIII mas pode nunca ter sido terminada. No Clássico Tardio foi construído no topo da pirâmide um palácio com nove salas o qual era decorado por baixos-relevos de estuque pintados. As salas encontravam-se dispostas em três grupos de três, cada sala situada atrás da seguinte. Tal como era no Clássico Tardio, o palácio media 19,4 m por 12 m. As duas filas de salas dianteiras (Salas 1 a 6) eram usadas para a preparação de alimentos, tendo sido encontrados metates e lareiras em cada uma delas. A Sala 7, a sala sudoeste, era um banho de vapor.
Estelas, murais e cerâmica
Calakmul é um dos sítios da região maia mais ricos em estruturas. Aqui se encontraram 117 estelas, o maior número na região. A maioria encontra-se agrupada em pares representando reis e suas esposas. Porém, uma vez que estas estelas esculpidas foram produzidas usando calcário mole, a maioria delas encontra-se tão erodida que a sua interpretação não é possível. Muito murais elaborados foram também encontrados em Calakmul. Estes murais não representam actividades da elite. Pelo contrário, são representações de cenas de mercado elaboradas de gente preparando ou consumindo produtos tais como atole, tamales, ou tabaco como unguento. Também produtos sendo vendidos como têxteis e agulhas. Estes murais têm também glifos descrevendo as acções em curso. A figura mais proeminente nestes murais é identificada como sendo a Senhora Nove Pedra a qual aparece em muitas cenas. Estas cenas como que dão vida ao mundo dos mercados maias, o que confere a estes murais um grande interesse da parte dos arqueólogos. Outro recurso muito benéfico para a compreensão arqueológica de Calakmul são os restos de cerâmica. A composição dos materiais cerâmicos identifica a região ou mais especificamente a entidade que os produziu. Cerâmica com o glifo-emblema da serpente encontrada em vários locais fornece mais evidências que permitem identificar ligações ou controlo desses locais com ou por Calakmul.
Túmulo real
O Túmulo 4 situa-se no piso da Estrutura 2B e data do século VIII. É o túmulo mais rico encontrado em Calakmul. Continha um esqueleto masculino envolto em tecidos e peles de jaguar que foram parcialmente preservados com resina. Continha também valiosas oferendas incluindo ornamentos de orelha em jade herdados do Clássico Inicial, uma máscara de mosaico de jade, contas de concha e osso, conchas de ostra, lâminas de obsidiana excêntricas, cerâmica fina e restos de objectos de madeira. Uma das peças de cerâmica é um prato com um texto hieroglífico que nomeava especificamente o rei Yuknoom Yich'aak K'ak' como seu proprietário. Os restos humanos e a oferenda foram colocados num caixão de madeira arqueado com decoração e hieróglifos entalhados e pintado com uma variedade de cores. O caixão encontrava-se quase completamente decomposto mas deixou uma impressão na lama compactada em seu redor. Devido ao prato e à possível associação das estelas 115 e 116 com a sepultura, crê-se que o túmulo seja o do rei Yuknoom Yich'aak K'ak', datando do final do século VII. →


