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Cais do Valongo

O Cais do Valongo é um antigo cais localizado na zona portuária do Rio de Janeiro, entre as atuais ruas Coelho e Castro e Sacadura Cabral. Recebeu o título de Patrimônio Mundial pela UNESCO em 2017, por ser o único vestígio material da chegada dos africanos escravizados na América.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 28/06/2026
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História

Imagem: midianinja · BY-NC-SA · Openverse

Até meados da década de 1770, os escravizados desembarcavam na Praia do Peixe, atual Praça XV, e eram negociados na Rua Direita (hoje Rua 1º de Março), no centro do Rio de Janeiro, à vista de todos. Em 1774, uma nova legislação estabeleceu a transferência desse mercado para a região do Valongo, por iniciativa do segundo Marquês de Lavradio, Dom Luís de Almeida Portugal Soares de Alarcão d'Eça e Melo Silva Mascarenhas, vice-rei do Brasil, alarmado com "o terrível costume de tão logo os pretos desembarcarem no porto vindos da costa africana, entrarem na cidade através das principais vias públicas, não apenas carregados de inúmeras doenças, mas nus". O mercado foi transferido, mas ainda não havia o ancoradouro, e a alternativa encontrada foi desembarcar os escravizados na alfândega e imediatamente enviá-los de bote ao Valongo, de onde saltariam diretamente na praia. Em 1779, o comércio de escravizados finalmente se estabeleceu na área do Valongo, onde teve seu auge entre 1808, com a chegada da família real portuguesa, e 1831, quando o tráfico negreiro para o Brasil foi proibido, passando a ser feito clandestinamente.

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Redescoberta

Imagem: Donatas Dabravolskas · BY-SA · Openverse

Em 2011, durante as escavações realizadas como parte das obras de revitalização da zona portuária do Rio de Janeiro, foram descobertos os dois ancoradouros - Valongo e Imperatriz -, um sob o outro, e, junto a eles, uma grande quantidade de amuletos e objetos de culto originários do Congo, de Angola e Moçambique. O IPHAN e a prefeitura do Rio de Janeiro elaboraram um dossiê para a candidatura do sítio arqueológico do cais ao título de Patrimônio da Humanidade da Unesco. O sítio foi declarado patrimônio da humanidade na 41ª sessão do comitê da Unesco, em 2017. Em 16 de outubro de 2023, a arqueóloga Tania Andrade Lima, responsável pela descoberta do Cais, recebeu o prêmio internacional Hypatia Award 2023, da Confederação dos Centros Internacionais para a Conservação do Patrimônio Arquitetônico (CICOP Net). A homenagem aconteceu na abertura da 6.ª Bienal de Restauro Arquitetônico e Urbano (BRAU6), em Florença, na Itália, por seus serviços prestados à Arqueologia, à História e ao Patrimônio Cultural da humanidade.

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O Trabalho Arqueológico

Imagem: #viresuacidade · BY-SA · Openverse

Ainda em 2010, quando a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro iniciou as intervenções urbanas necessárias à implantação do Projeto Porto Maravilha naquela praça, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN solicitou à Prefeitura a realização de projeto de pesquisa arqueológica. À época, já era de conhecimento, tanto dos gestores públicos quanto dos pesquisadores, o elevado potencial arqueológico da área, sendo o objetivo principal desvelar o Cais do Valongo. O projeto arqueológico realizado foi de monitoramento e escavação do Cais do Valongo / Cais da Imperatriz, e foi apresentado ao IPHAN para análise e aprovação em outubro de 2010. A pesquisa arqueológica, iniciou-se em 25 de janeiro de 2011, e desenvolveu-se em praticamente toda a extensão da atual Praça Jornal do Comércio. Através das pesquisas confirmou-se o elevado potencial arqueológico da região, e o Sítio Arqueológico do Cais do Valongo foi registrado pela coordenadora da pesquisa no IPHAN, totalizando uma área de 2545,98 m2. O dossiê elaborado para a proposta de inscrição na lista do patrimônio mundial da UNESCO traz uma descrição minuciosa do trabalho arqueológico coordenado pela arqueóloga Tania Andrade Lima.

A Coleção

A coleção arqueológica coletada no Sítio do Cais do Valongo é considerada como excepcional – totaliza 1.200.000 peças - e nos dão acesso aos costumes, à vida cotidiana, ao simbolismo religioso e à resistência dos africanos escravizados. Destacam-se os artefatos apotropaicos, ou os que protegem contra o mal. São amuletos e adornos utilizados tanto como afirmação de uma identidade em risco, como uma negociação de reposicionamento social: figas, crucifixos, contas, garras, búzios, cristais brincos e pulseiras. Testemunham, sobretudo, o encontro entre diversas culturas africanas que circularam pelo local e que, antes, não tinham necessariamente contato direto entre si, e destas com a sociedade brasileira.

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O Patrimônio - Força Simbólica

Imagem: Caio Clímaco · BY-SA · Openverse

O Sítio Arqueológico do Cais do Valongo, na atualidade, além do seu enorme valor arqueológico intrínseco, é também compreendido como um memorial a céu aberto do tráfico atlântico de cativos africanos, e desta forma tem sido reconhecido e apropriado pela população do Rio de Janeiro. Esta apropriação é uma vitória para a Arqueologia, que assim cumpre seu papel político-social, de produzir conhecimento e socializá-lo. O ressurgimento do Cais do Valongo a céu aberto trouxe para as proximidades do sítio arqueológico outros grupos culturais e manifestações ligados à celebração das heranças africanas. Esses grupos se juntaram aos que haviam resistido por muitos anos na região e que durante certo tempo tiveram que atuar de forma clandestina, em períodos de repressão a expressões da cultura negra popular. Praticantes de capoeira, fiéis de religiões de matriz africana, músicos ligados ao samba e outros ritmos e danças afro-brasileiros, viveram períodos em que celebrar sua fé e sua cultura chegou a ser motivo de perseguição e até prisão. E, mesmo depois desses tempos obscuros terem sido superados, ainda permaneceu muito vivo o preconceito. Ao desenterrar as pedras pisadas pelos africanos que chegaram como escravos no Valongo e ao expor aos olhos de todos os pequenos objetos que remetem às culturas tradicionais africanas, se conferiu ao sítio um reconhecimento oficial e material, como parte da história da cidade, do país e da humanidade.

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Perspectiva Museológica

Imagem: Donatas Dabravolskas · BY-SA · Openverse

Desde o início dos trabalhos de pesquisa priorizou-se a localização do Valongo. Sobre isso a arqueóloga coordenadora ressalta que não se trataria de sobrepor um momento histórico em detrimento de outro. Como a classe dominante já havia se feito lembrar com a colocação do monumento em homenagem à chegada da Imperatriz, o projeto ora realizado tinha por principal objetivo trazer a luz os vestígios oriundos daqueles que ainda não haviam tido a chance de se fazer lembrar: os africanos escravizados. Essa intenção nos mostra uma associação direta à museologia social, preocupada em jogar luz às formas e narrativas de preservação da memória dos povos e grupos marginalizados historicamente. Sobre a musealização de sítios arqueológicos como o do Cais do Valongo, a pesquisadora Janaina Cardoso de Mello em seu artigo "Arqueologia e musealização in situ: Das pedras às pessoas" evidencia a especificidade do processo e sua importância:

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