Brucelose
A brucelose é uma zoonose associada a uma bactéria intracelular. Ao longo da história foi denominada de diversas formas, dentre as quais a “febre de Malta”, “febre do mediterrâneo”, “febre de Gibraltar” ou “Doença de Bang”. Apesar de a patologia ser considerada uma zoonose, não é exclusiva dos animais, pois eles são um vetor de transmissão do bacilo para os humanos. A brucelose consiste na contaminação cruzada pelo bacilo de qualquer espécie de Brucella entre animais domésticos e humanos. A contaminação ocorre especialmente em Países em vias de desenvolvimento. Alguns dos animais atualmente identificados como vetores de transmissão de brucelose são, por exemplo, gado bovino, gado caprino, porcos, veados, antílopes, entre outros.
Brucella é uma bactéria gram-negativa que pertence à família Brucellaceae. As células possuem forma de bastonetes curtos e ovais (bacilos/cocobacilos) imóveis, normalmente isoladas ou, com menor aparição, aos pares ou em cadeias curtas. A bactéria tem como portão de entrada no organismo a via oral ou venérea. Esta se prolifera no linfonodo satélite, e migram para os testículos, úbere, articulações e útero. Nas fêmeas, a Brucella tem tropismo pelo eritritol (hormônio produzido pela placenta no terço final da gestação para sinalizar que o feto está pronto), então ela vai para a placenta e causa lesões em glândulas uterinas e carúnculas. Essas lesões provocam endometrite ulcerativa e aborto. Nos machos, a bactéria tem tropismo por hormônios masculinos, como a testosterona, então esta vai para os testículos e causa lesões, que levam a orquite, podendo causar até a infertilidade. A Brucella também podem causar danos às articulações, onde causa bursite e artrite.
No ano de 1887 o Dr. David Bruce descobriu a Brucella Melitensis e associou esta bactéria com a doença zoonótica que é transmitida pelos alimentos, a brucelose. Nos primeiros tempos a descoberta de David Bruce, patologista e microbiologista foi considerada como uma doença humana. Contudo, mais tarde verificou-se que os animais podiam ter essa doença. Em muitos países o foco foi na doença animal e não na brucelose humana, isto aconteceu visto que a doença era endémica nos humanos e acontecia apenas em certas áreas geográficas ou em grupos que estavam mais expostos ao risco de sofrerem a infeção. Apesar de a doença ter sido descoberta em 1887 é uma doença que pode existir desde os tempos antigos, algo descrito pela primeira vez no tempo dos Romanos. No contexto atual existem algumas medidas de prevenção nos matadouros, como por exemplo o uso de equipamento de prevenção atual ou o abate dos animais que estão infetados com a doença. Estes tipos de medidas não existem nos matadouros clandestinos por isso a doença continua a infetar novos animais e humanos pelo consumo de carne provenientes dos animais ou pelo contacto com os mesmos.
Os primeiros casos de brucelose foram reportados em esqueletos humanos datados da idade do bronze, e são provenientes de sítios arqueológicos da Jordânia, Bahrein e Territórios Palestinos. Essas zonas são o centro histórico da domesticação de ovelhas e cabras entre outros animais (D’Anastasio et al., 2011). Estes primeiros casos de brucelose em humanos podem ter sido culpa do contacto permanente esses mamíferos e pela ingestão de leite ou produto proveniente de animais infetados.
Um dos bacilos que mais frequentemente contaminam os humanos é a espécie Brucella melitensis e, afeta maioritariamente jovens adultos e adultos de meia idade. Alguns estudos epidemiológicos demostram que o contacto com animais infectados por parte de profissionais, como por exemplo, agricultores, veterinários, pastores, aumentam consideravelmente o risco de contração da patologia (Ortner, 2003). A contaminação pelo bacilo em seres humanos pode ter múltiplas origens e, é feita de forma direta ou indireta. O contágio por forma directa corresponde a aproximadamente 75% das transmissões e é feita pelo contacto cutâneo com animais infetados, com produtos resultantes de abortos, placentas, secreções vaginais, fezes, urina … A contaminação indireta, por sua vez, é feita pela por via digestiva, sobretudo pelo consumo de leite ou manteiga não pasteurizada ou queijo fresco. O contágio entre humanos é pouco frequente.
Os sintomas provocados por esta doença são febres, cansaço, suores noturnos, anorexia, dores de cabeça, costas e articulações, podendo levar a um envolvimento hepático. Estes tipos de sintomas podem durar semanas ou meses. Apesar da sua baixa mortalidade, a doença pode evoluir para um estado crónico. A duração da doença muda consoante o tempo de prevalência dos sintomas. Caso estes sintomas ocorram durante um período de dias, estamos perante um caso de brucelose aguda, onde são necessárias algumas semanas de incubação; se os sintomas se mantiverem por vários anos, passamos para um estado crónico. O estado crónico desta doença, pode levar a várias complicações, como lesões supurativas nos ossos, articulações, baço, rins ou fígado. A transmissão é feita com o contacto com os animais o que permite dizer que a transmissão é de carácter profissional na maioria dos casos, contudo os consumidores de animais infetados também podem ser contaminados.
Os principais sintomas da brucelose em humanos são similares aos da gripe, como:
O contato com um animal infetado pode resultar numa infeção num ser humano, e se a doença é geralmente não fatal, pode causar doenças no longo termo que são recorrentes e que são marcadas por febres e mal-estar debilitantes (Hayhurst et al., 2003). Na literatura é referido que as espécies de Brucellae ainda não foram usadas como armas de bioterrorismo, Brucellae podem facilmente infetar animais e humanos por vias aéreas ou por produtos de origens animais (Doganay e Doganay, 2012). Brucellae Podem sobreviver longos períodos de tempo sem estar num hospedeiro, como resultado dessa característica, as Brucellae, e mais precisamente as Brucella meliten sis, Brucella abortus e Brucella suis, estavam entre os primeiros organismos a serem considerados como armas biológicas (Hayhurst et al., 2003). Pappas et al. Classificou todas as espécies de Brucellae como sendo os agentes biológicos com o menor grau de periculosidade entre 15 diferentes agentes biológicos (Doganay e Doganay, 2012). De fato as três espécies de Brucellae mencionadas anteriormente são guardadas na lista de agentes dos Centros de Controlo de Doenças e Prevenção (Hayhurst et al., 2003).
No Brasil, equídeos podem ser infectados por Brucella abortus , Brucella suis e Brucella canis; no entanto, a doença mais comumente descrita é a Brucella abortus , devido à frequente coabitação desses animais com bovinos. Em estudo com equídeos do Oeste do Pará 4,15% com animais positivos encontrados em nove municípios: Alenquer, Óbidos, Oriximiná, Santarém, Brasil Novo, Itaituba e Rurópolis, enquanto cinco não apresentaram casos: Almeirim, Placas, Porto de Moz, Terra Santa e Trairão. A soropositividade variou de acordo com o tipo de criação sendo maior em cavalos de carroça urbanos (7,14%), em animais de fazenda (4,63%) e menor em cavalos de esporte (1,77%). A prevalência de 4,05% no teste de triagem (AAT) no entanto, resultou em apenas 1,03% no teste confirmatório 2-ME. Considerando apenas os animais positivos e confirmados, não houve associação significativa da prevalência de brucelose em equídeos com tipo de criação, sexo, idade ou problemas reprodutivos, sugerindo baixa circulação da doença na região. Apesar disso, o potencial zoonótico da brucelose reforça a importância da vigilância integrada e de medidas de controle voltadas à Saúde.
Os cães podem ser infetados pela brucelose, sobretudo pela Brucella canis, mais também podem ser infetados por três outras espécies de Brucella ( Brucella abortus, Brucella melitensis e Brucella suis) (Hollet, 2006). A primeira infecção num cão pela Brucella suis foi publicada em 1931, em 1963 foram reportados vários abortos caninos, mas só em 1966-1967 é que foi isolado a Brucella canis (Hollet, 2006). Os primeiros casos de brucelose canina foram reconhecidos em colónias de beagles nos Estados Unidos da América, mas agora existe evidencias que a brucelose afeta varias espécies de cães e em diferentes países (Flores-Castro et al., 1977). Brucella canis é uma pequena bacteria que tem os cães como hospedeiros, e tem propriedades antigénicas semelhante ás da Brucella ovis, a Brucella abortus pode infetar os cães que comem tecidos abortados ou fetal de gado infetado (Hollet, 2006). Foram feitos vários procedimentos sorológicos para diagnosticar as infeções por Brucella canis em cães e em seres humanos, esses testes ocorreram durante estudos epidemilogicos (Flores-Castro et al., 1977). Os métodos sorológicos usados, os mais comuns, incluem o teste rápido de aglutinação em lamina (SAT), a aglutinação por tubo (TAT), e o 2-mercaptoetanol teste de aglutinação em tubo (ME-TAT), o TAT é o unico método publicado que foi avaliado por extenso estudo bacteriológico (Flores-Castro et al., 1977).
Num hominídeo (família de mamíferos primatas, que incluem a espécie humana e seus ancestrais fósseis) que existiu há cerca de 2,3 a 2,5 milhões de anos, foram encontradas lesões osteológicas nas vertebras lombares (L4 e L5), que observadas macro, micro e radiologicamente, são lesões consideradas patognomónicas à brucelose. A presença da brucelose, encontra-se associada ao consumo de proteínas animais, pelo que, o Australopithecus africanus, que apresentava lesões características da brucelose, poderá ter ingerido carne infetada ou carne de antílopes jovens. E o facto de a dieta das espécies do género Homo ser comum a chimpanzés e a outros primatas não humanos, indica que todas as espécies podem contrair a doença. A descrição de uma nova espécie isolada assim como dois casos de natimortos em primatas não humanos, abre a possibilidade de existir uma espécie brucelar no passado que pode não ser conhecida (Natalia et al., 2009).


