Boris Iéltsin
Boris Nicoláievitch Iéltsin, em russo: foi o primeiro presidente da Rússia após a dissolução da União Soviética. Iéltsin foi também o primeiro líder de uma Rússia independente desde o czar Nicolau II. Seus anos como senador e líder da oposição no Soviete Supremo são lembrados com glória, mas seu governo, lembrado com frustração por conta das grandes expectativas, ficou marcado na história por reformas políticas e económicas fracassadas e pelo caos social.
Boris Iéltsin nasceu na vila de Butka, no Óblast de Sverdlovsk, na União Soviética, em 1 de fevereiro de 1931. Em 1932, após a estatização da propriedade agrícola de sua família, Iéltsin se mudou com a família para Kazan, a mais de mil quilômetros de Sverdlovsk, onde seu pai trabalhou na construção civil, mesma área em que Iéltsin começou a carreira. Em 1934, Nikolai Iéltsin, pai de Boris, foi enviado para os Gulags por três anos, por conta de suas agitações antissoviéticas. Após cumprir dois anos de pena, sua libertação veio em 1936, e Nikolai levou sua família ao Óblast de Perm. Boris Iéltsin estudou em Perm. Nesta época, perdeu o dedo indicador e o polegar de sua mão esquerda, quando tentou estourar uma granada que havia roubado com seus amigos em um quartel do Exército Vermelho. Em 1949, Iéltsin ingressou no Instituto Politécnico do Ural, em Sverdlovsk, graduando-se em construção civil em 1955.
Em 1963, foi promovido a engenheiro chefe, e dois anos mais tarde, passou a chefiar a diretoria responsável pelas instalações de Sverdlovsk. Em 1968, passou a fazer parte da Nomenklatura, ao ingressar no comitê de desenvolvimento industrial. Em 1976, o Partido Comunista promoveu Iéltsin para a chefia do comitê do Óblast de Sverdlovsk, tornando-se chefe de uma das regiões industriais mais importantes do país. Exerceu o cargo até 1985.
Com a morte de Konstantin Chernenko, o PCUS elegeu Mikhail Gorbatchov o novo líder da União Soviética. O primeiro passo de Gorbatchov seria reanimar a economia soviética, mesmo sabendo que tal tarefa seria impossível de ser realizada sem antes reformar as estruturas políticas e sociais do país. Em 4 de abril de 1985, Iéltsin foi convocado por Egor Ligatchov, conhecido líder político, para que assumisse a chefia do departamento de construção civil dentro do Comitê Central do partido. Em menos de três meses, Iéltsin foi promovido à secretaria de construção civil, tornando-se figura importante na capital. Em 23 de Dezembro de 1985, Gorbatchov apontou Iéltsin como o primeiro-secretário do Partido Comunista em Moscou, um cargo semelhante ao de prefeito da cidade. Em 1986, Iéltsin foi convidado a ingressar no Politburô. Durante sua participação, Iéltsin mostrou-se reformista e populista. Ele tornou-se popular em Moscou por demitir oficiais corruptos dentro do partido.
Em 10 de setembro de 1987, após uma discordância com o linha-dura Egor Ligatchov, por ter permitido protestos nas ruas de Moscou, Iéltsin enviou uma carta de renúncia a Mikhail Gorbatchov, que estava em férias no Mar Negro. Quando o presidente recebeu a carta, ele se surpreendeu, já que ninguém em toda a história da União Soviética havia renunciado a um cargo do alto escalão do Politburô. Gorbatchov pediu para que Iéltsin ponderasse, mas em 27 de outubro, frustrado por Gorbatchov não ter atendido aos seus pedidos na carta, Iéltsin fez um discurso expressando seu descontentamento tanto com a demora no processo de reformas sociais quanto às atitudes políticas de Ligatchov, segundo-secretário do partido, e Gorbatchov, primeiro-secretário. Essa foi a primeira vez que um membro do Politburô fez críticas públicas tão agressivas à chefia do partido. Em sua réplica, Gorbatchov acusou Iéltsin de "imaturidade política" e "irresponsabilidade absoluta". Ninguém, dentro do Comitê Central do partido apoiou a postura de Iéltsin.
República Socialista Federativa Soviética da Rússia (1991)
Em 29 de maio de 1990, Iéltsin foi eleito o chefe do Soviete Supremo da RSFS da Rússia, apesar das ameaças de Mikhail Gorbatchov aos senadores, para que eles não elegessem Iéltsin. Mesmo assim, o apoio prevaleceu tanto por parte dos conservadores como dos democratas. A eleição de Iéltsin culminou em um conflito entre a União Soviética e a Rússia. Em 12 de junho de 1990, o congresso russo adotou uma declaração de soberania. No mês seguinte, Iéltsin se retirou do Partido Comunista em um discurso dramático perante diversos membros do partido, incluindo os governistas e os linhas-duras, em meio a gritos de "Vergonha!" e aplausos. Em 12 de junho de 1991, Iéltsin venceu as eleições para presidente da RSFS da Rússia com 57% dos votos, derrotando o candidato apoiado por Mikhail Gorbatchov, o comunista Nikolai Rizhkov, que conseguiu apenas 16% dos votos. Durante a campanha, Iéltsin criticou a "ditadura do centro", mas não sugeriu a introdução de uma economia de mercado, e ao contrário, disse que seria sensato quanto a mudanças econômicas, por conta da inflação. Iéltsin tomaria posse em 10 de julho.
Federação Russa (1992-1999)
Dias após a queda da União Soviética, Boris Iéltsin embarcou em um programa de reformas econômicas radicais, com o objetivo de reestruturar o sistema econômico da Rússia, transformando a maior economia socialista do mundo em uma economia de mercado. No final de 1991, Iéltsin favoreceu os especuladores e instituições estrangeiras, como o Banco Mundial, o FMI e até mesmo o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, que nos anos 1980 haviam desenvolvido técnicas de recuperação econômica para economias em transição. Essas políticas ficaram conhecidas como "Consenso de Washington", e mais particularmente no caso da Rússia, como "terapia de choque", por conta das duras penas que os russos sofreram durante este período. Essas reformas políticas possibilitaram que Yegor Gaidar (1956-2009), um jovem economista russo favorável a reformas radicais, entrasse no alto escalão de Iéltsin.
Após a aposentadoria, Iéltsin quase não fez mais aparições públicas. Em 13 de setembro de 2004, após o Massacre de Beslan e uma sequência de ataques terroristas em Moscou, o presidente Putin assinou um decreto para substituir as eleições regionais para governador por um sistema em que o próprio presidente nomeia os governadores, que são aprovados pelo Legislativo regional. Iéltsin, junto com Mikhail Gorbatchov, criticaram publicamente o plano de Putin, afirmando que ele estaria dando um passo para longe da democracia na Rússia e retornando ao aparato de centralização de poder existente na União Soviética. Em setembro de 2005, Iéltsin teve de operar o quadril em Moscou, após quebrar o fêmur em uma queda, enquanto passava férias na ilha de Sardenha. Em 1 de fevereiro de 2006, Iéltsin celebrou seu aniversário de 75 anos. Ele aproveitou a ocasião para criticar o "monopólio" diplomático dos Estados Unidos e afirmar que Putin foi a escolha certa para a Rússia.
Iéltsin protagonizou diversas situações desagradáveis publicamente, muitas delas por conta de seu alcoolismo unido às altas doses de medicamentos para problemas cardíacos. Algumas destas situações incluem:
Boris Iéltsin morreu em decorrência de um ataque cardíaco, em 23 de abril de 2007, aos 76 anos. De acordo com o jornal Komsomolskaia Pravda, a condição de Iéltsin piorou com uma viagem feita à Jordânia, entre 25 de março e 2 de abril. Iéltsin foi enterrado no cemitério Novodevitchi, em 25 de abril de 2007, após ser velado na Catedral de Cristo Salvador, em Moscou. Iéltsin foi o primeiro líder russo em 113 anos a ser enterrado em uma cerimônia religiosa, após o czar Alexandre III. Ele também foi o primeiro líder de toda a história russa e soviética a morrer aposentado, após transferir o poder pacificamente ao sucessor. O presidente Vladimir Putin declarou luto nacional no dia de seu funeral, em que a bandeira esteve a meio-mastro e todos os programas de entretenimento foram suspensos por 24 horas. Seu funeral foi transmitido ao vivo por todas as redes estatais de televisão. Iéltsin foi sepultado ao som do hino da Rússia, que utiliza a mesma melodia do hino da União Soviética, que durante seu governo Iéltsin proibira de ser executado.


