Bicho de Sete Cabeças
Bicho de Sete Cabeças é um filme de drama brasileiro de 2001 dirigido por Laís Bodanzky e com roteiro de Luiz Bolognesi baseado no livro autobiográfico de Austregésilo Carrano Bueno, Canto dos Malditos. O filme foi realizado com a parceria entre as produtoras brasileiras Buriti Filmes, Dezenove Som e Imagens Produções Ltda. e Gullane Filmes, com a participação da brasileira RioFilme e da italiana Fabrica Cinema e a distribuição da Columbia TriStar, e contou com Rodrigo Santoro, Othon Bastos e Cássia Kis nos papéis principais.
O filme começa com Seu Wilson (Othon Bastos) lendo uma carta que recebeu de seu filho, na qual este diz estar lhe mostrando "a porta da rua". Após um flashback, a história começa a ser contada: Wilson de Souza Neto, um jovem estudante de segundo grau e de classe média baixa, mais conhecido como Neto (Rodrigo Santoro), tem um relacionamento conturbado com seu pai e sua mãe (Cássia Kis Magro). Ele prefere ficar com seus amigos, andar de skate, pichar muros e fumar maconha. Em um dia, Neto viaja sem avisar para onde vai, junto com Lobo (Gustavo Machado), porém não gosta do que encontra e vai embora. Sem dinheiro, no meio da cidade de Santos, ele começa a abordar pessoas para pedir dinheiro, mas a maioria recusa. Apenas Leninha (Valéria Alencar), uma mulher num bar, lhe ajuda. Eles vão para a casa dela e, depois de comerem, fazem sexo. Após ir embora, ele vai pichar junto de seus amigos, porém são vistos e ele é preso, forçando seus pais a buscá-lo na delegacia. Ele e seu pai brigam e, quando Neto vai para o quarto, Wilson encontra um cigarro de maconha em seu casaco. Os pais de Neto são aconselhados pela sua filha (Daniela Nefussi), que ajuda a conseguir uma vaga no lugar, a interná-lo.
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O elenco de Bicho de Sete Cabeças, listado a seguir, foi premiado em vários festivais. Seus atores e atrizes receberam prêmios de "Melhor Ator", para Rodrigo Santoro, que fazia seu primeiro longa-metragem, "Melhor Atriz" para Cássia Kiss e "Melhor Ator Coadjuvante" para Gero Camilo e Othon Bastos.
"Era como se pudesse ouvir um grande grito que ele dava para o mundo — um alerta para mudar a triste realidade manicomial brasileira. Tive certeza que este grito tinha que ser amplificado e ventilado. Achava que, assim como eu, muita gente desconhecia o que acontecia atrás dos muros dessas instituições, mantendo esse desumano tratamento invisível à sociedade. Foi esse fogo aceso que iluminou toda a caminhada de anos para realizar o filme Bicho de Sete Cabeças." Foi em 1996, quando fazia parte de um grupo de pesquisa sobre saúde mental no Brasil, que Laís Bodanzky leu pela primeira vez o livro Canto dos Malditos, de Austregésilo Carrano Bueno, ficando impressionada com sua narrativa. Ela então convidou o roteirista Luiz Bolognesi para adaptar a história de Carrano para os cinemas, por saber que ele tinha um olhar sobre o mundo parecido com o dela e teria bastante respeito sobre o tema abordado. O que Bodanzky disse a Bolognesi era que queria transpor a história vivida por Carrano nos anos 70 para os dias de hoje, porque, na verdade, não havia mudado nada atrás dos muros, e ela queria causar esse impacto no espectador.
Roteiro
Bicho de Sete Cabeças foi o primeiro longa de Bodanzky e segundo ela, o roteiro foi a peça-chave no filme. Muitas pessoas foram atraídas pelo roteiro, como os atores Rodrigo Santoro, Othon Bastos e Cássia Kiss, os produtores Caio e Fabiano Gullane e Sara Silveira, e o co-produtor Marco Müller, da Fabrica Cinema. Para sua adaptação do livro, Bolognesi decidiu trabalhar da maneira mais livre possível, considerando o livro uma peça de inpiração do trabalho, mas com a liberdade irrestrita para inventar situações, personagens ou até modificar a personalidade dos personagens. Carrano logo depois aceitou, conforme o que o roteirista e a diretora disseram: "Nosso desejo era manter a espinha dorsal da história, ventilando-a para o grande público, mas com a liberdade de recriar o que achássemos necessário para a eficácia da narrativa cinematográfica." Bolognesi procurou criar um Neto muito mais tímido do que o articulado e carismático Carrano. O roteirista também queria que Neto não fosse o líder da turma, mas apenas um dos alunos da sala de aula. O objetivo segundo ele "era construir um personagem que espelhasse o espectador comum e não anunciasse um herói." O roteirista também sentia a necessidade de construir um segundo eixo narrativo, então ele construiu uma relação entre pai e filho, outro tabu enfrentado pela sociedade, tratando-a como uma história de amor e ódio. Como inspiração para esse relacionamento, ele citou o livro Carta ao Pai, de Franz Kafka.
Preparação do elenco e montagem
Sérgio Penna foi quem fez a preparação do elenco do filme. Durante a preparação dos atores, foi feito um trabalho de desconstrução da figura superficial e preconceituosa dos lugares e das pessoas que habitam os hospitais psiquiátricos. O desafio era construir uma imagem na qual pudesse revelar aspectos mais humanos e profundos. Os atores fizeram um estudo profundo sobre esse universo quase desconhecido. Quando questionada em uma entrevista da IstoÉ Gente, se foi difícil trabalhar com o ator Rodrigo Santoro, Bodanzky respondeu: Rodrigo Santoro foi convidado pela diretora para o papel por indicação de Paulo Autran, que atuou com ele em Hilda Furacão. Durante a sua pesquisa para o personagem, Santoro visitou instituições psiquiátricas, observando os pacientes que ali se encontravam.[carece de fontes?] Atores que são usuários de serviço de saúde mental, integrantes do Grupo Pazzo a Pazzo e da Cia. Teatral Ueinzz, ambos dirigidos por Penna, também participaram, como convidados. Eles interpretaram personagens que não estão no ambiente manicomial; isso foi uma opção da preparação de elenco e da direção. Ele ainda leu o livro de Carrano e assistiu produções sobre o tema, entre elas Um Estranho no Ninho, de Miloš Forman.
Música
No período em que Bolognesi estava reescrevendo o seu roteiro, Bodanzky sugeriu que ele ouvisse Arnaldo Antunes. De acordo com o roteirista, ele encontrou algumas canções que pareciam ter sido compostas para o filme. A trilha sonora foi composta por André Abujamra que chegou a usar o recurso de distorcer alguns sons do próprio filme para compor sua trilha. Fazem parte da trilha sonora, além de Antunes e Abujamra, os cantores Décio Rocha, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Zeca Baleiro, a banda de rap Zona Proibida e a banda de punk rock Infierno. A trilha sonora de Bicho de Sete Cabeças é composta pelas seguintes músicas:
Imagem: STJNoticias · BY · Openverse
Bicho de Sete Cabeças teve sua sessão de estreia em outubro de 2000, quando foi selecionado e exibido no Festival do Rio. No mesmo mês, foi o único filme brasileiro escolhido pelo público como um dos 12 melhores filmes da Mostra de Cinema Internacional de São Paulo. O filme participou de vários festivais como o Festival de Brasília e o Festival do Recife, sendo o mais premiado em ambos. No início de 2001, diante de um público de 2 mil pessoas, o filme foi exibido em Praça Pública no Festival de Tiradentes, em Minas Gerais, conseguindo uma ótima recepção do público, que conferiu em 89% de ótimo e 11% de bom do voto popular. Bicho de Sete Cabeças ficou em cartaz em circuito comercial em 22 de junho de 2001. De acordo com o Projeta Brasil Cinemark, o filme foi a segunda melhor bilheteria do evento de 2001 e foi visto por 21.268 pessoas. A primeira posição pertence a A Partilha, uma comédia de Daniel Filho, com 24.899 espectadores. No Brasil, o filme foi visto por cerca de 401.565 espectadores nos cinemas, arrecadando 2.184.514 de reais, e quando teve sua exibição na Rede Globo, atingiu média de 37 pontos de audiência.
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Os atores e a produção receberam em sua maioria críticas positivas por parte dos críticos especializados. Ruy Gardnier elogia o filme escrevendo que ele "seduz por uma fluência de narrativa e um jogo de câmera raros no cinema brasileiro, por interpretações excelentes dos protagonistas e dos coadjuvantes..." Marcelo Forlani, do site Omelete, elogiou o ator Rodrigo Santoro por sua atuação que, de acordo com ele, "beira a perfeição", o ator Gero Camilo e todos os demais internos dos manicômios, citando que "é difícil acreditar que os atores ali não sejam loucos de verdade". Também destacou a fotografia e a edição de som, na qual seria outro fator que diferencia Bicho de Sete Cabeças dos outros filmes. Beth Andalaft, do site Universo HQ, também elogiou a atuação de Camilo, colocando em sua análise que ele "rouba a cena, dando um show de interpretação", e os outros atores do filme, escrevendo que eles "estão em seus melhores desempenhos". Alessandro Gianni, da IstoÉ Gente, elogiou a "interpretação surpreendente" de Rodrigo Santoro e a trilha sonora.
Questões sociais
O filme aborda questões sociais como os abusos sofridos pelos pacientes dos hospitais psiquiátricos cometidos pelos médicos e funcionários desses locais, a questão das drogas e a relação problemática entre pai e filho. Essas abordagens renderam críticas positivas sobre o filme e fizeram com que as pessoas repensassem antes de internar seus filhos em alguma instituição.[carece de fontes?] Carrano se refere às instituições como "chiqueiros psiquiátricos", e quando perguntado a ele se Laís Bodanzky fizera uma adaptação fiel de seu texto, ele respondeu: Em suas análises, os críticos trataram de comentar sobre a importante temática social, econômica e cultural abordada no filme, como a falta de informação sobre os centros de internação e a falta de diálogo entre as famílias. Segundo a análise de Sandra Etges, membro analista do CEL-RS, Instituição Psicanalítica do Rio Grande do Sul:


