Berta Ribeiro
Berta Gleizer Ribeiro CONMC foi uma antropóloga, etnóloga e museóloga moldava-brasileira, autoridade em cultura material dos povos indígenas do Brasil. Foi casada com o também antropólogo e senador Darcy Ribeiro.
Família e primeiros anos
Bertha Gleizer nasceu em 2 de outubro de 1924, na cidade de Bălți (atualmente na Moldávia), região romena da Bessarábia. De família judia, filha de Rosa Sadovinic Gleizer e Motel Gleizer. Seu pai deixou o país em julho de 1929, imigrando para o Brasil na busca por melhores condições de sobrevivência e desenvolvimento, pois a situação era precária devido as graves restrições que os judeus na Romênia vinham sofrendo com o aumento do antissemitismo, a ascensão de movimentos fascistas cristãos e também dos ataques pogroms no território. Motel, não podendo buscá-las de imediato, nem mandar-lhes o necessário para viver, recebeu a notícia do suicídio de sua esposa Rosa, pois ela não suportara a vida miserável, deixando as duas filhas sozinhas. Graças ao intermédio da Jewish Colonization Association (JCA), uma organização internacional que fornecia aos judeus meios para emigrarem e também pela intercessão do rabino Raffalovich, as meninas foram trazidas para o Brasil. Berta chega ao Rio de Janeiro como imigrante, aos oito anos de idade na companhia da irmã, Genny Gleizer de quatorze anos (às vezes, escrito Jenny) em 1932, e sendo os três muito pobres, dividiam um quarto na Rua do Riachuelo. Seu pai trabalhava como comerciante nos arredores da Praça XI, reduto da comunidade judaica na época.
Casamento
Em 1946, conhece seu futuro marido, Darcy Ribeiro, em uma manifestação do Partido Comunista em São Paulo, casando-se em maio de 1948, quando o mesmo ingressou no Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Com ele, partiu para um trabalho de campo entre os índios Kadiwéu, Kaiowás, Terenas e Ofaié-Xavantes do sul do Mato Grosso. Passou então a assinar Berta G. Ribeiro, omitindo o sobrenome Gleizer, o qual poucos conheciam, pois sempre temeu ter o mesmo destino de seus familiares. Ribeiro exerceu inúmeras pesquisas de campo, que se iniciaram entre 1949 e 1951 quando começou a acompanhar o marido. A esse respeito, descreveu Maria Stella Amorim: "de seu amor por Darcy adveio a paixão pela antropologia", e as viagens se seguiram até quase o fim da sua vida. O trecho, retirado da obra autobiográfica Confissões de Darcy Ribeiro, retrata, ainda que de maneira breve, a importância da esposa em sua vida:
Carreira
Em 1950, Berta Ribeiro ingressou no bacharelado em Geografia e História da Universidade do Distrito Federal (UDF) — atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Concluiu o curso em 1953, indo lecionar Geografia do Brasil no Instituto Lafayette. Em 1953, começou a estagiar na Divisão de Antropologia do Museu Nacional, iniciando seus estudos para criar uma classificação dos adornos plumários dos índios Urubu-Kaapor, concluindo sua licenciatura em Geografia e História em 1954. Ribeiro elaborou instrumentos metodológicos inovadores de classificação de acervos de cultura material, descritos em Bases para uma Classificação dos Adornos Plumários dos Índios do Brasil publicado em 1957. Apresentou diversos trabalhos e organizou mostras culturais nos anos seguintes, sempre com temáticas sobre cultura indígena. Recebeu o Prêmio João Ribeiro, da Academia Brasileira de Letras (ABL), pelo livro Arte Plumária dos Índios Kaapor, em colaboração com o marido. Entre 1959 e 1960, empreende pesquisa bibliográfica para a elaboração do artigo Línguas e Culturas Indígenas no Brasil e do livro Os Índios e a Civilização, de Darcy Ribeiro.
Exílio
Com o Golpe de Estado no Brasil em 1964, Berta Ribeiro e o marido exilaram-se no Uruguai. Trabalha então na pesquisa bibliográfica e na revisão de traduções para a série Estudos de Antropologia da Civilização e no levantamento bibliográfico e estatístico de A Universidade Necessária, ambas publicações de Darcy Ribeiro. O casal retorna ao Brasil em 1968, mas Darcy foi preso e ficou durante oito meses na Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói. Do lado de fora, Berta mobilizou intelectuais e pessoas influentes para agilizar sua libertação. Após nova determinação de prisão pelo regime militar, o casal Ribeiro segue então para um segundo exílio em 1969 na Venezuela, e de 1970 a 1974 no Chile e no Peru. Em Lima, Berta Ribeiro realiza pesquisa sobre estrutura familiar e socialização em uma oficina coordenada pela professora Violeta Sara Lafosse, recolhendo dados para sua dissertação Crianças Trabalhadoras – Trabalho e Escolaridade de Menores em Lima.
Retorno ao Brasil
Em 1974, já no Brasil, separa-se do marido e no ano seguinte presta consultoria para a elaboração do projeto do Centro de Documentação Etnológica e Indigenista do antigo Museu do Índio do Rio de Janeiro, dirigido por Carlos de Araújo Moreira Neto e em 1975 assume a assistência de direção da Editora Paz e Terra. No ano de 1976, estagia no setor de etnologia e etnografia do Departamento de Antropologia do Museu Nacional e atua como pesquisadora no projeto Etnografia e Emprego Social da Tecnologia Indígena e Popular coordenado por Maria Heloísa Fenelón Costa. Em 1977, torna-se Pesquisadora B do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq). Visitou diversas aldeias indígenas no Alto e Médio Xingu e no Ceará. Entre 1978 e 1979, participou do Movimento Feminino pela Anistia e da Campanha pela demarcação das Terras Indígenas, coordenada pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI).
Aposentadoria e morte
Devido a um tumor cancerígeno, entrou em coma em 1995. No ano seguinte, aposentou-se em decorrência do estado avançado da doença, falecendo em 17 de novembro de 1997, aos 73 anos, nove meses após o falecimento de seu ex-marido.
Quando não estava em campo, Ribeiro refugiava-se no seu escritório, em seu apartamento em Copacabana no Rio de Janeiro, onde datilografava artigos, livros e cartas na sua máquina de escrever — e posteriormente, tornou-se uma aficcionada pelo uso do correio eletrônico. Ainda em seu apartamento, as estantes refletiam as aquisições, o intercâmbio e uma produção que alcançou nove livros e mais de quarenta artigos publicados, além de armazenar um acervo pessoal de aproximadamente 368 peças, reunidas durante os mais de quarenta anos de pesquisas etnográficas realizadas em diversas comunidades indígenas no interior do Brasil desde a década de 1950, com contribuições de Darcy Ribeiro e do antropólogo Eduardo Galvão — e que destinavam-se a viabilizar o projeto do Museu do Índio a ser implantado em Brasília, atual Memorial dos Povos Indígenas. Doados por Darcy Ribeiro em 1995, esses objetos foram finalmente recebidos pela instituição como acervo permanente em abril de 2020 nas comemorações dos 60 anos de Brasília e após 33 anos da construção do museu.
Como vítima das mazelas proporcionadas pela perda da família em regimes totalitários — do antissemitismo judeu ao fascismo das ditaduras brasileiras, tornou-se posteriormente uma ativa militante e defensora da diversidade cultural e dos direitos indígenas. Ribeiro se destacou como formadora de coleções em museus, e como curadora de exposições indígenas e foi precursora da antropologia contemporânea, inaugurando como área de estudos a cultura material — que iria dos objetos aos artefatos produzidos pelos povos indígenas e pioneira no que se denomina na atualidade de "antropologia compartilhada", ao trabalhar em parceria na publicação de um livro de mitologias — Antes o Mundo Não Existia, garantindo que os direitos autorais da obra fossem de Firmiano Lana e seu filho Luis Lana, — sendo assim, é o primeiro livro no Brasil a ser escrito e ilustrado por indígenas, e posteriormente, editado em espanhol e italiano.
O então ministro da Ciência e Tecnologia José Israel Vargas, entregou à Berta Ribeiro em 14 de agosto de 1995 a Ordem Nacional do Mérito Científico — em sua residência, por motivo da doença — na presença do arquiteto Oscar Niemeyer e do seu ex-marido Darcy Ribeiro. A medalha de Comendadora conferida pelo Governo Brasileiro, foi em reconhecimento a sua contribuição aos estudos antropológicos e em virtude do seu compromisso e rigor com a produção do conhecimento científico. Na ocasião, Berta pediu o apoio do ministro para concretizar "um velho sonho", que seria a inauguração do Museu do Índio de Brasília, ao qual ela pretendia doar seu acervo particular.
Póstumas
Na 2ª edição do Prêmio Escritas Sociais: Diversidades Culturais, realizado pelo curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Tocantins (UFT) em 2017, teve a antropóloga como homenageada, devido a suas contribuições no campo da diversidade cultural, tema constante em suas pesquisas entre os povos indígenas brasileiros. Em 2022, no Dia Internacional da Mulher foi nomeada em sua homenagem, a Reserva Técnica 'Berta Ribeiro' no Museu do Índio (MI) do Rio de Janeiro — atual Museu Nacional dos Povos Indígenas (MPI)—, onde a antropóloga atuou coordenando o setor de museologia da instituição e também foi a responsável por catalogar a maior parte dos itens do acervo até a década de 80.
Seu trabalho é referência para pesquisadores e estudiosos das áreas de museologia e antropologia em todo o mundo, sendo considerada uma das maiores autoridades em cultura material dos povos indígenas do Brasil no seu tempo. Bases para uma Classificação dos Adornos Plumários dos Índios do Brasil, os volumes da Suma Etnológica Brasileira e o Dicionário do Artesanato Indígena, são publicações que constituem bases metodológicas e classificatórias indispensáveis nas pesquisas da cultura material e na documentação etnomuseológica de acervos etnográficos, e fundamentam-se na elaboração de instrumentos inovadores para os estudos da cultura material.
Fundação Darcy Ribeiro
No período de 27 anos em que esteve casada com Darcy Ribeiro, Berta teve papel importante na elaboração das suas obras, e também foi a responsável pela revisão, tradução e catalogação de diversas cartas e documentos reunidos ao longo da trajetória profissional do seu então marido, que culminaram na criação da Fundação Darcy Ribeiro (Fundar). A construção desse arquivo, que abriga o acervo documental e as bibliotecas dos dois antropólogos, surgiu do desejo de Darcy de ser lembrado por sua contribuição intelectual, e não apenas por seus projetos políticos.
O acervo pessoal de Berta Ribeiro foi reunido, juntamente com o do seu ex-marido, em uma biblioteca que está localizada no Memorial Darcy Ribeiro na Universidade de Brasília. São cerca de 30 mil volumes de documentos acumulados por ambos ao longo de mais de 50 anos de intensa atividade em diferentes âmbitos do conhecimento. Constituem-se de dois extensos arquivos que se complementam, contendo registros textuais, iconográficos, filmográficos e sonoros, revelano não apenas a produção cultural e científica de seus autores, mas também das expressões culturais, memória e história de grupos formadores da sociedade brasileira e latino-americana. Os acervos de Darcy e de Berta Ribeiro, reunidos em diferentes suportes, dialogam, uma vez que os dois antropólogos apresentaram, em seus percursos biográficos, pesquisas e publicações realizadas individualmente ou em parceria, nas áreas da etnologia, antropologia, cultura e política.
Lista de publicações da antropóloga, redigida pela pesquisadora Lucia Hussak van Velthen:
Artigos em catálogos
1980 - "A Arte Plumária dos Índios Urubus-Kaapor". Arte Plumária do Brasil. (catálogo). São Paulo: Museu de Arte Moderna, pp. 26-28 1983 - "Contributi Indigeni alla Cultura Contemporanea". Indios del Brasile. Culture che Scompaiono. Roma: Soprintendenza Speciale al Museo Preistorico ed Etnografico Luigi Pigorini. pp. 29-32 1984 - "Arte Gráfica Kadiwéu". Arte e Corpo: Pintura sobre a Pele e Adornos de Povos Indígenas Brasileiros. (catálogo). Rio de Janeiro: FUNARTE, pp. 39-46 1984 - "Arte Gráfica Juruna". Arte e Corpo: Pintura sobre a Pele e Adornos de Povos Indígenas Brasileiros — catálogo. Rio de Janeiro: FUNARTE, pp. 75-82 1995 - "Arte Indígena: Linguaggio Visuale". I Segni del Tempo: Identità e Mutamento. Arte, Cultura e Storia di Tre Etnie del Brasile. Roma: Edizioni Seam. pp. 89-112
Artigos em periódicos
1957 - "Bases para uma Classificação dos Adornos Plumários dos Índios do Brasil". Arquivos do Museu Nacional 43. pp. 59-128 1978 - "O Artesanato Indígena como Bem Comerciável". Ensaios de Opinião 5. pp. 68-77 1979 - "Arte Indígena, Linguagem Visual". Ensaios de Opinião 7. pp. 101-110 1980 - "Possibilidade de Aplicação do “Critério de Forma” no Estudo de Contatos Intertribais, pelo Exame da Técnica de Remate e Pintura de Cestos". Revista de Antropologia 23. pp. 31-67 1982 - "A Oleira e a Tecelã: O Papel Social da Mulher na Sociedade Asuriní". Revista de Antropologia 25. pp. 25-61 1983 - "Araweté: A Índia Vestida". Revista de Antropologia 26. pp. 1-38
Artigos em periódicos estrangeiros
1981 - "O Artesanato Cesteiro como Objeto de Comércio entre os Índios do Alto Rio Negro, Amazonas". América Indígena 61(2). pp. 289-310 1986 - "La Vannerie et l’Art Décoratif des Indiens du Haut Xingu, Brésil". Objets et Mondes, Revue du Musèe de l'Homme 24 (1-2). pp. 57-68 1991 - "Ao Vencedor, as Batatas. Plantas Ameríndias, Oferendas à Humanidade". Trabalhos de Antropologia e Etnologia 31. Fascículos 1-4 (Homenagem a Ernesto Veiga de Oliveira). pp. 99-112 1993 - "Les Poupées Karajá". La Revue de la Céramique et du Verre 68. pp. 34-35 1995 - "Parque Indígena de Xingu: Laboratorio de Intercambio Cultural". Artesanías de América Cuenca 46-47. pp. 117-30
Capítulos de livros
1959 - (Em co-autoria com J. C. de Melo Carvalho). "Curare: A Weapon for Hunting and Warfare". In Curare and Curare-Like Agents. (D. Bovet et alii, orgs.). Amsterdam. pp. 34-59 1983a - "Artesanato Indígena: Para que, para quem?". In O Artesão Tradicional e seu Papel na Sociedade Contemporânea. Rio de Janeiro: FUNARTE/INF. pp. 11-48 1983b - "O Índio Brasileiro: Homo Faber, Homo Ludens". ln A Itália e o Brasil Indígena. Rio de Janeiro: Index Editora. pp. 13-23 1985 - "Artesanato Indígena: Porque e para quem?". In As Artes Visuais na Amazônia: Reflexões sobre uma Visualidade Regional. Belém: FUNARTE/SEMEC. pp. 23-42 1986a - "A Arte de Trançar: Dois Macroestilos, dois Modos de Vida". In Suma Etnológica Brasileira II: Tecnologia Indígena (D. Ribeiro, ed.). Petrópolis: Vozes/FINEP. pp. 283-313
Livros
1957 - (Em co-autoria com Darcy Ribeiro). Arte Plumária dos Índios Kaapor. Rio de Janeiro: Seikel. 154 pp. 1979 - Diário do Xingu. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 265 pp. 1983 - O Índio na História do Brasil. Rio de Janeiro: Global (Coleção História Popular 13). 125 pp. 1985 - A Arte do Trançado dos Índios do Brasil: Um Estudo Taxonômico. Belém: MPEG. 185 pp. 1987 - O Índio na Cultura Brasileira. Rio de Janeiro: Unibrade/UNESCO. 186 pp. 1988 - Dicionário do Artesanato Indígena. Belo Horizonte: Editora ltatiaia/EDUSP. 343 pp. 1989 - Arte Indígena, Linguagem Visual. Belo Horizonte: Editora Itatiaia/EDUSP. 186 pp. 1990 - Amazônia Urgente: Cinco Séculos de História e Ecologia. Belo Horizonte: Editora Itatiaia. 272 pp.
Textos inéditos
1980 - A Civilização da Palha: A Arte do Trançado dos Índios do Brasil. Universidade de São Paulo, Tese de Doutorado. 590 pp.[nota 2] 1988 - Classificação dos Solos e Horticultura Desana. 18 pp.[nota 3] 1994(?) - Índios do Brasil: 500 Anos de Resistência. Ms.


