Beowulf
Beowulf é um poema épico, escrito em língua anglo-saxã, por autor desconhecido, possivelmente no século VIII, cujo único manuscrito existente está datado ca. 1 000. Escrito em 3 182 linhas, com o emprego de aliteração, é o poema mais longo do pequeno conjunto da literatura anglo-saxã, e um marco da literatura medieval. Aborda eventuais acontecimentos e personagens da Dinamarca, e em menor grau do sul da Suécia, no século VI, tendo como figura central o lendário Beowulf.
O poema narra as aventuras de Beowulf, herói com força sobre-humana, originário da tribo dos gēatas. Ao ouvir as desventuras que afligem a corte do rei Rodogário/Hrothgar, na Dinamarca, Beowulf viaja com um pequeno grupo de guerreiros a esse país, onde é recebido pelo rei em Heorot, o grandioso salão da corte. Logo ao chegar o herói se oferece para livrar Rodogário e seu povo dos ataques de Grendel, uma criatura monstruosa, descrita como descendente do clã de Caim e verdadeiro símbolo do mal encarnado, que devora homens inteiros. O herói vence e mata Grendel em duelo, utilizando como arma apenas as suas mãos nuas. Seguidamente, a mãe de Grendel, também uma criatura monstruosa, vem vingar a morte do filho com novas carnificinas. Beowulf segue seu rastro até uma caverna submarina, localizada num lago habitado por monstros aquáticos, onde a combate e vence com uma poderosa espada, criada para matar gigantes. Depois desta aventura, Beowulf e seus guerreiros retornam por mar à terra dos gautas.
Interpretação
O poema reflete a época violenta em que foi escrito, cheio de sangrentas batalhas, em que os valores mais estimados são a honra, a coragem e a fortaleza. Outro valor central na época e refletido no texto é a lealdade e respeito entre os guerreiros vassalos e seu rei. Em recompensa pelos serviços prestados pelos seus guerreiros, o soberano lhes oferece riquezas (jóias, ouro, armas, cavalos) e terras. No poema, Beowulf demonstra frequentemente sua extrema lealdade ao rei dinamarquês Rodogário e os reis gautas Higélaco e Heardred. Vários personagens, tribos e acontecimentos do poema revelam que o relato se passa no século VI. Personagens semilendários como os reis Rodogário e Higélaco (mas não Beowulf), aparecem em crônicas e sagas escandinavas, e a batalha contra os frísios em que morre Higélaco é possivelmente histórica, coincidindo com uma batalha travada no ano de 516 referida por Gregório de Tours. Beowulf, porém, deve ser visto como um poema criado para o entretenimento e não como crônica histórica.
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O único manuscrito de Beowulf, escrito por volta do ano 1000, é parte de um códice maior, denominado Cotton Vitellius A.XV e conservado atualmente na Biblioteca Britânica, em Londres. Sabe-se que este códice quase se perdeu em 1731, quando a biblioteca onde se encontrava – a Cotton Library – incendiou-se. Desde então o manuscrito está chamuscado e perderam-se várias letras. O primeiro acadêmico a estudar o manuscrito foi o islandês Grímur Jónsson Thorkelin, que a partir de 1786 começou a transcrever texto, publicando seus resultados em 1815. A análise do manuscrito revela que o mesmo foi transcrito por dois escribas, um escriba "A" (do início até a linha 1939) seguido de um escriba "B", cuja linguagem é considerada mais arcaica. Não há consenso sobre quando o poema original terá sido composto, variando as opiniões entre o século VIII até o início do século XI, época em que o manuscrito foi transcrito. Alguns estudiosos acreditam que Beowulf era originalmente uma obra recitada por poetas, passada de geração em geração oralmente antes de ser passado ao papel. Outros creem que o poema é criação de um ou poucos autores já perto do século XI.
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Beowulf, como outros poemas anglo-saxões, não faz uso da rima, mas está escrito em versos aliterativos, em que a primeira metade de cada verso está ligado a segunda metade por sílabas de som similar. Por exemplo: Outra característica típica do poema é presença de kennings, uma figura de linguagem empregada para referir-se poeticamente a uma pessoa ou uma coisa. O mar, por exemplo, é referido como o "caminho da baleia", e um rei pode ser chamado de "portador da coroa".
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As primeiras traduções de trechos de Beowulf foram realizadas no início do século XIX para o inglês moderno (1805 e 1814). A primeira tradução completa, apesar de conter muitos erros, foi feita para o latim em 1815, e a primeira tradução em verso foi para o dinamarquês em 1820. Isso foi seguido pela primeira tradução (em prosa) completa ao inglês em 1837, por John Kemble. A partir de então muitas outras versões foram publicadas. Uma das mais festejadas é a versão poética de Seamus Heaney (2000), escritor irlandês Premio Nobel de Literatura. Em Português brasileiro há duas traduções: a primeira, tendo como base o texto original em inglês arcaico e textos de duas das edições em inglês moderno, é de Ary Gonzalez Galvão, com introdução e notas. Posteriormente foi publicada uma nova tradução em versos, bilíngue, de Erick Ramalho, também com introdução e notas. Em Português europeu, também há uma tradução feita por Angélica Varandas e Luísa Azuaga.
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Este épico poema, um marco na literatura medieval, serviu como uma das fontes de inspiração para outras obras literárias, incluindo a renomada saga do escritor inglês J. R. R. Tolkien, O Senhor dos Anéis. Também foi várias vezes adaptada ao cinema, sendo a produção com maior êxito, o longa Beowulf, lançado em 2007, dirigido por Robert Zemeckis e com o roteiro de Neil Gaiman e Roger Avary, numa realização conjunta da Paramount Pictures, da Shangri-La Entertainment e da Warner Bros. Studios. Todo o filme foi gravado a partir da tecnologia de uma câmera especial, de captura de movimento. O filme contou com o ator Ray Winstone no papel principal, além de Anthony Hopkins como Rei Rodogário e Angelina Jolie como a sedutora monstro-fêmea, mãe de Grendel. Beowulf teve um orçamento de 150 milhões de dólares e obteve uma arrecadação total de US$ 196,3 milhões.


