Bengasi
Bengasi ou Bengazi, chamada Berenice e Hespérides ou Euespérides na Antiguidade, é a segunda maior cidade da Líbia e a mais importante da região da Cirenaica. Situa-se na margem do mar Mediterrâneo e constitui a maior parte do distrito homónimo.
Colónia grega
A antiga cidade grega que existiu na área que a cidade moderna foi fundada cerca de 525 a.C. com o nome de Euespérides ou Hespérides e fez parte da chamada Pentápole ("cinco cidades") da Cirenaica, o nome dado às cidades mais importantes daquela região, que incluía também Cirene, Barca, Apolónia e Taucheira. Segundo a lenda, Euespérides foi fundada em 446 a.C. por um irmão do rei de Cirene.[carece de fontes?] A cidade é mencionada pela primeira vez em fontes históricas por Heródoto quando relata uma revolta em Barca e uma expedição persa à Cirenaica em 515 a.C. A cidade estava rodeada por tribos hostis e o historiador grego Tucídides fala de um cerco à cidade levado a cabo por líbios, possivelmente nasamões, em 414 a.C.
Período romano e bizantino
A Cirenaica foi legada em testamento a Romana por Ptolemeu Apião, que morreu em 96 a.C. Berenice prosperou durante a maior parte dos cinco séculos em que foi uma cidade romana. A partir do século III d.C. chegou mesmo a ultrapassar Cirene e Barca como o principal centro da Cirenaica. Com o advento do cristianismo tornou-se sede duma diocese, que a partir de 325 fez parte do Patriarcado de Alexandria.[carece de fontes?] A diocese já não existe atualmente, mas Berenice ainda é atualmente uma sé titular. Na primeira metade do século V, a região foi tomada pelos vândalos liderados por Genserico (r. 428–477), passando a integrar o Reino Vândalo. Foi conquistada no século seguinte pelo imperador bizantino Justiniano (r. 527–565), que promoveu várias obras de reconstrução. Durante o reinado de Maurício (r. 582–602), a Cirenaica passou a fazer parte da província bizantina do Egito.
Domínio islâmico e otomano
Em 643, quando a Cirenaica foi conquistada pelos muçulmanos comandados pelo general árabe Anre ibne Alas, Berenice mais não era do que uma aldeia insignificante rodeada de magníficas ruínas históricas. Passou então a ser conhecida como Barnique.[carece de fontes?] No século XIII, o pequeno povoado ganhou um papel importante no comércio florescente entre os mercadores genoveses e as tribos do interior do país. Nos mapas do século XVI, aparece o nome de Marça ibne Gazi. Devido à sua situação de porto estratégico, os otomanos invadiram Bengasi em 1578, que em 1711 passou a estar na dependência dos Karamanlis, os governadores hereditários da Tripolitânia vassalos do Império Otomano. Em 1835, a cidade passou a ser administrada diretamente pelo governo otomano.[carece de fontes?]
Ocupação italiana e Segunda Guerra Mundial
Em 1911, Bengasi e a Cirenaica foram invadida pelos italianos. Houve resistência à ocupação liderada por Omar Almoctar, mas foi definitivamente suprimida no início da década de 1930. Bengasi desenvolveu-se muito sob a administração italiana, liderada pelo governador Italo Balbo, tornando-se uma cidade moderna.[carece de fontes?] Durante a Segunda Guerra Mundial foi conquistada e reconquistada várias vezes por forças Aliadas e do Eixo, tendo sofrido grandes danos, nomeadamente devido a bombardeamentos pesados. Foi depois reconstruída com os rendimentos do petróleo então descoberto na região, tornando-se um dos cartões de visita da moderna Líbia.[carece de fontes?]
Bengasi contemporânea
Em 1949 tornou-se a capital do Emirado de Cirenaica, que em 1951 seria unido com a Tripolitânia e a Fezânia para formar o Reino da Líbia governado por Saíde Idris, líder da ordem Senussi e emir da Cirenaica. O reino tinha duas capitais — Bengasi e Trípoli. A cidade perdeu o estatuto de co-capital após a queda da monarquia com o golpe de estado liderado por Muamar Gadafi, em 1969, quando foi proclamada a República Árabe Líbia.[carece de fontes?] Em 15 de abril de 1986, Bengasi foi um dos alvos do bombardeamento norte-americano levado a cabo por iniciativa do presidente Reagan, em resposta ao atentado bombista ocorrido 10 dias antes numa discoteca de Berlim e ao alegado apoio de Gadafi ao terrorismo.[carece de fontes?]
Demografia
À semelhança de outras cidades líbias, há alguma diversidade étnica em Bengasi. No passado, a população da Líbia oriental, incluindo Bengasi, era predominantemente e ascendência berbere. No entanto, nos tempos mais recentes houve um afluxo de imigrantes da África subsariana e do Egito. Há também uma pequena comunidade grega; a ilha grega de Creta é relativamente perto da cidade e há muitas famílias em Bengasi que têm apelidos cretenses. Também ainda há algumas famílias de ascendência italiana, que ali se instalaram no período colonial italiano, antes da Segunda Guerra Mundial.[carece de fontes?] A esmagadora maioria dos líbios de Bengasi são de ascendência berbere, havendo uma minoria descendentes de árabes. No século XI, a tribo árabe Sa'ada dos Bani Salim imigrou para a Cirenaica. Historicamente, cada uma das sub-tribos Sa'adi controlava uma parte da Cirenaica. Bengasi e as áreas vizinhas era controlado pela tribo Barghathi. Nos tempos mais recentes, instalaram-se em Bengasi numerosos líbios originários de diversas partes do país, principalmente desde o período monárquico. Muitos desses imigrantes vieram de Misurata. Bengasi tem fama de cidade acolhedora para os forasteiros — os beduínos locais chamam-lhe Benghazi rabayit al thayih, que pode ser traduzido como "Bengasi ergue o perdido", devido ao facto de no passado muitos imigrantes que chegaram do Magrebe ocidental ou do Alandalus (Península Ibérica) com muitos poucos bens foram cuidados muito generosamente pela população beduína local, o mesmo tendo acontecido com aqueles que chegaram da Líbia ocidental a seguir à guerra com Itália.[carece de fontes?]
Religião
Praticamente todos os habitantes da cidade são seguidores do islão sunita. Durante os feriados islâmicos, como o Ramadão, muitos habitantes abstêm-se de comer durante o dia e a generalidade dos restaurantes só têm clientes à noite, à exceção de alguns estrangeiros. As bebidas alcoólicas são proibidas por lei em Bengasi e na generalidade da Líbia, seguindo os preceitos do islão. Na cidade há muitas mesquitas. As mais antigas e mais conhecidas, como a Atiq e de Osmã, situam-se na almedina ou nas suas imediações. Há uma pequena comunidade cristã em Bengasi. A igreja franciscana da Imaculada Conceição, mantida pelo Vicariato Apostólico de Bengasi serve a comunidade católica, que em 2010 tinha cerca de 4 000 membros. Há também uma catedral, que foi construída pelos italianos entre 1929 e 1939 e que foi encerrada em 1977. Em 2009 estava a ser restaurada por uma empresa italiana. A comunidade copta egípcia tem uma igreja, que no passado foi a grande sinagoga da cidade.
Educação
A universidade mais antiga da Líbia, a , foi fundada por decreto real em 1955 e funcionava em Bengasi e em Trípoli. A primeira faculdade abriu em Bengasi no palácio real de Al Manar. Em 1968 a secção de Bengasi foi transferida para um novo campus. Em 1973 a universidade foi dividida nas universidades de Trípoli (mais tarde rebatizada Universidade Al Fateh) e de Bengasi. Na cidade há também algumas universidades privadas, como a Libyan International Medical University.[carece de fontes?] Pelo menos até à queda do regime de Gadafi, o ensino na Líbia era gratuito e obrigatório até ao 9.º ano de escolaridade. Em Bengasi há várias escolas públicas primárias e secundárias espalhadas pela cidade, além de algumas escolas privadas. O ensino superior é grátis para todos os cidadãos líbios que vivem em Bengasi. Há várias escolas estrangeiras, como a Escola Europeia de Bengasi e a International School Benghazi. A maior biblioteca da Líbia, com mais de 300 000 obras, situa-se em Bengasi e está ligada à universidade.[carece de fontes?]
O distrito de Bengasi é uma das sub-regiões da Cirenaica, juntamente com o Jabal Acdar e as planícies costeiras que se estendem a leste de Apolónia. No passado, antes de ter sido incorporado no de Bengasi, o distrito de Alhizam Alacdar rodeava completamente o distrito de Bengasi por terra.[carece de fontes?] A Cirenaica está rodeada por deserto em três lados, pelo que no passado a ligação mais acessível para terras civilizadas era o norte, através do Mediterrâneo, via Creta e o resto da Grécia, situadas cerca de 500 km a nordeste de Bengasi e 400 km a norte das costas mais setentrionais da Cirenaica.[carece de fontes?] Bengasi está rodeada pela estepe árida designada localmente barr. No Jabal Acdar (tradução literal: "Monte Verde"), situado imediatamente a nordeste de Bengasi, a vegetação e clima é mais mediterrânico, contrastando com as paisagens desérticas mais a sul. Uma parte considerável da secção ocidental do Jabal Acdar é ocupada pela planície fértil de Marj. A leste desta planície a altitude é maior (entre 500 e 875 acima do nível do mar) e em muitos locais as montanhas estão cobertas de florestas densas e são cortadas por ravinas. A precipitação anual nessa região, especialmente nas vizinhanças de Cirene, podem chegar aos 500 mm. Os gregos escolheram essa região fértil a nordeste de Bengasi para se instalarem. O solo na área de bengasi é vermelho e muito argiloso. O siroco, o vento seco e poeirento proveniente do deserto do Sara sopra com alguma frequência na cidade, o que faz com que muitas das ruas mais estreitas e edifícios tenham muita poeira.[carece de fontes?]
Parques naturais e de recreio
Apesar da área verde por habitante ser pequena em Bengasi, há alguns parques públicos e áreas verdes de recreio na cidade. Um dos mais relevantes é o jardim zoológico e parque de diversão de al-Fuwayhat, conhecido popularmente como al-Bosco, a designação coloquial italiana do parque (bosco significa floresta em italiano). O parque é uma mistura de jardim zoológico muito arborizado construído durante o período colonial italiano e um pequeno parque de diversão com carrosséis, construído na década de 1980, quando todo o parque foi reabilitado. O parque é muito concorrido nos fins de semana e feriados e alunos de escolas e saídas de escuteiros.[carece de fontes?]
Clima
O clima de Bengasi é do tipo semiárido (Classificação de Köppen-Geiger BSh). A norte da cidade, nas montanhas Acdar, o clima é mediterrânico, e a sul é desértico. O verões na cidade são quentes e sem chuva, mas com altos níveis de humidade. Os invernos são amenos, com chuvas ocasionais. A precipitação anual é 270 mm. O abastecimento de água à cidade é em parte feito através do Grande Rio Artificial, que leva água de aquíferos fósseis do sul da Líbia às regiões do norte do país.[carece de fontes?]
Bairros
A cidade está dividida em numerosos bairros, alguns deles fundados durante o período colonial italiano e muitos deles recentes, resultantes do crescimento urbano. A área de Bengasi Central, a que os locais chamam coloquialmente al-Blaad, é onde se situa a almedina, outros bairros mais antigos, o bairro italiano e a maior parte dos monumentos históricos e atrações turísticas da cidade. Praticamente todos os teatros, cinemas, bibliotecas, melhores lojas de roupa, mercados e mesquitas antigas se encontram ali. Os distritos centrais são maioritariamente residenciais e comerciais. Os chamados subúrbios centrais são quase exclusivamente residenciais e são como pequenas cidades; um bom exemplo disso é Al-Quwarsha. Os distritos costeiros, especialmente os da parte sul, é onde se encontram as praias de Bengasi. Algumas partes deles tornaram-se áreas residenciais populares nos últimos anos, como é o caso de Qanfuda, mas são áreas predominantemente de recreio, onde há muitas estâncias de praia que funcionam em regime de condomínio e são conhecidas localmente como chalés, de que são exemplo os da praia de al-Nakheel e o de Nayrouz.[carece de fontes?]
Bengasi é um dos principais centros de cultura da Líbia e é usada como base por turistas e outros visitantes da região. Ao longo da sua história, a relativa independência de Trípoli, mais orientada e influenciada pelo Magrebe, levou a que a atmosfera cultural de Bengasi seja de natureza mais árabe do que Trípoli, algo que foi reforçado com o afluxo de imigrantes do Egito, Iraque, Palestina, Síria e Sudão nos últimos anos.[carece de fontes?] No centro da cidade encontram-se alguns teatros e a Biblioteca Dar al-Kutub. O desporto é importante em Bengasi, onde dois dos clubes de futebol líbios com mais sucesso têm a sua sede.[carece de fontes?]
Arquitetura
Em Bengasi estão presentes vários estilos arquitetónicos, o que reflete o número de vezes que a cidade mudou de mãos ao longo da sua história. Os domínios árabe, otomano e italiano influenciaram o aspeto urbano de várias partes da cidade e dos seus edifícios. Há também vestígios arquitetónicos dos períodos grego romano, da antiga cidade de Berenice, oerto do antigo farol italiano. Entre eles destacam-se uma parte da muralha construída pelos gregos no século III a.C., quatro casas romanas com peristilo e cinco tanques de vinho, igualmente romanos. Há ainda restos duma igreja bizantina, com um mosaico ainda intacto. Estas ruínas situam-se no que era a parte norte da antiga cidade, que se estendia para sul e para leste, partes que atualmente estão soterradas debaixo da cidade moderna.
Desporto
Como segunda maior cidade da Líbia, Bengasi tem algumas das melhores estruturas desportivas do país. Há vários centros desportivos, como estádios de futebol, clubes de praia (onde são praticados vários desportos aquáticos) e outras estruturas públicas e privadas. A cidade acolheu muitos eventos desportivos nacionais ao longo dos anos, bem como alguns eventos internacionais importantes, como a Taça das Nações Africanas. O futebol é o desporto mais popular na cidade, na qual têm a sede dois dos clubes líbios com maior sucesso, o Al-Ahly Bengasi e o Al-Nasr Bengasi. Entre 1963/64 e 2017/18, o primeiro ganhou quatro vezes o Campeonato Líbio de Futebol e o segundo duas vezes. O evento futebolístico mais importante realizado em Bengasi foi a Taça das Nações Africanas de 1982, no qual foram disputados seis jogos na fase de grupos e uma semifinal no Estádio 28 de Março, o segundo maior estádio da Líbia.
Gastronomia
A comida e bebida são aspetos importantes da cultura local, à semelhança do resto da Líbia. Muitos dos pratos e ingredientes usados são passados de geração em geração. Os principais ingredientes da cozinha local são o azeite, alho, tâmaras, cereais e leite, tudo produtos produzidos na região e comuns na maior parte do Norte de África e no Mediterrâneo. Outra tradição da cultura líbia é o chá, cuja versão típica de Bengasi tem um sabor único, intenso e amargo. Beber chá é uma atividade social praticada frequentemente por grupos de amigos e familiares. Em Bengasi há numerosos pratos típicos, dos quais um dos mais conhecidos é o bazin. Este consiste num pequeno pedaço de massa aquecida com molho de carne ou de vegetais. A massa pode ser partida em bocados mais pequenos que são encharcados no molho. Dois dos seus ingredientes principais são azeite e alho. Outros pratos, como o cuscuz, são mais conhecidos no resto do mundo e encontram-se em muitas outras culturas. Um doce comum em Bengasi são tãmaras fritas, que geralmente são servidas com leite.
Economia
Bengasi é a principal cidade da Líbia oriental e um dos principais centros económicos do país. A cidade é também um importante polo comercial e industrial. As principais indústrias incluem a alimentação, têxtil, curtumes, refinação de sal e materiais de construção, nomeadamente cimento (há uma grande fábrica de cimento em al-Hawari). O processamento de alimentos é baseado no peixe local, bens importados e produzidos nas terras baixas costeiras irrigadas e nos montes Jabal Acdar; incluem cereais, tâmaras, azeitonas, lã e carne. O setor financeiro também é importante na economia da cidade. Os principais bancos líbios têm delegações na cidade. A principal fonte de receitas da economia local é a indústria petrolífera. A Arabian Gulf Oil Company, com sede em Bengasi e outras companhias petrolíferas líbias empregam um grande número de habitantes da cidade e da região. Nos primeiros anos do século XXI, antes da primeira guerra civil, havia na cidade lojas de marcas internacionais, como a Benetton, H&M e Nike e o turismo, embora incipiente, dava sinais de crescimento. A maior parte dos turistas que visitavam a Líbia Oriental usavam Bengasi como base para explorar as ruínas gregas de Cirene e para fazer excursões ao deserto em Cufra. Os principais hotéis da cidade eram o Tibeti e o Uzu, mas naqueles anos abriram vários hotéis para dar resposta à procura crescente. O artesanato está presente nos socos da cidade, mas tem pouca relevância económica.[carece de fontes?]
Transportes
Bengasi é um polo de transportes da Líbia Oriental, por onde passa a estrada que segue ao longo de toda a costa do país. Nas décadas seguintes à revolução de 1969 que colocou no poder Muamar Gadafi, a empresa sueca Skanska construiu várias vias rápidas e viadutos, o que facilitou os transportes entre Bengasi e as outras cidades líbias. Há serviços de autocarros para destinos nacionais e internacionais, os quais têm a sua base no principal terminal rodoviário da cidade, situado em Al-Funduq. Há um sistema de minibus, cuja base é também em Al-Funduq. Embora a cidade disponha duma rede eficaz de estradas, com viadutos e túneis, os congestionamentos de trânsito não são raros e há muitas ruas com manutenção deficiente.


