Beatriz Costa
Beatriz Costa, pseudónimo de Beatriz da Conceição, foi uma atriz, cantora e escritora portuguesa, conhecida pelos filmes em que participou durante a era de ouro do Cinema Português, que a consagraram como ícone da cultura popular lusa.
Infância e juventude
Beatriz Costa nasceu a 14 de dezembro de 1907, na pequena aldeia da Charneca, freguesia do Milharado, concelho de Mafra, no seio de uma família humilde, filha de António Isidoro, moleiro, natural da freguesia de Pereiro de Palhacana, Alenquer, e de Claudina da Conceição, natural da referida aldeia da Charneca. Em 1912, com apenas 4 anos, os pais separam-se e vem com a mãe para Lisboa. Com o início da Primeira Grande Guerra, a mãe emprega-se como costureira no Casão Militar, tendo, pouco tempo depois, ido para Figueiró dos Vinhos, onde Beatriz alegadamente serviu de modelo para o pintor José Malhoa, numa pintura a óleo onde apresentava tranças, um laço e gola de guipura. Naquela localidade, a mãe conhece o seu primeiro padrasto, Manuel Jorge, natural do Casal de São Simão e militar do Regimento de Infantaria n.º15, tendo o casamento ocorrido em Tomar, onde estava sediado o regimento. Aos 6 anos vai para Tomar, onde permanece até aos 12. Teria sido nesta época, na sua pré-adolescência, que a jovem Beatriz teria sido "levada, para servir de aperitivo, a certos senhores que a acariciavam". Em virtude de uma nova separação, vem para Lisboa em 1920, numa carroça de lavadeiras, passando a primeira noite com a mãe num banco da Avenida da Liberdade, indo depois residir à Costa do Castelo. Beatriz trabalhou como ajuntadeira, empregada doméstica e bordadeira. Aprendeu a ler e a escrever sozinha, aos 13 anos.
Início da carreira e primeira tournée (1923-1926)
Estreou-se aos 15 anos, em abril de 1923, na revista Chá e torradas, como corista no Teatro Éden. No ano seguinte, já escriturada na Companhia António Macedo, participa na revista Résvés, estreada a 22 de junho de 1924 no Teatro Maria Vitória, revelando-se um sucesso. Luís Galhardo, fundador do Parque Mayer, descobrindo o talento da jovem, atribui-lhe o nome oficial de Beatriz Costa. Nesse mesmo ano vai pela primeira vez em tournée ao Brasil, pela mão do empresário António Macedo, diretor artístico da sua companhia e José Loureiro, também empresário e diretor de vários teatros brasileiros. A atriz partiu de Lisboa com a Companhia Portuguesa de Revistas a 20 de julho, no paquete francês Lutetia, em cuja viagem apresenta um número que, tendo sucesso junto dos passageiros de diversas nacionalidades, bisa mais de uma vez. Aportando o navio no Rio de Janeiro a 4 de agosto, conclui a viagem de 16 dias para dar início à tournée. A estreia dá-se a 7 de agosto no Teatro República, num total de nove espetáculos inéditos em reprise, dos quais constam Fado corrido, Tiro ao alvo, Chá e torradas, Piparote, Aqui d'El Rei, Résvés, O 31, Tic-Tac e De capote e lenço, sendo a segunda fila da plateia reservada a críticos teatrais, como Mário Magalhães do jornal A Noite. Com o êxito alcançado na estreia, Beatriz Costa sai da segunda fila de coristas para arcar com responsabilidades maiores. No palco, ganha um lugar próximo à vedete Lina Demoel, desempenhando de seis a sete papéis em cada espetáculo, sendo-lhe aumentado o salário em 50% e oferecidos vestidos por conta da empresa, além de uma festa artística com renda bruta revertida a seu favor. De capote e lenço, o espetáculo de despedida, é encenado no dia 8 de dezembro. No dia 9 de dezembro, Beatriz Costa seguiu com a companhia para uma temporada nas cidades de São Paulo e Santos, retornando novamente para uma nova temporada no Rio de Janeiro, de onde regressa a Portugal a 14 de junho de 1925, já como atriz de nomeada.
Apogeu da carreira no Teatro e Cinema (1927-1939)
Em 1927, talvez influenciada pelo furor que o corte à la garçonne popularizado por Louise Brooks provocou, estreou-se nos palcos com o novo corte de cabelo que se tornaria sensação entre as mulheres: o franjão. Já conhecida figura do meio artístico, a partir daí, como se diz em Portugal, toda a gente sabe o que significa ter uma franja à Beatriz Costa, que ganhou a alcunha de "Menina da franja". Em 1928 estreia-se no cinema mudo, nas curtas-metragens Fátima Milagrosa, onde dançou um tango com Manoel de Oliveira e O Diabo em Lisboa, ambos de Rino Lupo, representando nos dois filmes papéis de cabaré. Ainda no mesmo ano ingressara na Companhia Eva Stachino, participando das revistas Carapinhada, Mártir do Calvário, Água fresca, Coração português, Mãe Eva/Eva no Paraíso, Pó de Maio e Manda quem pode, ao lado de, entre outros, Irene Isidro, Vasco Santana, Alice Ogando, Fernanda Coimbra e Maria das Neves, nos palcos do Teatro Variedades, Trindade e Apolo. Alcança um estrondoso êxito em Pó de Maio, com o celebrado número D. Chica e Sr. Pires, ao lado do ator Álvaro Pereira, o que lhe proporciona uma maior popularidade. Em junho de 1929 parte novamente para o Brasil com a Companhia Eva Stachino, onde, recebida com efusivas manifestações, representa no Rio de Janeiro as reprises de Pó de Maio, Mãe Eva/Eva do Paraíso e Carapinhada e as estreias de Lua de mel, Meia-noite e Mouraria. Novamente, a imprensa portuguesa noticiou o sucesso da atriz, relembrando a sua passagem pela América do Sul. Após breve incursão aos palcos de São Paulo, Beatriz é convidada por Procópio Ferreira, comediante de relevo no teatro brasileiro, para ficar a trabalhar no Rio integrando o elenco da sua companhia de comédias, mas a proposta seria recusada. Regressa em dezembro do mesmo ano.
Período no Brasil (1939-1949)
Em maio de 1939 parte novamente para o Brasil com a sua companhia (renomeada Companhia Portuguesa de Revistas Beatriz Costa). Julgava-se que por alguns meses, mas a Segunda Grande Guerra rebenta na Europa em setembro, o que a mantém do outro lado do Atlântico durante cerca de 10 anos, a qual considerou os melhores anos da sua vida. Com a estreia do filme Aldeia da Roupa Branca no Brasil, a imprensa da época assinalou a presença do realizador português Chianca de Garcia no Rio de Janeiro aquando da sua estreia no Cinema Odeon, sendo referido o sucesso do filme em Espanha, Inglaterra, Suécia e Noruega (sendo o primeiro filme falado em língua portuguesa que atravessa essas fronteiras).
Regresso a Portugal e últimos anos
Em 1949, voltou a Portugal para ser a estrela de uma revista apropriadamente chamada Ela aí Está!, estreada a 21 de fevereiro de 1950 no Teatro Avenida, que depois seguiu para o Coliseu do Porto e Teatro Avenida de Coimbra, o que foi um acontecimento notável. No mesmo ano participa também na peça O processo de Mary Matos, espetáculo de homenagem a Maria Matos. No entanto, na década de 1950, como recorda Luís Francisco Rebello, "tinha havido uma guerra, os tempos eram outros e o espírito da revista tinha mudado. Ela ainda fez umas quantas revistas entre 1949 e 1960, mas já não era a mesma coisa, aqueles números tinham sido escritos para a Beatriz Costa dos anos 30, e já não funcionavam tão bem nos anos 50." Mesmo assim, as revistas tiveram sempre sucesso. Beatriz Costa ainda fez uma digressão a África, regressou várias vezes ao Brasil e em 1960 despediu-se dos palcos, na revista Está Bonita a Brincadeira, no Teatro Avenida, com a Empresa Giuseppe Bastos e Vasco Morgado.
Falecimento e posteridade
Faleceu na manhã de 15 de abril de 1996, aos 88 anos de idade, no seu quarto do Hotel Tivoli, em Lisboa, sendo sepultada no cemitério da Malveira, cumprindo o seu último desejo. Em 1999, é homenageada com o descerramento de placas na Charneca do Milharado, aldeia onde nasceu, e na Malveira, onde se encontra sepultada. Em 2002, o restaurante do Hotel Tivoli é baptizado com o nome de Beatriz Costa. É lançada também uma extensa fotobiografia. Em 2007, o Museu Nacional do Teatro e da Dança lança um Álbum de Retratos de Beatriz Costa e, por ocasião dos 100 anos do seu nascimento, o Museu Municipal Raul de Almeida, de Mafra, assinalou a data com uma exposição.
Integrou numerosos espectáculos de teatro, entre eles, revistas e operetas:


