Batalha dos Alcaides
A Batalha dos Alcaides, ocorrida em 14 de abril de 1514, marcou um triunfo significativo para as forças portuguesas contra as tropas do sultão de Fez. Este confronto foi a primeira batalha campal travada por Portugal em Marrocos e a única antes da fatídica Batalha de Alcácer-Quibir.
Pontos-chave
- A Batalha dos Alcaides ocorreu em 14 de abril de 1514.
- Foi uma vitória portuguesa contra as tropas do sultão de Fez.
- Representou a primeira batalha campal portuguesa em Marrocos.
- Ocorreu antes da Batalha de Alcácer-Quibir.
Desde a conquista de Ceuta em 1415, Portugal mantinha uma presença ativa em Marrocos. Após um período de guerra civil no reino marroquino, Portugal expandiu sua influência com a conquista de Alcácer-Ceguer em 1458. Paralelamente, mercadores e armadores portugueses frequentavam intensamente as costas marroquinas, levando cidades como Safim e Azamor a buscar a proteção do rei português, rompendo laços com o sultão. Outras cidades como Anafé (destruída em 1468), Arzila e Tânger (conquistadas em 1471) também foram palco de intervenções portuguesas. Em 1487, D. João II enviou uma expedição à Enxovia para auxiliar Mulei Benfageja contra rebeldes locais.
A Política de Conquista de D. Manuel
Enquanto as Descobertas avançavam com sucesso, o rei D. Manuel I desejava expandir o domínio português em Marrocos, um anseio antigo da coroa. Essa política de expansão era popular na nobreza. Ao assumir o trono em 1495, D. Manuel I reforçou as praças portuguesas no exterior com suprimentos, tropas e armamentos, além de aumentar salários e benefícios para oficiais e soldados. Concedeu também o dízimo dos tributos cobrados aos mouros à Igreja. No ano seguinte, autorizou o visconde de Vila Nova de Cerveira a organizar uma grande campanha militar em Marrocos, liderada pelo próprio rei.
A Reação do Sultão de Fez
Diante das incursões de cavaleiros portugueses a partir de Azamor e Safim e percebendo o risco para seu trono, o sultão de Fez, Mulei Mafamede, conhecido como 'o Português', buscou reaver os territórios perdidos. Em dezembro de 1513, boatos sobre um ataque iminente a Azamor circularam. Lopo Cabreira, um oficial, informou D. Manuel sobre o contra-ataque esperado. Com a chegada de notícias alarmantes sobre os preparativos do sultão e a aproximação de seu exército, os portugueses em Azamor, cujas fortificações ainda estavam em construção, perceberam o perigo. Os capitães de Safim e Azamor uniram forças sob o comando de D. João de Meneses para enfrentar as tropas do sultão, que ainda estavam se reunindo perto de Boulaouane. Yahya ben-Tafuft liderava os aliados berberes dos portugueses.
No início de março de 1514, informações precisas sobre as tropas reunidas pelo sultão de Fez chegaram a Safim e Azamor, graças ao sistema de inteligência português. A vanguarda do exército do sultão, composta por cerca de 7.000 homens (cavaleiros, besteiros e espingardeiros), sob o comando dos alcaides Lutete e Latar (Ahmad al-Attar), acampou em Alfemiz (Suk al-Khamis), a 15km de Boulaouane, aguardando o restante do exército. Contudo, o sultão foi forçado a se dirigir para o norte para socorrer os alcaides de Alcácer-Quibir e Larache, derrotados pelos portugueses ao tentarem atacar Tânger. A falta de tropas e o temor de represálias do sultão levaram a um mau acolhimento dos alcaides na região de Duquela, sendo impedidos de se abrigarem em Boulaouane. De Alfemiz, os dois alcaides partiram para se unir ao vice-rei de Mequinez, Mulei Nacer, perto de Anafé, com o objetivo de sitiar Azamor. O conhecimento dessas informações foi crucial para a ação portuguesa.
O Combate Decisivo
Os portugueses encontraram as tropas inimigas acampadas em campo aberto, no sopé da Serra Verde (Djabal al-Akhdar). O ataque ocorreu na madrugada de 14 de abril de 1514, uma Sexta-Feira de Endoenças, aproveitando o elemento surpresa e antecedendo a chegada das tropas de Mulei Nacer. D. João de Meneses organizou suas forças em cinco 'azes', comandando um deles. Yahya ben-Tafuft e Nuno Fernandes de Ataíde, com um contingente misto de cavaleiros berberes e portugueses, comandaram outros 'azes'. Na retaguarda, dois corpos de infantaria protegiam a artilharia e os canhões, que representavam uma vantagem tática decisiva para os portugueses. A infantaria incluía piqueiros disciplinados, organizados segundo o moderno modelo suíço.
A batalha resultou em mais de 50 cavaleiros mortos entre as tropas do sultão, enquanto as baixas portuguesas na infantaria foram poucas, com cerca de cem feridos. As perdas do sultão foram severas, com a dizimação quase total de seus atiradores e cerca de 2.000 mortos. Os portugueses capturaram 280 prisioneiros, posteriormente resgatados mediante pagamento de elevadas quantias. No dia seguinte, o vice-rei de Mequinez, Mulei Nacer, chegou ao rio Morbeia. Após tentar cobrar impostos das populações locais, sofreu um ataque devastador de Yahya ben-Tafuft e fugiu desordenadamente. Rejeitado pelas tribos de Duquela e pelo emir de Marraquexe, Mulei Nacer dirigiu-se a Fez para evitar a captura. A vitória trouxe glória aos comandantes portugueses, mas foi ofuscada pela morte de D. João de Meneses, que, abalado pela perda de familiares e pela idade, faleceu de desgosto poucos dias após a batalha.


