Batalha de Di Car
A Batalha de Di Car foi uma batalha pré-islâmica travada entre um conjunto de tribos árabes e o Império Sassânida no sul do Iraque. Em 602, o xainxá Cosroes II (r. 590–628) depôs e executou Anumane III (r. 580–602), e anexou o Reino Lácmida, desencadeando uma revolta de seus aliados árabes no Négede. A desordem subsequente entre rebeldes antipersas e lealistas pró-persas no reino culminou nessa batalha, que resultou numa derrota do exército sassânida e seus aliados, pondo fim à hegemonia persa sobre a Arábia Oriental. O êxito da rebelião e a vitória contra os persas em Di Car despertaram confiança política, entusiasmo e uma nova autoconsciência entre os árabes. Somada à crescente instabilidade na própria Pérsia após a queda de Cosroes em 628, essa sucessão de eventos prenunciou a decisiva Batalha de Cadésia em 636 e a conquista muçulmana da Pérsia.
O Reino Lácmida foi fundado e governado pela dinastia lácmida de c. 268 a 602. Estendendo-se pela Arábia Oriental e pela Mesopotâmia Meridional, existiu como dependência do Império Sassânida, embora os lácmidas mantivessem Hira como sua capital e dali governassem de forma independente. Por séculos, o Império Sassânida confiou aos lácmidas a defesa da fronteira sudoeste incursões de tribos árabes. Apesar disso, ocasionalmente os lácmidas eram derrotados por outras tribos e caravanas persas eram atacadas. Em 602, o xainxá Cosroes II (r. 590–628) depôs e executou Anumane III (r. 580–602), e anexou o Reino Lácmida. Em seu lugar, nomeou Ias ibne Cabiçá, um árabe da tribo dos taitas, como governador.
Algum tempo após a nomeação de Ias, eclodiu uma revolta de aliados árabes do rei deposto no Négede. A desordem subsequente entre rebeldes antipersas e lealistas pró-persas no Reino Lácmida culminou na confrontação de Du Car, um local de abastecimento de água perto de Cufa, no Iraque. A data da batalha é indeterminada. Segundo certas tradições muçulmanas, a batalha ocorreu no ano 623/4. ibne Habibe a datou entre 606 e 622, mas estudiosos modernos reduziram esse intervalo para 604–11. As tribos atacantes foram lideradas pelos bacritas, uma grande confederação tribal cujo território se estendia do sudoeste do Iraque até o leste da Península Arábica. A tribo mais proeminente da confederação eram os xaibanitas, seguidos dos ijelitas, dulitas, caicitas e iascuritas. Aparentemente, não houve coordenação nos esforços em campo e não havia um comandante supremo das tropas rebeldes, com a liderança passando entre vários guerreiros. Mesmo assim, os bacritas derrotaram o exército árabo-persa. Hani e Hanzala são alguns desses comandantes, como descrito pelas fontes árabes.
Sentimentos religiosos, além de árabes, devem ter desempenhado um papel na conformação dos relatos sobre Du Car, haja vista a tradição muçulmana associar ao profeta Maomé uma fala segundo a qual: "Esta é a primeira batalha em que os árabes obtiveram vingança equitativa contra os persas — e eles alcançaram essa vitória por meu intermédio". Alguns estudiosos, aparentemente influenciados pela tradição muçulmana, interpretaram-na como parte de uma prolongada rebelião árabe contra os persas, pois teria despertado confiança política, entusiasmo e uma nova autoconsciência entre os árabes. No entanto, os clãs envolvidos em Di Car mantiveram-se voláteis a respeito de sua fidelidade, ora apoiando os persas, ora apoiando os árabes muçulmanos, de modo que não se verifica uma linearidade ideológico-identitária. A batalha, pelo número reduzido de combatentes e por tratar-se de uma derrota iraniana, não foi mencionada nas fontes persas. Parece que, com o tempo, adquiriu significado ideológico e simbólico para os árabes muito além de sua importância militar e política. Além disso, essa confrontação e a subsequente instabilidade fronteiriça, somada à crescente instabilidade na própria Pérsia após a queda de Cosroes em 628, prenunciou a decisiva Batalha de Cadésia em 636 e a conquista muçulmana da Pérsia.


