Batalha de Alcácer Quibir
A Batalha de Alcácer-Quibir, também conhecida pela Batalha dos Três Reis ou também como Batalha do Rio Mocazim foi uma batalha travada no norte de Marrocos, perto da cidade de Alcácer Quibir, a 4 de agosto de 1578, opondo os exércitos do Reino de Portugal, apoiante da pretensa à coroa do então deposto sultão Mulei Maomé Almotauaquil ao do Sultanato Sádida, leais ao sultão reinante Mulei Maluco e apoiados pelo Império Otomano.
Expansão portuguesa em Marrocos
Com o sucesso da Reconquista na Península Ibérica, os reinos cristãos europeus (em especial, os reinos ibéricos e italianos) iniciaram um período de várias incursões ao norte de África (Magrebe) de modo a reconquistar, novamente para a Cristandade, os territórios do norte do continente africano, perdidos já desde o meados do século VII. De facto, este assunto é em especial sensível aos reinos hispânicos, que viam estas incursões como o prolongamento da Reconquista: não apenas fechar a Reconquista na Península, mas sim empurrar a fronteira entre cristãos e muçulmanos para o outro lado do estreito de Gibraltar. Com a tomada de Ceuta em 1415, inicia-se o início da presença portuguesa no Algarve magrebino. Desde então, a coroa portuguesa tenta, especialmente no reinado de Afonso V, defender, consolidar e expandir a sua presença e influência em Marrocos. Após Ceuta, Portugal toma Alcácer-Ceguer, Arzila, Tânger, entre outros, aumentando assim o controlo militar e comercial da região. Com as tentativas posteriores infrutíferas de recaptura das praças aos portugueses, e o aumento da instabilidade do reino de Marrocos (iniciando-se com o assassinato do sultão Abuçaíde Otomão III em 1420), começa-se então um período de árduas e prolongadas crises sucessivas.
Ascensão dos Sádidas
Com o degradar do poder dos Oatácidas, surge na década de 1500, na região mais a sul, a dinastia sádida, determinada a retirar o poder e influência aos portugueses, tomar o poder e restaurar o poder de Marrocos. Poder-se-á afirmar que houve três principais razões para a reorganização das tribos do sul sobre a égide Sádida. Em primeiro lugar, e talvez o mais notável, a crescente expansão e força que os portugueses detinham na costa marroquina, e suas pretensas de se adentrarem para o interior alarmou os chefes e líderes locais, levando a procurar uma alternativa ao poder central. Em segundo lugar, as rotas comerciais, que eram uma importante percentagem da economia transariana, estavam agora a ser contestadas pelas alternativas do comércio marítimo europeu, mais eficiente, e por ataques de corsários cristãos. Os portugueses, principalmente, estavam focados em estabelecer rotas comerciais marítimas, e substituir as rotas terrestres, pela via marítima. Por último, os xarifes Sádidas temiam o crescimento do poder otomano na região, estando no seu apogeu, e demonstrando também interesse em influenciar e tomar todo o Magrebe. O Império Otomano, tendo apoiado os Oatácidas na tomada de poder anteriormente, pretendiam assim estabelecer um quase estado cliente do Império, aumentando a sua força e influência na região.
Crise sucessória do Sultanato
No entanto, com a morte de Abedalá Algalibe em 1574, e a sucessão por seu filho Maomé Almotauaquil, não consensual, a dinastia Sádida entrou na sua primeira crise. Após destacarem-se nas campanhas contra os cristãos, Mulei Maluco visitou Constantinopla novamente e obteve do novo governante otomano Murade III, que procura expandir a influência otomana em Marrocos, um acordo para ajudá-lo a recuperar militarmente o trono. Caso vencesse, Mulei Moluco tomaria o trono do Sultanato de Marrocos para si, em troca de se declarar vassalo dos otomanos, e da paga de quantias avolumadas de capital, juntamente com o arrendamento do porto de Larache aos otomanos, permitindo a estes terem uma base no atlântico para a pirataria e corso contra os cristãos.
Exílio de Maomé Almotauaquil e proposta a Portugal
Com a sua derrota e tomada do poder por seu tio Mulei Moluco, Maomé Almotauaquil procurou refúgio primeiramente em enclaves espanhóis no continente africano. Primeiramente, refugia-se no em Veléz de la Gomera, e tentou formar uma coligação espanhola e portuguesa de forma a tomar novamente o trono. Com isto, prometeu que, caso ganhasse o trono novamente, Maomé Almotauaquil entregaria a importante cidade e seu porto de Larache, Arzila, Safim, Alcácer-Quibir, Tetuão e outras importantes praças e territórios ao domínio da Coroa portuguesa, dando também todo o litoral marroquino e até seis léguas para os portugueses se adentrarem no sertão marroquino. Fora isto, daria também tolerância maior a cristãos nos seus territórios, juntamente com permissão de missionários jesuítas de continuarem, se bem que com limitações, a operar em Marrocos. Isto foi visto com bons olhos por vários patrocinadores portugueses e por vários membros da corte portuguesa, que viam na pessoa de Maomé Almotauaquil um aliado útil na expansão e recuperação do domínio português no norte de África, coisa que já era pedido ao rei em cortes anteriores, mas que o mesmo não tinha acedido. Fora isto, e talvez mais importante para as aspirações pessoas de D. Sebastião, Maomé Almotauaquil prometeria que, em caso de vitória, declarar-se-ia súbdito do rei português, permitindo que Sebastião se coroasse como Imperador de Marrocos.
Composição do exército e reformas sebásticas
Durante o século XVI, é de se notar um crescente processo de renovação das práticas militares de ambos os reinos. Por um lado, em Portugal, a par com o sistema de terços espanhóis, D. João III e seu sucessor D. Sebastião, geraram profundas reorganizações no exército português, de modo a profissionalizarem, e melhor capacitarem o mesmo para os desafios futuros. No último quartel do século XVI português, a expectativa de uma intervenção militar despoletou um esforço institucional sem precedentes, que perdurou, praticamente inalterável, por quase cem anos. Este esforço foi acompanhado pela atualização do conhecimento militar, em especial no reinado de D. Sebastião. Inicialmente, foram estabelecidas capitanias-mores no Porto e em Lisboa. As leis promulgadas contemplavam a normalização do armamento, passando pela fortificação costeira, a construção naval, e a centralização do recrutamento e enquadramento sistemático dos homens em companhias. A criação deste tipo de unidades militares teve o seu início oficial a 6 de Março de 1568 – ainda durante a regência do cardeal D. Henrique – com a criação, no Porto, de companhias com o efetivo de 300 homens, regime que se estendeu, ainda nesse mesmo ano, ao Oriente. Pouco depois, através do Regimento dos Capitães-mores e mais capitães, e officiais das companhias de gente de cavallo e de pé: e da ordem que teram em se exercitarem de 10 de dezembro de 1570, o Rei D. Sebastião regulamenta a Lei das Armas que cada pessoa he obrigada a ter... de 1569 e alarga a estrutura das ordenanças a todo o Reino, criando a base do que seria um exército verdadeiramente nacional. Reduziu-se o seu efetivo de 300 para 250 soldados, fixando definitivamente uma orgânica idêntica para todo o reino. Na prática, as chamadas “ordenanças militares sebásticas” resumiram todo o esforço levado a cabo desde a época de D. Manuel numa única série de diplomas publicados entre 1568 e 1574, que reestruturaram o poder militar do reino de acordo com um sistema único e coerente.
Infantaria
Os terços portugueses, adaptados dos tercios espanhóis, eram compostos, como pelo nome indica, de três partes que formariam um todo: os arcabuzeiros, tropa com arcabuz (também apelidadas de espingardas de mecha, derivado do seu tipo de mecanismo de fogo) ou espingardas de alma lisa, os piques, tropa com lanças compridas ou alabardas, e espadachins, tropa com espadas. Os arcabuzeiro, em meados de século XVI, deixou de ser apenas um “especialista” ocasional para se tornar uma peça estrutural da infantaria portuguesa. Os arcabuzeiros portugueses do último quartel do século XVI representam, talvez melhor do que qualquer outra categoria, a tensão entre modernização militar e capacidade real de execução. Entre 1569 e 1574, o aparelho político tentou garantir que haveria um número suficiente de arcabuzeiros para as companhias de Ordenanças, e a doutrina militar da época valorizou a integração do fogo em mangas, protegidas por piques.
Artilharia
A artilharia portuguesa, em finais do século XV e XVI, não era considerado apenas um serviço militar restrito, mas sim também como uma arte, ou ofício. A implementação por parte da coroa de alvarás de privilégio especificamente dedicados aos artilheiros tem a ver com a necessidade de existir permanentemente um bom número de especialistas para guarnecer as armadas e o serviço ultramarino. O artilheiro português do século XVI devia, portanto, saber fazer uso do prumo, do esquadro e do quadrante, saber como se regulavam as cargas, segundo a classe da boca-de-fogo, projéteis que devia empregar, modo de dirigir as pontarias segundo as distâncias; devia também conhecer os fogos de artifício então usados, e até o processo de fundição da artilharia. A artilharia desta altura, dividia-se em dois grandes grupos de peças: as que executavam tiro direto (ou tiro tenso) e as que executavam tiro indireto (ou curvo). Dentro das primeiras, ter-se-ia as peças, relativamente à sua forma de carregar a peça: de antecarga, ou de retrocarga (mais usadas no ramo naval). As armas de campanha desta altura, seriam, as peças de alma seguida de comprimento médio ou grande (canhões, falcões, colubrinas ou basiliscos). A quase totalidade das mesmas, eram feitas de bronze, por ser um material mais dúctil e maleável que o ferro fundido, impedindo assim fraturas e roturas da câmara de fogo.
No contexto do exército marroquino, a partir do primeiro quartel do século XVI assiste-se à crescente e progressiva introdução de novos meios e métodos de fazer a guerra. Destes destaca-se a proliferação de armas de fogo entre as populações (proveniente da Europa e de Argel, por exemplo), e pela mão dos andaluzes (descendentes dos expulsos da Península Ibérica aquando o édito de expulsão) e de renegados europeus. Apesar dos otomanos se apresentarem como os grandes campeões do Islão, a sua progressão pelo Mediterrâneo entrou em conflito com a vivência autónoma dos povos da ponta ocidental do Magrebe. O poder regional dos marroquinos foi um dos principais obstáculos à entrada da influência otomana mas também alguns grupos que se mostravam avessos a partilhar o protagonismo de que gozavam, como os “andaluzes”, que tinham usufruído do monopólio da fabricação e utilização da artilharia até ao último quartel do século XVI.
Infantaria
Desde o Édito de Expulsão, os soldados andaluzes desempenharam um importante papel nos exércitos do Magrebe no primeiro quartel do século XVI. Em Fez, existia, por exemplo, uma oficina de metalurgia onde se fabricavam armas de fogo, bestas, espadas e peças de artilharia sob orientação de mestres armeiros andaluzes. Uns anos antes, sob domínio Oatácida, seriam, precisamente os andaluzes, exclusivamente os artilheiros dos sultões. Entre o ano de 1562-63, foram registados cerca de catorze mil andaluzes no exército sádida, que serviriam mediante um pagamento de soldo, perdendo, no entanto, espaço no exército para os renegados e cristãos livres e os turcos, acentuando-se após a batalha de Alcácer-Quibir.
Presença otomana
As indicações sobre a presença de uma força otomana acompanhando os marroquinos no campo de batalha variam entre as fontes, levando a algumas discordâncias entre os pesquisadores e historiadores modernos. Enquanto que alguns afirmam que a vitória sádida ocorreu sem qualquer interferência do exército otomano, outros afirmam que algumas fontes turcas modernas atribuem a vitória de 1578 a forças otomanas lideradas por Ramazã Paxá no campo de batalha (de salientar, no entanto, que estas fontes tendem a exagerar a história militar turca). No entanto, apesar da intervenção do exército otomano no campo de batalha ser contestado, é incontestável a presença de forças outrora otomanas, e com treino e formação militar de cunho otomano. Como por exemplo, os janízaros, força de elite do império otomano daquela época, presente na guarda do sultão e do seu séquito. Outros, no entanto, acabam mesmo por afirmar que houve, de facto, envolvimento do exército otomano na Batalha, e que o mesmo se demonstrou fundamental para a vitória sádida.[nota 2]
Cavalaria
Os contingentes a cavalo sádidas dividem-se em dois grandes grupos: um integrado no exército regular, e outro, mais numeroso, de carácter de levantamentos feudais. O primeiro compreendia fundamentalmente os atiradores montados, com clavinas e outras armas de fogo adaptadas à cavalaria (visto, desde a primeira década do século XVI, os arqueiros montados terem sido definitivamente substituídos por este tipo de cavalaria com arma de fogo). No entanto, as primeiras referências a atiradores a cavalo datam de por volta de 1545.[nota 3] O nome dado a esta cavalaria pelos escritores da altura, é de espaquis, spahis, ou espahis (variações da cavalaria otomanas, os Sipahi).
Preocupações geoestratégicas dos portugueses da ascensão otomana
Por carta de D. Sebastião a João de Mendonça, em 1576, é visivelmente notória a preocupação do rei em impedir o avanço da influência e poder otomanos ao extremo oeste magrebino, receando que caso caia o Sultanato, se abrissem as portas a uma possível nova invasão da Península Ibérica por parte dos muçulmanos: Não é somente para dar a posse daquele Reino ao tio do Xarife, mas principalmente com o fundamento de o fazerem tributário e vassalo do Turco, e o Turco se fazer Senhor de toda África, e de todos os portos de mar dela, tendo em cada uma delas muitas galés que lhes será fácil de pôr em efeito. Assim, pela natureza da mesma terra, como por seu grande poder, que quando assim acontecesse, o que Deus não permita, visto é quantos males sem remédio poderiam recrescer a toda Espanha, que da Cristandade se pode dizer que é hoje a melhor e maior parte, e com este intento queria que não somente cuidareis nesta matéria e a discorrereis para me nela dardes parecer e conselho no que farei e devo fazer (…).
Proposição e recusa de apoio inglesa
Inicialmente, D. Sebastião tentou procurar aliados para a sua campanha em Marrocos. Inicialmente, é feito um contacto com Isabel I, rainha de Inglaterra, de forma a obterem-se apoios militares e financeiros para a campanha. No entanto, apesar do peso da questão religiosa, a maior recusa dá-se numa linha pragmática: durante os meados e finais do século XVI, Inglaterra pretende e tenta ao máximo entrar no comércio da África e das rotas para as Índias, áreas que Portugal reclamava como seu monopólio comercial. Durante os meados do século XVI, Portugal e Inglaterra entram numa guerra comercial informal, tendo chegado a haver apreensões de navios, represálias, e bloqueios aos acessos do comércio da África e Índias. Ajudar D. Sebastião significaria fortalecer o principal obstáculo à expansão mercantil inglesa, e por isso, Isabel I recusa a ajuda.
O apoio de Espanha
A 11 de abril de 1576, D. Sebastião enviou cartas aos seus representantes em Madrid e Roma, bem como ao próprio Filipe II, procurando obter apoio para uma expedição militar a Marrocos. O objetivo apresentado era a conquista de Larache, porto utilizado para o abastecimento de corsários e cuja ocupação, segundo o rei português, beneficiaria Portugal, a Monarquia Hispânica e a Cristandade, ao reforçar a segurança da navegação ibérica no Atlântico. De mesma forma, caso se mantivesse em mãos marroquinas, o argumento principal era que o porto podia tornar-se uma base de corsários e de influência otomana no Atlântico, coisa que se demonstrou profético nas décadas seguintes.
Estados Papais
Quando Gregório XIII foi eleito, em maio de 1572, herdou de Pio V a política da Liga Santa. Roma ainda esperava prolongar o impulso de Lepanto e construir uma ofensiva mais ampla contra o Império Otomano. O novo Papa via D. Sebastião como um soberano particularmente predisposto para esse combate. Em dois breves de 1572 — Quanquam in literis, de 17 de setembro, e Summa cum voluptate, de 8 de novembro — Gregório XIII elogiava a disposição religiosa do rei português e procurava convencê-lo a empregar forças contra os turcos. O papa chegou a argumentar que era especialmente meritório D. Sebastião querer combater os otomanos apesar de Portugal se encontrar relativamente afastado do perigo imediato.
Dezassete Províncias e os estados germânicos do Sacro Império
Nas Dezassete Províncias dos Países Baixos, o principal embaixador e correspondente diplomático da coroa portuguesa era Nuno Álvares Pereira, guarda-mor das Alfândegas dos portos secos da Comarca de Trás-os-Montes (futuro escrivão da Fazenda). No ano de 1577, D. Sebastião nomeia-o para a corte de Guilherme de Orange, com o objetivo explícito de aqui obter apoios humanos e materiais para a campanha no norte de África, tanto nas Dezassete Províncias, como nos estados alemães do Sacro Império Romano-Germânico.[48.1] O plano de D. Sebastião, seria de utilizar Guilherme de Orange como um facilitador e intermediário nas negociações com os diferentes governos das Dezassete Províncias. A sua atuação direta na libertação de algumas naus portuguesas confiscadas na região, juntamente a expedição de cem mil arráteis de pólvora que se destinavam a Portugal, e que estavam confiscados na alfândega, demonstravam assim a vontade expressa de D. Sebastião de manter boas relações diplomáticas com o Príncipe de Orange.
Requisição de navios à Marinha
De modo ao transporte eficaz do grande contingente português, foi reunido o número de 750 navios, a maior armada alguma vez feita para as campanhas no Norte de África pelos reinos europeus, e a maior do século XVI. Destes 750 navios, 5 eram galeões de guerra e 50 outros estaria bem aprovisionados e municiados, com um grande número de bocas de fogo, guarnições consideráveis e bem treinadas. O comandante desta enormíssima frota, era D. Diogo de Sousa, governador do Algarve, no galeão capitania S. Mateus.[nota 4]
Levantamento do exército português
Para a preparação do exército, no ano de 1578, foram levantados no exército português, quatro terços: Devido à peste no centro e norte de Portugal no ano de 1569, pelo mau ano agrícola de 1574 e a sua subsequente fome generalizada em 1575, houve uma forte resistência por parte dos municípios do norte e centro ao recrutamento de homens para a expedição. Devido a isso, o grosso das ordenanças portuguesas eram do sul do País. No total, o exército português contava com aproximadamente 9 mil homens, agrupados em 10 companhias, por cada terço. Os treinos desta força tomaram início logo em janeiro de 1578, que foi agrupado nos campos adjacentes à capital, em Santo Amaro, ou Alvalade. No primeiro semestre de 1578, Lisboa foi palco de uma concentração considerável de vários navios de guerra e tropas estrangeiras e nacionais, de forma a criar um exército coeso e disciplinado para fazer frente às forças sádidas.
Saída de Lisboa
Finalmente, depois de vários meses de preparação da campanha, na manhã de sábado de 14 de junho de 1578, D. Sebastião manda reunir toda a corte no Paço da Ribeira. A grande multidão em Lisboa, presencia a saída do rei do seu Paço Real, para a campanha de Marrocos. O cavalo de D. Sebastião, envergando um gibão de seda azul, bordada a ouro, denotava a presença do rei nas ruas de Lisboa, acompanhado pela fidalguia portuguesa, fortemente aclamado pelo povo, num ambiente frenético e de índole cruzadística. Deslocando-se ao Cais da Rainha, onde estava a sua galé real, capitaneada por Pêro Peixoto da Silva. Daqui, só sairia para a bênção do estandarte na Sé de Lisboa. Com a chegada da corte portuguesa, juntamente com uma imensa multidão de populares à Sé de Lisboa, são recebidos pelo arcebispo. Aquando a bênção do estandarte real, o alferes-mor, denotando que o mesmo se encontrava colocado ao revés, com o cruxifico voltado para baixo, e com todo o embaraço do momento, murmura:
Chegada a Lagos
A frota navegou calmamente para sul, fazendo escala em Lagos, onde chegou a 24 de junho, onde se reuniram os navios saídos de Setúbal. Na igreja de Santa Maria, novamente, D. Sebastião dirige-se às suas tropas, incitando-os para a campanha que se avizinhava.
Chegada e espera em Cádis
A frota chegou a Cádis a 28 de junho. Aqui esperaram que se lhes reunissem as embarcações que traziam o «terço» da gente do Algarve comandado por Francisco de Távora. Por essa razão, apenas no dia 7 de julho a frota se fez novamente ao mar. No fim do dia, a armada chegava finalmente ao norte de África, ancorando em frente a Tânger. Mas a falta dos carros de bois, que ainda se reuniam em Portugal, impediu o desembarque nesta cidade como inicialmente se havia planeado. Assim, as tropas acabaram por se concentrar, três dias mais tarde, na fortaleza de Arzila. Aqui, encontra-se com o exército português Maomé Almotauaquil, juntando-se com mais de 6000 homens marroquinos aliados.
Batalha
Em 4 de agosto de 1578, as tropas portuguesas e os mouros aliados alinharam-se para a batalha, e Sebastião cavalgou entre as fileiras, encorajando os soldados. Os marroquinos avançaram numa frente ampla, com o objetivo de cercar o exército português. O sultão dispunha de 10.000 cavaleiros nas alas e, no centro, posicionou mouros expulsos da Espanha, que guardavam profundo ressentimento contra os cristãos. Apesar da doença, Abedal Maleque deixou sua liteira e liderou as tropas a cavalo. A batalha teve início com a troca de várias salvas de fogo de mosquetaria e artilharia. Thomas Stukley, que comandava o centro português, foi rapidamente morto por uma bala de canhão. A cavalaria marroquina avançou e começou a cercar o exército luso. As forças envolveram-se depois em combate corpo a corpo.
Relato e Esquema da Batalha
Os relatos da batalha não são uniformes, especialmente no que diz respeito ao que ocorreu depois de terminada a batalha, em que o rei D. Sebastião se retira e não há vitória declarada de qualquer lado, conforme consta em - Relação da Batalha de Alcácer que mandou um cativo ao Dr. Paulo Afonso, onde se diz o seguinte:.mw-parser-output .flexquote{display:flex;flex-direction:column;background-color:#F1F1F1;border-left:3px solid #C7C7C7;font-size:100%;margin:1em 4em;padding:.4em .8em}.mw-parser-output .flexquote>.flex{display:flex;flex-direction:row}.mw-parser-output .flexquote>.flex>.quote{width:100%}.mw-parser-output .flexquote>.flex>.separator{border-left:1px solid #C7C7C7;border-top:1px solid #C7C7C7;margin:.4em .8em}.mw-parser-output .flexquote>.cite{text-align:right}@media all and (max-width:600px){.mw-parser-output .flexquote>.flex{flex-direction:column}}@media screen{html.skin-theme-clientpref-night .mw-parser-output .flexquote{background-color:transparent}}@media screen and (prefers-color-scheme:dark){html.skin-theme-clientpref-os .mw-parser-output .flexquote{background-color:transparent}}
Desenlace
Após quase quatro horas de intensos combates, a batalha terminou com a derrota total dos portugueses e do exército de Maomé Almotauaquil, deixando cerca de 8.000 mortos — entre eles, grande parte da nobreza portuguesa. Cerca de 15.000 homens foram capturados e vendidos como escravos no norte da África, e apenas cerca de 100 conseguiram escapar até a costa. O corpo do rei Sebastião, que havia liderado uma carga contra o inimigo e foi cercado, jamais foi encontrado. O sultão Abedal Maleque morreu durante a batalha, provavelmente por causas naturais (o esforço de cavalgar teria sido excessivo), mas sua morte foi mantida em segredo até a vitória ser assegurada. Maomé Almotauaquil tentou fugir, mas morreu afogado no rio. Devido à morte de Sebastião, Maomé Almotauaquil e Abedal Maleque durante o combate, o confronto ficou conhecido no Marrocos como a Batalha dos Três Reis.
As consequências desta batalha foram catastróficas para Portugal. Sebastião desaparecera, deixando como sucessor o seu tio-avô, o então Cardeal Henrique que morreu sem descendência dois anos depois. Assim se iniciou uma crise dinástica, ameaçando a independência de Portugal face a Espanha, pois um dos candidatos à sucessão era o seu tio, Filipe II de Espanha. A disputa do trono português teve vários pretendentes: Catarina de Médici, rainha da França, que se dizia descendente de Afonso, Catarina, duquesa de Bragança e sobrinha do Cardeal Henrique; Emanuel Felisberto de Saboia, duque de Savoia e António de Portugal, Prior do Crato, ambos, sobrinhos do rei; Rainúncio de Parma e Filipe II. Filipe, efetivamente, ascendeu ao trono em 1580. A maioria da nobreza portuguesa que participou na batalha, ou morreu ou foi feita prisioneira e todos os bispos e arcebispos nela presentes foram mortos. Para pagar os elevados resgates exigidos pelos marroquinos, o país ficou enormemente endividado e depauperado nas suas finanças.


