Batalha das Termópilas
A Batalha das Termópilas foi travada no contexto da Segunda Guerra Médica entre uma aliança de pólis gregas liderada pelo rei de Esparta Leônidas I e o Império Aquemênida de Xerxes I. A batalha durou três dias e se desenrolou no desfiladeiro das Termópilas em agosto ou setembro de 480 a.C. Ao mesmo tempo ocorreu a Batalha de Artemísio.
As cidades-estado de Atenas e Erétria apoiaram a revolta jônica contra o Império Persa de Dario I, que ocorreu entre 499 e 494 a.C.. Naquela época, o Império Persa ainda era relativamente jovem e, portanto, mais propenso a revoltas entre os seus súditos. Além disso, Dario era um usurpador, e com isso assumiu a necessidade de extinguir uma série de revoltas contra ele. Portanto, a revolta jônica não era uma questão menor, mas uma ameaça real à integridade do império, e por esse motivo Dario prometeu punir não só os jônicos, mas também todos aqueles que estiveram envolvidos na rebelião (especialmente os povos que não faziam parte do império). Dario viu uma oportunidade de expandir seu império no turbulento mundo da Grécia Antiga. Ele então, enviou uma expedição preliminar sob o comando do general Mardónio em 492 a.C., para garantir a abordagem à terra grega e reconquistou Trácia obrigando o reino da Macedônia a se tornar um vassalo Pérsa.
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Parece que o exército persa se moveu em um ritmo um pouco mais lento na Trácia e Macedónia, mas finalmente, em agosto, a notícia da chegada iminente dos persas alcançou à Grécia graças a um espião grego. Naquela época os espartanos, líderes militares de fato da aliança, estavam comemorando o festival religioso de Carneia. Durante este festival a atividade militar estava proibida por lei espartana e, de fato, os espartanos não chegaram a tempo na Batalha de Maratona por causa desta exigência. Também estavam comemorando os Jogos Olímpicos, e devido à trégua em vigor durante o evento teria sido um duplo sacrílego para os espartanos marcharem em sua totalidade a guerra. Entretanto, nesta ocasião, os éforos decidiram que a urgência era suficientemente importante para justificar o envio de uma expedição com antecedência para bloquear a passagem; expedição que seria liderada por um dos dois reis de Esparta, Leônidas I. Leônidas levou consigo 300 homens da guarda real, os hipeis e um número maior de tropas de apoio de outras partes da Lacônia (incluindo Hilotas). A expedição deveria tentar agrupar o maior número possível de aliados ao longo do caminho e aguardar a chegada do exército espartano principal.
Numa perspectiva estratégica, defendendo as Termópilas, os gregos estavam fazendo o melhor uso possível de suas forças. Enquanto poderiam evitar mais avanço persa à Grécia, não teriam necessidade de buscar uma batalha decisiva, e poderiam simplesmente permanecer na defensiva. Além disso, com a defesa de duas passagens estreitas como Termópilas e Artemísio, a inferioridade numérica dos aliados era menos problemática. Por outro lado, os persas enfrentavam o problema de abastecimento de um exército tão grande, o que significava que não podiam permanecer em um mesmo lugar por muito tempo. Os persas, portanto, se viram obrigados a recuar ou avançar, e avançar implicava atravesar as Termópilas. Taticamente, o desfiladeiro das Termópilas era ideal para o tipo de luta do exército grego. Uma falange hoplita poderia ser capaz de bloquear a passagem estreita com facilidade e, tendo flancos cobertos, não foi ameaçada pela cavalaria inimiga. Nestas circunstâncias, a falange seria um inimigo muito difícil de ser superado pela infantaria persa levemente armada.
Topografia do campo de batalha
À época da batalha, o desfiladeiro das Termópilas consistia em uma passagem ao longo da costa do Golfo de Mália tão estreito que dois carros não podiam atravessá-lo ao mesmo tempo. Limitado ao sul por falésias de grande porte, enquanto a norte se encontrava o Golfo de Mália. Ao longo do caminho, havia três passagens estreitas ou "portas" (pylai) e na porta central foi erguida um muralha que havia sido construída pelos focidios no século anterior para se defender contra invasões provenientes da Tessália. O lugar recebeu o nome de "Portões Quentes" devido as fontes de águas quentes que se podiam encontrar nesse lugar. Hoje, o desfiladeiro não se encontra próximo ao mar, mas está a vários quilômetros para o interior, devido a sedimentação que vem ocorrendo no Golfo de Mália. O velho caminho se encontra no pé das colinas ao redor da planície, ladeada por uma rodovia moderna. Entretanto, amostras recentes da composição do solo indicam que à época o desfiladeiro tinha apenas 100 metros de largura e que a água alcançava o nível das portas. Por outro lado, a passagem continua sendo utilizada como posição defensiva natural por exércitos modernos, como por exemplo durante a Batalha das Termópilas de 1941, em que soldados britânicos defenderam a passagem contra a Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial.
Durante quatro dias, Xerxes aguardou em vão que os Gregos dessem luta aos seus homens, mas como tal não se verificasse decidiu ele mesmo atacar, à madrugada do quinto dia; os seus homens, armados somente com um pequeno escudo e uma lança de menores dimensões que a dos hoplitas gregos (cujo armamento – elmo, couraça, escudo, grevas, lança e uma pequena espada – lhes dava, nesta fase do confronto, uma superioridade decisiva), ao tentarem penetrar no desfiladeiro, viram-se completamente rechaçados, pois as falanges gregas facilmente destruíam as suas lanças e, desarmando-os dessa forma, fácil foi chaciná-los em seguida. Xerxes, que observava o espectáculo, teria dito, segundo Heródoto, ter «muitos homens, mas poucos soldados» (VII, 210). De fato, embora Xerxes dispusesse da superioridade numérica, as condições físicas do estreito impediam-no de tirar partido dessa vantagem (designadamente, pela impossibilidade de fazer aí atacar a sua célebre cavalaria).
A traição
Ao sexto dia, o rei persa, julgando que o cansaço tivesse domado os seus oponentes, resolveu voltar a atacar; ludibriou-se, porém, e não colheu melhores frutos que no dia anterior. Foi então que apareceu, no acampamento persa, Efialtes de Mális, nome que tem ecoado pelos séculos fora como sinônimo de traidor. Dirigira-se ao Rei de Reis na vã esperança de obter uma compensação pecuniária a troco de revelar um caminho secreto que conduzia à retaguarda das Termópilas (onde se achavam os Fócios), através da montanha. Xerxes ficou entusiasmado com as novidades, convocando Hidarnes e ordenando que os Imortais percorressem o dito caminho durante a noite, para poderem atacar os Gregos logo pela madrugada.
O último dia
Chegara finalmente a aurora do sétimo dia; os Persas haviam já contornado o desfiladeiro, ora desguarnecido pelos Fócios, e iniciam o seu ataque por ambos os lados do estreito; os Gregos, conscientes de que não havia outra saída que não fosse a morte, pareciam não a temer e, segundo as Histórias, lutavam com ainda mais afinco que nos dias anteriores, causando grandes perdas entre os invasores. Perante este último ataque dos Bárbaros, quebradas que estavam a maior parte das lanças gregas pelos machados dos Persas, os Helenos, cercados, enfrentaram por fim o inimigo com as espadas, numa luta corpo-a-corpo, falecendo assim de modo honroso. Dessa forma caiu Leónidas, no meio dos seus soldados, os quais, de acordo com Heródoto, ao verem o seu rei perecer, logo procuraram recuperar o seu cadáver, qual troféu de guerra que importava preservar ao máximo dos ultrajes que o inimigo lhe poderia provocar.
O desfecho da batalha parece ser, à primeira vista, uma retumbante vitória dos Persas. Mas bem observados os factos, esta vitória teve tanto de esmagadora como de pírrica. Faleceram nas Termópilas cerca de dois mil Gregos (muito mais que os míticos trezentos Espartanos); porém, antes de caírem mortos, os Gregos infligiram um elevado número de baixas no exército persa (dezenas de milhares de homens), isto para além de reterem a sua marcha durante vários dias; os homens e o tempo perdido nas Termópilas foram cruciais para o subsequente fracasso de Xerxes, pois nesse lapso temporal possibilitou-se a evacuação da população de Atenas (cidade que será saqueada e incendiada pelos homens de Xerxes – como represália por haver sido a grande responsável pelo desfecho da I Guerra Médica) para a vizinha ilha de Salamina, bem como a concentração das forças gregas remanescentes ao longo do Istmo de Corinto.
A historiografia moderna acha-se ainda contaminada pela visão que o Romantismo oitocentista legou a esta batalha: os Gregos, tradicionalmente desunidos, resolveram unir-se e lutar contra um inimigo comum, pois sentiam-se membros de uma mesma etnia – afinal, partilhavam o mesmo idioma, prestavam culto aos mesmos deuses, e celebravam comumente, por exemplo, de quatro em quatro anos, os Jogos Olímpicos, o exemplo mais demonstrativo do pan-helenismo. Agora, uniam-se para lutar contra um inimigo comum, que teria vindo para os subjugar, fazer dos livres Helenos meros súbditos do Rei de Reis; mais do que isso, uniam-se para preservar, não só a sua liberdade, como também a mais original das suas criações: a democracia, que vigorava em várias das suas pólis. Para isso, um grupo de soldados de élite – movidos pela virtude do heroísmo, tão apreciada pelos românticos – teriam preferido pagar com a vida a defesa desses ideais, tornando-se num símbolo de coragem, espírito de sacrifício, e de resistência ao invasor.
As Termópilas constituem o exemplo, em termos de estratégia militar, de como um pequeno grupo de soldados bem treinados pode ter, em circunstâncias de desigualdade numérica, um grande impacto sobre um número de inimigos muito maior; contudo, esta estratégia só é eficaz num terreno desfavorável ao inimigo (campo fechado), pois, como foi dito, se a batalha tivesse sido travada numa planície, facilmente os Gregos sairiam derrotados.
O desfecho das Termópilas tem causado, ao longo da História, a maior impressão a diversos homens das letras e das artes. Deve-se citar, entre os primeiros, o poeta Simónides de Céos, que escreveu um famosíssimo epitáfio que foi colocado no local onde a batalha se travou (o qual aparece transcrito nas Histórias por Heródoto), e que rezava o seguinte: E traduzindo para a língua portuguesa (seguindo a versão de Maria Helena da Rocha Pereira, helenista da Universidade de Coimbra), temos: Também Cícero, nas suas TVSCVLANÆ QVÆSTIONES (I, 42), verteu este dístico para o latim, do seguinte modo: O mesmo Simónides escreveu igualmente outro dístico, não tão conhecido, que canta o seguinte: Indiferente também não lhe ficou o poeta português Luís Vaz de Camões, que alude a Leônidas I no passo de Termópilas no último canto de Os Lusíadas, estância 21: O poeta inglês Lord Byron (conhecido pelo seu filelenismo, que o levou à Grécia recém-liberta do jugo otomano, a fim de lutar pela sua independência – quase uma reedição do conflito entre Gregos e Persas na Antiguidade –, tendo inclusivamente encontrado a morte quando os Turcos puseram cerco à cidade de Missolonghi, em 1824) alude também às Termópilas, num excerto de um seu poema, The Islands of Greece:


