Bardenas Reales
As Bardenas Reales de Navarra, Bardenas Reales ou simplesmente Bardenas são uma área semidesértica na Espanha, com 418,5 km² que se estende pelo sudeste da comunidade autónoma de Navarra e uma parte da comunidade autónoma de Aragão. É um território com características singulares em termos da sua composição geológica e da sus propriedade e administração. Ocupa o centro da depressão do vale do Ebro e estende-se por 45 km na direção norte-sul e 24 km na direção leste-oeste.
O nome em basco das Bardenas Reales de Navarra é Nafarroako Errege Bardea. A menção mais antiga do topónimo é duma crónica em árabe sobre uma batalha ocorrida no local em 915 ou 916, onde aparece ŷabal ("monte" ou "serra") al-B.rdà. Num documento de 1134, o nome aparece em latim no singular referindo-se à media bardena en suso e noutro, de 1155, aparece no plural — montes in circuitu ejusdem bardenas. A filiação real é registada pela primeira vez em 1319. Além do nome oficial de Bardenas Reales, a região também é conhecida como Bardena del Rey. Existem diversas hipóteses sobre a origem etimológica da palavra "bardenas". Para o filólogo navarro Hermilio de Olóriz (1854–1919), "bardena" é uma corruptela do termo basco "abar-dena" ("todos os ramos"). O historiador basco Ildefonso Gurruchaga (1902–1974) concordava com esta hipótese, afirmando que a palavra "bardena" está relacionada com o radical basco "bar-" que se refere a limite, extremidade, cerca ou lado — num documento de 1027 as Bardenas são chamadas "Extremadura"). José María Iribarren (1906–1971) sugeriu que o nome Bardena tem origem em "pardina" ou "paradina", designações dadas no Alto Aragão a montes baixos com pastagens, onde costuma haver currais para gado ovino. Ambas as hipóteses são mencionadas pela “Toponimia Oficial de Navarra”, que considera a segunda mais verosímil.
Outros topónimos
Segundo o Mapa Topográfico Nacional e outras fontes cadastrais e da Comunidade de Bardenas, a maioria dos vocábulos que dão nome aos lugares ou características geográficas das Bardenas são de origem românica e, em menor escala, bascas. A presença do basco na região deve-se, sem dúvida, à transumância, pois é o local para onde os pastores dos vales de Roncal e de Salazar, áreas onde o basco foi usado até ao século XX, levavam os seus rebanhos no inverno. Nomes como Landazuría (de landa [terra de trabalho] e zuria [branco]), Belcho (de beltza [preto]) ou Pisquerra são claramente de origem basca inconfundível. Muitos dos nomes usados em Bardenas para referir diferentes partes ou lugares vêm de personagens que tiveram alguma relevância. É comum que os locais onde se localizou, ou se localizou, curral ou barraca sejam nomeados com o nome ou alcunha do seu construtor ou usufrutuário e que este se estenda ao território vizinho. Alguns dos nomes nas Bardenas são: Blanca, Plano, Landazuría, Trilluelos, Cornialto, La Estroza, Cabezo Lobo, Cabezo del Águila, Caldero, Pisquerra, Cortinas, Tres Hermanos, Belcho, Cruceta, Angarillones, Rallón, Ralla, Rincón del Bú, Balcón de Pilatos, Alfarillo, Bandera, Tres Montes, Cabezo Mocho, el Abejar, Negra y sus Caídas e Omias ou Umbrías.
As Bardenas Reales é um território situado na zona sudeste de Navarra, na fronteira com Aragão, na zona média da depressão do vale do Ebro, perto da serra do Yugo e da comarca de Cinco Villas da província de Saragoça. A região situa-se num ponto equidistante entre as cordilheiras dos Pirenéus e do Sistema Ibérico. As Bardenas Reales de Navarra propriamente ditas estendem-se por 45 km na direção norte-sul e 24 km na direção leste-oeste. A altitude varia entre 280 e 659 m acima do nível do mar. Do ponto de vista paisagístico, o espaço tradicionalmente conhecido como Bardenas é maior do que o delimitado com o nome de Bardenas Reales de Navarra, pois também abrange áreas de Aragão. Os solos são compostos por argilas, gipsites e arenitos que foram erodidos por água e vento, criando formas surpreendentes, entre as quais se destacam as ravinas, mesetas de estrutura tabular e colinas solitárias, chamadas localmente cabezos. Nas Bardenas não há centros urbanos, a vegetação é muito escassa e os múltiplos cursos de água que atravessam a região têm um fluxo marcadamente irregular, permanecendo secos durante a maior parte do ano.
Partes das Bardenas
É a parte setentrional das Bardenas. Trata-se de uma meseta que se eleva cerca de 100 metros acima das áreas em volta. Os seus terrenos mais altos são maioritariamente cobertos por culturas de cereais e as encostas estão cobertas por carrasco (Quercus coccifera), alecrim (Salvia Rosmarinus) e ontina (Artemisia herba-alba). A barragem de El Ferial encontra-se em El Plano. Constitui a zona central e mais desértica das Bardenas. O seu relevo caracteriza-se por extensas zonas planas, ravinas profundas no fundo das quais correm ribeiros sazonais e fundos de vales nos quais sobressaem cabezos (colinas solitárias). A zona deve o seu nome à presença de sais esbranquiçados que se espalham pela sua superfície devido à abundância de gipsite e argila no solo. A Bardena Branca está dividida em duas, a Branca Baixa e a Branca Alta. A primeira é a mais desértica e a segunda estende-se desde Pisquerra e Eguarás até Carcastillo.
Clima
O clima das Bardenas é do tipo semiárido frio ou de estepe (Classificação climática de Köppen-Geiger BSk), com precipitações muito escassas, que se concentram sobretudo no outono e são irregulares e torrenciais. Os invernos são moderadamente frios e os verões são muito quentes. As precipitações variam em função da orografia e situam-se os 300 e os 450 mm de média anual. A Bardena Branca e a Landazuría são as zonas com menos precipitação (300 mm por ano), enquanto que a Bardena Negra e a parte que faz fronteira com Aragão chegam aos 400 a 450 mm por ano, números que são ultrapassados na Plana de la Negra. As precipitações são muito irregulares quer ao longo do ano — invernos e verões muito secos, primaveras e outonos com alguma precipitação — quer de ano para ano. Na estação meteorológica de Buñuel, por exemplo, em 1985 registaram-se 186 mm e em 1959 850 mm. O carácter torrencial das precipitações faz com que a água não se infiltre no solo e provoque muita erosão. Em alguns dias do ano — por norma não mais de cinco — cai neve e granizo.
Orografia
O solo das Bardenas é formado por materiais do Terciário e Quaternário continental e está relacionado com as tensões associadas à formação dos Pirenéus e do Sistema Ibérico, que provocaram o afundamento da bacia sedimentar do Ebro que era fechada pelas cordilheiras costeiras catalãs, criando um mar interior que recebia sedimentos provenientes da erosão desde o final do Eoceno. Esses materiais distribuíram-se, ficando os mais pesados (cascalhos e arenitos grossos) na parte superior enquanto os arenitos finos, argilas, gipsites e calcários ocupam as partes baixas da pouco declive, numa organização característica dos depósitos aluviais. Desta forma, na parte central da bacia concentram-se as argilas com calcário e gipsite, enquanto nas bordas se encontram conglomerados e arenitos, todos provenientes das duas serras entre as quais se situa. Estima-se que a espessura dos sedimentos acumulados seja próxima de 4 km. Há cerca de dez milhões de anos, a bacia abriu-se para o Mediterrâneo, esvaziando o mar interior e dando origem ao rio Ebro. Começou o processo de erosão que continua até hoje e moldou a paisagem das Bardenas.
Hidrografia
Os cursos de água são muito irregulares e intermitentes. A natureza do terreno faz com que estas ribeiras tenham escavado desfiladeiros profundos por onde correm. As chuvas escassas e torrenciais e a falta de aquíferos que possam regular o caudal, contribuem para que os cursos de água, que só transportam água quando chove, se afundem, formando uma rede labiríntica que corta as áreas planas. No leito dos cursos de água mais importantes formam-se lagoas ou charcos que geralmente têm água durante todo o ano. As ribeiras (barrancos) mais importantes são: Existem algumas nascentes — Ferial, Agua Salada, Bandera e Gollizo — concentradas nas bordas do El Plano e alimentadas pelo aquífero formado por este planalto. Algumas delas são usadas como bebedouros. Há também algumas nascentes que estão secas durante parte do ano nas
Erosão
A paisagem das Bardenas é marcada pela erosão, a qual criou uma paisagem que é um dos seus principais atrativos. A própria natureza do terreno, os materiais macios como a argila e a gipsite, a característica torrencial da precipitação e cierzo, o vento característico típico do local que sopra no sentido noroeste-noroeste a velocidades entre 20 e 30 km/h, a intervenção humana com uma pressão muito grande sobre o terreno e a vegetação, com uma diminuição muito significativa do coberto vegetal são as principais causas da erosão. O impacto é muito grave em mais de um terço da superfície das Bardenas, que, em alguns locais, atinge 91,9 t/ha por ano.
Vegetação
A situação dos Bardenas tem incentivado a atuação do homem no território para seu aproveitamento. A agricultura desenvolveu-se em todos os locais onde é viável e por isso há poucas áreas onde se mantém a vegetação nativa, nomeadamente nas encostas e áreas de difícil cultivo. A maior parte da massa florestal é representada por carrascais e pinhais. A localização, na grande unidade geomorfológica do vale do Ebro, proporciona um clima mediterrânico e uma grande aridez que condiciona a vegetação e a flora. A maior parte tem um carácter de estepe e mediterrânico onde predominam os elementos típicos do levante espanhol. A intervenção humana e o clima são os principais elementos que originaram a atual situação em termos de vegetação nas Bardenas. A cobertura vegetal vegetal é composta por vegetação silvestre (pastagens naturais, matagais e alguns bosques) e de origem antrópica (terrenos agrícolas e reflorestamento).
Em 1987 foi aprovada a Lei Provincial 6/1987, que iniciou a criação da Rede de Espaços Naturais de Navarra, na qual estão incluídas as Bardenas Reales. Em 6 de abril de 1999, as Bardenas Reales foram declaradas parque natural por lei Foral 10/1999, aprovada pelo Parlamento Foral de Navarra. Estão excluídas de toda a sua extensão as seguintes áreas: Hondo de Espartosa, com 272 ha; Bandera, com 43 ha; Cinco Villas, com 13 hectares e o Campo de Tiro, com 2 244 ha. A motivação da criação do parque natural são as características especiais das Bardenas e a singularidade da sua paisagem, ecossistemas e riqueza natural, mesmo quando a intervenção humana é muito elevada. O parque natural é regido pelo Plano de Ordenamento dos Recursos Naturais de Bardenas, o denominado PORN. Os fins que justificam a declaração de Bardenas Reales como parque natural são os seguintes: Conservação e proteção dos valores da área.
Zonas de proteção
O parque natural está estruturado em diversas zonas de proteção resultantes dum estudo dos seus elementos naturais e dos diferentes usos e explorações que nele ocorrem. Foram criadas nove zonas com base em diferentes objetivos, critérios orientadores e tratamentos regulatórios. Essas áreas são as seguintes: A área da Reserva Natural é composta pelo Rincón del Bú, sinalizado como RN-36, e pelas Caídas de la Negra, sinalizado como RN-37. Estas áreas foram declaradas reserva natural pela Lei Foral 6/1987 e o seu conjunto abrange 1 917 ha (4,6% da área total), 460 ha no Rincón del Bú e 1 470 ha nas Caídas de la Negra. Embora não esteja legalmente incluído nas áreas de reserva natural das Bardenas por ser do município de Valtierra, o Vedado de Eguarás, também é uma reserva natural, sinalizada como RN-31.
Paisagens
Entre as diversas riquezas do parque, a paisagem é uma das mais relevantes. Um dos locais emblemáticos das Bardenas é o Castildetierra, uma chaminé de fada que se destaca na paisagem árida da região. Embora não seja considerado monumento natural, , cumpre integralmente a Lei Foral de Navarra que regula essa classificação por ser uma "formação geológica única em Navarra, singular e de especial interesse pelos seus valores paisagísticos e educativos, servindo de modelo para explicar e fundamentar os elevados processos erosivos existentes em Bardenas".[necessário esclarecer] Estima-se que em condições meteorológicas normais, o Castildetierra exista durante mais cerca de quarenta anos.
As Bardenas tiveram e têm uma relação única com o homem. Ali se desenvolveram diferentes atividades que têm acompanhado o ser humano desde a Pré-história. Dessas atividades destacam-se as seguintes: Às atividades tradicionais que se praticavam nas Bardenas juntaram-se os derivados das possibilidades modernas — o turismo e o desporto têm atraído às terras das Bardenas muitos homens e mulheres que ali passam tempo de lazer e praticam atividades desportivas. Outra presença humana na região são os militares do destacamento que guarda o campo de tiro aéreo.
História
Em 1994, os arqueólogos Jesús Sesma e María Luisa García catalogaram 267 sítios arqueológico nas Bardenas, "dos quais 129 foram ocupados no período proto-histórico e 56 no período histórico" centrando a sua atenção "na Idade do Bronze e na época romana porque são os mais relevantes em achados." A esta abundância de sítios das idades do Bronze e do Ferro, soma-se uma continuidade na época romana, da qual há 41 sítios. Esta descoberta vai contra as teses da historiografia tradicional, a qual considera que a região tinha sido desabitada. Durante a época romana o vale do Ebro foi um dos principais eixos de comunicação na Península Ibérica e as Bardenas situavam-se entre duas cidades importantes — César Augusta (atual Saragoça) e Pompaelo (atual Pamplona).
A Comunidade de Bardenas
A concessão de Filipe V através da Real Cédula de 14 de abril de 1705 constituiu um ponto de inflexão no estatuto jurídico das Bardenas Reales. A partir desse momento, os 22 congozantes adquiriram o usufruto genérico da exploração e uso dos Bardenas, não têm quota ou parte do direito, mas sim uma participação na totalidade dos direitos. Para gerir esse direito foi criada a Comunidade de Congozantes. Antes disso, cada um dos titulares do direito de uso das Bardenas tinha-o na medida concedida pelo rei da época. A Cédula determinou e definiu o número de titulares de direito e o direito estende todos os benefícios a todos eles. A ordenança diz: Em 1820, foram aprovadas as primeiras ordenanças da Comunidade, nas quais se estabelecia uma certa disciplina entre os seus membros, uma junta ou comissão de governo e o início de fundos comuns. As ordenanças foram modificadas em 1836, 1840 e 1961. A comunidade tem jurisdição civil e criminal sobre o território das Bardenas e a sua administração.
Usos das terras
Os usos e exploração das Bardenas variaram ao longo do tempo. Até ao século XIX, a pecuária era a principal atividade económica, passando a ser a agricultura no século XX era a agricultura; no século XX o turismo e as atividades desportivas recreativas surgiram em força. A importância da agricultura nas Bardenas é muito alta, sendo atualmente a atividade mais relevante. A Cédula Real de 1705 já mencionava o direito de semear, embora este só tenha sido introduzido nas Ordenações em 1849. A primeira referência à agricultura data de 1771, mas não dá ideia da superfície semeada. Sabe-se que em 1888 foram semeados 3 232 ha hectares e em 1920 já eram 12 464 ha. A agricultura começou a superar a pecuária em 1915. As modificações feitas no século XX nas ordenanças regulamentaram o uso agrícola do território.
Castelos
A situação das Bardenas, no limite fronteiriço do Reino de Navarra, primeiro com os reinos muçulmanos e depois com os de Castela e de Aragão, levou à construção de castelos no seu território para a defesa de Navarra. Na documentação existente sobre as Bardenas Reales são mencionados vários castelos, dos quais subsistem alguns vestígios. Numa relação de 1515 são indicados quais os castelos que então existiam: Aguilar, La Estaca, Mirapex (ou Mirapeix), Peñaflor, Peñaredonda, Sanchicorrota e Sancho Abarca. Segundo o historiador Juan José Martinena Ruiz, especializado no assunto, afirmou que — "os castelos bardeneros deviam ser muito simples estruturalmente; geralmente reduziam-se a uma torre principal ou atalaia, em torno da qual se erguia um pequeno recinto muralhado, no qual se dispunham por vezes outras torres mais pequenas, de altura reduzida, a que documentação da época chamava "viztorres" ou "torres pequenas" — referindo-se ao caso específico do castelo situado em Portillo de la Bardena, que corresponderia ao que aparece na documentação com o nome de La Estaca.
Ermidas
Não existem ermidas no território das Bardenas propriamente dito, mas sim nas suas vizinhanças. No cimo da serra do Yugo, que confronta com o lado ocidental das Bardenas, ergue-se a ermida da Virgem do Yugo. Data do século XVII e o seu retábulo é de estilo barroco. É o santuário mariano mais importante da região, e sua virgem é conhecida como Virgem Bardenera. Entre 1820 e 1858 foi sede das Juntas Gerais das Bardenas. A sua localização na Bardena Branca proporciona uma vista privilegiada sobre todo o parque natural.
Banditismo
O isolamento das terras das Bardenas fez com que muitas pessoas perseguidas pela justiça se refugiassem ali. O bandido mais famoso é, sem dúvida, Sanchicorrota, cujo verdadeiro nome era Sancho Rota, que viveu no século XV, durante a Guerra Civil de Navarra. A sua influência espalhou-se não só pelas Bardenas, mas por todas as povoações vizinhas. Para acabar com Sanchicorrota, em 1452, o rei de Navarra e Aragão João II reuniu um destacamento de mais mais de duzentos cavaleiros que o cercaram e aniquilaram o bando de Sanchicorrota, mas não conseguiram capturá-lo vivo porque ele suicidou-se ao ver-se cercado. O corpo foi exposto em público nas localidades vizinhas.


