Achigã
O achigã (Micropterus salmoides) é um peixe carnívoro de água doce, pertencente à família Centrarchidae. Nativo do leste e centro dos Estados Unidos, sudeste do Canadá e norte do México, ele foi amplamente introduzido em outras regiões, incluindo Portugal. É um peixe de grande importância cultural nos EUA, sendo símbolo de estados como Geórgia, Mississippi, Flórida e Alabama. No entanto, sua presença fora de seu habitat natural é motivo de preocupação, sendo listado como espécie invasora no Brasil e classificado em 55º lugar na lista das 100 espécies exóticas invasoras mais daninhas do mundo pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).
Pontos-chave
- O achigã é um peixe carnívoro de água doce, nativo da América do Norte, mas introduzido globalmente.
- É um peixe símbolo em diversos estados dos EUA, mas considerado espécie invasora em muitos locais, incluindo o Brasil.
- Pode atingir até 75 cm e 11,4 kg, com fêmeas geralmente maiores que os machos.
- Sua dieta é variada, indo de pequenos peixes e insetos na fase juvenil a anfíbios, répteis, aves e mamíferos na fase adulta.
- A desova ocorre na primavera, com o macho protegendo os ovos e alevinos por semanas.
A palavra "achigã" tem suas raízes no francês canadense "achigan". Este termo, por sua vez, é uma adaptação de palavras indígenas do Canadá, onde os colonos franceses ouviram os nativos se referindo a este peixe.
Imagem: Taryn Michelle Gustafson · BY-NC · Openverse
O achigã apresenta uma coloração que varia do verde-oliva ao cinza esverdeado, com manchas escuras, por vezes pretas, que formam uma faixa horizontal irregular ao longo de seus flancos. Uma característica distintiva é sua mandíbula superior (maxila), que se estende além da margem traseira da órbita ocular. É a maior espécie do gênero Micropterus, podendo alcançar um comprimento máximo registrado de 75 centímetros e um peso não oficial de 11,4 quilos. As fêmeas são geralmente maiores que os machos, evidenciando dimorfismo sexual. A expectativa de vida média na natureza varia de 10 a 16 anos.
Imagem: Taryn Michelle Gustafson · BY-NC · Openverse
A dieta do achigã varia significativamente com a idade. Os juvenis alimentam-se principalmente de pequenos peixes, anfípodes, diplóstracos, copépodes, pequenos camarões e insetos. À medida que crescem, os adultos adotam uma dieta mais diversificada e robusta, incluindo peixes menores (como Lepomis macrochirus, Fundulus diaphanus e vairões), alosíneos, minhocas, caracóis, lagostins, sapos, cobras, salamandras, morcegos e até mesmo pequenas aves aquáticas, mamíferos, filhotes de tartaruga e jacaré. Em corpos d'água maiores, os achigãs adultos preferem águas mais profundas e sua dieta se concentra quase inteiramente em peixes menores, como alosíneos, Perca flavescens, Cisco, catostomídeos, outros ciprinídeos, aterinopsídeos e centrarquídeos (como Lepomis macrochirus e Lepomis cyanellus). Eles também predam juvenis de espécies maiores, como bagre, truta, Sander vitreus, Morone chrysops, Morone saxatilis e outros Micropterus. Entre as espécies de lagostins predadas estão Orconectes difficilis, Orconectes harrisonii, Orconectes hartfieldi e Procambarus clarkii. É notável que as presas podem ter até 50% ou mais do comprimento do corpo do achigã.
O achigã geralmente atinge a maturidade sexual e inicia a desova por volta de um ano de idade. Este processo ocorre na primavera, quando a temperatura da água se mantém acima de 16 °C por um período prolongado. No norte dos Estados Unidos e Canadá, a desova acontece do final de abril ao início de julho. Nos estados do sul, onde espécimes maiores e mais saudáveis são comuns, pode começar em março e geralmente termina em junho. Os machos constroem ninhos no fundo da água, removendo detritos com suas caudas. Esses ninhos costumam ter cerca do dobro do comprimento do macho, embora isso possa variar. Eles preferem fundos de areia, lama ou cascalho, mas também utilizam áreas rochosas ou com vegetação que ofereçam cobertura, como raízes ou galhos. Após preparar o ninho, o macho busca uma fêmea para acasalar. Uma vez encontrada, o casal nada junto ao redor do ninho, liberando óvulos e espermatozoides simultaneamente para que se encontrem no ninho. O achigã desova geralmente duas vezes por primavera, podendo ocorrer três ou quatro vezes, embora seja menos comum. O macho então guarda o ninho até a eclosão dos ovos, que leva de dois a quatro dias no sul dos EUA e norte do México, e um pouco mais no norte de sua área nativa. Dependendo da temperatura da água, o macho permanece com o ninho até que os filhotes estejam aptos a nadar sozinhos, o que pode levar cerca de duas semanas após a eclosão. Após esse período, o macho, a fêmea e os recém-nascidos entram em um modo mais focado na alimentação durante o verão.
O achigã é um peixe muito cobiçado por pescadores, conhecido pela emoção de sua 'luta' vigorosa ao ser fisgado, muitas vezes saltando para fora da água na tentativa de se livrar do anzol. O recorde mundial de maior achigã, reconhecido pela Associação Internacional de Pesca Desportiva (IGFA), é compartilhado por Manabu Kurita e George W. Perry, com um exemplar de 10,12 quilos (22 libras e 5 onças) capturado no Lago Biwa, Japão, em 2 de julho de 2009. A IGFA exige que um novo recorde supere o anterior em pelo menos 2 onças para ser validado. Pescadores utilizam diversas iscas para o achigã, incluindo iscas giratórias, minhocas e outras iscas de plástico, jigs, iscas de manivela e iscas vivas como minhocas e peixinhos. Uma tendência recente é o uso de grandes iscas de natação, especialmente na Califórnia, para atingir achigãs que se alimentam de trutas-arco-íris juvenis. A pesca com mosca também é praticada, usando imitações de insetos de superfície e minhocas. Outras iscas vivas eficazes incluem sapos e lagostins. Grandes Notemigonus crysoleucas são uma isca viva popular, especialmente quando o achigã está menos ativo no calor do verão ou no frio do inverno.
Imagem: Adam Arendell · BY-NC · Openverse
Devido à sua popularidade na pesca esportiva, o achigã foi introduzido em muitas regiões e países fora de seu habitat nativo. Nesses novos ambientes, ele pode causar sérios impactos ecológicos, levando ao declínio, deslocamento ou até extinção de espécies nativas por meio de predação e competição, como observado na Namíbia. É considerado uma espécie invasora na província canadense de Nova Brunsvique e está sob vigilância em grande parte do extremo norte dos Estados Unidos e Canadá. Em águas mais frias, representa uma ameaça para alevinos nativos, como salmão e truta. O achigã também foi associado à extinção do mergulhão-de-atitlan, uma ave aquática que habitava o Lago Atitlã, na Guatemala. Pesquisas de 2011 na Península Ibérica revelaram que juvenis de achigã demonstram plasticidade trófica, ajustando seus hábitos alimentares para garantir a energia necessária à sobrevivência, o que contribui para seu sucesso como espécie invasora em teias alimentares aquáticas estáveis. Similarmente, um estudo no Japão mostrou que a introdução de achigã e Lepomis macrochirus em lagoas agrícolas resultou em um aumento no número de organismos bentônicos, devido à predação de peixes, crustáceos e ninfas pelo achigã. Desde 1996, o achigã tem causado reduções acentuadas nas populações de peixes nativos no Japão, especialmente de Rhodeus no lago Izunuma-Uchinuma.


