Barba-Negra
Edward Teach, mais conhecido como Barba Negra, foi um pirata inglês que navegava nas águas do Caribe e na costa leste das colônias da América. Embora pouco se saiba sobre sua infância, provavelmente nasceu em Bristol, na Inglaterra. Pode ter sido um marinheiro em navios corsários durante a Guerra da Rainha Ana, antes de se estabelecer na ilha caribenha de Nova Providência, local onde Teach reuniu uma tripulação por volta de 1716.
Pouco se sabe sobre os primeiros anos de vida de Barba Negra. Comumente, acredita-se que tenha falecido aos 38 anos, e, portanto, nascido por volta de 1680. Em registros contemporâneos seu nome é frequentemente mostrado como Barba-Negra, Edward Thatch, ou Edward Teach, sendo o último mais utilizado. No entanto, há várias maneiras de escrever seu sobrenome — Thatch, Thach, Thache, Thack, Tack, Thatche e Theach. Uma fonte afirma que no início seu sobrenome era Drummond, mas a falta de qualquer prova torna essa hipótese improvável. Os piratas possuíam o hábito de utilizar sobrenomes fictícios para evitar que o verdadeiro nome de sua família se envolvesse na pirataria, de forma a honrá-lo, e isso faz com que seja pouco provável que Teach seja seu nome verdadeiro. No século XVII, a ascensão das colônias da Grã-Bretanha na América, e no século XVIII, a rápida expansão do comércio de escravos no Atlântico, fez de Bristol um importante porto internacional, e Teach provavelmente viveu no que foi segunda maior cidade da Inglaterra. Certamente sabia ler e escrever, e se comunicava com comerciantes. Quando morto, verificou em sua posse uma carta endereçada para ele pelo Chefe de Justiça e Secretário da Província da Carolina, Tobias Knight. O autor Robert Lee especula que devido a tal fato, Teach pode ter nascido numa família respeitável e rica; podendo ter chegado ao Caribe no final do século XVII em um navio mercante (possivelmente num navio negreiro). O autor do século XVIII Charles Johnson afirma que Teach foi durante algum tempo um marinheiro operando da Jamaica em navios corsários durante a Guerra da Rainha Ana, e tendo "sempre se distinguido por sua ousadia incomum e coragem pessoal". De acordo com os registros antes de sua vida como pirata, no momento em que Teach lutou nessa guerra, era então desconhecido.
No Caribe (local colonialista, mercantil, e de pirataria) ocorreram muitos acidentes marítimos nos séculos XVII e XVIII. No início do século XVIII, o corsário Henry Jennings, que se tornara pirata, e seus seguidores decidiram utilizar a ilha inabitada de Nova Providência como base de suas operações; uma vez que era de fácil acesso ao Estreito da Flórida e rota marítima de navios europeus que atravessavam o Oceano Atlântico. O porto de Nova Providência poderia facilmente alojar centenas de navios, mas era raso demais para que navios de grande porte da Marinha Real Britânica pudessem navegar. Nessa época, a ilha não era destino turístico — o que veio a tornar-se mais tarde —; o autor George Woodbury descreveu-a como "sem cidades com residências, era um lugar de permanência temporária e de descanso para uma população literalmente flutuante", e continuando, "os únicos moradores permanentes foram piratas que acampavam, comerciantes e aproveitadores, todos os outros apenas passavam por lá." A lei e a ordem eram desconhecidas; em Nova Providência os piratas eram bem-vindos. Teach desfrutou dos benefícios da ilha. Provavelmente, logo após a assinatura do Tratado de Utrecht, ele veio da Jamaica para a ilha, e junto da maioria dos corsários envolvidos na guerra, viu-se na pirataria. Possivelmente, a cerca de 1716, se juntou à tripulação do capitão Benjamin Hornigold, um famoso pirata que operava nas águas de Nova Providência. Em 1716, Hornigold colocou Teach no comando de uma chalupa que havia sido tomada, dando-lhe-a como um prêmio. No início de 1717, Hornigold e Teach, cada um no comando de uma chalupa, partiram para o continente. Eles capturaram um barco que transportava cento e vinte barris de farinha vindos de Havana, e, pouco tempo depois, tomaram uma chalupa com cem barris de vinho vindos de Bermudas. Poucos dias após, pararam um navio à vela vindo da Região Autónoma da Madeira com destino à Charleston (Carolina do Sul). Teach e seu intendente, William Howard,[nota 1] podem, nesse momento ter se esforçado para controlar suas tripulações. Até então, eles provavelmente tinham desenvolvido um gosto pelo vinho da Madeira, e em 29 de setembro, próximo à Cape Charles, saquearam apenas o produto de Madeira, deixando que o navio Betty de Virgínia afundasse com a carga restante.
Em 28 de novembro de 1717, os dois navios de Teach atacaram uma embarcação mercante francesa na costa de São Vicente. Cada um deles dispararam ataques violentos, matando vários de seus tripulantes, e forçando o capitão a se render. O navio La Concorde de Saint-Malo era um grande transportador de escravos. Teach e suas tripulações foram com o navio para o sul ao longo de São Vicente e Granadinas com destino à Bequia, onde desembarcou a tripulação e a carga, e ficou com o navio para seu próprio uso. A tripulação do La Concorde recebeu a menor chalupa de Teach, que foi renomeada para Mauvaise Rencontre (Mau Encontro), e viajou para Martinica. Teach pode ter recrutado alguns dos escravos, mas o restante foi deixado na ilha e posteriormente retornaram ao Mauvaise Rencontre. Teach imediatamente renomeou o La Concorde para Queen Anne's Revenge e equipou-o com quarenta canhões. No final de novembro, próximo à São Vicente, ele atacou o navio Great Allen. Depois de um longo período, o grande navio mercante e bem armado foi obrigado a se render. Ordenou que fosse para a costa, desembarcou a tripulação, esvaziou os porões de carga, e então queimou e afundou o navio. O incidente foi publicado no The Boston News-Letter, que descreveu Teach como o comandante de um "navio francês de trinta e dois canhões, um brigantine de dez canhões e uma chalupa de 12 canhões." Quando ou onde Teach conseguiu o brigantine de dez canhões é desconhecido, mas àquela altura devia estar no comando de no mínimo cento e cinquenta homens divididos entre três navios.
As ações de Teach entre o final de 1717 e o início de 1718 não são conhecidos. Ele e Bonnet foram, provavelmente, responsáveis por um ataque ao largo de Santo Eustáquio, em dezembro de 1717. Henry Bostock disse ter ouvido os piratas planejando ir em direção à Baía de Samaná na República Dominicana (território controlado pelos espanhóis), mas uma rápida busca não revelou quaisquer atividades pirata. O capitão Hume do HMS Scarborough informou em 6 de fevereiro, que um "navio pirata de trinta e seis canhões e duzentos e cinquenta homens, e uma chalupa de dez canhões e cem homens estavam cruzando as Ilhas de Sotavento". Hume reforçou sua tripulação armando os soldados com mosquetes e se juntou com o HMS Seaford para perseguir os piratas, sem sucesso. Eles perceberam que as duas embarcações piratas haviam afundado um navio francês ao largo da Ilha de São Cristóvão, e informaram também que na última vez viram-o "indo para o norte do Caribe". Apesar de não haver confirmação se estes dois navios eram controlados por Teach e Bonnet, o autor Angus Konstam acredita que tal fato seja muito provável.
Por maio de 1718, Barba-Negra tinha concebido para si mesmo o posto de comodoro e estava no auge de seu poder. No final do mês, sua frota bloqueou o porto de Charleston (então conhecido como Charles Town) na Carolina do Sul. Todos os navios que entravam ou saíam do porto foram parados, e como a cidade não tinha um navio de guarda, o barco-piloto (embarcação responsável por transportar os pilotos até o navio) foi o primeiro a ser capturado. Nos próximos cinco ou seis dias, cerca de nove navios foram parados e saqueados enquanto tentavam navegar para além dos bancos de areia, onde a frota pirata estava ancorada. Um desses navios, com destino para Londres possuía a bordo um grupo de cidadãos proeminentes de Charleston, incluindo Samuel Wragg (um membro do Conselho da Província de Carolina), era o Crowley. Estes passageiros foram questionados sobre os navios que ainda estavam no porto, e depois foram aprisionados no compartimento de cargas do Crowley. Barba-Negra informou aos prisioneiros que sua tripulação necessitava de medicamentos do governo colonial de Carolina do Sul; e ameaçou que caso o pedido não fosse atendido, todos os reféns seriam executados e suas cabeças enviadas ao governador, além de todos os navios capturados serem queimados.
Enquanto estava em Charleston, Barba-Negra soube que Woodes Rogers tinha deixado a Inglaterra com vários men-of-war, tendo ordens para livrar as Índias Ocidentais de piratas. A frota de Barba-Negra navegou para o norte ao longo da costa do Atlântico em direção ao Estuário de Topsail (comumente conhecido como Estuário de Beaufort), na costa da Carolina do Norte, a fim de carenar seus navios (fazendo a manutenção dos cascos). Todavia, o Queen Anne's Revenge encalhou em um banco de areia, quebrando seu mastro principal e danificando gravemente. O capitão ordenou que várias chalupas jogassem cordas ao redor do navio-almirante na tentativa de libertá-lo. Uma das chalupas, Adventure comandada por Israel Hands também encalhou, e ambos os navios pareciam estar danificados de forma irreversível, partindo a bordo do Revenge e uma chalupa espanhola.[nota 5] Barba-Negra estava ciente de um possível perdão real e confidenciou a probabilidade de aceitar. O perdão foi aberto para todos os piratas que se renderam a 5 de setembro de 1718 ou anterior dessa data, mas continha uma advertência estipulando que seriam inocentados apenas de crimes cometidos antes de 5 de janeiro. Embora, na teoria, Bonnet e Teach pudessem ser enforcados pelas ações em Charleston, a maioria das autoridades poderiam conceder. Barba-Negra pensou que o governador Charles Eden era um homem no qual ele poderia confiar, entretanto, para que pudesse ter certeza, esperou para ver o que iria acontecer com outro capitão. Bonnet partiu imediatamente em um pequeno barco à vela[nota 6] para Bath Town, onde se rendeu ao governador Eden e recebeu o perdão. Bonnet viajou de volta para o Estuário de Beaufort com o objetivo de buscar seu navio Vingança e o restante da tripulação para navegar até a ilha de São Tomás e receber uma comissão. Infelizmente, Barba-Negra tinha despido o navio de seus objetos de valor e de provisões, abandonado a tripulação em um local inabitado. Enraivado, Bonnet decidiu se vingar de Teach, mas não consegue encontrá-lo. Ele e sua tripulação voltaram para a pirataria e foram capturados em 27 de setembro de 1718, na foz do rio Cape Fear. Todos com exceção de quatro deles foram julgados e enforcados em Charleston.[nota 7]
Antes de embarcar para o norte em sua chalupa restante para o Estuário de Ocracoke, Barba-Negra abandonou cerca de vinte e cinco homens em uma pequena ilha de areia a cerca de uma légua do continente. Ele pode ter feito isso para reprimir qualquer protesto para o acaso de eles adivinhassem os planos de seu capitão. Bonnet resgatou-os dois dias depois. Teach continuou em Bath, onde em junho de 1718 — apenas dias após Bonnet receber o perdão — ele e sua tripulação muito reduzida recebeu o perdão do governador Eden. Estabeleceu-se em Bath, no lado leste de Bath Creek (riacho), próximo da casa de Eden. Durante julho e agosto, viajou entre o porto da cidade com sua chalupa para fora de Ocracoke. Johnson afirma que Teach se casou com sua décima quarta esposa, uma filha de dezesseis anos dum fazendeiro local, embora não haja provas para isso. Neste momento, pode ter desfrutado de um período de celebridade sendo convidado para contar as histórias de suas proezas para os habitantes da região. Eden permitiu-lhe navegar para São Tomás numa comissão como corsário (uma maneira útil de remover piratas entediados e problemáticos do pequeno povoado), e à Teach foi dado o nome oficial de sua chalupa restante, renomeada Adventure. Até o final de agosto, retornou à pirataria, e no mesmo mês o governador da Pensilvânia William Keith emitiu um mandado de prisão contra ele, mas o pirata provavelmente estava operando na Baía de Delaware. Sabendo que poderia ser reconhecido, navegou em direção à Bermudas, vendo no caminho a oportunidade para saquear vários navios, mas estes apenas pagaram provisões. Ao cruzar com dois navios franceses que saíam do Caribe, viu uma nova oportunidade para realizar um saque. Um deles estava carregado de açúcar e cacau, enquanto o outro estava vazio; Barba-Negra colocou toda a tripulação no navio vazio e conduziu o navio carregado para a Carolina do Norte. Em setembro, o pirata entregou a embarcação para Eden argumentando ter encontrado o navio francês flutuando no mar sem tripulação. O Tribunal do Vice-Almirantado foi rapidamente convocado para um julgamento presidido por Tobias Knight, dando-o como abandonado e encontrado no mar, e sua carga de vinte barris de açúcar foram concedidos a Knight e sessenta barris para Eden; Teach e sua tripulação receberam o que restou no porão do navio.
Barba-Negra passou por várias colônias vizinhas; as notícias sobre Teach e Vane preocuparam o governador da Pensilvânia, o suficiente para mandar duas chalupas capturarem os piratas. Eles não foram bem sucedidos, mas o governador da Virgínia Alexander Spotswood também estava preocupado que o pirata supostamente aposentado e sua tripulação estivessem vivendo na colônia vizinha da Carolina do Norte. Alguns ex-marujos do Barba-Negra já tinham se mudado em várias cidades portuárias da Virgínia, levando Spotswood a emitir uma proclamação de 10 de julho de 1718, no qual exigiu que todos os ex-piratas se apresentassem às autoridades desistindo das armas e não viajando em grupos maiores do que três pessoas. Como chefe de uma Colônia da coroa, Spotswood via a Carolina do Norte com desprezo, tendo pouca esperança na capacidade destes em controlar os piratas, cujos suspeitava que tinham voltado aos velhos hábitos, interrompendo o comércio da Virgínia no momento em que as riquezas deles acabaram.
Maynard encontrou os piratas ancorados na Ilha de Ocracoke na noite de 21 de novembro. O tenente verificou a posição dos seus navios, mas não se familiarizou com os canais locais e os bancos de areia, decidindo esperar até na manhã seguinte para fazer o seu ataque. Proibiu qualquer circulação de navios, de forma a evitar que alguém avisasse sobre a sua presença, e colocou um vigia em ambas as chalupas para garantir que Teach não poderia escapar pelo mar. Do outro lado da ilha, Teach estava ocupado em entreter os convidados. Estando Israel Hands em Bath com cerca de vinte e quatro marinheiros do Adventure, Barba-Negra possuía uma tripulação bem reduzida. Johnson (1724) relatou que o pirata tinha "não mais do que vinte e cinco homens a bordo". "Treze brancos e seis negros", foi a quantidade relatada posteriormente por Brand ao Almirantado. "Maldito seja, seu miserável! Quem é você?" O tenente deu-lhe a resposta: "Você pode ver pelas nossas cores que não somos piratas". Barba Negra pediu que aproximasse o barco para que pudesse ver quem era; mas o senhor Maynard assim respondeu: "Eu não posso privar-se do meu barco, mas irei entrar a bordo do seu assim que puder, com minha chalupa." Dito isto, Barba Negra tomou um copo de bebida alcoólica e disse para ele com essas palavras: "Maldito aproveitas minha alma se eu lhe pedir clemência, ou se você fizer isto para mim." Em resposta ao que, o senhor Maynard relatou, ele não esperava clemência do pirata, nem deveria dar-lhe qualquer.
O tenente Maynard permaneceu em Ocracoke por mais alguns dias, fazendo reparos e enterrando os mortos. A pilhagem de Teach — açúcar, cacau, anil e algodão — encontrada "em chalupas de piratas e numa tenda de chalupas de leigos", foi vendida em leilão junto com o açúcar e o algodão encontrados no celeiro de Tobias Knight, por 2 238 libras. O governador Spotswood usou uma parte deste para pagar toda a operação. O prêmio em dinheiro por capturar Teach foi cerca de 400 libras, mas foi dividido entre as tripulações do Lyme e Pearl. Como o capitão Brand e suas tropas não tiveram que lutar por suas vidas, Maynard considerou isso extremamente injusto. Maynard perdeu muito apoio, principalmente quando descobriu-se que ele e sua tripulação tomaram posse de 90 libras dos saques de Teach. As duas tripulações não receberam seu prêmio em dinheiro durante quatro anos subsequentes; e, apesar da bravura de Maynard, este não foi promovido e ficou no esquecimento.


