Avestruz-comum
O avestruz-comum (Struthio camelus) é a maior espécie viva de ave, originária da África. Não voadora, pertence à família Struthionidae e ao gênero Struthio, sendo uma das duas espécies vivas da ordem Struthioniformes, ao lado do avestruz-somali, reconhecido como espécie separada em 2014.
Pontos-chave
- O avestruz-comum é a maior ave viva, não voadora e nativa da África.
- Seu nome científico, Struthio camelus, faz referência ao seu habitat seco, similar ao de camelos.
- Possui um esterno plano, sem quilha, e apenas dois dedos nas patas, uma característica única entre as aves.
- Apresenta dimorfismo sexual, com machos pretos e fêmeas cinzas na idade adulta.
- O mito de 'enfiar a cabeça na areia' é falso; eles fogem ou se defendem com coices poderosos.
O termo 'avestruz' deriva do latim 'avis struthio', onde 'avis' significa ave e 'struthio' era usado pelos gregos para pardais e avestruzes. A espécie foi descrita cientificamente por Carolus Linnaeus no século XVIII como 'Struthio camelus', nome ainda aceito. O epíteto 'camelus' (camelo) alude ao seu habitat árido.
O avestruz, como outras aves estrutioniformes, possui um esterno plano, sem quilha esternal, o que lhe confere o nome de Ratita (do latim 'ratis', jangada). Sua cintura escapular é completa, com uma forte fusão entre o coracoide e a clavícula. As asas, grandes para uma ave corredora, não permitem o voo devido ao peso, mas auxiliam no cortejo, sombra e equilíbrio na corrida. É a única ave recente com garras em todos os três dedos das asas, e em todos os três dedos das patas.
Avestruzes pesam entre 90 e 130 kg, podendo machos atingir 155 kg. Machos adultos medem de 1,8 m a 2,7 m de altura, e fêmeas, de 1,7 m a 2 m. Crescem cerca de 25 cm por mês no primeiro ano, pesando 45 kg em um ano. Apresentam dimorfismo sexual após um ano e meio: machos têm plumagem preta com pontas das asas brancas, enquanto fêmeas são cinzas. As penas são macias e isolantes térmicos. Possuem duas garras em dois dedos das asas e são as únicas aves com apenas dois dedos em cada pata, sendo um deles com unha e o maior lembrando um casco. Suas pernas são fortes e sem penas. O aparelho digestivo é similar ao de ruminantes, e seus olhos, os maiores entre as aves terrestres, são maiores que o cérebro.
A distribuição natural do avestruz-comum abrange o leste e sul da África, estando extinto na Península Arábica, Ásia Ocidental e Norte da África, com uma pequena reintrodução no Marrocos. Habitam paisagens abertas como savanas e desertos, preferindo locais com capim baixo e árvores não muito altas, evitando vegetação densa que dificulta a locomoção e visão. Não necessitam de acesso direto à água, obtendo-a dos alimentos, e suportam longos períodos de seca. Foram introduzidos na Austrália em 1869 para a indústria de penas, formando populações ferais que, após um pico, declinaram e desapareceram em muitas áreas até meados do século XX, com um pequeno contingente remanescente na década de 1970 que foi drasticamente reduzido por uma seca.
Atualmente, quatro subespécies de avestruz-comum são reconhecidas. Em 2016, um fóssil de ave de 50 milhões de anos foi descoberto, representando uma nova espécie e um parente desconhecido do avestruz.
Avestruzes são diurnos, com maior atividade no crepúsculo. Em escassez de alimento, realizam longas deslocações, suportando o sol do meio-dia. À noite, descansam com o pescoço ereto ou o apoiam no dorso/chão em sono profundo. Fora da reprodução, vivem em bandos frouxos de 2 a 5 indivíduos, podendo chegar a centenas em torno de poços no deserto. A coesão é baixa, com membros entrando e saindo livremente. Há hierarquias claras, resolvidas por vocalizações e posturas de ameaça. Na época reprodutiva, os bandos se desfazem e machos formam haréns.
Alimentação: Dieta Herbívora e Gastrolitos
Avestruzes são predominantemente herbívoros, consumindo grãos, gramíneas, ervas, folhas, flores e frutos. Ocasionalmente, complementam a dieta com insetos como lagartas e gafanhotos. Preferem alimentos apanhados no solo. Possuem alta eficiência digestiva, com intestino de ~14 m e moela que comporta até 1.300 g de alimento. Engolem areia e pedras (gastrolitos) para triturar a comida, e podem bicar pequenos objetos com efeito similar; já foram encontrados moedas e pregos em suas moelas. Materiais para digestão podem compor até 45% do conteúdo da moela.
Predadores: Estratégias de Defesa e Vigilância
Os principais predadores do avestruz são leões, leopardos e guepardos. A vida em grupo aumenta a vigilância, reduz o risco individual e permite mais tempo para alimentação. Em savanas, frequentemente acompanham manadas de zebras e gazelas, que também atuam na vigilância contra os mesmos carnívoros.
Avestruzes podem ser afetados por diversos parasitas. Protozoários intestinais incluem Balantidium coli, criptosporídios, coccídios (Eimeria e Isospora), Entamoeba spp., Tetratrichomonas spp., Pleuromonas spp. e Giardia intestinalis. Histomonas meleagridis afeta o fígado, espécies de Trichomonas o esôfago, Toxoplasma gondii o sistema nervoso central, e Leucocytozoon struthionis e Plasmodium struthionis são hemoparasitas. Helmintos como o trematódeo Philophthalmus gralli parasitam o olho, e o cestódeo Houttuynia struthionis o intestino delgado. Diversos nematódeos também são descritos, como 'vermes-cabelo' (Libyostrongylus spp.), Cyrnea colini e Codiostomum struthionis no trato digestório. Dicheilonema rheae é subcutâneo, o verme da traqueia e Paranchocerca struthiononus atacam o sistema respiratório, e Struthiofilaria megalocephala ocorre na cavidade corporal. Larvas de Baylisascaris podem atingir o cérebro.
O ditado popular de que o avestruz 'enfia a cabeça na areia' ao sentir perigo é um mito. Na realidade, eles geralmente fogem correndo, pois são muito rápidos, ou se defendem com chutes poderosos, capazes de matar um leão ou um humano. A lenda pode ter surgido porque fêmeas e machos em incubação, ao perceberem um predador, deitam-se com pescoço e cabeça estendidos no chão, fazendo com que o pescoço raso 'desapareça' visto de longe. Outra hipótese é a ilusão de ótica causada pelo ar quente e tremulante do deserto, que faz a cabeça de um avestruz pastando parecer 'sumir' para um observador distante.
Avestruzes vivem em grupos nômades de 5 a 50 aves, frequentemente acompanhando ruminantes como zebras e antílopes. São monogástricos. Percorrem longas distâncias em busca de sementes e vegetais, sendo seminômades, e ocasionalmente comem insetos como gafanhotos. Não possuem dentes, por isso engolem pedrinhas (gastrolitos) para auxiliar na trituração dos alimentos no papo. Podem sobreviver longos períodos sem água, obtendo-a da umidade das plantas, mas apreciam a água e tomam banhos. Sua visão e audição aguçadas permitem detectar predadores a grandes distâncias. O mito de esconder a cabeça na areia é refutado por observações e pela lógica da sobrevivência; ele pode ter origem na forma como se alimentam (parecendo enterrar a cabeça ao bicar o chão para engolir areia/pedras) ou quando se deitam com a cabeça e pescoço rentes ao chão para se esconder. Quando ameaçados, fogem ou usam suas poderosas pernas para coices defensivos.
Avestruzes atingem a maturidade sexual entre 2 e 4 anos (fêmeas amadurecem 6 meses antes). São iteróparos, com a estação de acasalamento de março/abril a setembro. Machos usam assobios e sons para disputar haréns de 2 a 5 fêmeas. O macho vencedor cruza com todas as fêmeas, mas forma um vínculo com a fêmea dominante. A cópula ocorre com a fêmea abaixada. São ovíparos; as fêmeas depositam ovos fertilizados em um único ninho comunitário, um buraco de 30 a 60 cm de profundidade. Ovos de avestruz pesam 1,4 kg, são os maiores de uma espécie viva (e as maiores células únicas), mas os menores em relação ao tamanho da ave. O ninho pode conter de 15 a 60 ovos, com média de 15 cm de comprimento e 12 cm de largura. São esbranquiçados e brilhantes. A incubação é feita pelas fêmeas de dia e pelos machos à noite, aproveitando suas cores para camuflagem. O período de gestação é de 35 a 45 dias. Após a eclosão, o macho cria os filhotes sozinho.
Território, Corte, Cópula e Postura
A época reprodutiva varia geograficamente: nas savanas, de junho a outubro (estação seca); em áreas áridas, pode ser o ano todo. Machos tornam-se territoriais, defendendo áreas de 2 a 15 km² (menores em locais mais férteis) com vocalizações e patrulhamento. Expulsam outros machos com exibições de ameaça e cortejam fêmeas. Embora existam pares monogâmicos, é comum um macho ter um harém. Uma fêmea principal, que pode permanecer com o macho por anos, detém um território próprio de até 26 km², além de várias fêmeas subordinadas, geralmente mais jovens.
Incubação e Cuidado dos Filhotes
No final, apenas o par efetivo permanece no ninho e divide a incubação. Como um adulto cobre no máximo 20 ovos, a fêmea principal remove o excedente posto pelas subordinadas. Seus próprios ovos são colocados no centro, reconhecidos por tamanho e peso. Geralmente, há espaço para 10-15 ovos de subordinadas, que também são incubados. Esse comportamento beneficia ambas as partes, pois os ovos periféricos (geralmente de subordinadas) são os mais atingidos por predadores, protegendo os da fêmea principal. A fêmea incuba de dia e o macho à noite. Muitos predadores, como chacais, hienas e abutres-do-egito, tentam afugentar os adultos para alcançar os ovos. Apenas cerca de 10% das posturas é incubada com sucesso.


