Augusto Ruschi
Augusto Ruschi foi um agrônomo, ecologista e naturalista brasileiro. Recebeu o título de Patrono da Ecologia no Brasil, por lei federal de 1994, sendo também um dos ícones mundiais da proteção ao meio ambiente.
Família
Sua vida é mal documentada e tem muitos fatos confirmados somente pelo próprio cientista. Augusto Ruschi nasceu em uma família de imigrantes italianos, sendo o oitavo dos doze filhos de Giuseppe Ruschi e Maria Roatti. Seu pai, natural de Montescudaio, na região de Pisa, era engenheiro agrônomo, trabalhava na topografia e construção, e migrara para o Brasil em 1894 contratado pelo governo para organizar a colonização de Palmeira, no Paraná. Depois fixou-se em Santa Teresa, no Espírito Santo, realizando medições topográficas e coletando impostos. Ali Giuseppe conheceu sua futura esposa. Os Ruschi são uma família de grande antiguidade, alegadamente remontando aos tempos de Nero, quando um certo Ruscus teria servido como secretário do imperador romano e dado origem ao nome familiar. Foram enobrecidos na Idade Média, e vários de seus membros se notabilizaram no estudo científico e no trabalho com plantas. Augusto Ruschi casou duas vezes: primeiro com Claide, com quem teve dois filhos, Augusto Filho e André, em segundas núpcias uniu-se a Marilande, com quem foi pai de Piero.
Primeiros anos
Em entrevista, Ruschi relatou que desde pequeno tinha forte interesse pela natureza, fazendo sua primeira exploração aos seis anos, quando, segundo ele, passou um dia inteiro na área que rodeava sua casa, admirando a flora e a fauna local, e imaginando um dia viver num lugar como aquele, cheio de pássaros e flores. Embrenhava-se nas matas para buscar o conhecimento que desejava, e logo se entendeu um habilidoso naturalista, apesar da contrariedade que suas andanças causavam nos pais. Recebeu uma instrução elementar no internato do Seminário Capuchinho de Santa Teresa, onde foi alfabetizado por Jacinto de Paula. Entusiasmava-se cuidando dos jardins, e distraía-se nas aulas brincando com insetos que guardava em caixas de fósforo e pequenos vidros. Continuou seus estudos primários no Colégio Ítalo-Brasileiro, e com dez anos passou a residir em Vitória, onde pôde frequentar um colégio melhor, o Ginásio Espiritosantense. Lá teve como mestra a pesquisadora Maria Estela de Novaes, que incentivou sua inclinação para as ciências naturais.
Pesquisador e ambientalista
Sua primeira paixão foram as orquídeas. Explorou mais de mil quilômetros quadrados de mata descrevendo, catalogando e classificando milhares de espécies. Teria publicado seu primeiro trabalho científico com quinze anos, um relato sobre a descoberta de dois novos gêneros e cerca de dezenove novas espécies de orquídeas, escrito em latim e com uma metodologia inovadora. Aos dezessete anos passou a trabalhar regularmente para o Museu como coletor de espécimens, frequentando também seminários e palestras no Rio, e aos dezenove anos voltou-se para os beija-flores, quando descobriu que algumas espécies eram responsáveis pela polinização de orquídeas, numa época em que estas aves eram pouco conhecidas pela ciência, tornando-se um dos pioneiros na matéria e ganhando reconhecimento mundial. Como em seu tempo ainda não havia o curso de Biologia, ingressou em 1936 na faculdade de Agronomia de Viçosa, terminando o curso em Campos.
Últimos anos
Em 1985, já fragilizado por várias malárias e esquistossomoses que contraiu durante as pesquisas de campo, tornou-se ainda mais frágil como efeito da hepatite C que o acometia. Mal podia caminhar, desenvolveu uma hérnia ao fazer um pequeno esforço, e o antigo envenenamento pelos sapos também cobrava tributo de sua saúde. No dia 23 de janeiro de 1986 reuniu-se com índios no Parque da Cidade, no Rio de Janeiro, para um ritual de purificação e cura dirigido pelo cacique Raoni e o pajé Sapaim, após diversos tratamentos médicos convencionais. A pajelança durou três dias e virou manchete em rádios e jornais de todo o país durante uma semana, sendo noticiada também no exterior. Após o tratamento os indígenas o deram como curado, e de fato o paciente sentira-se bem desde o primeiro dia, cessando as hemorragias, as tonturas e as dores.
Augusto Ruschi foi um viajante incansável, sempre em busca de novos conhecimentos em regiões tão distantes como a Patagônia e o Alasca; manteve contínuo e relevante intercâmbio com instituições científicas e pesquisadores de todo o mundo, deu inúmeras conferências pelo Brasil e no estrangeiro, e fundou duas instituições científicas, a Estação de Biologia Marinha Ruschi e o Museu de Biologia Professor Mello Leitão, cujo acervo ornitológico é o maior do estado, além de fundar também o Boletim do Museu de Biologia Professor Mello Leitão. Deixou enorme produção escrita, com cerca de 450 artigos e mais de vinte livros científicos publicados, que constituem uma das maiores documentações existentes sobre a Mata Atlântica e os beija-flores, na qual Aves do Brasil talvez seja o título mais conhecido, mas, segundo Simon, Beija-flores do Estado do Espírito Santo é o mais importante. Também reuniu vasta coleção de fotografias e produziu pessoalmente milhares de desenhos para ilustração de seus trabalhos. Concebeu e realizou diversos projetos para instituições zoobotânicas internacionais, como o Parque Nacional del Este, na Venezuela, e os zoos de Washington, San Diego e Filadélfia, nos Estados Unidos.
Apesar do prestígio de Ruschi como cientista, recentemente seus trabalhos vêm sendo objeto de várias críticas, principalmente em relação à sua metodologia e algumas de suas conclusões, embora em geral não se negue sua grande importância como ambientalista e como pioneiro em muitas áreas da ciência, deixando muitas contribuições seminais para o estudo da natureza. Numa publicação da Universidade do Sul de Santa Catarina, José Fernando Pacheco e Claudia Bauer, em estudo de caso, apontaram graves inconsistências e erros no trabalho Lista de Aves do Espírito Santo. Primeiro citaram a ausência de fontes bibliográficas e contradições, mas, mais importante, alegaram que a obra foi fruto de fraude, tendo o autor manipulado vários dados e usado, sem declarar, obras de outros ornitólogos. Sobre os erros e a questão das referências, foram feitas as ressalvas de que erros podem ocorrer em qualquer trabalho, ainda mais em se tratando de obras pioneiras como as dele, e que a apresentação das fontes em trabalhos científicos não havia, na época da publicação, ainda sido adotada generalizadamente como prática obrigatória pela comunidade científica. Porém, para os críticos, esse problema afeta mesmo suas obras posteriores. Sobre a manipulação de dados, apoiaram-se em suas próprias investigações e em críticas de outros pesquisadores, como Hinkelmann, Stiles, Pacheco, Sick, Bauer e Vanzolini. Na conclusão, disseram: "O estudo de caso aqui apresentado, conquanto indicativo de fraude, fornece razões suficientes para que todos os demais trabalhos faunísticos produzidos por Augusto Ruschi sejam colocados ad summa em suspeição". As mesmas acusações foram levantadas por Edwin Willis, em estudo publicado na revista Ornitologia Tropical:
Foi presidente da Comissão de Reestruturação do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, da Comissão da Floresta Atlântica, e do Conselho de Cultura do Estado do Espírito Santo. Professor Titular da Universidade do Brasil. Foi membro fundador, honorário, correspondente ou efetivo de várias sociedades científicas do Brasil e do mundo. Em 1979 foi objeto de um documentário dirigido por Orlando Bonfim Netto e já foi biografado por Sandra Daniel, Luiz Carlos Biasutti e Rogério Medeiros. Seu nome foi atribuído a diversas instituições científicas, entre elas a Reserva Biológica Augusto Ruschi ao Parque Florestal Augusto Ruschi, ambos em Santa Teresa, à Reserva Ecológica Augusto Ruschi, em São José dos Campos o Parque Municipal Augusto Ruschi em Vitória, a Estação de Biologia Marinha Ruschi em Aracruz, o Museu Zoobotânico Augusto Ruschi, e identifica várias espécies de plantas e animais, entre elas o rato Abrawayaomys ruschii, a begônia Begonia ruschii, Mollinedia ruschii e a rã Dendropsophus ruschii.


