John Keith Irwin
John Keith Irwin foi um sociólogo e criminólogo norte-americano reconhecido internacionalmente pela sua luta em prol da reforma do sistema prisional. Ele ajudou a criar diversos projetos que visavam a inclusão e reabilitação de ex-penitenciários. Publicou dezenas de artigos acadêmicos e sete livros, nos quais analisa minuciosamente a justiça criminal.
John Irwin nasceu em 21 de maio de 1929 em San Fernando Valley (Los Angeles, California), durante o que ficou conhecida como a “Grande Depressão”, e foi criado em uma família de classe-média. Seu pai, Roy Irwin, vendia seguros e tinha uma loja de doces, enquanto sua mãe, Eloise Irwin, cuidava de casa. Quando jovem, não demonstrava interesse nos estudos e na adolescência ficou fascinado com o que denominou "a vida de ser um fora da lei”.
O "fora da lei"
Em 1952, aos 23 anos, Irwin roubou um posto de gasolina e acabou preso por assalto a mão armada. Cumpriu pena de cinco anos e ao sair da prisão “Soledad Correctional Training Facility" (1957), em liberdade condicional, teve a opção de costume: cometer mais um crime, ou refazer sua vida. Ele, então, escolheu renascer.
A nova vida
Perturbado com o que viu na prisão, Irwin decidiu dedicar sua vida a melhorar a sorte dos condenados, combatendo o que chamou de “ um sistema injusto que prefere condenar os pobres a longas penas de prisão, em vez de encontrar alternativas de reabilitação”. Ao longo do meio século que se seguiu, o sociólogo se tornou um dos principais defensores da reforma compassiva do sistema prisional. Ao sair da cadeia, frequentou a San Francisco State University (SFSU) e, em 1961, conquistou um diploma de bacharel em sociologia na Universidade da Califórnia (UCLA - University of California, Los Angeles). Obteve seu doutorado na Universidade de Berkeley (UC Berkeley), em 1968. Foi também professor titular de sociologia e criminologia na própria SFSU, onde deu aulas até se aposentar, em 1994.
O acadêmico
Ao longo de sua carreira Irwin combinou uma paixão pela erudição com engajamento pela justiça social. O autor de seis livros conceituados, em que analisa as instituições do sistema de justiça criminal, teve como foco principal de suas obras, análises convincentes da interação entre a estrutura do sistema de justiça e os indivíduos processados através esse sistema. Em muitos aspectos, a abordagem de Irwin foi baseada em sua própria experiência da vida como condenado, o que pode claramente ser percebido em seus trabalhos acadêmicos. Assim, seus principais temas, foram desenvolvidos de forma a explorar a cultura do condenado, as condições de confinamento, a criação, mesmo que não intencional, da subclasse do “criminoso” nos Estados Unidos, bem como, a perspectiva dos próprios condenados sobre a forma como eles são tratados. Em seu primeiro livro, chamado "The Felon", Irwin realizou um exame do comportamento do chamado “criminoso de carreira”, o qual se tornou um clássico instantâneo no campo da criminologia quando publicado em 1970.
A luta
Com o tempo que passou na prisão, Irwin pode conviver com outros condenados e, aos poucos, se inserir naquele mundo completamente diferente, descobrindo que eles eram acima de tudo, nas suas palavras, "seres humanos normais". Este insight, que não foi apreciado por muitos acadêmicos, passou a guiar todas as suas atividades acadêmicas e políticas. Em 1967, logo após começar a lecionar na universidade, Irwin fundou o“Project Rebound”, um programa que fornece suporte abrangente para ex-presidiários entrarem e se formarem na SFSU. Ao longo dos últimos 40 anos, muitos alunos do projeto foram graduados e obtiveram mestrado e doutorado em várias disciplinas.
Morte
Ele morreu aos 80 anos em sua casa em São Francisco de insuficiência hepática e renal.
The Felon (1970)
Publicado pela primeira vez em 1970, “The Felon” é um livro que nasceu de um estudo de Irwin sobre a liberdade condicional. Desse, acabou se expandindo para abordar toda a “carreira” do criminoso, justamente porque o autor acreditava que as experiências da liberdade condicional eram moldadas para o criminoso desde as orientações que ele adquiria na prisão. Ou seja, as etapas da “carreira” do criminoso são determinadas por significados, definições e entendimentos agregados por ele em etapas anteriores. Além disso, o livro aborda a série de dificuldades impostas ao criminoso de maneira proposital e escondida em seu caminho pelo sistema prisional, com o intuito de atingir a um resultado correcional. A partir dessa percepção, Irwin acreditava que todas essas dificuldades eram produto de uma falha no entendimento das próprias percepções do criminoso. Desse modo, “The Felon” apresenta dois temas centrais, a carreira no sistema prisional e os obstáculos enfrentados pelo criminoso, e três conceitos bastante reiterados ao longo da obra: perspectiva, identidade e sistema comportamental, sendo que este significa o sistema subcultural que molda o comportamento do condenado de maneira rotineira e padronizada.
Prisons in Turmoil
O livro é uma tentativa de entender as prisões atualmente, a partir de uma reconstrução histórica, pautada em três grandes modelos. Há muito tempo, a ideia de prisão girava em torno de penitenciária, cuja finalidade era fazer os prisioneiros refletirem sobre seus pecados para se purificar e transformar. Durante longo período, eram comuns o trabalho forçado e punições corporais, como flagelo ou confinamento em solitárias. Também os quadros de corrupção administrativa eram graves. As reformas humanitárias ligadas às décadas de 1890 a 1920 influenciaram o modelo de prisão, de modo a alterar essa realidade. A fase da Grande Casa sucedeu essas reformas. Isso não implicou o desaparecimento da crueldade e corrupção, pois em muitos Estados, mesmo em alguns em que predominava a Grande Casa, havia resíduos de aplicação de punições corporais e trabalhos forçados. Na maior parte dos estados fora do sul, no entanto, a mudança foi efetiva.
The Jail (1985)
“Combining extensive interviews with his own experience as an inmate, John Irwin constructs a powerfuland graphic description of the big-city jail. Unlike prisons, which incarcerate convicted felons, jails primarily confine arrested persons not yet charged or convicted of any serious crime. Irwin argues that rather than controlling the disreputable, jail disorients and degrades these people, indoctrinating new recruits to the rabble class. In a forceful conclusion, Irwin addresses the issue of jail reform and the matter of social control demanded by society. Reissued more than twenty years after its initial publication with a new foreword by Jonathon Simon, The Jail remains an extraordinary account of the role jails play in America’s crisis of mass incarceration.”
The Warehouse Prison: the disposal of the new dangerous class (2005)
“The Warehouse Prison: the disposal of the new dangerous class” foi um dos últimos livros publicados pelo autor, 6 anos antes de falecer. Após passar 20 anos observando horrorizado o boom da população presidiária, o autor resolveu retornar ao ambiente das prisões para conduzir este estudo, o qual propõe o mesmo que os demais: demonstrar que presidiários são seres humanos que não são assim tratados e mostrar que esse tratamento é desnecessário, injusto e improdutivo. O livro, que conta com relatos de outros penalistas, escritores, ex-detentos, entre outros, trata das prisões contemporâneas chamadas de “warehouse”, que seriam, ao pé da letra, prisões armazém, e as prisões “supermax”, que seriam prisões de segurança máxima; de como os detentos vivem nessas novas prisões e como se saem depois de serem soltos. Tenta também explicar porque os Estados Unidos possuem o maior sistema presidiário do mundo. Assim, examina o papel da punição na sociedade, o desenvolvimento da prisão como primeiro aparelho de resposta penal na sociedade e a história das prisões americanas.
Project Rebound
Em 1967, John Irwin criou o “Project Rebound” como uma forma de matricular as pessoas na San Francisco State University (SFSU) diretamente do sistema prisional. O foco do projeto rapidamente tornou-se “Educação como uma alternativa para o encarceramento” e “Transformar antigos prisioneiros em estudantes”. O programa funciona como uma ligação entre diferentes redes do campus e entre diferentes comunidades pela área de São Francisco. O projeto tem como foco principal adolescentes e jovens, procurando oferece-los oportunidades de empregos, moradia, aconselhamento e contatos com programas provedores de “human service”. Duvidando da função restaurativa da prisão, o “Project Rebound” tem como objetivo oferecer essa possibilidade de restauração com base no lema “each one teach one” (em tradução livre, cada um ensina um).
The Sentencing Project
Os Estados Unidos são o líder mundial em encarceramento – em 2012, o país tinha 2,2 milhões de pessoas presas. Tal tendência resulta, além da superlotação das prisões, em governos estaduais sendo pressionados pelo peso do financiamento de um sistema penal em rápida expansão. Esse é o quadro norte-americano atual, apesar da evidência crescente de que o encarceramento em grande escala não é o meio mais eficaz para se alcançar a segurança pública. Na década de 80, essa realidade não era muito diferente e, nesse contexto, foi criado em 1986 o “Sentencing Project”, com o objeto de lutar por um Sistema de justiça criminal mais justo e eficaz, através da promoção de reformas na política de sentenças, da tentativa de combate às disparidades raciais e, acima de tudo, da procura de alternativas ao encarceramento. Desde seu surgimento até os dias atuais, o projeto se tornou um líder no esforço de trazer à atenção pública os horrores que ocorrem no sistema de justiça criminal, através de fórmulas que incluem a publicação de pesquisas inovadoras, campanhas midiáticas de efeito e políticas estratégicas de reforma.
Convict Criminology
A “Convict Criminology” (algo como “criminologia dos condenados”) é uma nova e controversa escola de criminologia. Como definida pela própria comunidade, a Convict Criminology “representa o trabalho de condenados ou ex-condenados que possuem PhD ou estão a caminho de completar um, além de brilhantes acadêmicos e praticantes que contribuem com uma nova abordagem do crime e de suas formas corretivas” Intelectualmente, a Convict Criminology atual tem origem nos trabalhos de John Irwin – particularmente os livros The Felon (1970), Prisons in Turmoil (1980) e The Jail (1985). Irwin foi aluno de David Matza e Erving Goffman quando completou seu PhD na Universidade de Berkeley e essas experiências o ajudaram a moldar seu trabalho como sociólogo e seu interesse pelas instituições carcerárias. O estigma sempre foi grande, como mantém-se ainda hoje, e inicialmente os criminologistas que já haviam sido prisioneiros deixavam de divulgar tal informação seja por a considerar desimportante, seja por receio da recepção acadêmica. Inicialmente, houve algumas poucas exceções, representadas por Frank Tannenbaum, o pioneiro dos convicts criminologists e posteriormente, John Irwin, com sua despreocupação em esconder sua condição de ex-prisioneiro durante suas pesquisas no interior das prisões.


