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Átila

Átila frequentemente referido como Átila, o Huno, foi rei dos hunos e chefe de uma confederação tribal de hunos e povos germânicos e iranianos, que governou o maior império europeu de seu tempo, cujo território se estendia do sul da atual Alemanha, no oeste, até o rio Ural, no leste; e do mar Báltico, no norte, até o mar Negro, no sul. Durante seu reinado, levou a cabo uma política agressiva de cobrança de tributos e eventualmente de intervenção militar em reinos vizinhos, que viria a torná-lo um dos inimigos mais temidos dos impérios romanos Ocidental e Bizantino.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 14/07/2026
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Fontes escritas e arqueologia

A historiografia sobre Átila e os hunos enfrenta limitações consideráveis, resultantes da confluência de uma série de fatores. Fontes de informação sobre o período anterior a Átila são particularmente raras, pois os hunos não deixaram quaisquer registros na forma escrita e cronistas estrangeiros da época pouco escreveram sobre a sua chegada à Europa, talvez porque estivessem mais preocupados em registrar ameaças mais imediatas.[a] Ademais, o estilo de vida dos hunos, somado à falta de informações precisas a seu respeito, dificulta a produção de conhecimento histórico e arqueológico. Embora fontes sobre os hunos e Átila tenham se tornado mais comuns a partir da década de 420 e, sobretudo, da década de 440, elas foram escritas, em grego e latim, por cronistas pertencentes a povos inimigos dos hunos, e que buscaram demonstrar sua oposição às suas campanhas militares, religião e etnia. Dentre esses testemunhos, apenas fragmentos chegaram até a atualidade, destacando-se trabalhos de autoria de Prisco de Pânio, Próspero da Aquitânia e Idácio de Chaves, e também dois documentos de autoria desconhecida (a Chronica Gallica do ano 452 e a Chronica Gallica do ano 511).

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Origem étnica e familiar

Etimologia

Os hunos foram um grupo nômade da Eurásia, muito provavelmente originário de suas estepes. Mencionados pela primeira vez a leste do rio Volga, eles migraram em direção à Europa Ocidental pelos idos do ano 370 e ali estabeleceram um grande império, subjugando os povos locais e causando grandes ondas de emigração que vieram a se somar a outros grandes movimentos populacionais do período. Sua origem étnica e a de sua língua têm sido objeto de debates há séculos. Na época de seu aparecimento na história ocidental, Amiano Marcelino afirmou que eles seriam originários de uma terra "além do mar de Azov, perto de um oceano gélido", e os descreveu de maneira pejorativa como "prodigiosamente feios", vivendo suas vidas montados a cavalo e alimentando-se de raízes e carnes parcialmente cozidas entre suas coxas e os lombos de seus cavalos. Não muito tempo depois, Jordanes afirmou que o povo huno seria descendente de "espíritos imundos" e "bruxas" de origem gótica, e teria se originado no Pântano Meótico, localizado ao redor do estreito de Querche.

Aparência

Nenhum relato primário da aparência de Átila sobreviveu até a contemporaneidade. A fonte mais antiga de que se tem conhecimento, a respeito de suas feições, é Prisco de Pânio, em um fragmento citado por Jordanes: Átila era senhor de todos os hunos e quase o único governante terrestre das tribos da Cítia; um homem formidável por sua gloriosa fama entre todas as nações. O historiador Prisco, que foi enviado [a ele] em uma embaixada pelo jovem Teodósio, diz isto entre outras coisas: "[...] Ele era um homem nascido no mundo para abalar as nações, o flagelo de todas as terras, que de certa maneira aterrorizou toda a humanidade por meio dos terríveis rumores espalhados a seu respeito no estrangeiro. Era altivo em sua caminhada, revirando os olhos de um lado para o outro, de modo que o poder de seu espírito orgulhoso fosse demonstrado no movimento de seu corpo. Ele certamente era um amante da guerra, porém contido em ação, poderoso em conselhos, gracioso para com suplicantes e indulgente para com aqueles que eram recebidos em sua proteção. Tinha baixa estatura, um peito largo e uma cabeça grande; seus olhos eram pequenos, sua barba fina e salpicada de grisalho; e tinha o nariz achatado e a pele morena, mostrando evidências de sua origem".

Família

É sabido que Átila era filho de Mundíuco, irmão dos reis Octar e Ruga, que juntos governaram os hunos. A diarquia era recorrente entre desse povo, mas os historiadores não sabem ao certo se era ocasional, habitual ou institucional. Sua família era, portanto, de linhagem nobre, mas não está claro se ela constituía uma dinastia real. Mundíuco provavelmente foi um líder dos hunos nos Balcãs, mas sua posição exata é desconhecida. O historiador húngaro István Bóna considera provável que o pai de Bleda e Átila, Mundíuco, tenha reinado antes de Ruga, mas essa informação não é atestada por fontes da época. Outras pesquisas a respeito são inconclusivas, indicando que ele jamais tenha reinado ou tenha reinado brevemente sobre uma parcela dos hunos.

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O Império Huno

Organização do poder

O historiador Prisco, que foi enviado em uma embaixada pelo jovem Teodósio, disse isto entre outras coisas: "Atravessando rios poderosos – Tisia, Tibisia e Dricca – chegamos ao local onde, há muito tempo, Vidigoia, o mais corajoso dos godos, pereceu pela astúcia dos sármatas. A uma distância não muito grande desse local, chegamos ao vilarejo onde morava o rei Átila – um vilarejo, digo, como uma grande cidade na qual encontramos paredes de madeira feitas de tábuas polidas [...]. Lá viam-se refeitórios de grande extensão e pórticos planejados com grande beleza, enquanto o pátio era delimitado por um circuito tão vasto que seu tamanho mostrava que era o palácio real". Esta era a morada de Átila, o rei de todo o mundo bárbaro, e ele a preferia às cidades que capturava.

Estratégia de tributo

Prodigiosos guerreiros e descritos como "mais ferozes que a própria ferocidade", as principais técnicas militares dos hunos envolviam o uso do arco e flecha e de javelinas enquanto montados a cavalo. Inicialmente esse povo vivia como "pastores guerreiros", mas, conforme foram abandonando o nomadismo, gradualmente tornaram-se "mestres das populações camponesas". Assim como alguns povos germânicos e os sármatas, os hunos consideravam mais simples submeter outros povos ao seu poder e fazê-los trabalhar e pagar tributo. Por esse motivo, desde a Antiguidade frequentemente historiadores descrevem-nos como uma "sociedade de predadores". De fato, devido a um meio de vida semi-nômade e muitas vezes precário, os hunos dependiam dos recursos das sociedades sedentárias para manter seu poderio, e isso resultava em uma situação de "conflito endêmico". Assim, para manter seu padrão de vida e a lealdade de seus aliados, os hunos, cada vez mais poderosos, passaram a exigir tributos de seus vizinhos mais ricos, os romanos e os persas sassânidas. Quando estes recusavam-se a pagar, os hunos lançavam ataques que produziam valores equivalentes ou maiores em pilhagem, além de enorme destruição. Galvanizados por seu sucesso, os aristocratas hunos tornaram-se cada vez mais gananciosos: para legitimar seu poder, Átila devia aumentar a riqueza de seus pares, e isso incluía imperativamente manter os estados vizinhos sob pressão. Ciente disso, ele buscou fazer cumprir suas reivindicações a todo custo, da diplomacia à intimidação e subjugação.

Relações iniciais com o Império Romano

Embora os hunos fossem indiretamente a fonte dos problemas dos romanos, visto que eram responsáveis por boa parte das migrações que os romanos encaravam como "invasões bárbaras", as relações entre os dois impérios eram relativamente cordiais. Frequentemente os romanos usavam os hunos como mercenários em seus conflitos com povos germânicos e em suas guerras civis e, por exemplo, em 425 o usurpador romano João recrutou milhares de hunos como mercenários contra Valentiniano III. Os impérios huno e romano trocaram missões diplomáticas e reféns, e essa aliança durou de 401 a 450, permitindo aos romanos obter muitos sucessos militares. Contudo, essas relações não eram isentas de perturbações. Mesmo que limitados em escopo, repetidas vezes os hunos realizaram ataques militares em território romano, normalmente buscando cobrar o pagamento ou aumentar o valor dos tributos anteriormente combinados. Diversas embaixadas romanas enviadas aos hunos são documentadas em fontes do período, como a de Olimpiodoro de Tebas, em 412, e a de Prisco, em 449, e relatos da época deixam claro que tensões não eram incomuns.

Religião

As crenças tinham um lugar importante no mundo dos hunos, mas a religião de Átila permanece pouco conhecida. Muitos de seus súditos germânicos eram cristãos arianos, mas parece que os hunos e Átila praticavam uma religião tradicional politeísta e animista, possivelmente o Tengriismo, com xamãs gozando de grande importância social. Esses xamãs praticavam divinação por escapulomancia, uma prática típica de pastores nômades turco-mongóis, e desempenhavam um papel importante na vida familiar de Átila, recomendando em quais de seus filhos confiar e influenciando suas decisões nas batalhas. Em relação às suas convicções e culto, os historiadores atuais divergem em vários pontos importantes. Katalin Escher e Yaroslav Lebedynsky afirmam que ele acreditava em seu destino providencial e em seu carisma sobrenatural, assim "como tantos outros líderes militares". Igualmente, Michel Rouche acredita que Átila via-se como um deus e deduziu, a partir de grandes caldeirões de bronze hunos encontrados por arqueólogos, que Átila praticava um "canibalismo sagrado", fazendo sacrifícios humanos e bebendo sangue humano. Edina Bozoky rejeita totalmente as afirmações de Rouche, afirmando que não existem depoimentos ou vestígios que suportem essas conclusões, que seriam baseadas em comparações anacrônicas com outros povos. Independentemente dessa questão, é certo que Átila usava sua religião para fins políticos. Assim, durante seu reinado ele afirmou ter recebido uma espada sagrada do deus da guerra, ciente de que se tratava de um símbolo supremo de legitimidade que lhe permitiria justificar um reinado que colocaria seu povo em um estado de guerra permanente.

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Biografia

Em sua capital, Átila passou a planejar um novo ataque a Constantinopla, a fim de exigir o tributo que o imperador Marciano havia deixado de lhe pagar. Contudo, no início de 453 o rei huno morreu inesperadamente. O relato mais antigo desse evento é atribuído a Prisco, segundo o qual Átila sofreu um sangramento nasal severo e sufocou até à morte, depois de uma noite bebendo após a celebração de suas mais recentes núpcias, com Ildico. De acordo com Prisco, sua morte teria ocorrido durante a noite de núpcias, e só teria sido descoberta pela manhã, quando guardas adentraram seu quarto para desperta-lo e foram surpreendidos com a noiva chorando sobre seu corpo. Crônicas bizantinas, e em especial uma de autoria do Conde Marcelino, escrita oitenta anos após os eventos, relatam que ele teria sido assassinado a facadas pela noiva, e historiadores mais recentes consideram essa hipótese credível, supondo que Marciano poderia ter organizado um esquema semelhante ao que Teodósio II tentara alguns anos antes. No entanto, outros historiadores reiteram que a hipótese de assassinato não pode ser descartada ou confirmada, até porque os relatos mais imediatos aos eventos não relatam quaisquer feridas no corpo do rei huno.

Infância

A data e o local de nascimento precisos de Átila permanecem desconhecidos. Enquanto a região da Panônia é o local mais provável, alguns mencionam os anos 395 e 406, mas outros julgam essas datas fantasiosas e preferem estima-la entre a última década do século IV e a primeira do V. Como outros filhos do seu povo, seguramente Átila foi educado como cavaleiro e arqueiro e, como parte de uma prática estética ou espiritual, desde muito cedo teve sua cabeça amarrada por ataduras, de modo a obter uma deformação proposital do crânio. Relatos permitem deduzir que muito provavelmente foi um homem que recebeu uma boa educação para a época. Sua língua materna era o idioma huno, mas, como era parte da classe dominante, ele também aprendeu a língua dos godos. Prisco relata ainda que quando adulto ele também falava e escrevia em latim e grego, possivelmente adquiridos durante um período que passou como refém em Constantinopla, a partir do ano 418.

Sucessão: diarquia

Em 434 Ruga morreu e foi sucedido por seus sobrinhos Bleda e Átila, que se tornaram diarcas e, assim, assumiram o controle das tribos hunas unificadas. A sucessão entre os hunos provavelmente não se baseava somente em uma posição herdada, mas, também nas capacidades militares e diplomáticas do pretendente e em sua habilidade em produzir vantagens materiais para a elite. Tipicamente, a sucessão de Ruga pode não ter sido pacífica, pois nobres hunos fugiram para Constantinopla, incluindo dois membros da família real, Mamas e Atakam, que talvez fossem sobrinhos ou mesmo filhos de Ruga. Durante seu reinado conjunto com Bleda, Átila buscou negociar com os romanos a rendição desses nobres desertores, que supostamente poderiam reivindicar a sucessão ao trono huno.

Primeira ofensiva contra Constantinopla

De 435 a 440 o reinado de Bleda e Átila foi marcado pelo triunfo dos hunos contra o Império Romano do Oriente, por meio diplomático. Em 436 os hunos reuniram-se com uma embaixada romana em Margo, perto das limes, e ali negociaram, montados a cavalo e, portanto, à maneira huna, um vantajoso tratado que previa a duplicação dos tributos anuais pagos por Constantinopla, ou seja, setecentas libras de ouro, além das promessas de que os romanos não mais acolheriam oponentes dos hunos ou se aliariam a povos inimigos seus, e abririam seus mercados de fronteira a comerciantes hunos. Durante esse período os hunos estenderam seu império aos Alpes, Reno e Vístula, e também levaram a cabo uma invasão ao Império Sassânida, mas uma contra-ofensiva na Armênia terminou com a derrota de Átila e Bleda, que renunciaram a seus planos de conquista.

Rei único dos hunos

Entre o final de 444 e o início de 445 o diarca huno Bleda morreu, na sequência da retirada huna do Império Bizantino. Existe abundante especulação histórica sobre se Átila assassinou seu irmão ou se Bleda morreu por outras causas, e não são conhecidos detalhes de como isso ocorreu, pois, embora o evento tenha sido relatado por seus contemporâneos, ele jamais foi comentado em maior detalhe. Em todo caso, Átila era agora o senhor indiscutível dos hunos. O rei dos esciros, Edecão, e o rei dos gépidas, Ardarico, participaram ativamente da consolidação de poder, apoiando-a com as suas forças militares. Átila também teve o apoio de membros da corte favoráveis à guerra contra Roma, como os irmãos Onegése e Escotas, bárbaros helenizados da região do Ponto; Elsa, um militar que tivera papel importante no reinado de Ruga; e Eskam, um grande proprietário de terras nas planícies do sul. Entre os apoiadores de Átila havia também romanos, como o panoniano Constancíolo e o governador da Mésia, Primo Rústico, que serviram conjuntamente como secretários de Átila. No alto escalão também se encontravam um certo Berico, de origem desconhecida; o tio de Átila, Aibars; e Laudarico, certamente um rei de um povo germânico aliado. Os opositores de Átila fugiram ou pereceram, e ele se tornou o único rei dos hunos.

Segunda ofensiva contra Constantinopla

Embaixadas de Átila vinham requisitando a devolução de prisioneiros hunos, e os bizantinos, que encontravam-se em relativa paz com seus outros inimigos e, portanto, tinham tropas disponíveis, recusavam. Contudo, em meados da década de 440 o Império Bizantino enfrentou uma série de tumultos e desastres naturais que o fragilizaram. Segundo Conde Marcelino, epidemias rebentaram em 445 e 446, na sequência de um período de fome generalizada, e, em 27 de janeiro de 447, um terremoto destruiu grande parte da Muralha Teodosiana de Constantinopla, da qual cinquenta e sete torres desabaram. Esse desastre natural devastou muitas cidades e vilarejos da província da Trácia, causou novas epidemias e, devido à destruição de silos por ele ocasionada, agravou ainda mais a fome que assolava o império.

Guerra no Ocidente

Até o final da década de 440 Átila e os hunos haviam gozado de boas relações com o império no Ocidente, sobretudo graças à suas boas relações com seu governante de facto, Flávio Aécio. O patrício romano havia passado um breve exílio entre os hunos, em 433, cooperara em algumas ocasiões com Ruga e beneficiara-se pessoalmente de tropas que Átila lhe proporcionara contra os godos e os burgúndios, que haviam contribuído para conseguir-lhe o título de mestre dos soldados no ocidente. Contudo, gradualmente tensões foram se estabelecendo e suas pretensões quanto ao Império Romano do Ocidente foram se modificando. Em 448 Átila concordara em acolher em sua corte o chefe de uma bagauda, Eudóxio, um foragido dos romanos e que lhe incitou a atacar a Gália; e, em 449, se opusera a Ravena em uma disputa sucessória entre os francos sálios – enquanto Átila apoiara um filho do rei franco que morrera, Aécio apoiara um outro. Os presentes e os esforços diplomáticos de Genserico, que se opunha e temia os visigodos, provavelmente também influenciaram os planos de Átila.

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Legado

A visão ocidental mais comum: "flagelo de Deus"

Historicamente os hunos foram caracterizados pela tradição cristã ocidental como um povo bárbaro e extremamente violento, uma representação que permanece no imaginário contemporâneo. Presas fáceis de "moralistas cristãos" desde a Antiguidade, sua caracterização como "feios, atarracados e temíveis, letais com um arco, e interessados principalmente em saquear e estuprar" foi salientada, em comparação com outros povos bárbaros cristãos, sobretudo por conta de sua religião e de origem étnica, estranha a seus inimigos. Por serem desprovidos de sua própria voz nos registros históricos, os hunos "sempre podem ser persuasivamente imaginados como a ameaça cabal às (auto-proclamadas) virtudes da civilização".

Personagem literário na Itália

Na Itália, de modo geral a imagem de Átila acompanhou aquela mais difundida no Ocidente, e, famosamente, Átila é mencionado na Divina Comédia, de Dante Alighieri, que o fez queimar no sétimo círculo do inferno, onde tiranos são atormentados por centauros. Embora seu caráter negativo tenha continuado a ser reiterado, a partir do século XIV Átila se tornou uma personagem literária na Itália. Épicos em verso ou em prosa passaram a narrar suas aventuras cavalheirescas e lhe atribuir um nascimento extraordinário, como filho de uma princesa e de um lebréu. Nessas histórias, por sua natureza semi-bestial e suas más ações, ele ainda é representado como o inimigo do cristianismo. Um dos mais populares, La storia di Attila, foi copiado e depois impresso em Veneza ao longo dos séculos; a última edição data de 1862.

Herói medieval germânico e escandinavo

Átila não deixou uma imagem tão negativa em territórios não romanos, e os poemas épicos germânicos que o mencionam oferecem um retrato mais complexo. A Canção de Walther, uma canção de gesta em hexâmetros dactílicos atribuída ao monge Ekkehard I de São Galo, por volta de 930, descreve Átila como um rei poderoso e generoso. A Canção dos Nibelungos, um épico medieval alemão composto no século XIII, apresenta-o, com o nome de Etzel, sob uma luz positiva, apesar de seu paganismo. Nas sagas islandesas escritas no século XII Átila e os hunos são apresentados em guerras épicas contra os borguinhões, os godos e os danos, como na Brevis historia regum Dacie, de Saxão Gramático.

Rei mítico húngaro e herói contemporâneo turco

Quando no século X os magiares, outro povo nômade originário da Eurásia, se estabeleceram nos Cárpatos e passaram a realizar ataques na Europa, os cristãos imediatamente os identificaram com os hunos. Quando se converteram e começaram a escrever sua própria história e a da Hungria, esse povo adotou essa identidade, reivindicando a descendência de Átila e o transformando em um herói. Assim, ele se tornou o ancestral da dinastia Arpade na Gesta Hungarorum, escrita por volta de 1210. Nesses mitos fundadores Átila é glorificado, e suas virtudes morais e bélicas exaltadas. Durante o Renascimento a Chronica Hungarorum ainda usava a figura do rei dos hunos para aumentar o prestígio e a legitimidade da monarquia húngara, e, em seu auge, Matias I da Hungria foi comemorado como um "segundo Átila".

Símbolo político e comparações com outras figuras

A figura de Átila e dos hunos tem sido constantemente utilizada em contextos políticos e em comparações com personagens contemporâneos. Na França, embora anteriormente Voltaire e Montesquieu houvessem retratado Átila de maneira relativamente positiva, no século XIX a figura de Átila tornou-se uma metáfora para tiranos, enquanto os hunos passaram a representar inimigos bárbaros e brutais. Por exemplo, Benjamin Constant, em 1815, e Victor Hugo, em 1824, comparam Napoleão Bonaparte a Átila. Os franceses, ingleses, canadenses e americanos também compararam os alemães aos hunos em um número de ocasiões, notadamente durante a Primeira Guerra Mundial, em referência a Guilherme II e suas tropas. Em 1914 Rudyard Kipling, em seu poema For All We Have And Are, referiu-se indiretamente aos alemães quando convocou todos a lutar contra os "hunos", e, no curso da guerra, cartazes britânicos, canadenses e americanos compararam a destruição da Bélgica pela Alemanha à devastação causada Átila, exortando seus povos a "bater os hunos".

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Representações nas artes e em outros meios

Em escala menor do que na Hungria, o rei dos hunos continuou a despertar interesse no resto da Europa, notadamente no meio artístico. Para a historiadora Edina Bozoky a riqueza e variedade das obras sobre Átila são excepcionais: "cada país e cada época cria um Átila à sua própria imagem". Átila deu nome a um asteroide, Attila (n.º 1489), identificado em 12 de abril de 1939. Esse corpo celeste possui aproximadamente quinze quilômetros de diâmetro e tem um período orbital de 5,7 anos terrestres. Attila também é um gênero de passeriformes tropicais, que engloba sete espécies de aves predadoras, e Atilla é uma chapada da Austrália central, também conhecida como monte Conner.

Escultura, vitrais, pinturas e gravuras

A arte cristã representou Átila com frequência, em iluminuras de obras hagriográficas, como a Lenda Áurea de Tiago de Voragine, e também em telas, afrescos, estátuas, retábulos e vitrais de igrejas. Átila é frequentemente usado como personagem secundária, com o objetivo de destacar as qualidades de santos, como Alpino de Châlons, Lupo, Genoveva, Úrsula e as virgens de Colônia. Uma dessas pinturas mais famosas é Martírio de Santa Úrsula, produzida por Michelangelo Merisi da Caravaggio em 1610; nela, Átila é representado com um ar sombrio e com um arco em mãos, enquanto uma flecha perfura o peito da mártir. Outras representações famosas de Átila nas artes visuais incluem o afresco Incontro di Leone Magno con Attila (1513–1514), de Rafael Sanzio, e as telas Attila suivi de ses hordes barbares foule aux pieds l’Italie et les Arts (1847), de Eugène Delacroix; e La invasión de los bárbaros (1887), de Ulpiano Checa. Com um ar marcadamente mais positivo, pintores, escultores e gravadores húngaros da época renascentista e barroca produziram retratos majestosos de Átila.

Teatro

Attila é uma das últimas tragédias de Pierre Corneille, publicada em 1667. Drama romântico em que Átila deve escolher entre Honória, a imperatriz, e Ildione, irmã do rei dos francos, Corneille considerou-o sua melhor peça teatral, embora não tenha obtido grande sucesso. Para Nicolas Boileau, ao contrário, Attila marcou o declínio da genialidade de Corneille. Ao retratar um Átila atormentado por suas ambições por conquistas gloriosas e envolvendo-se em amores tumultuados, Corneille refere-se à França do jovem e ambicioso Louis XIV da década de 1660. Zacharias Werner, dramaturgo austríaco, escreveu Attila, König der Hunnen nos últimos anos de sua vida, e a publicou em 1807. Essa peça encena a campanha da Itália e a pilhagem de Aquileia. Átila é retratado como uma metáfora para Napoleão Bonaparte, que, ofendido, em 1810 ordenou a destruição de todas as cópias da obra.

Música e ópera

A figura de Átila é amplamente utilizada em ópera. No século XVII Pietro Andrea Ziani compôs Attila para um libreto de Matteo Noris, e em 1812 Beethoven considerou compor uma ópera tendo Átila como tema, cujo libreto seria escrito por August von Kotzebue. No entanto, nem a música nem o libreto foram escritos. Em 1807 em Hamburgo, em 1818 em Palermo, em 1827 em Parma e em 1845 em Veneza, foram realizadas diferentes óperas com o nome de Átila. A mais conhecida é a ópera Attila, composta por Giuseppe Verdi com libreto de Temistocle Solera, que estreou em 1846 e é baseada na peça peça de Zacharias Werner. Essa tradição se estendeu pelos séculos XX e XXI. Em 1967 Henri Salvador escreveu e interpretou a canção Attila est là, com letra de Bernard Michel, e em 1993 o poeta e deputado húngaro Sándor Lezsák escreveu uma ópera rock intitulada Atilla, Isten kardja, que foi dirigida e apresentada por Levente Szörényi. Em 2002 o músico francês Olivier Boreau compôs uma peça para orquestra com o título Attila, e esse também é o nome usado por diversas bandas e conjuntos musicais americanos, incluindo uma banda de deathcore formada por Chris Fronzak em 2005. Mais recentemente, o nome Átila tem sido usado em canções de rap. Booba, aparentemente menciona-o em várias gravações, e batizou uma de suas canções em sua homenagem.

Literatura

A literatura russa da primeira metade do século XX, no espírito do nacionalismo local e do reconhecimento das raízes asiáticas da Rússia, deu atenção significativa à figura de Átila. Valeri Briusov dedicou-lhe um poema em 1921, no qual Átila personifica o medo da destruição e a esperança na renovação. Ievgueni Zamiatin trabalhou no romance histórico Flagelo de Deus, que traça um paralelo entre a vida de Átila e a rivalidade entre a Rússia e o Ocidente, mas que, por conta da morte do autor, nunca foi concluído. Numerosos escritores de outros países também lhe dedicaram romances históricos, como o alemão Felix Dahn, em sua coleção Romances Históricos da Grande Migração, publicada entre 1882 e 1901; o canadense Thomas Costain, em 1959; e o americano William Dietrich, em 2005. Nessas obras, enquanto Átila é representado como um bárbaro, ele também serve para ilustrar um mundo romano em decadência. De maneira semelhante, em L'anell d'Àtila, publicado em 1999, o andorrano Albert Salvadó estressa a corrupção e inépcia dos imperadores romanos contemporâneos, que serve de pano de fundo para as campanhas de Átila.

Cinema e televisão

O primeiro filme a retratar Átila foi uma obra muda italiana de 1918, dirigida por Febo Mari. Em 1924 o clássico alemão Die Nibelungen, de Fritz Lang, apresentou os hunos como simples bárbaros, e os filmes Sign of the Pagan, de Douglas Sirk, e Attila, il flagello di Dio, de Pietro Francisci, ambos lançados em 1954, mantêm essa imagem. Por outro lado, a telessérie lituana-estadunidense Attila the Hun, transmitida em 2001, retratou um Átila, encarnado por Gerard Butler, de forma muito mais positiva. Na televisão, a telessérie francesa Kaamelott, produzida por Alexandre Astier em 2005, apresenta Átila em alguns episódios, mas de maneira humorística. Átila também apareceu em um episódio de 2008 da série britânica Heroes and Villains, da BBC, sendo interpretado por Rory McCann, e no filme estadunidense Night at the Museum, lançado em 2006, no qual é interpretado por Patrick Gallagher.

Jogos eletrônicos

Um número considerável de jogos eletrônicos tem Átila como personagem principal ou secundária. Em Age of Empires II: The Conquerors uma campanha segue as grandes conquistas de Átila, de sua ascensão ao trono huno até sua campanha na península Itálica. Já em Total War: Attila, o líder dos hunos é o protagonista do jogo, ao passo que em Civilization V é um líder jogável. Em Fate/Grand Order, Átila é referenciado por meio da personagem Altera.

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Fontes consultadas

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