Jiu-jítsu brasileiro
Jiu-jítsu brasileiro ou BJJ é uma arte marcial e esporte de combate, desenvolvido pela família Gracie, no início do século XX, que se tornou a forma mais difundida e praticada do "Jiu-jitsu" no mundo, principalmente depois das primeiras edições dos torneios de Vale Tudo e artes marciais mistas (MMA), principalmente no UFC, nos idos da década de 1990 e no Pride FC durante o final da década de 1990 e começo da década de 2000.
Origem
Existem diversas histórias que o jiu-jitsu é uma das artes marciais mais antigas do mundo, uma dessas histórias conta que a arte marcial surgiu a mais de 2000 anos atrás na Índia, quando os monges budistas eram atacados por bandidos e tribos mongóis, durante as suas caminhadas entre os templos. Como os monges monastérios indianos eram proibidos pela religião, de se defender com armas, criaram a arte marcial desenvolvendo uma técnica baseada nos princípios do equilíbrio, do sistema de articulação do corpo e das alavancas, assim evitando o uso da força e de armas para poder se defender dos agressores. Com a expansão do budismo na Ásia, o jiu-jitsu também percorreu o sudeste asiático chegando até a China e depois ao Japão, onde se desenvolveu e se popularizou. No Japão, chamado de ju-jutsu era uma das principais artes marciais praticadas pelos guerreiros samurais que caso em um combate perdessem as suas espadas, usavam o combate corpo a corpo como último recurso. Após vários anos o jiu-jitsu chegou ao Brasil, quando Mitsuyo Maeda, conhecido como "Conde Koma", veio para cá e ensinou Gastão Gracie e seu filho Carlos Gracie, Maeda também ensinou Luiz França, futuro professor de Oswaldo Fadda. O jiu-jitsu se desenvolveu ainda mais no Brasil, após Carlos Gracie ensinar a arte marcial ao seu irmão Hélio Gracie que aprimorou as arte marcial para adaptar as técnicas ao seu corpo franzino.
Começo no Brasil
No século XIX, mestres de artes marciais japonesas migraram do Japão para outros continentes, vivendo do ensino dessas artes e de lutas que realizavam. A primeira apresentação do Jiu-jitsu no Brasil aconteceu no ano de 1906 na cidade de Manaus, capital do Amazonas. Em Novembro daquele ano aportava em Manaus o navio "Jerome", trazendo a bordo dois lutadores japoneses que vinham fazendo uma turnê de exibição de sua arte marcial pelo continente americano: o mestre de Jiu-jitsu Akishima Sadashi e seu assistente Suiotos Ki. Assim que se alojaram na cidade, os dois japoneses logo publicaram uma nota na imprensa desafiando qualquer um que estivesse disposto a enfrentá-los em duelos públicos. Foi então armado uma arena improvisada no circo "Coliseu Metálico Brasileiro", na Praça da Saudade, onde em 18 de Novembro o mestre Akishima e seu discípulo Suiotos enfrentaram mais de uma dúzia de desafiantes locais, vencendo todos eles em menos de cinco minutos em uma noite com grande presença de público. E assim eram realizadas as primeiras lutas de Jiu-jitsu em território brasileiro. Após alguns meses continuando a apresentar suas lutas no circo, Akishima e Suiotos deixaram o Amazonas e seguiram para Liverpool (Inglaterra) no navio "Antony".
O jiu jitsu Brasileiro em Portugal e na Europa
O Jiu-jítsu chegou a Portugal em 1996 pelas mãos do professor Lauro Figueirôa, que foi com o objetivo de difundir o jiu-jítsu Gracie. Apesar de pouco ou quase nenhum recurso, conseguiu angariar bastantes alunos. Em 1997, foi quando se realizou o primeiro campeonato da modalidade, realizado dentro da discoteca Bafureira Beach Club (antigo Scala), em São Pedro do Estoril. Em 1998, o professor Lauro Figueiroa em conjunto com o Grupo SuperStar promoveu o primeiro confronto de vale-tudo em Portugal, entre o o próprio professor, representando o jiu-jítsu e o Mestre Pichote, representando a capoeira (luta demonstração). Em 2000, houve a disputa do primeiro Cinturão português de Vale-tudo, entre o Lauro, contra o tricampeão francês de Free-Fight, Eurico Soares. Luta vencida por Lauro por nocaute aos 30 segundos do primeiro round. Compareceram ao evento mais de 4 000 pessoas.
Adotam-se as seguintes divisões de faixas no jiu-jitsu desportivo brasileiro para seus praticantes, conforme suas experiências e habilidades: e cada associação, federação ou demais tem seu edital Particular, sancionado por uma Lei Federal nº 9 615 de 24 de março de 1998, mais conhecida como Lei Pelé.[carece de fontes?] Os critérios de graus na faixa preta variam de acordo com suas respectivas ligas, associações, federações e Confederações por Edital desde a Lei de 1998:
Federações nacionais e estaduais de jiu-jitsu, estando presente apenas as que possuem sites. O Jiu-Jitsu Brasileiro tradicionalmente é lutado com quimono trançado (embora haja a modalidade de "jiu-jítsu sem quimono" também conhecida como "No Gi") e as técnicas visam a levar o adversário a uma posição chamada de "finalização", o que significa que, se levada adiante, causaria a fratura ou deslocamento de um osso ou ruptura de tendões e ligamentos ou a morte do indivíduo por estrangulamento/esganamento. A posição de finalização pode ser: Quando o tempo da luta se exaure sem que haja uma finalização, é declarado vencedor aquele que ganhou por mais pontos ou, em caso de empate, mais vantagens. Se persistir o empate, há a contagem por punições e, sucessivamente, uma avaliação subjetiva da arbitragem. São contados dois pontos para queda, dois pontos para raspagem (derrubada de adversário já no solo), três pontos para passagem de guarda (situação em que o lutador consegue transpor as pernas do adversário, chegando à posição lateral, terminando numa imobilização estabilizada em três segundos), quatro pontos para montada ou ataque pelas costas colocando os ganchos.
O jiu-jitsu brasileiro foca em levar o oponente ao chão, a fim de neutralizar possíveis vantagens de força ou tamanho por meio de técnicas de luta de chão e golpes de finalização que envolvem chaves articulares e estrangulamentos. No solo, a força física pode ser compensada ou potencializada através de técnicas adequadas de grappling. O BJJ emprega uma ampla variedade de técnicas de queda para levar o oponente ao chão, como o "puxar para a guarda", que não é utilizado em outros esportes de combate como o judô ou a luta olímpica. Uma vez no chão, diversas manobras (e contra-manobras) estão disponíveis para manipular o oponente até uma posição adequada para a aplicação de uma técnica de finalização. Alcançar uma posição dominante no chão é uma das marcas registradas do BJJ, o que inclui o uso eficaz da posição de guarda para se defender por baixo (utilizando finalizações e raspagens, sendo que estas últimas podem levar a uma posição dominante ou à oportunidade de passar a guarda), e a passagem de guarda para dominar por cima, nas posições de controle lateral, montada e costas. Esse sistema de movimentação e manipulação pode ser comparado a uma espécie de xadrez cinético ou físico quando executado por dois praticantes experientes. Uma finalização no BJJ é frequentemente comparada ao "xeque-mate", onde o oponente não tem outra opção a não ser bater, se machucar ou ser estrangulado.
Etiqueta e costumes
As academias de jiu-jitsu brasileiro geralmente seguem um conjunto de regras básicas para promover confiança, respeito e higiene entre os alunos. Práticas comuns incluem:
Métodos de treinamento
Como o BJJ foca em finalizações, o sparring e os treinos com resistência real (conhecidos como "rolar") tornam-se a parte mais essencial do regime de treinamento. Esse tipo de prática permite aos praticantes treinar em velocidade e força máximas, simulando o esforço de uma competição. Os métodos de treinamento incluem repetições técnicas com parceiros que oferecem ou não resistência; sparring isolado (comumente chamado de treino posicional), onde apenas uma determinada técnica ou conjunto de técnicas é utilizado; e o sparring completo, no qual cada praticante tenta finalizar o outro utilizando técnica. O condicionamento físico também é um aspecto importante do treinamento.
Uma vez no solo, o praticante de jiu-jitsu brasileiro busca obter uma posição dominante ou de controle a partir da qual possa aplicar finalizações. Essas posições oferecem diferentes opções de finalização ou de transição.
Controle lateral
No controle lateral (também conhecido como side mount, cross-side e cem quilos — "cem quilos", em português do Brasil), o praticante imobiliza o oponente no chão a partir da lateral do tronco. O lutador por cima posiciona-se atravessado sobre o adversário, aplicando o peso sobre o peito dele. O controle pode ser reforçado com pressão nos ombros e quadris do oponente, utilizando os cotovelos, ombros e joelhos. Uma ampla variedade de finalizações pode ser iniciada a partir do controle lateral. Além disso, essa posição aumenta a oportunidade de o praticante por cima progredir para outras posições dominantes. Essa posição é frequentemente usada no MMA, pois permite ao lutador por cima golpear o adversário enquanto supera sua defesa. Existem muitas variações do controle lateral, incluindo o kesa gatame, o controle lateral invertido (ou base trocada), entre outras.
Joelho na barriga
A posição de joelho na barriga (também conhecida como knee ride) é uma variação do controle lateral, sendo claramente distinta desta. Ela se caracteriza principalmente pelo controle do oponente com uma perna estendida ao lado para base e equilíbrio, enquanto o joelho da outra perna é colocado sobre o tronco do oponente, imobilizando-o contra o solo. Trata-se de uma imobilização móvel, em vez de estática, e é considerada uma posição mais dominante em muitos formatos de luta agarrada. A posição de joelho na barriga geralmente vale pontos adicionais porque oferece uma melhor plataforma para golpes em comparação com o controle lateral tradicional, além de estar mais próxima da posição montada, considerada ideal.
Montada
Na posição de montada (ou montada completa), o praticante senta-se sobre o torso ou peito frontal do oponente, controlando-o com o peso do corpo e o quadril. Nessa posição, quem ataca a partir da montada pode isolar os braços do oponente (levando-os acima da cabeça), criando uma posição forte para ataques. A montada completa permite a aplicação de diversas finalizações, incluindo chaves de braço e estrangulamentos. Existem diferentes variações da montada — dependendo do posicionamento corporal — como a montada baixa, montada média, montada alta, montada em S e montada técnica.
Montada pelas costas
Ao assumir a posição de montada pelas costas (frequentemente chamada no jiu-jitsu brasileiro de controle das costas ou ataque às costas), o praticante se conecta às costas do oponente, envolvendo suas pernas ao redor do corpo e enganchar os calcanhares nas coxas do adversário, ou aplicando o chamado triângulo corporal, cruzando uma canela sobre a cintura como um cinto e colocando a parte de trás do joelho oposto sobre o peito do pé, como se estivesse finalizando um estrangulamento em triângulo. Simultaneamente, o tronco superior é controlado com os braços ao redor do peito ou pescoço do oponente. Esta posição é amplamente usada para aplicar estrangulamentos, bem como chaves de braço e triângulos, e neutraliza eventuais vantagens de tamanho ou força do adversário.
Norte-Sul
A posição Norte-Sul ocorre quando o praticante está deitado sobre o oponente, com o peso concentrado na região do peito e cabeça do adversário, com as pernas apontando na direção oposta. O controle é estabelecido por meio do domínio da cabeça e/ou dos braços do oponente. Assim como em outras posições de controle superior no BJJ, o praticante aplica pressão abaixando os quadris em direção ao chão, gerando o que é chamado de peso morto. Diversas finalizações e transições são possíveis a partir dessa posição, sendo as mais comuns o estrangulamento Norte-Sul, o kimura Norte-Sul, entre outras.
Guardas
Quando na posição de "guarda", o praticante está de costas no chão controlando o oponente com as pernas. O praticante por baixo empurra e puxa com as pernas ou pés para desequilibrar e limitar os movimentos do adversário. Esta posição permite uma grande variedade de contra-ataques a partir da parte inferior, incluindo finalizações e raspagens. Os três tipos mais comuns de guarda são: guarda fechada, meia-guarda e guarda aberta. Na guarda fechada, o praticante por baixo envolve a cintura do oponente com as pernas, mantendo os tornozelos cruzados para controlar o adversário. A guarda fechada pode ser uma posição eficaz, permitindo diversos ataques como chaves de articulação, estrangulamentos e raspagens. Já na guarda aberta, as pernas não estão cruzadas, e o praticante por baixo usa as pernas ou os pés para empurrar ou puxar o oponente.
A maioria das finalizações pode ser agrupada em duas categorias principais: chaves de articulação e estrangulamentos. As chaves de articulação normalmente envolvem isolar um membro do oponente e criar uma alavanca com o corpo, forçando a articulação a ultrapassar seu limite natural de movimento. A pressão é aumentada de maneira controlada e aliviada caso o oponente não consiga escapar da posição e sinalize a desistência através do tap out (batidas com a mão ou verbalização). Já os estrangulamentos interrompem o fluxo sanguíneo para o cérebro e podem causar inconsciência caso o adversário não se renda a tempo.
Técnicas de compressão
Um tipo menos comum de finalização são as técnicas de compressão muscular, nas quais o músculo do oponente é pressionado contra um osso duro e proeminente (geralmente a tíbia ou o punho), causando dor intensa. Esse tipo de técnica normalmente não é permitido em competições, devido ao alto risco de ruptura do tecido muscular. As compressões também podem forçar uma articulação no sentido oposto, causando hiperextensão. Entre os exemplos estão a chave de Aquiles (Achilles lock), o esmagamento de bíceps (Biceps slicer) e o esmagamento de panturrilha (Calf slicer).
Chaves de articulação
Embora muitas chaves de articulação sejam permitidas no jiu-jitsu brasileiro, a maioria das competições proíbe ou restringe aquelas que envolvem os joelhos, tornozelos e a coluna vertebral. Isso se deve ao fato de que os ângulos necessários para causar dor nesses casos são praticamente os mesmos que causariam lesões graves. Chaves que envolvem torção do joelho, como o gancho do calcanhar (heel hook), são normalmente proibidas em competições com quimono (gi), pois a sua execução bem-sucedida frequentemente resulta em danos permanentes, muitas vezes exigindo cirurgia. Da mesma forma, manipulações da coluna são geralmente proibidas devido ao risco de esmagamento ou desalinhamento das vértebras cervicais.
Estrangulamentos
Os estrangulamentos, muitas vezes referidos erroneamente no jiu-jitsu brasileiro como chokes ou chave de estrangulamento, são uma forma comum de finalização. Eles podem ser aplicados utilizando o próprio quimono (gi) como instrumento de ataque — como no estrangulamento em laço (bow-and-arrow choke) — ou por meio de pressão com o braço e a cabeça, ou até mesmo com as pernas, como no triângulo (triangle choke). No jiu-jitsu brasileiro, os estrangulamentos visam aplicar pressão sobre as artérias carótidas e, em alguns casos, sobre receptores nervosos da pressão arterial conhecidos como barorreceptores, localizados no pescoço. Esse tipo de estrangulamento pode ser extremamente rápido em sua ação — quando executado corretamente — fazendo com que o oponente perca a consciência em questão de segundos.
O uniforme utilizado pelos praticantes de jiu-jitsu brasileiro é comumente chamado de kimono ou gi, sendo semelhante ao judogi utilizado no judô, mas com algumas diferenças em suas dimensões. O kimono do jiu-jitsu brasileiro é frequentemente confeccionado com material mais leve e possui punhos mais justos na jaqueta e nas calças, o que proporciona um ajuste mais apertado e dificulta que o adversário o manipule durante a luta. O uniforme padrão de jiu-jítsu é composto pela jaqueta (keikogi), calça e faixa (obi). A faixa deve ter entre 4 e e 5 centímetros de largura. Em campeonatos (CBJJ/IBJJF), o kimono deve ser confeccionados em algodão ou tecido parecido. O tecido não pode ser espesso ou duro excessivamente de forma que impeça o oponente de realizar pegadas no kimono e deve ser obrigatoriamente trançado.
No-gi é a variação de jiu-jítsu em que não se usa o kimono, mas sim roupas justas como rashguards, leggings, shorts de MMA, tops de ginástica, entre outros. No Brasil, é frequentemente tratado como um complemento ao jiu-jítsu de kimono, sendo ainda pouco o número de praticantes exclusivos de jiu-jítsu no-gi no Brasil. No no-gi, as regras são diferente do jiu-jítsu com kimono, sendo proibido agarrar as roupas do adversário e finalizar o oponente com o amassa-pão e outros estrangulamentos de gola. As regras de roupas permitidas são diferentes para homens e mulheres. Normalmente, é necessário utilizar o kimono para ser graduado dentro do jiu-jítsu, mas há lutadores que receberam a faixa preta sem usar o kimono nos treinos e algumas academias somente de jiu-jítsu no-gi que graduam seus alunos.
Imagem: Hiruka komunikazio-taldea · BY-SA · Openverse
As categorias de peso nas competições de jiu-jitsu brasileiro podem variar conforme a organização que promove o evento. As categorias estabelecidas pela IBJJF são as mais utilizadas. De acordo com as regras da IBJJF, as divisões de peso variam conforme a idade, o sexo e o tipo de competição (com kimono ou sem kimono).


