Atentado do Riocentro
O Atentado do Riocentro, também chamado Caso do Riocentro, foi um ataque terrorista perpetrado por setores do Exército Brasileiro e da Polícia Militar do Rio de Janeiro na noite de 30 de abril de 1981, com o objetivo de incriminar grupos que se opunham à ditadura militar no Brasil e, assim, justificar a necessidade do seu aparato de repressão e retardar a abertura política em andamento. Exemplo emblemático do terrorismo de Estado praticado pela ditadura, previa uma série de explosões no Centro de Convenções do Riocentro, no Rio de Janeiro, quando ali se encontravam 20 mil pessoas durante um espetáculo de MPB em comemoração do Dia do Trabalhador.
Desde meados dos anos 1960, o endurecimento da ditadura militar brasileira levou à intensificação da oposição a ela, tanto por grupos que decidiram pegar em armas para combatê-la quanto por segmentos mais amplos da sociedade, que passaram a mobilizar-se por acreditarem que, a despeito da violência praticada pelos militares, o restabelecimento da democracia poderia ser buscado de maneira pacífica. A tática de guerrilha, contudo, foi abandonada logo nos primeiros anos da década de 1970, pois esses setores da esquerda já não tinham mais como levá-la adiante por falta de recursos e de membros, que haviam sido dizimados ou estavam exilados.[nota 1] Em meados dos anos 1970, portanto, o maior núcleo de oposição à ditadura não era mais a opção pelo socialismo ou comunismo das guerrilhas, mas a oposição civil em defesa da volta do estado democrático, fosse pelo Movimento Democrático Brasileiro, o partido oficial da oposição, fosse pelas manifestações de rua que voltavam a sacudir o país.
Localizado em Jacarepaguá, na cidade do Rio de Janeiro, o Riocentro era o maior centro de eventos da América Latina e, em 30 de abril de 1981, sediaria o Show 1º de Maio, uma celebração do Dia do Trabalhador que era organizada anualmente pelo Centro Brasil Democrático (Cebrade), uma organização cultural presidida pelo arquiteto Oscar Niemeyer e com ligações com o Partido Comunista Brasileiro. Nesse ano o evento contava com roteiro de Chico Buarque de Hollanda e Fernando Peixoto, e fazia uma homenagem especial a Luiz Gonzaga. O público esperado era de 30 mil pagantes, mas de fato ele viria a reunir cerca de 20 mil pessoas, em sua maioria jovens, que compareceram para assistir às apresentações de artistas renomados da música popular brasileira, dentre os quais o próprio Luiz Gonzaga, seu filho Gonzaguinha, Alceu Valença, Clara Nunes, Djavan, Ivan Lins, Gal Costa, Fagner, João Bosco, Ney Matogrosso, Paulinho da Viola, Simone e Beth Carvalho. No momento da primeira explosão, em torno das 21h20min, cantava Elba Ramalho.
Uma série de eventos nos dias que antecederam o Show 1º de Maio indicam que o atentado a bomba no Riocentro foi premeditado e objeto de intenso planejamento por parte de setores do Exército Brasileiro e da Polícia Militar do Rio de Janeiro. As edições anteriores do concerto do Dia do Trabalhador do Cebrade contaram com policiamento realizado pela Polícia Militar, que, além do mais, sempre fazia o policiamento nos eventos do Riocentro, especialmente em eventos como o daquela noite, com um público esperado de até 30 mil pessoas. Ademais, em 1980 o mesmo show havia sido alvo indireto de um ataque a bomba, que explodiu em uma loja que vendia seus bilhetes de ingresso. Como esperado, portanto, em 14 de abril de 1981 os organizadores do concerto solicitaram ao comandante do 18.º Batalhão de Policia Militar o policiamento interno e externo do Riocentro durante o evento. Dez dias depois, a PM distribuiu uma ordem de serviço determinando que o policiamento no show do Riocentro teria efetivo de 43 homens a pé, uma força de choque, um policiamento a cavalo, uma guarnição e uma rádio patrulha, todos sob o comando de um capitão da PM. Contudo, dois dias antes do evento, o comandante do 18.º Batalhão, coronel Sebastião Hélio Faria de Paula, foi exonerado de seu posto e substituído pelo tenente-coronel Ile Marlen Lobo Pereira Nunes. Contrariando a tradição da PM, que habitualmente realizava atos solenes durante o hasteamento da bandeira, pela manhã, a cerimônia de passagem do comando foi agendada para as 15h do dia 30 de abril, poucas horas antes do início do show.
Pouco após se iniciar o Show 1º de Maio, um vigia encarregado do estacionamento do Riocentro testemunhou dois carros atravessarem o canteiro e dirigirem-se para o local onde minutos depois o Puma explodiria. Esse veículo levava dois ocupantes, o capitão Wilson Luís Chaves Machado, proprietário e motorista do carro e conhecido pelo codinome "Doutor Marcos", e o sargento Guilherme Pereira do Rosário, codinome "Agente Wagner". Ambos integravam o DOI-CODI do I Exército, no Rio de Janeiro, e pertenciam ao aparelho de repressão que, desde 1975, progressivamente vinha sendo desativado devido ao processo de reabertura. O sargento Rosário era treinado em montagem de explosivos, ao passo que Machado atuava como chefe do patrulhamento da segurança do presidente Figueiredo, quando este se encontrava no Rio. Por volta das 21h20min, quando Elba Ramalho começava a cantar "Banquete de Signos", o Puma, com as janelas quase todas fechadas, pôs-se em movimento em marcha à ré, a fim de deixar a vaga em que estava estacionado; repentinamente, nesse momento ele sofreu uma explosão interna que lhe inflou o teto e fez com que suas portas laterais fossem expelidas. Confissões posteriores revelariam que a bomba detonada havia sido preparada e armazenada por Hilário José Corrales, um marceneiro em cuja casa se reuniam militares radicais do DOI-CODI.
Não restam dúvidas de que os dois, o sargento Guilherme Pereira do Rosário e o capitão Wilson Luís Chaves Machado, provocaram o ataque a bomba e não foram as vítimas. É nítido que os dois, como membros do DOI-CODI, agiam sob as ordens de superiores no momento em que a bomba acidentalmente explodiu. Imediatamente após o fracasso do atentado, iniciou-se um esforço conjunto para que não houvesse a apuração dos responsáveis pelo Atentado do Riocentro e a culpa fosse transferida para organizações de esquerda que se encontravam fragilizadas e havia anos não tinham qualquer capacidade de ação. Em última instância essas tentativas seriam frustradas, pois logo ficou claro que o capitão Wilson Luís Chaves Machado e o sargento Guilherme Pereira do Rosário não eram vítimas e sim os perpetradores do ataque, e naquela noite agiam sob ordens de seus superiores do DOI-CODI. Segundo documentos da Central Intelligence Agency (CIA), tornados públicos na década de 2010, o diretor do SNI e o comandante do Exército conheciam inteiramente os planos para o atentado no Riocentro, embora não estivesse claro se o presidente Figueiredo tivera participação no plano. Nessa mesma década, viriam a público confissões e documentos do Exército indicando que sete agentes do DOI-CODI participavam da ação terrorista no Riocentro, e que o presidente João Figueiredo e militares do seu entorno souberam dos planos com ao menos um mês de antecedência e se esforçaram para encobrir sua autoria.
Inquérito policial militar de 1981
No dia seguinte às explosões, o general Gentil Marcondes Filho, comandante do I Exército, determinou que o enterro do sargento Guilherme do Rosário fosse realizado com honras militares e, em um episódio incomum, fez questão de carregar uma alça do caixão, em clara demonstração de apreço pelo morto. Na saída do cemitério, ele declarou que os militares no Puma estavam no local cumprindo ordens suas, em missão de informação, quando teriam sido alvo de um ataque, e essa versão foi complementada pelo coronel Job Lorena de Sant'anna, chefe da 5ª Seção do I Exército, que leu uma nota reafirmando que o capitão e o sargento tinham sido vítimas de um atentado terrorista.
Sucessivos pedidos de reabertura
Em 1985, o coronel Dickson Grael, que havia sido chefe de segurança do Riocentro até poucas semanas antes do atentado, quando foi demitido sem maiores explicações e substituído pelo tenente Cesar Wachulec, pleiteou judicialmente a reabertura das investigações, com base nos testemunhos do tenente Wachulec e do diretor-técnico do Riocentro, Nilton Nepomuceno, que testemunharam a retirada de duas bombas desativadas do banco traseiro do Puma. Nesse processo, o segurança José Geraldo de Jesus, que trabalhara no Riocentro, depôs ter testemunhado a retirada de outras bombas, que haviam sido instaladas no palco onde ocorria o show. Apesar disso, o pedido do coronel Grael foi negado. Pedidos semelhantes, buscando reabrir as investigações sobre o Caso Riocentro, seriam apresentados sucessivamente em 1987, 1996 e 1998, mas também sem sucesso, normalmente com base em uma interpretação bastante disputada da Lei da Anistia, visto que essa somente seria aplicável a crimes cometidos entre 1961 e 1979.
Inquérito policial militar de 1999
Efetivamente instaurado em junho de 1999, o novo IPM foi conduzido pelo general Sérgio Ernesto Alves Conforto. Dentre outras coisas, esse inquérito incluiu um estudo criminalístico que demonstrou que os artefatos explosivos usados no atentado eram peças de elaboração sofisticada, isto é, que haviam sido preparados por pessoal com treinamento profissional e com o emprego de temporizadores para detonação e nitroglicerina gelatinosa, materiais esses que jamais estiveram ao alcance de grupos guerrilheiros mas eram comumente usados por grupos militares extremistas. Graças aos depoimentos de militares e outras testemunhas, coletados pelo general Conforto, confirmou-se que a operação no Riocentro incluiu sete agentes, sendo a maioria deles do DOI-CODI.
Comissão da Verdade e novas denúncias
Em 1 de novembro de 2012, o coronel Júlio Miguel Molinas Dias, que fora comandante do DOI do I Exército, no Rio de Janeiro, foi assassinado em sua residência no Rio Grande do Sul, e, durante as investigações, a Polícia Civil encontrou e apreendeu dentre seus pertences um grande número de documentos inéditos a respeito do Ataque no Riocentro, incluindo manuscritos, memorandos, registros de ordens e telefonemas datilografados, que revelavam que o Exército sabia quem eram os culpados pelo Atentado do Riocentro e expunham detalhes da operação executada pelo Exército para evitar que os fatos viessem à tona e incriminassem os terroristas. Esses documentos foram entregues pelo governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, à Comissão Nacional da Verdade (CNV).
O Atentado do Riocentro foi planejado para ser o maior atentado terrorista da história do Brasil, e seus resultados só não foram catastróficos devido à maneira atrapalhada com que foi executado. A revelação de que as Forças Armadas abrigavam grupos terroristas e, sobretudo a maneira corporativista com que o Exército conduziu as investigações, acobertando os responsáveis e forjando evidências, chocaram a sociedade brasileira e em última instância sepultaram o governo Figueiredo e sua capacidade de levar a cabo o projeto de reabertura delineado por Geisel, que dependia da manutenção do controle do país nas mãos dos militares por meio da eleição de seus sucessores na Presidência. Embora, na manhã seguinte às explosões no Riocentro, Figueiredo aparentemente tenha recebido bem a notícia do ocorrido no Riocentro, supostamente dizendo que "até que enfim os comunistas fizeram uma bobagem", logo ficou claro que a condução desastrada do atentado expusera seus autores e as Forças Armadas, demonstrando que existia um núcleo terrorista dentro do próprio regime e, assim, comprometendo o próprio governo. De fato, menos de 24 horas depois do atentado, o ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel, declarava que "a bomba explodiu no governo".


