Atena
Atena ou Atená, também conhecida como Palas Atena ou grafada como Atene, é, na mitologia grega, a deusa da civilização, da sabedoria, da estratégia em batalha, das artes, da justiça e da habilidade. Uma das principais divindades do panteão grego e um dos doze deuses olímpicos, Atena recebeu culto em toda a Grécia Antiga e em toda a sua área de influência, desde as colônias gregas da Ásia Menor até as da Península Ibérica e norte da África. Sua presença é atestada até nas proximidades da Índia. Por isso seu culto assumiu muitas formas, além de sua figura ter sido sincretizada com várias outras divindades das regiões em torno do Mediterrâneo, ampliando a variedade das formas de culto.
O nome Atena, cujo significado é desconhecido e possivelmente tem uma origem asiática, é a versão portuguesa do grego ático Αθηνά, Athēnā, um nome que também era encontrado em outras variantes: Aθηναία, Athēnaia; Aθηναίη, Athēnaiē (no grego épico); Aθήνη, Athēnē (no grego jônico); Aθάνα, Athana (no grego dórico). Também era conhecida como Palas Atena (Παλλάς Αθηνά). Tem sido objeto de longa disputa acadêmica se a cidade de Atenas, da qual era a padroeira, tomou seu nome da deusa ou se foi a cidade que lhe emprestou seu nome. Em vista da ocorrência comum de sufixos "ena" para a denominação de localidades, é possível que a última hipótese seja a verdadeira. O primeiro registro conhecido do nome da deusa foi encontrado em Cnossos, em uma tabuleta em Linear B, a antiga escrita dos povos micênicos usada entre os séculos XV e XII a.C. Ali ele aparece como a-ta-na po-ti-ni-ja, que tem sido traduzido como "Senhora de Atenas" ou "Senhora Atena". Para os atenienses ela era mais do que uma das muitas deusas do panteão grego, era "a" deusa, he theos. O significado do nome Palas é obscuro, às vezes é traduzido como "donzela", outras como "aquela que brande armas", e pode ter também uma origem não-grega.
Epítetos
Na vasta região em que Atena foi cultuada recebeu uma variedade de epítetos. Segue uma lista incompleta, excluindo-se também os simplesmente toponímicos: Étia (Aithyia), a que mergulha, associado à sua função de instrutora nas artes da navegação e construção de navios; Agelceia (Agelkeia), líder ou protetora do povo; Agórea (Agoraia), protetora das assembleias; Alalcômene (Alalkomenêïs), poderosa defensora; Álcis (Alkis), a forte; Ambúlia (Amboulia), possivelmente significando aquela que atrasa a morte; Anêmotis (Anemôtis), a que domina os ventos; Areia, guerreira; Arcégetis (Arkhegetis), fundadora; Axiópino (Axiopoinos), vingadora; Cálcico (Chalkioikos), a que tem uma casa de bronze; Calínita (Chalinitis), a que domina os cavalos através das rédeas; Érgane (Erganê), trabalhadora, associado à sua função de instrutora da humanidade em todos os trabalhos manuais e artísticos; Gláucope (Glaucopis), de olhos brilhantes, olhos de mocho-galego (γλαύξ); Hípia (Hippia), equestre, domadora de cavalos; Higieia (Hygieia), deusa da saúde; Mequaneu (Mêchaneus), habilidosa em invenções; Nice (Nike), vitoriosa; Peônia (Paiônia), curadora; Parteno (Parthenos), virgem; Polias ou Políuco (Poliouchos), protetora das cidades; Prômaco (Promakhos), campeã ou aquela que guerreia na vanguarda; Sótira (Sôteira), salvadora; Trito (Tritô), nascida da cabeça; Xênia, protetora dos estrangeiros e patrona da hospitalidade.
Origens
A sua citação em uma tabuleta em Linear B atesta que Atena estava presente entre os gregos desde uma data muito antiga, antes mesmo de a civilização grega tomar a forma pela qual se tornou célebre. Diversos pesquisadores têm tentado traçar as origens de seu culto, mas nada pôde ser provado conclusivamente; ele pode ter derivado da adoração da Deusa Serpente ou da Deusa do Escudo da Civilização Minoica, ou da Grande Mãe dos povos indo-europeus, ou ser uma importação diretamente oriental, a partir da identificação de alguns de seus principais atributos primitivos, a guerra e a proteção das cidades, com os de várias outras deusas cultuadas no Oriente Próximo desde a pré-história. Sua história entre os gregos até o fim da Idade das Trevas é de difícil reconstrução, mas é certo que quando surgem as primeiras descrições literárias sobre Atena, no século VIII a.C., seu culto já estava firmemente estabelecido não só em Atenas, mas em muitos outros pontos da Grécia, como Argos, Esparta, Lindos, Lárissa e Ílion, geralmente lhe atribuindo uma função de protetora das cidades e especificamente das cidadelas, tendo um templo no centro das cidadelas muradas, e sendo, por extensão, uma deusa guerreira.
Outros episódios
Do período arcaico em diante, até a era romana, o mito de Atena foi significativamente ampliado e enriquecido com uma profusão de outras histórias. Na Ilíada de Homero são narrados alguns eventos com a participação de Atena. Foi mostrada como sentando à direita de seu pai Zeus e provendo-o de aconselhamento; conduziu a carruagem de Diomedes e o incitou a ferir Ares, foi a responsável pela morte de Ájax, e estimulou os gregos contra os troianos misturando-se ao exército e proferindo gritos de guerra. Teve uma atuação indireta na captura do Paládio pelos gregos, que assegurou a queda de Troia, pois uma profecia dizia que enquanto o Paládio permanecesse em posse dos troianos a cidade seria inexpugnável. Sua manifestação mais importante foi para Aquiles: favoreceu-o na disputa com Agamenão aconselhando que ele moderasse sua fúria, e colaborou na morte de Heitor enganando-o e devolvendo a espada para Aquiles. Também na Odisseia ela fez expressivas aparições. Foi a protetora de Odisseu em toda a longa e perigosa viagem de volta para casa, e quando ele chegou finalmente a Ítaca sem reconhecê-la, entregando-se ao desalento, a deusa o fez perceber que seu périplo havia terminado. Ela acrescentou que estava perpetuamente ligada a Odisseu pelo fato de que ele era tido como o mais astuto dos mortais, enquanto que ela era a mais sábia e engenhosa dentre os deuses. Também favoreceu Telêmaco, filho de Odisseu, disfarçando-se de Mentor, o seu tutor, aconselhando-o a ir informar-se sobre o destino de seu pai, profetizando que ele em breve estaria de volta, e mais tarde instruindo-o como agir contra os pretendentes de sua mãe Penélope. Sob o mesmo disfarce apresentou-se diante dos pretendentes no momento da luta final, incitando Odisseu contra eles e, transformando-se em andorinha, desviando suas lanças.
Seus atributos
Como deusa da guerra, Atena é a perfeita antítese de Ares, o outro deus encarregado desta atividade. Atena é dotada de profunda sabedoria e conhece todas as artes da estratégia, enquanto que Ares carece de todo bom juízo, prima pela ação impulsiva, descontrolada e violenta, e às vezes, no calor do combate, mal sabe distinguir entre aliados e inimigos. Por isso Ares é desprezado por todos os deuses, enquanto que Atena é universalmente respeitada e admirada. A falta de sabedoria de Ares explica sua invariável derrota sempre que confrontou Atena. O princípio simbolizado por Ares é por vezes mais necessário quando se trata de desbravar um território hostil e fundar ou conquistar uma cidade, ou quando a violência é absolutamente incontornável diante de uma situação desesperada, mas é incapaz de criar cultura e civilização e manter a sociedade numa forma estável, integrada e organizada. Este papel cabe a Atena, a deusa da sabedoria, da diplomacia, da coesão social - lembre-se que ela é a protetora por excelência das cidadelas, o núcleo vital das cidades -, instrutora nas artes e ofícios manuais produtivos, especialmente o trabalho em metal e a tecelagem, que enriquecem o espírito e possibilitam a continuidade da vida em comunidade. Ela torna a guerra um instrumento social e político submetido ao intelecto, à disciplina e à ordem, antes do que um produto da pura barbárie e das paixões irracionais. As próprias derrotas repetidas de Ares diante de Atena, seu atributo como domadora de cavalos e, na disputa pela Ática, sua vitória contra Posídon, um deus conhecido por seu caráter turbulento, vingativo e irascível, confirmam a submissão da força bruta à soberania e ao equilíbrio da justiça e da razão. Entretanto, quando decide lutar nela não se encontra nenhuma hesitação ou fraqueza, e sua simples presença pode bastar para afugentar o inimigo.
Mito e política
O mito de Atena exerceu uma influência decisiva no estabelecimento da identidade e da própria sociedade atenienses, e por extensão em toda a cultura da Grécia Antiga. Formou-se entre os atenienses uma ideia de que sua cidade era amada pelos deuses a partir da disputa entre Atena e Posídon, significando que eles tinham o desejo de se estabelecer preferencialmente ali. Mesmo tendo sido derrotado, Posídon simbolizou, através da fonte de água salgada que fizera nascer, em algumas versões um verdadeiro mar, o futuro poderio marítimo dos atenienses. A fertilização da terra ática pela semente de Hefesto foi outro elemento formador nesta noção, tornando o território sagrado, inaugurando com Erictônio uma dinastia de reis de origem pretensamente divina, e fundando com isso um povo que podia reivindicar para si uma prestigiosa autoctonia. Religião, mito e política estavam inextrincavelmente ligados, havia legislação vinculando inúmeros aspectos da vida religiosa à prática cívica, a ponto de fundirem-se Religião e Estado. Todo o mito de Atena foi extensivamente usado no discurso político da época para dar forma e fixar o modelo da sociedade ateniense, e, com o pretexto de "civilizar" os estrangeiros, substanciou as suas pretensões imperialistas sobre os bárbaros e mesmo sobre seus vizinhos gregos. Os oradores chegaram ao ponto de deduzir a democracia do princípio da autoctonia ateniense, equiparando igualdade política (isonomia) a igualdade de origem (isogonia). Segundo Loraux, desta forma a lei (nomos) era estabelecida sobre o fundamento da natureza (physis), e o povo assim legitimava seu poder — imbuindo a coletividade com um alto nascimento (eugenia), os cidadãos autóctones eram todos iguais porque eram todos nobres (mas entenda-se "todos" como apenas os que detinham a cidadania ateniense). Dando um passo além, os oradores orgulhosamente sobrepunham Atenas a todas as outras pólis, que para eles constituíam uma heterogênea reunião de intrusos estabelecidos num território que imaginavam seu por direito divino. A índole guerreira de Atena, destacando suas qualidades viris, associada à sua virgindade perpétua, jamais "entrando na casa de um homem", fazia com que ela jamais abandonasse a "casa de seu pai", permanecendo sob a direta influência de Zeus, o patriarca por excelência, e tal fato se tornou uma das bases míticas do patriarcado local e da primazia do homem sobre a mulher na sociedade e na política ateniense. Também o mito de Teseu foi incorporado ao de Atena dentro de um viés político, pelo fato de que ele era considerado o unificador da Ática, sendo celebrado ao lado de Atena tanto no festival da Synoikia como nas Panatenaias.
Atena teve o seu centro de culto mais importante em Atenas, cidade da qual era a padroeira, uma proteção estendida a toda a Ática. Em muitos locais Atena era cultuada em associação com outras divindades e heróis, como Erictônio, Hefesto, Posídon, Deméter e Teseu. Nos ritos que estavam associados a funções legais muitas vezes era servida junto com Zeus. Mas não se limitou à Ática, ao contrário, como uma deusa urbana por excelência, protetora das cidades, a presença de Atena é atestada em quase toda a volta do mar Mediterrâneo, penetrando pelo oriente até a Pérsia. Seus atributos e o seu culto conheceram assim infinitas variações, o que torna impossível defini-los como homogêneos. De fato, como observou Deacy, houve tantas Atena quantas foram as cidades que a adotaram em suas religiões, e se registram dezenas delas onde Atena era não apenas cultuada, mas se tornara a divindade principal. Cabe, porém, um detalhamento do seu culto em Atenas e entorno, onde adquiriu uma importância excepcional.
Festivais
O festival da Plintéria tinha como centro a limpeza anual da mais antiga e mais sagrada dentre as imagens da deusa conservadas na acrópole, o Paládio, que era honrado com um fogo perpétuo e segundo a tradição fora capturado pelos gregos que lutaram em Troia. Era realizado por um pequeno grupo de sacerdotisas na lua nova entre fins de maio e início de junho, longe das vistas do público, numa cerimônia propiciatória e purificadora que encerrava um ciclo agrícola e magicamente preparava o ciclo seguinte. Aparentemente o rito se desenrolava todo na acrópole, e iniciava com a remoção de seu manto, seguido da colocação de um véu sobre a estátua despida e lavagem do manto; um ou dois dias depois a própria imagem era lavada, recebia seu manto limpo e era adornada com uma coroa de ouro e outros ornamentos preciosos, além de possivelmente ser ungida com óleo. A lavagem da estátua estava associada ao nascimento da deusa e recontava as primeiras celebrações dedicadas a Atena em tempos imemoriais. O festival se repetia em toda a Ática e em várias outras localidades gregas, apresentando muitas variações, mas todas as descrições remanescentes de ritos gregos são pobres em detalhes. Também a época do ano em que a Plintéria era celebrada podia variar de acordo com costumes locais.
Templos
Até o presente não há evidências suficientes para apontar onde foi fundado o primeiro santuário de Atena, mas o local onde hoje se veem as ruínas do Erecteion, uma construção do século V a.C., deve ter abrigado em tempos anteriores um dos mais antigos templos dedicados à deusa, havendo ali vestígios de construções datadas do período micênico. A partir de meados do século VI a.C. há notícia de diversos templos de grandes proporções já erguidos em várias cidades. De todos eles o mais célebre foi o Partenon de Atenas, cujas ruínas ainda são visíveis na acrópole local. Ele se tornou um dos mais conhecidos ícones da cidade e de toda a cultura grega, e constitui um exemplo prototípico do templo grego em estilo dórico. Foi construído após o saque de Atenas e destruição da acrópole pelos persas em 480 a.C., substituindo uma estrutura mais antiga, sendo um dos marcos artísticos inaugurais do período Clássico. Este foi o tempo de Péricles, que reorganizou a cidade devastada e, mais do que isso, conseguiu consolidar a posição de Atenas como a maior força política e cultural em toda a Grécia daquela época. Relatos antigos referem a rapidez com que as obras se realizaram, congregando toda a sociedade no esforço da reconstrução, e o orgulho que os atenienses sentiam pelo magnífico resultado, visto como um símbolo do poderio e prestígio ateniense. A reconstrução esteve sob a supervisão artística de Fídias, renomado escultor, que se responsabilizou também pelo projeto da decoração escultural do templo e pela ereção de duas estátuas monumentais de Atena, realizadas por ele pessoalmente. Apesar do nome pelo qual se tornou conhecido, segundo indicam registros oficiais do período, o Partenon foi dedicado à Atena Polias, a padroeira da cidade, mas sabe-se que entre o povo ela recebia comumente o epíteto de Parthenos, "a virgem", e daí ter-se-ia fixado o nome de Partenon. De qualquer forma, a despeito de sua significância política, de sua fama ao longo dos séculos por sua importância arquitetônica e também escultural — o templo foi decorado com ricos frisos em relevo e nele estava instalada a colossal estátua criselefantina de Fídias, a Atena Parthenos — de acordo com Mikalson, o Partenon tinha um papel quase insignificante dentro do culto de Atena propriamente dito, que ficava concentrado no Erecteion, onde residia a Atena Polias. O Partenon era, na prática, mais o depósito do tesouro da Atena Polias do que verdadeiramente um local de culto, e sequer possuía um altar ou sacerdotes.
Sincretismo
Atena foi associada na Grécia Antiga a duas deidades menores: Nice, a deusa da vitória, por sua natural associação com a guerra, sendo chamada Atena Nice e recebendo um culto particularizado em templos próprios, e Higeia, deusa da saúde. Higeia parece ter sido considerada uma emanação de Atena. Embora identificada com a saúde, em especial a saúde mental, a Atena Higieia não deve ter sido envolvida primariamente com o tratamento dos doentes. Antes, deve ter sido relacionada à "guarda" da saúde e simbolizado o conceito de que a saúde poderia ser preservada se o homem vivesse de acordo com a razão, o bom senso e o ideal da mente sadia em um corpo sadio, popularizado pelos romanos na expressão mens sana in corpore sano. Em Esparta os doentes dos olhos buscavam auxílio invocando Athena Ophtalmitis.
Atena foi representada um sem-número de vezes ao longo da história da Grécia Antiga, tanto sob a forma de pinturas como de estátuas, ex-votos e relevos, foi cantada em hinos e poemas e penetrou na dramaturgia. Os episódios de seu mito que mais foram representados na Antiguidade foram o seu nascimento, a disputa com Posídon, seu papel na guerra contra os Gigantes, e a história de Erictônio. Ela usualmente é mostrada com um aspecto belo e nobre, mas austero, e ostenta os atributos de uma guerreira: usa um elmo, carrega uma lança e um escudo, e enverga a égide, onde frequentemente está a cabeça da Medusa. Ao contrário das outras deusas gregas, que aparecem mostrando sua nudez, ela está invariavelmente vestida, simbolizando a sua condição de eterna virgem. Ela pode aparecer junto com outras figuras acessórias, como a serpente, Nice, a personificação da vitória, ou a coruja. (Thompson refere que a coruja de Atena é uma espécie definida, o mocho-galego, mas na bibliografia consagrou-se a denominação genérica de coruja). Podem estar presentes também ramos ou um tronco de oliveira, a árvore que lhe era consagrada.
Idade Média
Embora tidos como verdadeiros seres vivos, cuja existência era real, desde o século VI a.C. se faziam críticas às descrições literárias dos deuses engajados em comportamentos violentos ou de moralidade duvidosa, como muitas vezes apareceram em Homero e Hesíodo, e iniciou-se uma tradição de se interpretar suas ações numa leitura alegórica, como uma alternativa à interpretação puramente histórica, fundando-se a mitografia. Os mitos foram racionalizados e entendidos como alegorias de forças da natureza e do cosmos, ou como movimentos da alma humana, ou se os relacionavam a determinadas partes e funções do corpo. Atena materializava-se na sabedoria opondo-se a Ares, expressão da insensatez; Zeus se tornava a mente, enquanto que Atena era a habilidade artística. Ela também estava relacionada ao crânio, de onde nascera, e à respiração, que se acreditava estar ligada à função do pensamento, e relatos antigos referem sua associação, em localidades isoladas, ao céu claro, à aurora, ao éter, ao trovão, ao relâmpago, aos olhos, ao sol ou à lua. Na era romana se popularizou uma outra interpretação, chamada evemerismo, que entendia os deuses como homens e mulheres históricos, cujos feitos haviam sido magnificados pela tradição, acabando por serem divinizados. A abordagem alegórica dos textos dos poetas canônicos e dos mitos que eles relatavam frutificou ao longo de vários séculos, até que o cristianismo entrasse em cena, causando uma dissociação entre os métodos mitográficos e sua substância e objeto, com duas consequências de largo alcance. A primeira, dizendo respeito aos métodos, nasceu das acirradas controvérsias teológicas entre judeus e cristãos e entre cristãos e pagãos, permitindo aos apologistas adaptarem para o judaísmo ou o cristianismo o método de racionalização dos mitos clássicos, preservando-os para a mitografia medieval, quando as aparentes imoralidades do próprio Velho Testamento foram postas em evidência e alegorizadas. O segundo resultado, relativo ao conteúdo dos mitos, foi imprevisto pelos escritores cristãos, pois atacando o paganismo na tentativa de erradicá-lo, preservaram para a posteridade muitas passagens dos mitos clássicos e suas interpretações pelo simples fato de as descreverem.
Idade Moderna
A frutificação do humanismo medieval deu-se no Renascimento, quando a Igreja perdeu parte de seu poder e a sociedade se abriu para uma maior laicização, ao mesmo tempo em que o interesse pela cultura da antiguidade clássica atingia um ponto próximo da obsessão, com uma intensa recuperação de textos e relíquias artísticas da antiguidade, a volta ao estudo do grego e a disseminação de referências mitológicas por todas as áreas da cultura, arte e ciência. O amálgama entre cristianismo e neoplatonismo se tornou íntimo e complexo, particularmente na Itália, e deu origem a uma rica proliferação de representações na arte e obras interpretativas em filosofia que incorporavam livremente também tradições esotéricas como a astrologia, a magia e a cabala, todas buscando uma explicação mais racional para os fenômenos da natureza, a vida humana e os dogmas da religião. Um bom exemplo do estado de coisas foi a decoração da Capela dos Planetas no Templo Malatesta em Rimini, uma igreja católica, onde aparecem em tranquilo convívio santos cristãos, símbolos astrológicos e divindades grecorromanas, incluindo Atena. A educação nos clássicos e na mitologia pagã deixava de ser ameaça à vida do homem cristão renascentista, ao contrário, agora era uma fonte de prestígio e passava a fazer parte da linguagem intelectual e artística corrente. Ataques contra essa tendência massiva de fato apareceram, mas foram exceções, uma vez que até mesmo os altos prelados católicos buscavam e encorajavam o mesmo tipo de educação. Neste contexto, não foi surpresa a presença de alegorias mitológicas nas inscrições, panóplias e arcos triunfais levantados para as comemorações da coroação do papa Leão X em 1513, onde figuravam conspicuamente Atena e Apolo ao lado de outras representações que o mostravam como o novo Leão de Judá, um dos títulos do Messias.
Contemporaneidade
Em toda Europa e América a passagem do século XVIII para o XIX foi marcada pela emergência da corrente neoclássica, com uma novamente massiva recuperação de protótipos da Antiguidade clássica em todos os domínios da cultura e arte. Os principais templos de Atena, o Partenon, o Erecteion e o templo de Atena Nice, todos na Acrópole de Atenas, se tornaram paradigmas para imitação em larga escala, tanto para a edificação pública como para residências privadas. Sob a influência do iluminismo o mito de Atena permaneceu integrado à vida cultural do ocidente, mas operou-se uma importante mudança de foco em sua análise: ela continuou sendo vista como a patrona das artes e símbolo da sabedoria, da virtude e da razão, mas as alegorizações cristianizantes que vigoraram desde a Idade Média já não ocupavam mais o centro das atenções. Em seu lugar a ênfase se transferiu para suas associações com a cultura e as artes em si e com o mundo do pensamento político, como uma corporificação de altos ideais democráticos e cívicos. Segundo Deacy & Villing nenhum outro deus do panteão grego conheceu contemporaneamente tamanha popularidade quanto Atena ou sua encarnação romana, Minerva. Tornou-se uma presença constante na literatura e nas artes visuais do ocidente, sua imagem reapareceu em inúmeras cidades, instalada em edifícios públicos importantes, casas editoriais se colocaram sob sua égide, foi uma inspiração para líderes políticos, influenciou e associou-se a outras figuras simbólicas e gerou considerável bibliografia no campo dos estudos clássicos em geral e da arqueologia. No terreno particular da mitografia as conquistas realizadas pelos eruditos, especialmente entre o fim do século XIX e início do XX, na reunião enciclopédica de informações sobre seu mito, culto, iconografia e outras, dispersas em várias fontes, permanecem até nos dias de hoje insuperáveis e determinaram os rumos de toda a pesquisa subsequente.
Esoterismo e revivalismo religioso
Antigamente, segundo informou Heródoto, Atena estava associada ao signo de Capricórnio, porque se acreditava que a sua couraça fora feita com a pele de um bode, mas na astrologia contemporânea a deusa tem servido de motivo temático para outras associações, ainda mais depois de um asteroide com seu nome ter sido incorporado aos planetas na carta astrológica, regendo variavelmente, conforme os autores, aspectos de inteligência, justiça, liberdade, intuição, misericórdia, verdade, valores, organização, competência, estrutura, construção da carreira profissional e integração entre mente e corpo. Tem sido também ligada aos signos de Virgem, por uma relação direta com sua própria virgindade, regendo entre outras coisas aspectos de intelecto, consciência, pureza e inteligência e sua expressão na matéria, e ao de Libra, através de seu atributo da justiça, dando aos nativos um senso de equilíbrio, bom julgamento e harmonia, e a habilidade de entender ambos os lados de uma disputa. Na astrologia esotérica foi considerada regente do signo de Escorpião e dos aspectos de renovação e vitória sobre a morte, no tarô corresponde à carta da Rainha de Espadas, e seus atributos já foram interpretados à luz da ioga em relação e ao controle do pensamento e da respiração.
Árvore genealógica baseada em Hesíodo e Pseudo-Apolodoro; por simplificação, os outros filhos de Zeus não foram representados. Erictônio foi incluído baseado em Pseudo-Apolodoro, Pseudo-Apolodoro, 3.14.6. Outras versões o dão como filho adotivo de Atena, mas gerado por Gaia.


