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Autismo no Brasil

O autismo no Brasil é um conjunto de manifestações em torno do autismo no país sul-americano desde o século XX. Foi introduzido por meio da psiquiatria infantil com influência predominante da psicanálise no atendimento médico, em meados da década de 1950. O desenvolvimento de uma comunidade com base no autismo foi tardio, com a fundação da Associação de Amigos do Autista (AMA) em 1983. Desde então, o autismo se tornou um tema de interesse de familiares, profissionais da saúde e de pessoas autistas.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 21/07/2026
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Descrições e estatísticas

Ao observarem o panorama histórico, os pesquisadores Francisco Ortega, Rafaela Zorzanelli e Clarice Rios afirmam que o autismo no Brasil representa um cenário de "guerras" que se inserem na definição do que é o autismo, nas políticas de saúde mental e nas narrativas midiáticas. Os autores também destacam que, historicamente, a psicanálise foi perdendo espaço, ao passo que abordagens comportamentais foram se tornando as principais no meio. Em 2022, o Ministério da Saúde descrevia o autismo como "um distúrbio caracterizado pela alteração das funções do neurodesenvolvimento do indivíduo, interferindo na capacidade de comunicação, linguagem, interação social e comportamento", com ênfase em diagnóstico precoce e "desenvolvimento de estímulos". Números da Abra em 1997 estimavam 600 mil pessoas com o chamado "autismo clássico" no Brasil. Em fevereiro de 2011, foi publicado o primeiro estudo de epidemiologia de autismo da América Latina, com dados de 2010, liderado pelo psiquiatra da infância Marcos Tomanik Mercadante. Os números se basearam num projeto-piloto com amostragem de 20 mil pessoas num bairro da cidade paulista de Atibaia, e aferiu a prevalência de um caso de autismo para cada 368 crianças de 7 a 12 anos. Nos anos seguintes, diferentes estimativas sobre o autismo no Brasil foram apresentadas com base nos números do Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos. Em 2014, estimava-se 2 milhões de brasileiros autistas, enquanto em 2023 o número subiu para quase 6 milhões.

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História

1950–1980: Antecedentes

De acordo com a historiadora Bruna Alves Lopes, há poucos registros sobre autismo no Brasil até a década de 1980. Durante a década de 1940, quando o trabalho do psiquiatra Leo Kanner inseriu o autismo enquanto diagnóstico independente, o Brasil já contava com uma influência significativa da psicanálise no atendimento infantil. O campo psicanalítico iniciou sua penetração no país nos anos 1920 e alcançou uma hegemonia dentro da própria psiquiatria em meados de 1950. Ao mesmo tempo, a ideia de que a causa do autismo era a falta de vínculo dos pais (especialmente mães) com a criança surgiu com Kanner em 1948, mas foi o psicanalista Bruno Bettelheim quem desenvolveu-a ao longo das décadas de 1950 e 1960.

1980–1993: Primeiras associações e movimentos de familiares

O autismo, enquanto movimento, começa a se consolidar no Brasil a partir da década de 1980. Foi neste período que familiares, especialmente mães, descontentes com a culpa recebida pela condição dos filhos, começaram a se organizar para conseguir acesso a serviços de saúde. Especialmente em grandes capitais, como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, familiares passaram a escrever cartas para grandes jornais, como o Jornal do Brasil, e chamar a atenção do poder público para a causa do autismo. Em abril de 1980, a Rede Globo exibiu o filme Son-Rise: a Miracle of Love, que foi um sucesso de audiência e motivou a emissora a reprisá-lo várias vezes ao longo da década. Alguns familiares de autistas chegaram a afirmar que o filme teria sido um marco para o conhecimento do autismo na década. O filme, no entanto, destaca um programa terapêutico chamado Son-Rise, que ao longo dos anos foi demonstrado como ineficaz no tratamento do autismo.

1994–2008: Expansão e reconhecimento nacional

Na história global do autismo, a década de 1990 foi caracterizada pelas mudanças de classificação de diagnóstico do autismo, e pelo papel central da internet no ativismo e, no Brasil, o período é marcado pelo desenvolvimento de políticas educacionais. Durante o governo de Itamar Franco, a educação especial foi reestrurada, o que coincidiu com a Declaração de Salamanca. As organizações pioneiras seguiram suas atividades, ora com problemas financeiros, ora com a adesão de novos membros. Neste contexto, a AMA ganhou em 1998, por meio do então presidente Fernando Henrique Cardoso, o Prêmio Direitos Humanos da Unesco daquele ano. Em 13 de dezembro de 1998, era inaugurada uma lista de discussão sobre o autismo no Yahoo!. Durante certo período, foi o mais influente espaço de interação virtual no Brasil acerca do autismo, em que pais compartilhavam histórias e dúvidas sobre o diagnóstico. Uma das características destas interações virtuais, segundo a historiadora Bruna Alves Lopes, era a solidariedade entre mães, a interação com pessoas de todo o país e uma nova caracterização do ativismo do autismo, apesar da precariedade da conexão à internet na época, marcada pela conexão de linha discada. O grupo permaneceu ativo e produtivo durante anos, até com a distribuição de materiais informativos sobre autismo. Em 2006, membros do grupo chegaram a lançar uma versão traduzida de um manual de treinamento em ABA e parte de seus membros fundaram várias associações pelo Brasil, entre elas a Associação de Familiares e Amigos da Gente Autista (Afaga).

2009–2019: Lei Berenice Piana e ativismo autista

No final de 2009, um grupo de familiares de autistas, pertencentes a organizações como o Moab, começou a se articular com deputados federais e senadores em Brasília. Segundo Berenice Piana, o ativista Ulisses Batista estava em comunicação com Cristovam Buarque, solicitando uma audiência pública sobre autismo. Ela, por sua vez, conheceu Paulo Paim, responsável por encaminhar à Comissão de Direitos Humanos a realização de uma audiência. O evento ocorreu em 24 de novembro de 2009, e se desenvolveu ao longo dos anos em direção a se tornar uma política pública. O texto da lei começou a ser escrito com a participação de vários ativistas. Segundo Piana, o texto estava pronto em março de 2010, e desta forma protocolado. A aprovação na comissão se deu em 2011, indo à plenário em junho daquele ano.

2020–atualmente: Legislações locais e judicialização

A partir da década de 2020, a legislação voltada ao autismo no Brasil passou a se expandir para além do âmbito federal, com estados como Rio Grande do Sul e Pará promovendo políticas estaduais voltadas para o autismo. Diferentes estados do País, de forma independente, também começaram a aprovar legislações que estendiam o prazo de validade de laudos de autismo, com ativistas justificando de que o processo de atualizações dos laudos era desgastante e sem sentido, visto que o autismo é uma condição sem cura. Em 2021, o debate sobre laudos ganhou visibilidade nacional a partir de um projeto de lei voltado a todas as deficiências permanentes. Em 2023, o Governo Federal sancionou o uso do cordão de girassol como símbolo de identificação de pessoas com deficiências invisíveis, o que inclui o autismo.

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Referências na cultura popular

Pessoas autistas

Ao longo dos anos, pessoas públicas externas ao ativismo do autismo começaram a compartilhar que estavam no espectro autista, como a colorista digital Marina Amaral, a jornalista e podcaster Amanda Ramalho, a atriz Letícia Sabatella, a desenhista Ana Mei, a cantora de funk carioca MC Beth, o ator Thiago Picchi, a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, o paleontólogo Tito Aureliano o comediante e apresentador Danilo Gentili, e a jornalista Renata Simões. Sobre a descoberta do autismo, Simões chegou a dizer que "Autoconhecimento é a grande ferramenta para a liberdade. Porque na hora em que você entende o que é seu e o que você opera, [você diz] 'não, isso aqui não é meu, é algo que você quer jogar em cima de mim' (…) O que é meu, da minha personalidade, o que é meu diagnóstico e o que é das outras pessoas? A hora em que você descobre isso, fica muito mais fácil a sua existência".

Imprensa

Historicamente, a pauta do autismo passou a ser divulgada por meio da imprensa, seja em cartas de leitores ou reportagens televisivas. Em termos de mídia impressa, o diagnóstico se tornou um tema de interesse crescente ao longo das décadas, com uma ênfase neurobiológica cada vez maior nos veículos tradicionais. Em um estudo baseado em matérias jornalísticas publicadas de 2000 a 2012, percebeu-se duas ênfases principais, segundo os autores, que seriam "a denúncia da falta de serviços especializados e a divulgação de estudos e metodologias estrangeiras". Os pesquisadores também afirmaram que esses dois pilares sustentam grande parte do ativismo de familiares de autistas.

Política

Além das relações políticas ocorridas ao longo das décadas em torno da pauta do autismo, ativistas do cenário do autismo começaram a se inserir em candidaturas políticas a níveis municipais, estaduais e federais do Brasil. Segundo dados da Agência Pública, 19 candidatos a vereador(a) nas eleições municipais no Brasil em 2020 se autodeclararam autistas. Na ocasião, um candidato autista e pai de Guarulhos, que não era autodeclarada como pessoa com deficiência, chegou a ser eleito. Já em 2022, depois de duas tentativas falhas em outros pleitos, a jornalista Andréa Werner conseguiu ser eleita deputada estadual por São Paulo. Meses após a eleição, Werner compartilhou publicamente ter recebido de autismo. No ano seguinte, o deputado federal Amom Mandel revelou saber estar no espectro do autismo desde os 14 anos e disse que sua decisão de tornar o diagnóstico público ocorreu por ter recebido ataques. Marcos Pollon foi o segundo deputado federal a dizer publicamente sobre seu diagnóstico de autismo, em 2025, afirmando que o diagnóstico tinha sido motivado por suas dificuldades sociais e por posições rígidas em questões políticas e partidárias.

Esporte

Como em grande parte dos países, esportes também fazem parte da rotina e do cotidiano de autistas, seja no contexto da educação ou dos elementos culturais associados a atividades esportivas. No cenário educacional, a educação física tem sido apontada como uma forma de se atentar a aspectos como psicomotricidade, desenvolvimento cognitivo e corporal, além da coordenação motora de autistas, geralmente considerada desajeitada. Por outro lado, como uma atividade geralmente social, participar dessas atividades pode ser considerado um desafio para uma parte de autistas brasileiros. Na década de 2020, no contexto do futebol, autistas começaram a desenvolver torcidas voltadas ao autismo. O primeiro caso foram os Autistas Alvinegros, do Sport Club Corinthians Paulista, que fundaram uma torcida de autistas adultos em 2022. A iniciativa ganhou espaço em vários clubes brasileiros, tanto na criação das tais torcidas, na adaptação dos estádios com acessibilidade e cabines sensoriais e também com o uso de símbolos do autismo em uniformes de jogadores titulares.

Vídeos e podcasts

O primeiro canal sobre autismo produzido por uma pessoa autista no Brasil foi de Nelson Marra, ativo entre 2015 e 2016. A partir de 2015, surgiram canais protagonizados por figuras como Sophia Mendonça, Selma Sueli Silva, Marcos Petry, Leo Akira, Willian Chimura, Thais Cardoso e Raquel Nery. Do âmbito de profissionais, destacaram-se nomes como Mayra Gaiato, Clay Brites, Lucelmo Lacerda e Thiago Lopes. O primeiro podcast sobre autismo do Brasil foi lançado em 2007, chamado Rádio Autismo, produzido pela Casa da Esperança. Em 2014, a organização também criou o Autismo Brasil Podcast, ativo até 2017. Em 2018 foi lançado o primeiro podcast feito somente por autistas: o Introvertendo. Ao longo dos anos, também surgiram outras produções do gênero, como Lógica Autista e Atípicas. Em 2023, o podcast Esquizofrenoias liberou uma temporada exclusiva sobre autismo chamada Amanda no Espectro.

Filmes e séries

O autismo no Brasil chegou a ser representado em múltiplos filmes, séries, novelas, documentários e outras produções audiovisuais, sejam elas focadas no diagnóstico ou com personagens autistas. Um de seus destaques foi a personagem Benê, de Malhação: Viva a Diferença, interpretada pela atriz Daphne Bozaski, que também é representada na série As Five. Em 2013, a novela Amor à Vida apresentou a personagem Linda (Bruna Linzmeyer). Entretanto, a abordagem da produção em relação a construção da personagem recebeu críticas negativas. Já em 2019, a adaptação Éramos Seis apresentou a personagem autista Justina (Julia Stockler), e mais recentemente Cristiano (Davi Luís Flores), em Três Graças.

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Fontes consultadas

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