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Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis foi um escritor brasileiro, amplamente reconhecido por críticos, estudiosos, escritores e leitores como o maior expoente da literatura brasileira. Sua produção literária abrangeu praticamente todos os gêneros, incluindo poesia, romance, crônica, dramaturgia, conto, folhetim, jornalismo e crítica literária. Machado de Assis testemunhou a Abolição da Escravatura e a transição política do Brasil, com o golpe da proclamação da República em substituição ao Império, além de diversos eventos significativos no final do século XIX e início do século XX, sendo um notável comentador e relator dos acontecimentos político-sociais de sua época.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 07/07/2026
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Biografia

Com a morte da esposa, entrou em profunda depressão, notada pelos amigos que lhe visitavam, e, cada vez mais recluso e doente, encaminhou-se também para sua morte. Numa carta endereçada ao amigo Joaquim Nabuco, Machado lamenta que "foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou só no mundo […]". Antes de sua morte, em 1908, e depois da morte da esposa, em 1904, Machado viu publicar suas últimas obras: os romances Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908); e a coletânea Relíquias de Casa Velha (1906). No mesmo ano desta última obra, escreveu sua última peça teatral, Lição de Botânica. Em 1905, participou de uma sessão solene da Academia para a entrega de um ramo de carvalho de Tasso, remetido por Joaquim Nabuco. Com Relíquias, reuniu em livro mais algumas de suas produções, como também seu mais famoso soneto, "A Carolina", "preito de saudade à esposa morta". Em 1907, dá início ao seu último romance, Memorial de Aires, que é um livro norteado por uma poesia leve e tranquila e tendente à saudade.

Primeiros anos

Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, então capital do Império, em pleno Período Regencial. Seu pai foi Francisco José de Assis, homem mulato pintor de paredes, filho de Francisco de Assis e Inácia Maria Rosa, ambos pardos. A mãe foi a portuguesa Maria Leopoldina Machado da Câmara, branca, filha de Estêvão José Machado e Ana Rosa. Os Machado haviam emigrado para o Brasil em 1815, oriundos da Ilha de São Miguel, no arquipélago português dos Açores. Ambos os pais de Machado de Assis sabiam ler e escrever, fato incomum na sua época e classe social. Ambos eram agregados de Dona Maria José de Mendonça Barroso Pereira, esposa do falecido senador Bento Barroso Pereira, que abrigou seus pais e lhes permitiu morar junto com ela.

Jornais, poemas e óperas

Tudo indica que Machado evitou o subúrbio carioca e procurou a subsistência no centro da cidade. Com muitos planos e espírito aventureiro, fez algumas amizades e relacionamentos. Em 1854, publicou seu primeiro soneto, dedicado à "Ilustríssima Senhora D.P.J.A", assinando como "J. M. M. Assis", no Periódico dos Pobres. No ano seguinte, passou a frequentar a livraria do jornalista e tipógrafo Francisco de Paula Brito. Paula Brito era um humanista e sua livraria, além de vender remédios, chás, fumo de rolo, porcas e parafusos, também servia como ponto de encontro da sua Sociedade Petalógica (peta=(ê), s. f. 1. Mentira, patranha). Um tempo mais tarde, Machado se referiria à Sociedade da seguinte forma: "Lá se discutia de tudo, desde a retirada de um ministro até a pirueta da dançarina da moda, desde o dó do peito de Tamberlick até os discursos do Marquês do Paraná".

Crisálidas, teatros e política

Aos 21 anos de idade Machado já era uma personalidade considerada entre as rodas intelectuais cariocas. A esta altura já era conhecido por Quintino Bocaiúva, que o convidou para o Diário do Rio de Janeiro, onde Machado trabalhou intensamente como repórter e jornalista de 1860 a 1867, com Saldanha Marinho supervisionando-o. Colaborou para o Jornal das Famílias sob pseudônimos: Job, Vitor de Paula, Lara, Max, e para a Semana Ilustrada, assinando seu nome ou pseudônimos. Bocaiúva admirava o gosto de Machado pelo teatro, mas considerava suas obras destinadas à leitura e não à encenação. Com a morte do pai, Machado lhe dedica a coletânea de poesias Crisálidas: "À Memória de Francisco José de Assis e Maria Leopoldina Machado de Assis, meus Pais."

Noivado, cartas e relacionamento

No mesmo ano ao da reunião com o poeta, Machado teria um outro encontro que mudou de vez a sua vida. Um de seus amigos, Faustino Xavier de Novaes (1820–1869), poeta residente em Petrópolis, e jornalista da revista O Futuro, estava mantendo sua irmã, a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais, desde 1866 em sua casa, quando ela chegou ao Rio de Janeiro do Porto. Segundo os biógrafos, veio a fim de cuidar de seu irmão que estava enfermo, enquanto outros dizem que foi para esquecer uma frustração amorosa. Carolina despertara a atenção de muitos cariocas; muitos homens que a conheciam achavam-na atraente, e extremamente simpática. Com o poeta, jornalista e dramaturgo Machado de Assis não fora diferente. Tão logo conhecera a irmã do amigo, logo apaixonou-se. Até essa data o único livro publicado de Machado era o poético Crisálidas (1864) e também havia escrito algumas peças de teatro, sem muita repercussão. Carolina era cinco anos mais velha que ele; deveria ter uns trinta e dois anos na época do noivado. Os irmãos de Carolina, Miguel e Adelaíde (Faustino já havia morrido devido a uma doença que o levou à insanidade) não concordaram que ela se envolvesse com um mulato. Contudo, Machado de Assis e Carolina Augusta se casaram no dia 12 de Novembro de 1869.

Casamento, histórias e lendas

Depois do Catete, foram morar na casa n.º 18 da Rua Cosme Velho (a residência mais famosa do casal), onde ficariam até a morte. Do nome da rua surgira o apelido Bruxo do Cosme Velho, dado por conta de um episódio onde Machado queimava suas cartas em um caldeirão, no sobrado da casa, quando a vizinhança certa vez o viu e gritou: "Olha o Bruxo do Cosme Velho!". Essa história acrescida à da cachorra, para alguns biógrafos, não passa de lenda. Machado de Assis e Carolina Augusta teriam vivido uma "vida conjugal perfeita" por 35 anos. Quando os amigos certa vez desconfiaram de uma traição por parte de Machado, seguiram-no e acabaram por descobrir que ele ia todas as tardes avistar a moça do quadro de A Dama do Livro (1882), de Roberto Fontana. Ao saberem que Machado não podia comprá-lo, deram-lhe de presente, o que o deixou particularmente feliz e grato.

Academia Brasileira de Letras

Inspirados na Academia Francesa, Medeiros e Albuquerque, Lúcio de Mendonça, e o grupo de intelectuais da Revista Brasileira idealizaram e fundaram, em 1897, junto ao entusiasmado e apoiador Machado de Assis, a Academia Brasileira de Letras, com o objetivo de cultuar a cultura brasileira e, principalmente, a literatura nacional. Unanimemente, Machado de Assis foi eleito o primeiro presidente da Academia logo que ela se instalou, no dia 28 de janeiro do mesmo ano. Como escreve Gustavo Bernardo, "Quando se fala Machado fundou a Academia, no fundo o que se quer dizer é que Machado pensava na Academia. Os escritores a fundaram e precisaram de um presidente em torno do qual não houvesse discussão". No discurso inaugural, Machado aconselhou aos presentes: "Passai aos vossos sucessores o pensamento e a vontade iniciais, para que eles os transmitam também aos seus, e a vossa obra seja contada entre as sólidas e brilhantes páginas da nossa vida brasileira".

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Obra

Escola literária

Em sua História da Literatura Brasileira (1916), José Verissimo, um dos primeiros historiadores da literatura brasileira ao lado de Sílvio Romero e Araripe Júnior, dedica-se a um capítulo inteiro para tratar só de Machado de Assis e lhe separa duas fases de sua obra: uma ligada à escola romântica (ou aos convencionalismos da época) e outra realista. No entanto, é enfático ao registrar logo de início: "A data do seu nascimento e do seu aparecimento na literatura o fazem da última geração romântica. Mas a sua índole literária avessa a escolas, a sua singular personalidade, que lhe não consentiu jamais matricular-se em alguma, quase desde os seus princípios fizeram dele um escritor à parte, que tendo atravessado vários momentos e correntes literários, a nenhuma realmente aderiu senão mui parcialmente, guardando sempre a sua isenção". Isto posto, com diversos elementos contrários às tradições, os romances machadianos da primeira fase seriam Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876), Iaiá Garcia (1878), enquanto que os da segunda seriam todos os outros restantes de sua carreira, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908), pertencentes a um Realismo heterodoxo próprio do Machado. Embora esta divisão crítica seja ortodoxa entre os acadêmicos, o próprio Machado escrevera numa apresentação de uma reedição de Helena que este e os outros romances da sua fase "romanesca" possuíam um "eco de mocidade e fé ingênua".

Estilo

A obra de Machado de Assis assume uma originalidade despreocupada com as modas literárias dominantes de seu tempo. Os acadêmicos notam cinco fundamentais enquadramentos em seus textos: "elementos clássicos" (equilíbrio, concisão, contenção lírica e expressional), "resíduos românticos" (narrativas convencionais ao enredo), "aproximações realistas" (atitude crítica, objetividade, temas contemporâneos), "procedimentos impressionistas" (recriação do passado através da memória), e "antecipações modernas" (o elíptico e o alusivo engajados a um tema que permite diversas leituras e interpretações). Se, por um lado, os realistas que seguiam Flaubert esqueciam do narrador por detrás da objetividade narrativa, e os naturalistas, à exemplo de Zola, narravam todos os detalhes do enredo, Machado de Assis optou por abster-se de ambos os métodos para cultivar o fragmentário e interferir na narrativa com o objetivo de dialogar com o leitor, comentando seu próprio romance com filosofias, metalinguagens, intertextualidade. Em tom absolutamente não-enfático, neutro, sem retórica, as obras de ficção machadianas possuem na maior parte das vezes um humor reflexivo, ora amargo, ora divertido. De fato, uma de suas características mais apreciadas é a ironia, que os estudiosos consideram a "arma mais corrosiva da crítica machadiana". Num processo próximo ao do "impressionismo associativo", há de certo uma ruptura com a narrativa linear, de modo que as ações não seguem um fio lógico ou cronológico, mas que é relatado conforme surgem na memória das personagens ou do narrador. Sua mensagem artística se dá por meio de uma interrupção na narrativa para dialogar com o leitor sobre a própria escritura do romance, ou sobre o caráter de determinado personagem ou sobre qualquer outro tema universal, numa organização metalinguística que constituía seu principal interesse como autor.

Temática

A temática de Machado envolve desde o uso de citações referentes a eventos de sua época até os mais intricados conflitos da condição humana. É capaz de retratar desde relações implicitamente homossexuais e homoeróticas, como no conto "Pílades e Orestes", até temas mais complexos e explícitos como a escravidão sob o ponto de vista cínico do senhor de escravos, sempre criticando-o de forma oblíqua. Sobre a escravidão, Machado de Assis já havia tido uma experiência familiar, quer por seus avós paternos terem sido escravos, quer porque lia os jornais com anúncios de escravos fugitivos. Em seu tempo, a literatura que denunciava crenças etnocêntricas que posicionavam os negros no último grau da escala social era distorcida ou tolhida, de modo que este tema encontra uma grande expressividade na obra do autor. A começar, a obra Memórias Póstumas de Brás Cubas narra o que seria uma das páginas de ficção mais perturbadoras já escritas sobre a psicologia do escravismo: o negro liberto compra seu próprio escravo para tirar sua desforra.

Crítica literária

José de Alencar chamou Machado de Assis "o primeiro crítico brasileiro". De fato, o escritor foi um prolífico analisador da literatura de sua época antes mesmo de Sílvio Romero. Além de percorrer e analisar as obras publicadas em sua época, ele escrevia sobre a literatura vigente. Mário de Alencar escreve que Machado começou como crítico antes mesmo de ser romancista: pretérito a Ressurreição (1872), suas críticas iniciaram-se em 1858. Estes textos circularam exclusivamente em jornais e revistas — A Marmota, A Semana Ilustrada, O Novo Mundo, Correio Mercantil, O Cruzeiro, Gazeta de Notícias, Revista Brasileira — até 1910, quando Alencar os reuniu num volume. Segundo Machado de Assis, para o crítico efetuar o julgamento de uma obra, "cumpre-lhe meditar profundamente sobre ela, procurar-lhe o sentido íntimo, aplicar-lhe as leis poéticas, ver enfim até que ponto a imaginação e a verdade conferenciaram para aquela produção".

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Especulações sobre Machado

Política

Machado de Assis pôde assistir, ao longo do século XIX e no começo do século XX, a alterações vastas e decisivas no cenário internacional e nacional, nos costumes, nas ciências da natureza e da sociedade, nas técnicas e em tudo o que entende com o progresso material. Alguns estudiosos supõem, no entanto, que as crenças atribuídas a Machado de Assis como um escritor engajado são falsas e que ele não esperava nada ou quase nada da história e da política. Por exemplo: quanto às guerras e os conflitos políticos de sua época, em finais do século XIX, dá de ombros em crônica de 26 de abril de 1896, ao escrever: Por outro lado, vivendo na corte, na capital do Rio de Janeiro, Machado foi um grande comentador direto dos acontecimentos políticos do país e todas suas grandes obras de ficção têm forte cunho social. Além disso, as crônicas garantem material especulativo direto. Na juventude, quando ainda lutava para ascender social e artisticamente, antes de tornar-se o escritor o qual passou a se conhecer, encontram-se detalhes que mais tarde seriam melhor problematizados. A 5 de março de 1867, então com 28 anos e ainda sem publicar qualquer romance, manifesta na primeira de suas Cartas Fluminenses, intitulada "A Opinião Pública": "Não frequento o paço, mas gosto do imperador. Tem as duas qualidades essenciais ao chefe de uma nação: é esclarecido e honesto. Ama o seu país e acha que ele merece todos os sacrifícios". Nela, também declara uma profissão de fé política, a qual, segundo Wilson Martins, não evidência ter modificado posteriormente:

Religião

Tem-se intensificado a tentativa de descobrir a religião de Machado de Assis. Sabe-se que na infância ajudava uma igreja local e que fora parcialmente educado em idiomas por um padre, o já citado Silveira Sarmento. Analisando sua obra, muitos críticos o colocaram ao lado de Otávio Brandão, crendo que ele era adepto absoluto do niilismo. Outros o enxergavam como um perfeito ateu, no entanto recebeu profunda influência de textos católicos (ver seção Leituras). De fato, a religião de Machado de Assis tornou-se tão obscura que talvez não haja outro método senão procurá-la em sua obra. "Vi de um lado o Calvário, e do outro ladoO Capitólio, o templo-cidadela.E torvo mar entre ambos agitado,Como se agita o mar numa procela. […]"

Xadrez

Machado de Assis era apaixonado pelo jogo de xadrez. Seu interesse por este divertimento levou-o a ocupar posição destacada nos círculos enxadrísticos do tempo do Império, precursores do xadrez no Brasil. Mantinha correspondência com as seções especializadas dos periódicos da época, compondo problemas (foi o primeiro brasileiro a ter um problema de xadrez publicado) e enigmas, e, indo mais além, participou do primeiro torneio de xadrez efetuado no Brasil, em 1880. Sua primeira referência literária explícita ao xadrez data de 1864, no conto "Questão de Vaidade"; a data faz supor que seu professor provavelmente tenha sido Arthur Napoleão, pianista, compositor, editor de partituras musicais luso-brasileiro, que chegou a acompanhar ao Brasil, de volta de uma de suas viagens à Europa, a futura esposa de Machado, Carolina Xavier de Novais. Napoleão, divulgador obstinado do xadrez em diversas revistas, jornais e clubes brasileiros, era precoce; aos dezesseis anos de idade, o virtuose luso radicado no Brasil enfrentara o famoso campeão do mundo Paul Charles Morphy em Nova Iorque.

Saúde

Para biógrafos ortodoxos, Machado de Assis possuía uma saúde muito frágil. Acredita-se que tenha nascido com epilepsia e gagueira, e que desenvolveu ao longo de sua vida problemas nervosos, cegueira, depressão, que teriam se agravado após o falecimento da esposa. As crises epilépticas teriam se iniciado na infância, tendo remissão na adolescência e recidivaram na terceira década, tornando-se mais frequentes nos últimos anos. Na icônica imagem abaixo, vê-se Machado sendo acudido próximo ao Cais Pharoux, em 1º de setembro de 1907, na Praça XV, fotografia tirada por Augusto Malta. Disfarçando a gagueira, conta-se que certa vez lhe notaram a dificuldade com que se expressava por conta das mordeduras na língua, ao que o escritor retrucou: "estas aftas, estas aftas…". Quanto à epilepsia, crê-se que não a contou nem mesmo para Carolina antes do casamento até acometê-lo uma crise generalizada tônico-clônica que desde criança prefigurava como "umas coisas esquisitas" que não haviam se repetido até o casamento. Crê-se que o autor não tivesse tido até então uma crise típica. Mesmo antes da morte de Carolina, em 1880 parcialmente perdeu a visão, tendo que ouvir a esposa ler-lhe textos de jornais ou livros.

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Reputação crítica

"É grande, é imenso, o Machado. É o pico solitário das nossas letras. Os demais nem lhe dão pela cintura." Machado usufruiu de grande prestígio em vida, fato raro para um escritor na época. Desde cedo, ganhou reconhecimento de Antônio de Almeida e José de Alencar, que o liam através de suas primeiras crônicas e contos nas revistas e jornais cariocas. Em 1881, com a publicação de Memórias Póstumas…, Urbano Duarte escreveu que sua obra era "falsa, deficiente, sem nitidez, e sem colorido". Com o impacto inovador do volume, Capistrano de Abreu questionava se o livro era mesmo um romance, ao passo que um outro comentarista elogiava-o como "sem correspondência nas literaturas de ambos os países de língua portuguesa". A votação unânime que colocou Machado de Assis, dentre diversos intelectuais e escritores de sua época, como presidente da Academia Brasileira de Letras reforça o seu prestígio e consagração enquanto esteve vivo.

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Leituras

Machado de Assis era um exímio leitor e, consecutivamente, sua obra foi influenciada pelas leituras que fazia. Após sua morte, seu patrimônio constituía, entre outras coisas, de aproximadamente 600 volumes encadernados, 400 em brochura e 400 folhetos e fascículos, no total de 1 400 peças. Sabe-se que era familiarizado com os textos clássicos e com a Bíblia. Em O Alienista, Machado faz ligação à sátira menipeia clássica ao retomar a ironia e a paródia em Horácio e Sêneca. O Eclesiastes, por sua vez, legou a Machado uma peculiar visão de mundo e foi seu livro de cabeceira no fim da vida. Dom Casmurro é provavelmente a obra que mais possui influência teológica. Há referências a São Tiago e São Pedro, principalmente pelo fato de o narrador Bentinho ter estudado em seminário. Além disso, no Capítulo XVII Machado faz alusão a um oráculo pagão do mito de Aquiles e a ao pensamento israelita. De fato, Machado dispunha de uma biblioteca abastecida com teologia: crítica histórica sobre religião, à vida de Jesus, ao desenvolvimento do cristianismo, à literatura hebraica, à história Muçulmana, aos sistemas religiosos e filosóficos da Índia. Jean-Michel Massa realizou um catálogo dos livros da biblioteca do autor, que foi revisto em 2000 pela pesquisadora Glória Vianna, que constatou que 42 dos volumes da lista original de Massa estavam extraviados:

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Influência

Machado de Assis influenciou e influencia uma plêiade de escritores, sociólogos, historiadores, intelectuais em geral e artistas pelo Brasil e pelo mundo. Nomes como Olavo Bilac e Coelho Neto, Joaquim Francisco de Assis Brasil, Cyro dos Anjos, Lima Barreto (especialmente seu Triste Fim de Policarpo Quaresma), Moacir Scliar, Múcio Leão, Leo Vaz, Drummond de Andrade, Nélida Piñon, e sua obra permanece como uma das mais respeitadas e influentes da literatura brasileira. Rubem Fonseca escreveu os contos "Chegou o Outono", "Noturno de Bordo" e "Mistura" baseado na linguagem de Machado de Assis— "a frase curta, despojada de ornatos, na emoção disfarçada, na reticência que sugere". Os temas teológicos abordados em seus contos, como em "Missa do Galo", influenciaram o escritor e pensador cristão Gustavo Corção. Lygia Fagundes Telles também se diz influenciada por Machado, especialmente por sua "ambiguidade, o texto enxuto, a análise social e a ironia fina". Em 1967, Lygia realizou a adaptação cinematográfica do romance Dom Casmurro com Paulo Emílio Sales Gomes, intitulado Capitu, com direção de Paulo Cesar Saraceni. Em 2006, Yasmin Jamil Nadaf realizou uma pesquisa que se concretizou no livro Machado de Assis em Mato Grosso: textos críticos da primeira metade do século XX, onde reúne nove textos de mato grossenses que já na época de Machado sofriam sua influência estética, dois desses escritos por José de Mesquita.

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Legado e homenagens

Machado de Assis estampa o principal prêmio literário brasileiro, o Prêmio Machado de Assis, oferecido a escritores pelo conjunto da obra. Com Memórias Póstumas de Brás Cubas, é o introdutor do Realismo no Brasil, da narrativa fantástica e também da primeira obra da literatura brasileira que ultrapassa os limites nacionais, sendo um grande autor universal. E, apesar de Álvares de Azevedo e Bernardo Guimarães já escreverem contos pertinentes em meados do século XIX, os críticos notam que é com Machado que o gênero atinge novas possibilidades. Uma dessas possibilidades seria a de inaugurar, em livros como Contos Fluminenses (1870), Histórias da Meia-Noite (1873) e Papéis Avulsos (1882), "uma nova perspectiva estilística e uma nova visão da realidade, mais complexa e matizada". Esses livros trazem contos como "O Alienista", "Teoria do Medalhão", "O Espelho", etc., em que aborda o poder, as instituições e também a loucura e a homossexualidade, que seriam temas literários muito precoces para a época. No gênero romance, com Dom Casmurro (1899), por exemplo, traz à tona intertextualidade e metalinguagem inovadoras e sem precedentes na literatura e também muito influentes no futuro para escritores do mundo inteiro.

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Lista de obras

Edição dos volumes

A obra machadiana constitui-se ao todo de 10 romances e 10 peças teatrais, 219 contos, 5 coletâneas de poemas e sonetos, e mais de 600 crônicas. Suas primeiras produções foram editadas por Paula Brito, e, mais tarde, por Baptiste-Louis Garnier. Garnier havia chegado ao Rio de Janeiro em 1844 de Paris e estabeleceu-se aí como uma figura notória do mercado livreiro brasileiro. Em maio de 1869, Machado assinou um contrato com Garnier para o editor francês publicar suas obras; cada volume saía com tiragem de mil exemplares. Sabe-se que o autor recebeu 200 réis por seu primeiro livro de contos, Contos Fluminenses (1870), e por Falenas (1870), segundo livro de poemas e o primeiro impresso na França. Após seu casamento com Carolina, Machado assinou um novo contrato com Garnier, com o objetivo d'ele editar outros de seus três próximos livros: Ressurreição (1872), Histórias da meia-noite (1873), e um terceiro que nunca foi publicado. Quincas Borba (1891), ao lado de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), foi publicado primeiramente em folhetim; o primeiro saiu em capítulos na revista A Estação entre os anos de 1886 e 1891 para, em 1892, ser publicado definitivamente pela Livraria Garnier. O segundo, por sua vez, de março a dezembro de 1880 na Revista Brasileira até ser editado em 1881 pela Tipografia Nacional. Acredita-se que "Devem ter sido impressos uns três mil a quatro mil exemplares, sem contar os da revista."

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Fontes consultadas

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