A Mão e a Luva
A Mão e a Luva é o segundo romance escrito por Machado de Assis, publicado em 1874, sua primeira experiência como folhetinista de jornal, seguindo o exemplo de seus amigos Manuel Antônio de Almeida e José de Alencar. Publicado em 20 folhetins, com o subtítulo "Um perfil de mulher", nos rodapés de O Globo, jornal dirigido por Quintino Bocaiúva, entre 26 de setembro e 3 de novembro.
O enredo conta a história de Guiomar, uma moça que no início da história (quando Estêvão se apaixona pela primeira vez por ela) está com 17 anos, afilhada de uma baronesa, "criaturinha galante e delicada, assaz inteligente e viva, um pouco travessa" e que deseja ascender socialmente. Ela é disputada por três homens: Jorge, Estêvão e Luís Alves. Estêvão "logo a amou, como se ama pela primeira vez na vida - amor um pouco estouvado e cego, mas sincero e puro", porém é um caráter fraco, vacilante, indeciso, nascido mais para derrotas do que para vitórias. Jorge, sobrinho e preferido da baronesa, "vivendo do pecúlio que dos pais herdara e das esperanças que tinha na afeição da baronesa", tem um amor "pueril e lascivo", como descreve o próprio Machado de Assis. Luís Alves começa a admirar Guiomar apenas depois, com o passar do tempo. Porém, é um meio-termo entre os dois primeiros, pois ele é um homem resoluto e ambicioso. Jorge, com o apoio da baronesa e de sua governanta inglesa, Mrs. Oswald, pede a mão de Guiomar. No dia seguinte, Luís Alves faz o mesmo. Então, a baronesa pede a Guiomar que se decida entre os dois pretendentes ("escolhe com plena liberdade aquele que te falar ao coração"). Guiomar diz que escolhe Jorge, porém a baronesa sabe que a afilhada quer casar-se com Luís Alves. Depois, Guiomar e Luís Alves casam-se e o trecho final do livro justifica seu título:
A Semana Ilustrada considerou o romance uma "pérola da literatura pátria". Já Ernesto Augusto de Sousa e Silva Rio, em O Mequetrefe, embora elogie o estilo da obra ("português limpo", "linguagem elegante", "diálogo animado"), critica a simplicidade excessiva da ação. O Cônego Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro, na Revista Brasílico-Literária de O Novo Mundo, editado em Nova Iorque, também elogia o estilo, mas critica a "substância": "Fracos são os caracteres, a urdidura despida de interesse comovente, a ação fria e o desfecho intuitivo desde o primeiro ato". O romance, portanto, passou despercebido, só sendo reeditado 33 anos depois. Quem sabe essas críticas negativas tenham motivado a guinada de Machado em seu romance seguinte, Helena, com sua trama bem mais folhetinesca?
Imagem: jaci XIII · BY-NC-SA · Openverse
Guiomar passou da poltrona à janela, que abriu toda, para contemplar a noite — o luar que batia nas águas, o céu sereno e eterno. Eterno, sim, eterno, leitora minha, que é a mais desconsoladora lição que nos poderia dar Deus, no meio das nossas agitações, lutas, ânsias, paixões insaciáveis, dores de um dia, gozos de um instante, que se acabam e passam conosco, debaixo daquela azul eternidade, impassível e muda como a morte. Amores não se encomendam como vestidos; sobretudo não se fingem, ou não se devem fingir nunca. Há criaturas que chegam aos cinquenta anos sem nunca passar dos quinze, tão símplices, tão cegas, tão verdes as compõe a natureza; para essas o crepúsculo é o prolongamento da aurora. Outras não; amadurecem na sazão das flores; vêm ao mundo com a ruga da reflexão no espírito, — embora, sem prejuízo do sentimento, que nelas vive e influi, mas não domina. Nestas o coração nasce enfreado; trota largo, vai a passo ou galopa, como coração que é, mas não dispara nunca, não se perde nem perde o cavaleiro.


