A Segunda Vida
A Segunda Vida é um conto do escritor brasileiro Machado de Assis, que foi publicado originalmente na Gazeta Literária, em 15 de janeiro de 1884, e posteriormente incluído na coletânea Histórias sem Data, publicada na mesmo ano. Trata-se de um conto psiquiátrico-filosófico, onde um homem relata ter tido uma segunda chance de viver, mas com consequências inesperadas.
Monsenhor Caldas recebe a visita de José Maria, um louco que alega ter morrido décadas antes, mas sua alma foi agraciada com o privilégio de renascer e viver uma segunda vida. Porém, tendo ouvido tantas pessoas mais velhas exclamarem, ao verem um jovem: “Quem me dera aquela idade, sabendo o que sei hoje!”, pede para nascer com a experiência adquirida na primeira vida. O que parece ser uma coisa boa acaba se tornando uma maldição. Vive uma segunda infância e juventude paralisadas pelo medo. Sua experiência precoce o transforma em alguém que vê perigos em tudo, e não é capaz de desfrutar dos prazeres simples da vida. TRECHO: Como ia dizendo a Vossa Reverendíssima, morri no dia vinte de março de 1860, às cinco horas e quarenta e três minutos da manhã. Tinha então sessenta e oito anos de idade. Minha alma voou pelo espaço, até perder a terra de vista, deixando muito abaixo a lua, as estrelas e o sol; penetrou finalmente num espaço em que não havia mais nada, e era clareado tão somente por uma luz difusa. Continuei a subir, e comecei a ver um pontinho mais luminoso ao longe, muito longe. O ponto cresceu, fez-se sol.
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Os parágrafos iniciais promovem a suspensão da crença em realidade, causando um desconforto no leitor, fazendo com que experimentações insólitas se façam presentes. O horror da morte e dos seus efeitos sobre nós pode ser aproximado ao sentimento que se pode experimentar ante a loucura. A ruína e a morbidez nelas habitam. O que parece estar evidente neste conto é a aproximação que se pode fazer da loucura (como um interdito, como incompreensível e desafiadora) com a morte (também incompreensível e desafiadora). O sacerdote, na verdade, não escuta aquilo que lhe é contado, fazendo do narrador um ente enganado, pois, ainda que se empenhe em sua narração, seu interlocutor não quer ouvi-lo, limitando-se a fazer de conta que o escuta enquanto espera a chegada da polícia para ver-se livre de seu interlocutor e de sua estranha história. O medo físico de Monsenhor Caldas elimina qualquer possibilidade de interação com José Maria.


