As Três Maçãs
As três maçãs é um conto da coletânea As Mil e uma Noites. Pode ser considerado uma história de “mistério de assassinato quintessencial”, só que, em vez de Jafar partir para a investigação do crime como no romance policial clássico, o mistério é solvido por um jogo de acasos e coincidências. Ao final da narrativa, o vizir Jafar conta uma sub-história, mas que figura na obra como se fosse uma história de primeiro nível independente, “Os vizires Nuruddin Ali, do Cairo, e seu filho Badruddin Hasan, de Basra”
Imagem: L.Rodrigo - Papagaio · BY-NC-ND · Openverse
O califa Harun Arrasid e seu vizir Jafar descem à cidade para “ouvir as novidades”. Um pescador reclama que não conseguiu pescar nada, e o califa propõe que lance a rede outra vez no rio Tigre, pois ele comprará “por cem dinares qualquer coisa que a rede pegar”. O pescador “pesca” um baú pesado e trancado no qual encontram “uma jovem na flor da idade assassinada e com o corpo retalhado”. O califa determina que seu vizir descubra o assassino, do contrário ele e sua família serão enforcados. O vizir, que não é nenhum “perito em assassinatos”, entrega sua sorte ao destino e acaba decepcionando o califa. Quando o vizir vai ser enforcado, um jovem se apresenta como o assassino e conta que, estando sua mulher adoentada, ela desejou comer uma maçã. Não a encontrando na cidade, o jovem teve que viajar até Basra onde comprou três maçãs do pomar do califa. De volta da viagem, estando em sua loja, encontrou um escravo com uma das maçãs trazidas, que declarou tê-la ganhado de sua namorada. “Fui visitá-la hoje e a encontrei doente e com três maçãs. Ela me contou que o corno do marido dela viajou meio mês para comprá-las.” Ao chegar em casa, o marido dá pela falta de uma das maçãs e, enfurecido com o suposto adultério, mata a esposa, enfia-a no baú e o lança no rio Tigre.
Esta é a história contada por Jafar. O vizir do sultão do Egito tinha dois filhos – Samsuddin (“sol da fé”) Muhammad e Nuruddin (“luz da fé”) Ali. Quando ele morreu, eles o sucederam, revezando-se no vizirato. Certa vez, o mais velho propôs que se casassem com duas irmãs no mesmo dia, engravidassem a mulher na mesma noite, de modo que teriam seus filhos no mesmo dia, um menino e uma menina, que viriam a se casar. Mas os dois se desentendem em torno do dote desse futuro casamento, e Nuruddin, encolerizado, vai embora, saindo sem rumo pelo mundo, e acaba chegando em Basra, onde se casa com a filha do vizir local, com quem tem um filho, Badruddin (“plenilúnio da fé”) Hasan. Por predestinação e vontade divina, no mesmo dia do matrimônio de Nuruddin, seu irmão Samsuddin no Cairo também se casa e, na mesma noite, engravida a mulher, tendo uma filha, Sittulhusni. Quando Nuruddin, que acabou se tornando vizir de Basra, morre, o sultão se desentende com seu filho Badruddin, que foge. Na fuga, adormece num cemitério. Nesse ínterim, o sultão do Egito pede a filha de Samsuddin em casamento, mas este responde que “minha filha está guardada, prometida para o primo”. O sultão, enfurecido, ordena que ela se case com um corcunda horroroso, mas um casal de gênios, deparando com Badruddin adormecido no cemitério, transporta-o até o Cairo e faz com que tome o lugar do corcunda no leito nupcial e engravide a prima. No fim da noite, os gênios o levam embora e abandonam na cidade de Damasco, onde acaba virando um cozinheiro. Mas ele esqueceu no quarto da prima seu turbante com uns papéis costurados no forro que permitem que seja identificado. “Você porventura sabe quem a desvirginou, minha filha? Por Deus que foi o seu primo, filho do seu tio paterno.”


