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Iemanjá

Iemanjá é o orixá dos ebás, a deusa da fertilidade originalmente associada aos rios e desembocaduras. Seu culto principal estabeleceu-se em Abeocutá após migrações forçadas, tomando como suporte o rio Ogum de onde manifesta-se em qualquer outro corpo de água. Também é reverenciada em partes da América do Sul, Caribe e Estados Unidos. Sendo identificada no merindilogum pelos Odus irossum, Ossá e Ogundá, é representada materialmente pelo assentamento sagrado denominado Ibá de Iemanjá. Manifesta-se em iniciados em seus mistérios (eleguns) através de incorporação ou transe.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 26/07/2026
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Nome e Epítetos

"Iemanjá", nome que deriva da contração da expressão em iorubá Yèyé omo ejá ("Mãe cujos filhos são peixes") ou simplesmente Yemọjá em referência a um rio homônimo cultuado nos primórdios do culto deste orixá. Na Nigéria, Yemọjá pronuncia-se com o som de "djá" na última sílaba.[nb 1] A versão lusófona amplamente mais aceita no âmbito acadêmico é Iemanjá, por vezes também assume a grafia de Yemanjá onde a letra inicial alude a origem do nome. Isso também observa-se no caso de Yemayá na Santeria em Cuba. No odu Ogundá é chamada de Mojeleu (Mọjẹlẹwu), esposa de Oquerê, rei de Xaqui. Também é conhecida como Aleyo na mesma região de Ebadó, Aietoró, Igã e Ocotó. Em Trindade e Tobago é chamada de Emanjá (Emanjah) ou Amanjá (Amanjah), e Metre Sili ou Agué Toroió (Agué Toroyo) na República Dominicana. O seu nome na cultura popular brasileira Dona Janaína a Mãe d'água é associado por alguns autores a uma origem indígena mas não evidenciam seu significado ou grupo linguístico. No guarani existe Jara, pronúncia correta de Iara, significando, segundo M. A. Sampaio, "senhor, senhora, dono, dona, proprietário, proprietária. Não quer dizer 'senhora das águas'. Para esse termo, seria Y-jara: Y- água; jára, senhor ou senhora." Tal alusão à figura mitológica brasileira de Iara justificaria dois títulos em comum, Mãe d'Água e Sereia, e sua origem explica por que é tratada por "Dona".[nb 2] Lenz, H. Goldammer em seu dicionário de tupi e guarani identifica Janaína como corruptela de ja nã inã, que significaria "costuma ser semelhante ao solitário" ou "Rainha do Mar" em uma tradução livre do Tupi. O dicionário Houaiss registra a explicação da composição do nome por Olga Cacciatore como de origem iorubá: iya, "mãe" + naa, "que" + iyin, "honra". M. C. Costa, em um artigo referente, localiza sua origem no diminutivo de Jana, expressão portuguesa para Anjana, ser mitológico ligado às Xanas, uma espécie de fada ou ninfa da mitologia asturiana que vive nos rios, fontes e mananciais. Já outro nome Inaê é segundo Édison Carneiro apenas aférese de Janaína com mais um "ê" eufônico.

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Mito

Muitos atributos e códigos morais de Iemanjá podem ser verificados em suas cantigas e oriquis, tradições orais entre os iorubás, seus itãs ou mitos e demais tradições também se preservaram de mesmo modo,[nb 3] estando segundo R. Ogunleye suscetíveis às limitações da memória e à extinção de saberes com a morte dos que a preservam. Com a perda de muitos de seu culto durante as guerras sofridas pelos ebás, que resultaram na sua migração para uma nova região, não é espantoso que seus mitos originais só aludam ao suporte de seu culto na nova localidade, o rio Ogum e não seu predecessor como adiante verificamos. Os primeiros registros literários de seus mitos assim, como de alguns outros orixás, foram prejudicados por diversos equívocos. A. B. Ellis a ela associa uma gênese incestuosa influenciada por P. Baudin e repetida diversas vezes por autores como R. E. Dennett, Stephen Septimus Farrow, Olumide Lucas e R. F. Burton influenciados uns pelos outros, e ecoada no Brasil por Arthur Ramos e Nina Rodrigues. P. Verger inicialmente influenciado por tais mitos já alertava que os mesmos não eram mais conhecidos ou possível de se verificar na costa da África e posteriormente conclui tratar-se de uma série de equívocos e os rebate duramente em obras posteriores. Essas influências ocidentais imprecisas refutadas por Verger aderiram na interpretação de Iemanjá em sua associação com a gênese do mundo, sendo objeto de estudo assim retomado por diversos autores que veem em Iemanjá unida a Aganju (apresentado como irmão e marido) e posteriormente violada pelo filho, uma síntese da cosmogonia iorubá, passando a figurar como "mãe de todos os orixás" tal como apresentado por Poli ou culminando na visão poética de Prandi com Iemanjá ajudando pessoalmente Olodumarê na construção do mundo.

Origens

Ìyá àwa sé wè, Yemonja dò ó rere Yemonja. Ìyá àwa sé wè, Yemonja dò ó rere Yemonja. O rio Ogum é de Iemanjá, o rio Ogum é de Iemanjá. Ela tem o rio, tem o rio que escolhemos para nos banharmos, o rio Ogum é de Iemanjá, mãe, vamos nos banhar, Iemanjá que o rio esteja bom, Iemanjá. Iemanjá, em seu culto original, é um orixá associado aos rios e desembocaduras, à fertilidade feminina, à maternidade e primordialmente ao processo de gênese do Aiê (mundo) e a continuidade da vida (emi. Também é regente da pesca, e do plantio e colheita de inhames. P. Verger, em seu livro Dieux d'Afrique, registra: "é o orixá das águas doces e salgadas dos ebás, uma nação iorubá estabelecida outrora na região entre Ifé e Ibadã, onde existe ainda o rio Iemanjá. As guerras entre nações iorubás levaram os ebás a emigrar na direção oeste, para Abeocutá, no início do século XIX. (...)O rio Ogum, que atravessa a região, tornou-se, a partir de então, a nova morada de Iemanjá." Após a guerra entre os ebás e os daomeanos, sobraram poucas pessoas desse culto, tendo em vista a dispersão ou mesmo prisão destes pelos inimigos. Segundo R. Ogunleye, "Não está claro se o rio Ogun precede Yemoja ou se Yemoja trouxe o rio Ogun a existir para que ela pudesse criar um quartel-general como um assento de seu governo. Seja qual for o caso, o rio Ogun tem vindo a ser aceito pelos iorubás como o "quartel-general" de Yemoja. De seu trono lá, ela se manifesta em qualquer outro corpo de água". A referência da guerra e da fuga dos ebás reflete-se em sua mitologia.

Evolução e Interpretações do Mito

Muito da interpretação de Iemanjá e de sua mitologia deve-se aos seus primeiros registros escritos como observa-se em P. Baudin e outros, o seu atributo de Mãe de todos os orixás é oriundo do relato de sua união com Aganju, da qual teria surgido o orixá Orungã, este último atraído pela mãe teria tentado possuí-la em um momento de ausência do pai. Da consumação do incesto ou da mera tentativa da mesma, sucedeu-se uma fuga da parte de Iemanjá, como noutros episódios, que horrorizada cai sobre a terra e de seus seios rasgados surgem dois lagos e sucede-se assim o parto coletivo de diversos orixás, juntamente do Sol e da Lua, porém este relato possui sérias inconsistências inclusive a menção a Olocum como o primeiro a nascer desse parto sendo que a sequência de nascimentos variam de um autor a outro e os desígnios dos orixás citados. L. Cabrera ao relatar este mito a partir de depoimentos de alguns santeiros sobrepõe em uma mesma figura duas divindades distintas, Iemanjá e Iemu, a sua Yemayá-Yemu esposa de Olorum que depois através de um Obatalá, Achupá, deu à luz os orixás e os dois astros anteriormente citados, esta abordagem é comparada pela autora a outra versão obtida de uma informante em exílio de Iemanjá casada com Aganju, que muito se assemelha ao relato dos autores P. Baudin, A. B. Ellis, R. E. Dennett, Stephen Septimus Farrow, Olumide Lucas e R. F. Burton; Cabrera em nota lança luz quanto a este mito tratar-se de uma variação do mito de Iemu verdadeira mãe de Ogum e que o incesto teria sido praticado por este, o mesmo é afirmado por Natalia Bolívar Aróstegui e outros autores.

Mito e Política

P. Verger, ao discutir os aspectos políticos do culto dos orixás na sociedade iorubá, relata: "O lugar ocupado na organização social pelo Orixá pode ser muito diferente se trata de uma cidade onde se ergue um palácio real, Afim (àáfin), ocupado por um rei, aladé, tendo direito a usar uma coroa, adé, com franjas de pérolas, ocultando-lhe a face ou onde existe um palácio, ilê Olojá, a casa do senhor do mercado de uma cidade cujo chefe é um balé que só tem direito a uma coroa mais modesta chamada acoró. Nesses dois casos, o Orixá contribui para reforçar o poder do rei ou do chefe. Esse Orixá está praticamente à sua disposição para garantir e defender a estabilidade e a continuidade da dinastia e a proteção de seus súditos". O orixá protetor de uma dinastia é amplamente celebrado pela mesma, sendo suas festividades tanto uma confirmação religiosa quanto política, como por exemplo, o festival de Oxum pelos soberanos de Oxobô. A respeito do aspecto político do culto de Iemanjá, A. Apter citando o festival de Aiedê registra que sua alta sacerdotisa que cuida da cabeça do regente, é quem habilita o indivíduo do rei e revitaliza seu corpo político, "Como qualquer símbolo dominante, ela abraça uma extensão de significados que vão desde bênçãos normativas e explícitas ('ela traz crianças e riqueza, ele mantém o rei saudável') para implícitas, temas proibidos de divisão e de derramamento de sangue, e é este último polo que é poderoso e profundo". Toda a integridade do governo, da sua legítima sucessão e da autoridade do regente é dependente do apoio de Iemanjá sua protetora e de suas sacerdotisas, que detém do poder de deposição de seu rei, assim como do mal destino, de ocasionar uma fissão política e pôr fim ao equilíbrio cósmico. "Tais temas negativos raramente são expressos em público, mas eles representam, porém, um repertório de interpretações potenciais que, sob certas condições, pode ser invocado para mobilizar a oposição contra o status quo. O profundo conhecimento do ritual real envolve realmente o rei no sacrifício e renascimento, em que seus ícones de poder pessoal e autoridade real são literalmente desmontados e remontados por sacerdotes e sacerdotisas autorizados," conclui A. Apter. P. Verger menciona que o seu cortejo em Ibará, "vai saudar as pessoas importantes do bairro, começando por Olubará, o rei de Ibará." Sobre esta ainda estreita relação entre o culto de Iemanjá e a realeza de Ibará, Omari-Tunkara registra: "Fiquei surpresa ao notar o elevado respeito do rei para a tradicional Religião iorubá e para a adoração de Yemọjá, apesar do fato de que era educado ocidentalmente e um professo, devoto cristão". Todas essas menções reforçam a influência de seu culto sobre as regiões de Abeocutá e suas dinastias.

Outros Episódios

Em alguns mitos, Iemanjá teria sido mulher de Ogum, acompanhando-o em suas inúmeras campanhas de guerra com porte do facão (obé), mas insatisfeita com seu casamento com o orixá da guerra quis livrar-se dele. O mito registrado por L. Cabrera se inicia com a afirmativa que naqueles tempos quando Icu, a Morte, levava a vida de alguém não lhe sepultavam o corpo, e Iemanjá sabendo disso planejou tirar proveito. Fingiu tão bem as características e a rigidez da morte, que foi amortalhada pelo marido que a levou aos pés de Irocô, a grande árvore, conforme os costumes. Mal Ogum retira-se do local em luto, o amante de Iemanjá surge para libertá-la das amarras da mortalha, e ambos fogem juntos.

Arquétipo

Segundo R. Fonseca, o trato dos mitos iorubás na concepção de arquétipo pode nos auxiliar na interpretação dos modelos sociais, históricos ou místicos, que neles evidenciam-se. Na visão de Omari-Tunkara, "muitos traços de personalidades das deusas estão em conformidade com os atributos míticos de Iemanjá e suas variantes e, portanto, Iemanjá pode ser considerada um arquétipo." Tal arquétipo pode ser elucidado como a visão primordial do feminino esculpida na "Grande Mãe". S. Poli, focando nos padrões de comportamento faz uma comparativa do código moral de Ieiemouó (Yeyemowo) com Iemanjá, e conclui que não é possível negar que pode-se observar "(...)que vemos muito de mulheres que conhecemos ou mesmo de nossas mães neste mito", sendo que "Muito provavelmente por esse motivo tenha se tornado tão popular e amado entre nós na diáspora." Para A. Vallado, Iemanjá representa o arquétipo da mulher zelosa e generosa. Na interpretação de R. Fonseca, "Iemanjá nos fala de um precioso arquétipo feminino: o da mulher-mãe, daquela que concebe, alimenta e abriga os seus filhos. Esta mulher é fecunda e, por ser condescendente e conciliadora, ela é sistematicamente usurpada". Numa análise mais profunda, expõe:

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Culto

Para R. Ogunleye, um ponto importante para a compreensão do culto religião iorubá a Iemanjá é a observação quanto a sua pureza moral e ritual. Seu culto na Nigéria compreende diversas categorias, como o diário (privado), regular (celebra dias especiais que lhe são consagrados), especial, solicitado mediante determinadas situações ou ocorrências e anual como os seus festivais em Ibará e Ibadã. O culto diário ou regular, é uma prática realizada pelo devoto em sua própria residência no santuário particular. Consiste em práticas em geral simples, que podem ocorrer na faixa da manhã como maneira de desejar bom dia ao orixá, e fazer-lhe oferendas como obis e com o mesmo repartido conferir através de um simples ritual se a procedência do dia será ou não boa. O culto regular tende a ser mais elaborado que o primeiro, ocorrendo a cada cinco dias, inclui a visitação ao templo por parte de uma comunidade de devotos, com arrumação do santuário, oferendas, sacrifícios e outros ritos litúrgicos. Segundo R. Ogunleye, "Neste ponto, a alta sacerdotisa (Iaji) vai assumir, levando-os em oração ritual para deusa. Durante este tempo, ela vai oferecer sacrifícios à deusa. Isso inclui milho processado (Ebó), farinha de feijão branco (ecuru), caracóis, cana-de-açúcar, e nozes de cola. Depois disso, ela vai fazer petições com os nomes dos fiéis para o orixá. Em seguida, eles se separaram e arrematam a noz de cola (obi). Se tudo estiver bem pelo presságio, todos ficam felizes e todos eles dançam na presença de Yemoja".

Sincretismo

Iemanjá, na cultura da diáspora, é, sobretudo, uma divindade sincrética, reunindo, em si, os diferentes atributos de outros orixás femininos das águas. Sua figura embasada no arquétipo da Grande-Mãe é promovida a Grande-Deusa, em especial pelo fato de que, no Brasil, tratando-se da divindade mais cultuada da Bahia, com grande prestígio popular, encontra seu par em Nossa Senhora da Conceição (no Rio Grande do Sul, Nossa Senhora dos Navegantes), ou mais especificamente na Virgem Maria, o que, segundo Verger, teria ocasionado uma equivalência de importância dentro do panteão iorubá, tornando-a a única do mesmo com um sincretismo iconográfico acabado. Tal sincretismo ocorreu devido ao culto entusiasmado dos orixás disfarçados de santos do catolicismo pelos escravos nas senzalas. A assimilação católica também observa-se em Cuba com o culto da Virgem de Regla, todavia vale ressaltar que em tal mimetismo em que o orixá se camuflou em uma divindade católica o mesmo não se corrompeu, nas palavras de Stella e M. Loddy, "Iemanjá é Iemanjá na Bahia, em Cuba ou no mais sincrético terreiro de umbanda". O mesmo sincretismo é um aspecto distintivo da cultura brasileira até a atualidade. No Brasil, seu culto também confundiu-se com o culto da Mãe-d'água, a Iara, o que justifica sua representação por vezes como sereia. Essa associação à sereia contrasta evidentemente com o lado maternal de Iemanjá na concepção africana, e em especial com a Virgem Maria pela demasiada sensualidade, mas não obstante também aparece no Vodu da Louisiana e Vodu haitiano, onde Iemanjá é associada à Lá Sirène e Mami Uata, espíritos das águas. Essa aglutinação com tais divindades evidencia-se na afirmativa de S. Otero e T. Falola que "Iemanjá e Oxum fazem parte de uma rede global de espíritos da água que muitos estudiosos, especialmente Henry John Drewal, trouxeram sob a égide Mami Uata. Seja em Serra Leoa, Congo, Togo, em Ibo na Nigéria, [como] Lasiren no Haiti, Santa Marta Dominadora na República Dominicana (...)os espíritos (divindades, energias, forças cósmicas) compartilham algumas semelhanças notáveis". Em Candomblés da Bahia E. Caneiro confunde Iemanjá com um inquice do Candomblé bantu Dandalunda, apresentando esta como um dos nomes da primeira, essa identificação das duas divindades costuma aparecer com certa frequência.

Qualidades e Avatares

Segundo A. Vallado, "qualidade" é o termo que designa as múltiplas invocações ou avatares de um mesmo orixá. Também é, por vezes, chamado de "caminho", como observamos no esclarecimento apresentado por L. Cabrera de que "não existe mais do que uma única Iemanjá, uma só, com sete caminhos". Muitas dessas qualidades parecem tratar-se de outras divindades, como explora S. Poli, o que também se apoia em E. Ramos com a tese de assimilação dos orixás de povos subjugados ao orixá patrono do povo conquistador em conflitos na África. Também pode ocorrer em referência a uma determinada localidade ou o segmento de um mesmo orixá mas com pequena diferenciação, o que individualiza esse como sendo uma qualidade.

Festivais

Em Ibadã capital do estado de Oyo permanecem cultos e celebrações de Iemanjá como deusa padroeira, sendo reverenciada no antigo templo conhecido como Popô-Iemanjá. Em seu cortejo anual celebram-se quatro aspectos que para A. Folarin enfatizam a importância do orixá e de sua liturgia, "Ela simboliza o poder da maternidade e princípios feminino, ela é a geradora do panteão do mundo iorubá; escultura tradicional que descreve ela geralmente mostra seios e quadril voluptuosos, retratando mulheres de poder e graça. A segunda é a função sociológica que gera durante a época festiva. O terceiro é o fervor espiritual ou cosmológico que transparece na celebração. Geralmente, há esse sentimento de transcendência, abrindo o coração e a mente para o mais alto ser espiritual. A quarta e mais importante é que ela é reverenciada muito bem como uma deusa da fertilidade".

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Representações

Em África, Iemanjá é senhora de traços negros com formas bem evidenciadas e seios muito volumosos, por vezes representada grávida. R. F. Burton menciona: "Ela é representada por um pequeno ídolo com a pele de um amarelo desbotado. Tem os cabelos azuis, usa contas brancas e uma roupa listrada". P. Baudin e outros autores também nos apresentam a mesma descrição. Omari-Tunkara é primorosa em sua descrição: "Suas imagens contemporâneas são esculturas em madeira pintada a esmalte que geralmente retratam uma mulher com seios muito grandes amamentando um ou mais filhos e, muitas vezes cercada por outras crianças. As esculturas figuram o papel de Iemanjá como mãe carinhosa, protetora, vigilante e agente de fertilidade. Um colar especial composto por várias vertentes de pequenas miçangas de cristal claro atadas por dois ou três contas maiores em vermelho, branco e azul veneziano serve como um símbolo de Iemanjá em Ibará e está representado nas esculturas que se conformam em grande estilo para o cânone iorubá típico." S. Epega escreve: "Suas estátuas enfatizam o aspecto da maternidade. Ela é uma mulher tranquila, com grande ventre túrgido, seios imensos, pés bem plantados no chão, pondo as mãos sobre crianças". Essa iconografia, segundo Agbo Folarin, muito se assemelha às representações das tradicionais Máscaras-Epa de festejos tradicionais da Nigéria. Não há menções antigas de sua representação como peixe da cintura para baixo.

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Influências

Iemanjá e a Música Popular Brasileira

Iemanjá, além da Bahia e dos candomblés, com as práticas de seu povo e sua religiosidade, dos temas da vida árdua litorânea e do cotidiano dos pescadores, no cenário da música popular brasileira, já é presente em letras de canções desde os primórdios da radiodifusão em alguns de seus versos mais líricos. Podemos citar É Doce Morrer no Mar (1943) e Quem vem pra Beira do Mar (1954) de Dorival Caymmi. Caymmi demonstra profunda devoção ao orixá em Dois de Fevereiro (1957), título que refere-se ao seu grande festejo na Bahia na praia do Rio Vermelho, considerado por Jorge Amado como o único que se poderia considerar descendente espiritual de Castro Alves, sendo mencionado na obra de louvores a este último como "Poeta de negros pescadores, de Iemanjá e dos mistérios pobres da Bahia(...)". Em Bahia de Todos-os-Santos, Jorge Amado nos revela mais da natureza dessa relação de Caymmi com Iemanjá: "A música religiosa do negro baiano, com suas promessas a dona Janaína, com suas superstições e sua intimidade com os deuses, ele a recuperou para nós do abandono em que estava desaparecendo, abandono que não se explica como tanta coisa não se explica no Brasil. Muitas de suas canções são dedicadas a Iemanjá, deusa das águas da Bahia, música de pescadores, da praia e do mar, canções que formam a parte mais poderosa e permanente de sua obra, a maior de toda a música popular brasileira." R. Antonio abordando o contexto em torno de Iemanjá da primeira metade do século XX, complementa: "(...) Caymmi, na década de de 1930, cantando uma canção para Iemanjá.[nb 14] Em muitos lugares do Brasil e para muitas plateias, naquela época, a canção soou de modo algo obscuro, não de todo compreensível. Havia, ali, estranheza, uma face não iluminada, misteriosa. Porque as pessoas, sem dominar por completo a dimensão referencial da mensagem, não tinham como decodificá-la por inteiro. Mas, com o tempo - com a crescente visibilidade da cultura negromestiça (sic) em nosso país; com a entronização dos orixás no mundo da assim chamada 'cultura superior' -, tudo mudou. A canção se tornou universalmente clara para os brasileiros."

Cinema e Teledramaturgia

Suas aparições no cinema brasileiro são dramáticas. Vale destaque o filme Barravento (1962), dirigido por Glauber Rocha, com sua retratação crítica ao misticismo religioso popular. O filme retrata o papel e os dilemas de uma figura masculina escolhida por Iemanjá em uma pequena aldeia de pescadores. Este personagem emblemático deveria seguir uma vida celibatária para não ofender a muito ciumenta divindade, vindo a felicidade e estabilidade do pequeno povoado a depender dessa relação. O filme explora o aspecto possessivo e vingativo do orixá, que causaria a morte da mulher que se deitasse com o seu protegido. Em Noites de Iemanjá (1971), o filme dirigido por Milton Barragan alcança um diálogo com a platéia a partir de elementos bem sucedidos popularmente como mistério, erotismo e folclore, apresenta uma personagem enigmática numa trama cercada por mortes, este arquétipo de femme fatale associado a figura de Iemanjá em referência às sereias mitológicas já evidenciava-se em estudos como o de Edson Carneiro. Em Espaço Sagrado, (1976) documentário realizado na Bahia, o diretor Geraldo Sarno, que apresenta o candomblé e suas práticas dentro do espaço sagrado, retrata o ato de uma oferenda a Iemanjá. Em O Escolhido de Iemanjá (1978), com direção de Jorge Durán, é invocada como intercessora de uma comunidade pobre através dos terreiros e seu escolhido, o Comandante Nelson, no conflito contra Gangsters imobiliários. Deste mesmo ano há também o curta-metragem Dia de Iemanjá, dirigido por Lula Oliveira. Vale destaque A Filha de Iemanjá (1981) com direção de Milton Barragan e a atuação de Mary Terezinha como protagonista, onde Iemanjá é representada através da personagem que se diz sua filha, que ressurge ao final do Longa-metragem para o marido e a filha na praia.

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Iemanjá no Novo Mundo

Brasil

No Brasil, a orixá goza de grande popularidade entre os seguidores de religiões afro-brasileiras e até por membros de religiões distintas. Em Salvador, ocorre anualmente, no dia 2 de fevereiro, a maior festa do país em homenagem à "Rainha do Mar". A celebração envolve milhares de pessoas que, trajadas de branco, saem em procissão até o templo mor, localizado no bairro Rio Vermelho, onde depositam variedades de oferendas, tais como espelhos, bijuterias, comidas, perfumes e toda sorte de agrados. Todavia, na cidade de São Gonçalo, os festejos acontecem no dia 10 de fevereiro. Outra festa importante dedicada a Iemanjá ocorre durante a passagem de ano no Rio de Janeiro e em todo litoral brasileiro. Milhares de pessoas comparecem e depositam no mar, oferendas para a divindade. A celebração também inclui o tradicional "banho de pipoca" e as sete ondas que os fiéis, ou até mesmo seguidores de outras religiões, pulam como forma de pedir sorte à orixá. Na umbanda, é considerada a divindade do mar.

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Festas

Uma das maiores festas ocorre em Rio Grande, no Rio Grande do Sul, devido ao sincretismo com Nossa Senhora dos Navegantes. No mesmo estado, em Pelotas a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes vai até o Porto de Pelotas. Antes do encerramento da festividade católica acontece um dos momentos mais marcantes da festa de Nossa Senhora dos Navegantes em Pelotas, que em 2008 chegou à 77ª edição. As embarcações param e são recepcionadas por umbandistas que carregavam a imagem de Iemanjá, proporcionando um encontro ecumênico assistido da orla por várias pessoas. No dia 8 de dezembro, outra festa é realizada à beira-mar na Bahia: a Festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia. Esse dia, 8 de dezembro, é dedicado à padroeira da Bahia, Nossa Senhora da Conceição da Praia, sendo feriado municipal em Salvador. Também nesta data é realizado, na Pedra Furada, no Monte Serrat, em Salvador, o presente de Iemanjá, uma manifestação popular que tem origem na devoção dos pescadores locais à Rainha do Mar - também conhecida como Janaína.

Festa do Rio Vermelho

A tradicional Festa de Iemanjá na cidade de Salvador, capital da Bahia, tem lugar na praia do Rio Vermelho todo dia 2 de Fevereiro. Na mesma data, Iemanjá também é cultuada em diversas outras praias brasileiras, onde lhe são ofertadas velas e flores, lançadas ao mar em pequenos barcos artesanais. A festa católica acontece na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, na Cidade Baixa, enquanto os terreiros de candomblé e umbanda fazem divisões cercadas com cordas, fitas e flores nas praias, delimitando espaço para as casas de santo que realizarão seus trabalhos na areia.

Porto Alegre

A Festa de Nossa Senhora dos Navegantes em Porto Alegre é a maior festa religiosa da cidade brasileira do sul do Brasil, e homenageia Nossa Senhora dos Navegantes e seu sincretismo afro-brasileiro. É realizada no dia 2 de fevereiro de cada ano desde 1870. Originalmente, constava de uma procissão fluvial, com embarcações que singravam o Lago Guaíba desde o cais do porto, levando a imagem da santa do Centro da cidade até a Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes. Hoje, por determinação impeditiva da Capitania dos Portos, a procissão é terrestre, levando a imagem desde a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no Centro da cidade, até a Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes. Os organizadores da festa consideram que esta é a segunda maior romaria religiosa do País, ficando atrás apenas do Círio de Nazaré realizada em Belém do Pará. Com uma grande participação popular tanto na realização da festa, como nas comemorações

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Angola

Em Angola, existe a crença na divindade que se chama Quianda (ou Duandalunda), equivalente a Iemanjá, protetora dos pescadores e rainha das águas. Faz-se, todo ano, a Festa da Quianda em bairros praianos de Luanda, e na lagoa do Ibendoa, na província de Bengo. É feita juntamente com a Procissão de Nossa Senhora do Cabo, que possui forte relação sincrética.

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Uruguai

Em Montevidéu, fiéis se reúnem na praia de Ramirez no bairro Parque Rodó a cada 2 de fevereiro para celebrar o Dia de Iemanjá. Centenas de milhares de pessoas se sentam à espera do pôr do sol antes de lançar pequenos barcos com oferendas para o oceano. Em 2015, o governo uruguaio estimou que 100 000 pessoas visitaram a praia para as celebrações.

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Cuba

Em Cuba, as celebrações realizam-se todos os anos no dia 7 de Setembro. Yemayá também tem as cores azul e branca, é uma rainha do mar negra, assume o nome cristão de La Virgen de Regla e faz parte da santería como santa padroeira dos portos de Havana. Lydia Cabrera fala em sete nomes igualmente, especificando que apenas uma Iemanjá existe, à qual se chega por sete caminhos. Seu nome indica o lugar onde ela se encontra. Na santeria, Iemanjá é a mãe de todos os seres vivos, bem como a proprietária dos oceanos e mares.

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Fontes consultadas

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