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Artur Bernardes

Artur da Silva Bernardes foi um advogado e político brasileiro. Foi o 12.º presidente de Minas Gerais de 1918 a 1922 e o 12.º presidente do Brasil entre 15 de novembro de 1922 e 15 de novembro de 1926. Seu período na administração nacional foi de crise da Primeira República e vigência quase ininterrupta do estado de sítio. Na sua longa carreira política, de 1905 até sua morte, ele foi o principal líder do Partido Republicano Mineiro (PRM) de 1918–1922 até a extinção da agremiação, e fundador e líder do Partido Republicano (PR). Sua ideologia, o "bernardismo", era identificada pelo cravo vermelho.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 17/07/2026
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Família e primeiros anos

Artur da Silva Bernardes nasceu em 8 de agosto de 1875 na Vila de Santa Rita do Turvo, atual Viçosa, conforme reconhecido nos livros de história. Este local de nascimento é disputado no município de Cipotânea, onde se afirma que o futuro presidente teria nascido no local, então parte de Alto Rio Doce, e mudado para Viçosa, uma cidade já constituída, aos 5 anos de idade. Ele era o quarto dos nove filhos[i] de Antônio da Silva Bernardes[j] e Maria Aniceta Bernardes.[k] Um de seus irmãos, Olegário, viria a ser ministro do Tribunal de Contas da União, deputado estadual no Rio de Janeiro e prefeito de Teresópolis. Sua mãe descendia dos Vieira de Sousa, uma das famílias da nobreza do café da Zona da Mata Mineira, e seu pai, um português de Castanheira de Pera, era coronel da Guarda Nacional e solicitador nas comarcas de Alto Rio Doce, Piranga e Viçosa. Nesta última ele foi o primeiro advogado provisionado e depois promotor de justiça. Conforme algumas biografias, Antônio Bernardes não cursou mais que a escola primária em Portugal. Esta família era rica o suficiente para financiar a educação do filho, mas não pertencia ao grupo político local.

Direito e jornalismo

Com sua família em melhor condição financeira, pôde ao final de 1894 matricular-se no Externato do Ginásio Mineiro em Ouro Preto, aproveitando um decreto do governo estadual que abria matrículas avulsas. Ali estudou para os exames preparatórios (equivalentes ao vestibular) enquanto morava numa pensão e trabalhava em vários jornais e brevemente como estafeta dos Correios e Telégrafos. Por influência do pai e do Caraça, matriculou-se na Faculdade Livre de Direito, inicialmente como aluno ouvinte, em 1896, antes de passar nos exames e entrar no segundo ano em 1897. Como estudante do Direito, fez amizade com seu colega e futuro aliado político Raul Soares de Moura, além de conhecer outras figuras de futura relevância política, como Fernando de Melo Viana e José Vieira Marques. A política nacional repercutia muito em Ouro Preto, então capital de Minas Gerais. Em março de 1897 Bernardes se voluntariou ao Batalhão Patriótico Bias Fortes, no contexto da Guerra de Canudos, mas a unidade nunca saiu para a luta. O aniversário da Abolição foi comemorado com a criação do jornal Academia, do qual ele foi redator.

Casamento e filhos

A paixão por Clélia Vaz de Melo, filha de Carlos Vaz de Melo, abriu as portas ao mundo político quando o senador autorizou o casamento, que ocorreu em 15 de julho de 1903. Artur Bernardes agora era o herdeiro político do sogro. O namoro já durava uma década, mas Carlos não permitiu o casamento antes do final do curso. O casal teve oito filhos: Clélia, Artur, Maria da Conceição, Dhalia, Rita, Sylvia, Geraldo e Maria de Pompeia. Destes, Artur Bernardes Filho seguiu na carreira do pai e foi deputado federal, constituinte, senador e vice-governador de Minas Gerais, chegando à posição de ministro da Indústria e Comércio em 1961. Os Vaz de Melo-Bernardes tornaram-se um dos grupos familiares que dominavam, com certa estabilidade, as zonas, regiões, distritos eleitorais ou municípios de Minas Gerais. A parentela a pelo menos um outro político pode ser observada em 51,7% de uma amostra de 511 políticos mineiros entre 1891 e 1930, conforme um estudo biográfico coletivo de Amílcar Vianna Martins Filho. Bernardes era também muito típico da classe política mineira por seu bacharelado em Direito, compartilhado com 61,6% da amostra. 17,6% tiveram ensino secundário no Caraça.

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Ascensão política

Vereador

A participação nas eleições não foi imediata, e Bernardes recusou uma oferta do sogro para apoiar uma candidatura a deputado federal. Em vez disso, Vaz de Melo designou seu genro para recepcionar o Presidente do Estado (governador) Francisco Sales e outros políticos. Bernardes gradualmente fez contatos e demonstrou sua retórica. Em 1904 ele concorreu a vereador especial pelo distrito viçosense de Teixeiras. Apesar de suas declarações prévias sobre a reforma da Constituição, em outubro ele alegou no Cidade de Viçosa que não desejava cargos eletivos e só figurou na chapa do PRM em última hora, "cedendo às ordens de amigos do Distrito". Em 19 de novembro os 52 eleitores do Distrito o elegeram por unanimidade. Carlos Vaz de Melo morreu três dias depois, e em janeiro Bernardes sucedeu-o na direção do Cidade de Viçosa, que passou a cobrir temas extramunicipais e sustentar as opiniões políticas do vereador. No primeiro dia do ano ele publicou mais uma defesa de reforma da Constituição, prometendo que "dará esta folha encarniçado e impiedoso combate à ideia, propugnada por alguns, de nada se alterar nessa lei fundamental". Esta ambição seria concretizada duas décadas depois, quando ele assumiu a Presidência. O programa apresentado no artigo era de valorização do município e defesa dos interesses da lavoura, comércio e indústria. Outros artigos discutiam os problemas da cafeicultura local e alternativas de produção, representando os interesses dos produtores e comerciantes. Seu discurso era compatível ao do presidente do Estado João Pinheiro, cujas pautas incluíam o incentivo à educação e à policultura.

Deputado e Secretário de Finanças

O prestígio do sogro falecido ainda foi suficiente para que Bernardes fosse incluído na lista de candidatos a deputado estadual pelo PRM e eleito pela segunda circunscrição em março de 1907. Na Câmara estadual, foi eleito secretário da mesa em 1907 e 1908, discursou sobre os problemas da agricultura e ajudou a aprovar a reforma tributária de João Pinheiro. Este último posicionamento facilitou sua indicação à concorrência para deputado federal em 1909. Os candidatos à bancada federal mineira eram coronéis ou intelectuais, ambos escolhidos pelo presidente do Estado e a Comissão Executiva do PRM, a "Tarasca", composta em sua maioria de políticos do sul mineiro. O partido orgulhava-se de promover a carreira de jovens talentos. Seu domínio era elitista e centralizado, controlando as nomeações políticas, pressionando a imprensa, cooptando grupos de pressão e garantindo seus votos através do coronelismo, o voto de cabresto e a fraude. Ser escolhido como candidato do PRM era equivalente a ser eleito.

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Governo de Minas Gerais

O deputado Gomes Lima encontrou Bernardes em Viçosa, no início de 1917, para relatar a escolha de Américo Lopes, secretário do Interior do presidente do Estado Delfim Moreira, como candidato do PRM ao Executivo estadual. Bernardes confirmou sua aceitação numa carta ao presidente. Américo Lopes era o candidato do senador ex-presidente Francisco Sales, presidente da Comissão Executiva do PRM e líder de uma das três facções existentes no Partido até 1918. As outras duas eram os biistas de Bias Fortes e os "viuvinhas" de Silviano Brandão. Os políticos da Mata eram normalmente salistas. O nome de Américo Lopes foi contestado por Raul Soares, o secretário da Agricultura, que sentia que sua região da Mata (ele era de Ubá) estava desprestigiada. Argumentando a incapacidade moral da candidatura dos secretários, especialmente o do Interior, ele convenceu o presidente da República, o mineiro Venceslau Brás, a vetar a candidatura. O resultado foi uma lista de candidatos, mas ela omitia Bernardes. Ainda sentindo que a Mata foi preterida, ele convenceu o presidente a apoiar o nome do deputado de Viçosa.

Hegemonia no PRM

Tão logo assumiu, o novo presidente do Estado rompeu com o "salismo", visto por ele e Raul Soares como símbolo da velha política coronelística, e portanto, alvo a ser erradicado. De posse da máquina do Estado, os postos da administração foram entregues a elementos leais. Nas eleições, 72% da Câmara e 50% do Senado estadual foram renovados. Deputados e senadores salistas foram "degolados", isto é, seus votos não foram reconhecidos pela Câmara. Francisco Sales, que fez tanto pelos primeiros passos de Bernardes na carreira política, foi relegado ao ostracismo. A querela era pessoal desde 7 de julho de 1918, num banquete oferecido a Delfim Moreira. O discurso de Sales completamente ignorou Bernardes, que estava na mesa principal, como liderança mineira.

Eleição presidencial de 1919

Dois mineiros, Artur Bernardes e Melo Franco, foram cogitados para concorrer à Presidência na eleição agendada para abril de 1919. Por motivos de saúde o vencedor do pleito de 1918, Rodrigues Alves, nunca chegou a assumir, e seu vice Delfim Moreira governou por cerca de oito meses até que fosse escolhido um sucessor. Bernardes recusou uma candidatura própria, que seria de interesse às elites mineiras, e insistiu que os três estados mais fortes (Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul) decidissem um novo nome. Especulam-se vários motivos para sua recusa, como temores de falta de apoio paulista e rio-grandense ou má reação da opinião pública, pois um mineiro já ocupava a Presidência, e a inconveniência de interromper uma administração recém-empossada. Seria preciso primeiro acumular prestígio no governo estadual.

Reformas e obras

A administração Bernardes privilegiou a Zona da Mata. A educação foi prioridade no programa e avanços efetivos foram obtidos no ensino público médio e superior. Construíram-se 13 grupos escolares e 421 escolas isoladas no ensino primário e secundário. Um novo regulamento para o ensino agropecuário ambulante, em 12 de julho de 1920, reforçou o ensino prático ministrado pelas escolas distritais e rurais. No ensino superior o governo criou o Instituto de Química Industrial e ampliou as clínicas da Faculdade de Medicina de Belo Horizonte. Um destaque foi a Escola Superior de Agricultura e Veterinária (ESAV), futura Universidade Federal de Viçosa. Em 6 de setembro de 1920 o presidente do Estado iniciou com um decreto o processo de criação. A sede seria numa região de predominância de pequenas e médias propriedades cafeicultoras na Zona da Mata, que dependeriam da modernização agrícola para resistir às pressões das políticas de valorização do café. A cidade escolhida foi Viçosa, justamente a origem do presidente. Segundo o livro A Universidade Federal de Viçosa no Século XX, publicado pela Editora UFV, a localização da escola não foi decisão arbitrária do presidente e levou em conta a topografia, disponibilidade de água e proximidade à Estrada de Ferro Leopoldina. O ensino seria em moldes americanos. A inauguração só ocorreu em 1926.

A questão do ferro

A ambição industrial bernardista era transformar o vale do Rio Doce no "vale do Ruhr brasileiro", um complexo de minas, ferrovias, siderúrgicas e portos de Minas Gerais ao Espírito Santo. Minas Gerais tinha grandes jazidas não aproveitadas de minério de ferro, e a produção siderúrgica nacional era incipiente. Bernardes e Raul Soares queriam uma indústria siderúrgica e eram contrários à simples exportação do minério. O modelo pretendido pelo secretário de Agricultura Clodomiro de Oliveira era de pequenas usinas movidas a energia elétrica, carvão vegetal e carvão mineral de Santa Catarina, com tecnologia da Escola de Minas de Ouro Preto, onde Oliveira era professor. O carvão vegetal trazia o problema do desmatamento, do qual Bernardes estava ciente. Seus discursos esboçaram preocupação com a "conservação das selvas e rearborização do Estado, ameaçado de ver grandes porções de seu território transformadas em zonas descalvadas e estéreis".

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Eleições de 1922

Pré-candidatura (1919–1921)

Desde a eleição de 1919 era visível que Bernardes poderia chefiar o Executivo federal, mesmo que tivesse que aguardar a eleição seguinte. Prudente de Morais Filho teria dito a Afrânio de Melo Franco que Bernardes certamente seria presidente da República "porque é mineiro, não se compromete, é tenaz e usa calças sempre bem vincadas". Se a candidatura era óbvia, o apoio não era, e todas as ações do PRM na esfera nacional dirigiram-se à ambição da Presidência. A aliança mineiro-paulista sustentou no Congresso a administração de Epitácio Pessoa. Minas se aproveitou da relativa fraqueza de Epitácio, presidente oriundo de um estado pequeno, e embora só tenha recebido um ministério (a Marinha, sob Raul Soares), conseguiu emplacar o deputado do PRM Astolfo Dutra na Presidência da Câmara, mesmo com a oposição do Rio Grande do Sul e Bahia. Os aliados paulistas eram também competidores, pois tinham seu próprio pré-candidato, o presidente Washington Luís. Em 21 de março de 1920, Raul Soares escreveu a Bernardes para alertá-lo do custeio paulista a jornais da oposição mineira e de entendimentos paulistas com Francisco Sales.

Campanha presidencial

Os quatro estados dissidentes uniram-se na Reação Republicana para lançar as candidaturas de Nilo Peçanha a presidente da República e J. J. Seabra a vice-presidente. A cisão entre as oligarquias estaduais tem várias explicações na historiografia: a questão da Vice-Presidência, a associação às dissidências urbanas, a política econômica exclusivamente voltada ao café e o monopólio mineiro-paulista das benesses do Estado. Um terceiro pré-candidato, o marechal Hermes da Fonseca, tornou-se inviável, mas seu apoio militar foi transferido à Reação Republicana. Em 26 de abril ele chegou a visitar Bernardes no Palácio da Liberdade, mas sem nenhum resultado político.

Resultados contestados

O pleito realizado em 1.° de março de 1922 deu 466 972 votos a Artur Bernardes contra 317 714 de Nilo Peçanha, uma margem estreita e surpreendente para os padrões da Primeira República. Nilo acusou os resultados de fraude, proclamou-se "vencedor moral" e propôs um "Tribunal de Honra", com cinco representantes do Congresso e cinco do Supremo Tribunal Federal (STF), para apurar a lisura do processo. Epitácio e alguns líderes situacionistas chegaram a considerar a proposta, mas os mineiros recusaram. Em 1.° de maio o presidente da República reuniu seus ministros militares e representantes paulistas e mineiros para discutir a situação, que segundo ele, estava saindo de seu controle.

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Presidência da República

Bernardes distribuiu os ministérios a Rafael de Abreu Sampaio Vidal (Fazenda), João Luís Alves (Interior), Félix Pacheco (Exterior), Francisco Sá (Viação e Obras Públicas), Miguel Calmon (Agricultura), Setembrino de Carvalho (Guerra) e Alexandrino de Alencar (Marinha). A seleção representava um apoio amplo civil. Na pasta da Guerra, foi difícil encontrar um nome fiel ao governo e respeitado entre os pares. Bernardes chegava isolado e amargurado à capital federal, um ambiente desconhecido e cheio de ameaças. Sua administração foi impopular no Rio de Janeiro e nas áreas urbanas em geral devido à alta no custo de vida, que duplicou entre 1921 e 1923, por alguns cálculos imprecisos. A causa era a valorização do café, que inflacionou a economia e depreciou o câmbio. O país estava dividido e o governo tinha inimigos nas classes médias urbanas, militares tenentistas, operários e oligarquias estaduais dissidentes.

Crises estaduais

O Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Bahia, antigos integrantes da Reação Republicana, todos tiveram crises políticas internas, com riscos de intervenção federal e oposições que buscavam apoio de Bernardes. O Executivo federal, hipertrofiado, conseguiu presidentes favoráveis em todos os três. A interpretação predominante nas memórias e na historiografia é que Bernardes foi vingativo. Mesmo seus defensores admitem que as intervenções foram "preventivas", arquitetadas com antecedência. Pela interpretação do brasilianista Eul-Soo Pang, Bernardes substituiu a "política dos governadores" pela "política dos presidentes", na qual o Executivo federal foi o árbitro das disputas estaduais.

Revoltas de julho

A anistia era a conclusão comum nas sedições militares republicanas. O governo Bernardes recusou-a aos responsáveis pelo 5 de julho de 1922 e o STF indiciou 50 deles em dezembro de 1923. Onze deles, foragidos, foram o núcleo de uma nova conspiração armada, que emergiu em julho de 1924. Elementos sublevados do Exército e Força Pública mergulharam a cidade de São Paulo num combate urbano prolongado. O líder do movimento, o general Isidoro Dias Lopes, proclamou-se chefe de um "Governo Provisório". Os manifestos revolucionários esclareciam que o movimento era nacional, não regional, acusavam Bernardes de despotismo e exigiam sua renúncia. Revoltas militares alastraram-se pelos outros estados; só em julho, apareceram em Mato Grosso, Sergipe, Amazonas e Pará.

A Coluna Prestes

Em 4 de novembro, conspiradores na Marinha assumiram o controle do encouraçado São Paulo, instaurando o pânico no Palácio do Catete quando o navio foi avistado em posição de ataque. Bernardes, já veterano dessas crises, não se incomodou: "todos podem sair, se quiserem, inclusive minha família. Eu, porém, aqui permanecerei em defesa do regime do qual sou representante". Como medida de precaução, o navio estava quase sem munição. O São Paulo navegou ao exílio. A guerra continuava; os rebeldes de São Paulo travavam a campanha do Paraná, e uma nova revolta surgiu no Rio Grande do Sul em outubro. A união entre esses dois grupos de rebeldes formou a Coluna Prestes, que percorreu o interior do país, prolongando a luta, até o início do mandato seguinte.

Estado de sítio

Frente à instabilidade, Bernardes preferiu a repressão à conciliação. 1 287 de 1 460 dias, 88,15% do mandato, foram passados com o estado de sítio vigorando em algum ponto do território nacional, mais do que todos os antecessores somados.[n] Este recurso suprimia garantias individuais e autorizava medidas coercitivas para abafar a agitação popular e atos revolucionários. Nas suas mensagens ao Congresso, o presidente alegou que a medida foi empregada "a contragosto, mas em defesa dos altos interesses nacionais", para "prevenir a desordem, eliminando-lhe as causas", mas o sítio não seria mais do que "uma situação que pode quase ser comparada ao regime constitucional sob o qual vivem normalmente muitos povos mais adiantados e livres".

Economia

A plataforma econômica do governo Bernardes prometia equilibrar as contas públicas, estabilizar a taxa de câmbio e criar um banco central independente. O equilíbrio na balança comercial viria da defesa permanente do café, do incremento de outras exportações, como o algodão, e da substituição de importações, inclusive pela instalação de uma usina siderúrgica em Minas Gerais. O governo instituiu pela primeira vez o imposto de renda no Brasil e desde o primeiro ano fez cortes drásticos nos salários do funcionalismo e nas obras públicas, incluindo os investimentos contra a seca no Nordeste da administração anterior. O banco central seria o Banco do Brasil, que recebeu as reservas de ouro do Tesouro. O presidente do Banco, Cincinato Braga, e o ministro da Fazenda, Sampaio Vidal, eram ambos paulistas, perfeito exemplo de acordo "café com leite". Eles usaram a capacidade de emissão do Banco na defesa do café, contra as preferências dos políticos mineiros ortodoxos. A safra de café de 1923 foi mais do que o dobro da anterior, a moeda continuou a depreciar e o governo procurou um empréstimo com os banqueiros de Londres. Estes tiveram o poder de barganha para impor uma missão de experts.

Legislação

Dos governos do final da Primeira República, o de Bernardes foi simultaneamente o que mais interveio nas relações de trabalho e mais reprimiu o movimento operário. Aproximando-se de algumas lideranças operárias, promulgou a Lei Eloy Chaves, considerada a origem da previdência social no Brasil, e várias outras leis trabalhistas, embora modestas e frequentemente burladas pelos empregadores. Na legislação de imprensa, Bernardes apreciou o projeto do senador Adolfo Gordo, promulgado em outubro de 1923, por proteger "a dignidade do jornalismo" contra "os profissionais da difamação" e "os exploradores do escândalo". Entre outras provisões, o decreto instituiu a censura prévia e o direito de resposta e determinou que o "diretor ou redator principal será considerado autor de todos os escritos".

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Carreira pós-presidencial

Senador

Apenas dois dias depois da posse, uma edição especial de O Globo denunciou os "vulcões de lama" da administração passada. A imprensa partiu para a revanche, descarregando sátiras e caricaturas contra o ex-presidente. As denúncias eram sérias: o caso de Clevelândia finalmente veio a claro, chocando a opinião pública. Muito repercutiu o caso de Conrado Niemeyer, comerciante que morreu no Prédio da Polícia Central em 1925. O jornal O Combate, de São Paulo, mencionou os "novos ricos do bernardismo", os chefes da polícia política enriquecidos por meios ilícitos. O Globo acusou o grupo palaciano de ter usado a censura em prol de seus interesses particulares, como a proibição a relatar o incêndio da fábrica de tecidos da Gávea, da qual Bernardes era um dos principais acionistas.

Revolução de 1930

Derrotada a Aliança Liberal, em março–abril os dirigentes do PRM foram convencidos pelo deputado mineiro Virgílio de Melo Franco e o gaúcho Batista Luzardo a aderirem a um futuro movimento armado contra o governo, a Revolução de 1930. Segundo o deputado Daniel Serapião de Carvalho, Bernardes foi o político mineiro mais difícil para se conquistar à causa revolucionária, mas permaneceu fiel a ela até o fim. Ele ainda era o elemento de maior prestígio de seu partido e ajudou a arrastar os indecisos. Luís Aranha, irmão de Osvaldo Aranha, o Secretário do Interior do Rio Grande do Sul, visitou Bernardes em abril para informá-lo dos planos. Ele relata que o ex-presidente deixou uma impressão muito forte e não tinha motivo ideológico para apoiar a revolução, mas a considerava necessária e inevitável. Bernardes propôs a organização de um conselho de ex-presidentes após a tomada do poder. A historiadora Helena Bomeny acredita que Bernardes participou da Revolução para restaurar a velha relação mineiro-paulista, que Washington Luís havia rompido.

Declínio do PRM

O período após 1930 veria a ascensão da geração seguinte da política mineira, que os bernardistas não puderam impedir. Logo em novembro de 1930, Olegário Maciel exonerou três secretários estaduais bernardistas. Com 80 anos de idade, o presidente foi influenciado pelas figuras ascendentes que precisavam esvaziar o poder de Bernardes — o "Bloco da Montanha" de Francisco Campos (ministro da Educação federal), Gustavo Capanema e Amaro Lanari. Francisco Campos fora iniciado na política, como deputado estadual e depois federal, pelo próprio Bernardes. Da sua perspectiva, um traidor. Todas as suas indicações de prefeitos foram ignoradas. O presidente Vargas convidou-o chefiar a embaixada brasileira em Paris e ele recusou, percebendo seus inimigos à espreita. Em 1931, 80% dos diretórios municipais do PRM foram incorporados pela Legião de Outubro, posterior Legião Liberal Mineira. Dela faziam parte Venceslau Brás, Olegário Maciel e Antônio Carlos, mas não Bernardes. A ideologia da Legião remetia às críticas tenentistas ao bernardismo.

Revolução de 1932

Não surpreende, portanto, que Bernardes tenha participado das articulações da Revolução Constitucionalista de 1932, iniciada em São Paulo. Seus objetivos eram a deposição de Vargas, cuja autoridade ele considerava ilegal, e de Olegário Maciel. Em 8 de agosto publicou um manifesto: "Quanto a mim, fico com São Paulo, porque para lá se transportou hoje a alma cívica do Brasil". Nisto ele teve que se esforçar para melhorar sua imagem com os paulistas. O constitucionalista Leven Vampré usou o bombardeio de São Paulo como exemplo do descaso do governo federal com o estado no passado, mesmo sem exaltar a rebelião em si. Bernardes tentou sublevar a Força Pública, sem sucesso. Prefeitos e fazendeiros da região de Viçosa aceitaram sua liderança num esforço de guerra, no qual recrutaram voluntários e compraram armas, fardas e alimentos. As tropas governistas suprimiram esta milícia e Bernardes escondeu-se, passando uma noite em cada fazenda. Investigadores prenderam-no numa choupana na mata, de roupas rasgadas e revólver na cintura. Ele não resistiu à prisão, mas pediu para passar mais três dias em Viçosa e prosseguir a Belo Horizonte sem escolta. Ele foi informado que não era "autoridade maior" e embarcado num trem para o Rio de Janeiro.

Constituinte e Estado Novo

Vargas convocou uma Assembleia Nacional Constituinte em 1933 e decretou uma anistia ampla em 28 de maio do ano seguinte, tornando Bernardes elegível. O presidente foi reeleito indiretamente pelo Congresso num pleito no qual Bernardes recebeu um dos 71 votos de oposição. As manifestações positivas na sua chegada a Belo Horizonte, em 21 de agosto, foram noticiadas até mesmo pelo Estado de Minas, jornal oficial do Partido Progressista (PP), do interventor (governador) Benedito Valadares, ao qual o PRM era oposição. O partido elegeu 14 de 48 deputados estaduais e 11 deputados federais, com os demais pertencentes ao PP. Bernardes, presidente de honra do partido e eleito em ambas as listas, optou pela Câmara dos Deputados, que iniciou seus trabalhos em 3 de maio de 1935. Ele planejou com outros oposicionistas regionais (Borges de Medeiros, Cincinato Braga, Sampaio Correia e Otávio Mangabeira) um partido nacional.

Quarta República

Após a deposição de Vargas em 1945, Bernardes participou da comissão diretora provisória da União Democrática Nacional (UDN), formada por opositores do regime, mas se desligou para fundar uma agremiação própria, o Partido Republicano (PR), que ele presidiria até sua morte em 1955. O PR "confundia-se (...) com a figura de seu criador", muito mais bernardista do que fora o PRM. De pouca projeção nacional, o partido era a terceira força política em Minas Gerais, onde viveu em coligações aos dois partidos maiores, a UDN e o Partido Social Democrático (PSD). Na esfera nacional, o PR apoiou Eduardo Gomes, da UDN, na eleição presidencial de 1945. Ironicamente, Eduardo Gomes era uma das antigas lideranças tenentistas. Em 1950 o PR apoiou Cristiano Machado, do PSD.

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Ideologia e imagem

Personalidade

Pessoalmente, Bernardes já foi descrito como um homem disciplinado, diligente, inteligente e bem informado, pontual, "bem falante, culto e de gestos educados". De "vida privada acima de suspeitas", "hábitos austeros, aspecto severo, sempre sisudo", "raramente sorria". "Ninguém jamais lhe conheceu uma explosão de cólera". Aparentemente tímido, expressava-se bem, embora preferisse ouvir do que falar diante dos ministros. Em público, sempre estava com "calças impecavelmente vincadas". Escrevia com correção, "sobriedade" e "elegância". Nair de Teffé, esposa de Hermes da Fonseca, descreveu-o como um "homem seco, austero, formal", "afável no trato ameno". Afonso Arinos descreveu-o: "invariavelmente cortês, extremamente reservado, sempre bem posto nos trajes", "costumava ficar imóvel na sua bancada, tão atento na leitura da ordem do dia que a parecia estar aprendendo de cor".

Reputação

Bernardes foi um dos governantes mais controversos de seu período. Carismático, mas não popular, foi idolatrado pelos amigos e odiado pelos inimigos. Ele é lembrado por ter governado através de um autoritarismo violento, mas também um "autoritarismo modernizante". Seus opositores cunharam apelidos como "réprobo de Viçosa", "Seu Mé", "rolinha", "Calamitoso" e "presidente do sítio". O Estado Novo, ao desqualificar a "República Velha" do qual Bernardes era representante, sedimentou sua memória negativa. Na historiografia ele é apontado como xenófobo e intransigente. Autores mais favoráveis preferem justificar suas medidas repressivas como reação às atitudes da oposição. As biografias positivas descrevem-no como estadista e "construtor do Estado", que implementava políticas de interesse público, sem nunca tolerar a imoralidade administrativa.

São Paulo e Clevelândia

A biografia autorizada Arthur Bernardes: Estadista da República, de Bruno de Almeida Magalhães, pouco toca no bombardeio, repressão e outros assuntos sensíveis à imagem do ex-presidente. O capítulo referente ao estado de sítio, Clevelândia e a revisão constitucional é intitulado "Bastião da legalidade". O biógrafo lembra das medidas de exceção tomadas em governos anteriores, argumentando que Floriano Peixoto, com seus fuzilamentos e deportações à Amazônia, fez muito pior. No mesmo capítulo, compara Bernardes a Floriano, elogiando ambos por salvar a República esmagando ondas revolucionárias. A "energia férrea" de Epitácio e Bernardes teria poupado a nação da luta fratricida.

Bernardismo

A corrente política identificada com a liderança de Bernardes, seu estilo e sua época no poder são denominados bernardismo, cujo símbolo era o cravo vermelho vestido na lapela. Como admirador de Floriano Peixoto, Bernardes chega a ser citado como um jacobino, rótulo ideológico que podia significar radicalismo, nacionalismo e/ou autoritarismo nesse período histórico. As ações de Bernardes nos governos mineiro e federal demonstram simpatia às linhas gerais do programa jacobino brasileiro: a proteção da indústria, nacionalização do solo, exclusão dos estrangeiros da política, auxílio à pequena propriedade e reforma das tarifas. Entretanto, ele divergia grandemente ao propor a colaboração entre a Igreja e o Estado. O cientista político Christian Lynch classifica Bernardes num conservadorismo republicano da linha de Pinheiro Machado, Quintino Bocaiúva, Campos Sales e outros políticos eminentes do período.

Legado

Em Viçosa, a ESAV não impediu a crise da cafeicultura da Mata, mas se tornou referência nacional, cultivando uma elite intelectual agronômica na administração pública, setor privado e academia. A síntese biográfica de Bernardes publicada pela editora da Universidade Federal de Viçosa tem tom positivo, e a Casa Artur Bernardes, localizada na praça Silviano Brandão, em Viçosa, foi tombada em 1995 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha) de Minas Gerais. O imóvel foi construído durante seu mandato presidencial, frequentado esporadicamente por ele e hoje contém um memorial. A legislação trabalhista do governo Bernardes apontava para um sindicalismo oficial, modelo implantado na Era Vargas. A Companhia Vale do Rio Doce S.A., fundada em 1942 para administrar, entre outras, as minas de Itabira, seguiu um modelo semelhante ao proposto por Bernardes. Entretanto, a primeira grande siderurgia estatal do país, a Companhia Siderúrgica Nacional, foi instalada no Rio de Janeiro e não em Minas Gerais.

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Fontes consultadas

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