Artilharia a cavalo
A artilharia a cavalo constituía um tipo de artilharia ligeira de grande mobilidade, cuja característica principal era o facto de cada um dos serventes das suas bocas de fogo se deslocar montado num cavalo individual. A artilharia a cavalo empregava peças e obuses ligeiros e destinava-se a prestar apoio de fogo direto às unidades de manobra de cavalaria. Por contraste, a artilharia a pé empregava peças, obuses e morteiros pesados e seus os serventes marchavam a pé. A artilharia a cavalo existiu em grande parte dos exércitos da Europa e das Américas, entre o século XVII e o início do século XX, sendo uma precursora da moderna artilharia autopropulsada.
Início
Essencialmente, um híbrido de artilharia e de cavalaria, unidades irregulares de artilharia a cavalo foram usadas pela primeira vez durante o século XVII, por ocasião da Guerra dos Trinta Anos, por Lennart Torstenson. Torstenson era o especialista em artilharia do rei Gustavo Adolfo da Suécia, usando a artilharia a cavalo para dar o apoio de fogo que a cavalaria necessitava para lidar com as formações maciças de infantaria, sem sacrificar a sua velocidade e manobrabilidade. Gustavo Adolfo tinha, antes disso, tentado misturar unidades de infantaria com a cavalaria, tendo obtido algum sucesso uma vez que esta não costumava carregar a galope sobre o inimigo.
A modernização do século XVIII
Frederico II compreendeu que a melhor arma contra as massas de infantaria era o fogo concentrado de artilharia. Apercebeu-se que, mesmo as pequenas e relativamente ligeiras bocas de fogo poderiam destroçar e, mesmo, destruir as unidades de infantaria, desde que pudessem ser trazidas para suficientemente perto e pudessem disparar um número suficiente de tiros. Mas, uma vez que a artilharia a pé - inclusive a mais ligeira - se deslocava à velocidade da marcha de um soldado, a solução seria tornar cada artilheiro num cavaleiro a tempo parcial. Através de uma instrução intensa e de uma disciplina implacável, Frederico II deu ênfase à mobilidade e à rapidez em todas as fases das operações. A unidade criada de artilharia a cavalo consistia numa bataria de seis peças de 6 libras e 48 militares comandados por três oficiais. A bataria foi destruída e reorganizada por duas vezes nesse mesmo ano, a primeira vez na Batalha de Kunersdorf e a segunda na Batalha de Maxen. Apesar dos reveses, o novo ramo da artilharia provou ter tanto sucesso que foi rapidamente reorganizado e, no início das guerras revolucionárias francesas, em 1792, passando a ser constituído por três companhias de 605 militares e batarias com oito peças de 6 libras e um morteiro de 7 libras cada uma.
O apogeu do século XIX
Durante as Guerras Napoleónicas, a artilharia a cavalo irá ser usada extensivamente e eficazmente em quase todas as campanhas e grandes batalhas. O maior e, provavelmente, mais eficiente corpo de artilharia a cavalo do mundo era o do exército revolucionário francês, formado pela primeira vez em 1792. As unidades francesas estavam especialmente bem treinadas e disciplinadas, uma vez que o novo corpo se tornou muito popular e podia, assim, atrair um considerável número de recrutas. Em 1795, já tinha crescido até aos oito regimentos, cada qual composto por seis batarias de seis peças, o que o tornava na maior força de artilharia a cavalo organizada de sempre.
O declínio do século XX
À medida que a tecnologia se desenvolvia e o poderes de fogo da infantaria e da artilharia a pé se desenvolviam, o papel da cavalaria e, consequentemente, da artilharia a cavalo começaram a declinar. A artilharia a cavalo continuou a ser usada e aperfeiçoada no início do século XX, entrando em ação durante e entre as duas guerras mundiais. Na Primeira Guerra Mundial, a Rússia, bem como outros países, equipou as batarias de artilharia das suas divisões de cavalaria com o mesmo tipo de peças de artilharia de campanha utilizadas pelas outras unidades. A França e o Reino Unido, contudo, usaram peças a cavalo especiais (respetivamente, o Canon de 75 modèle 1912 Schneider e o Ordnance QF 13 pounder).
A primeira unidade regular de artilharia a cavalo do Exército Português foi a Bataria de Artilharia Ligeira a Cavalo da Legião de Tropas Ligeiras, criada em 1796. Esta bataria seria constituída por quatro peças de calibre 6, cada uma servida por 10 artilheiros e por 14 cavalos. Em 1801, além daquela bataria, foram organizadas duas companhias de artilheiros-cavaleiros, integradas no Regimento de Artilharia da Corte. As três unidades foram, no entanto, extintas, em 1804. Durante a Guerra Peninsular, foram organizadas brigadas volantes de artilharia (equivalentes a batarias) que eram unidades de artilharia montada constituídas, normalmente, por cinco peças e um obus. Estas brigadas participaram em toda a campanha, integradas no Exército Anglo-Português, combatendo em Portugal, Espanha e França. Durante a Guerra Civil, ambos os contendores utilizaram unidades de artilharia montada. Finda esta, a artilharia do Exército Português passou a incluir quatro batarias a cavalo e 12 batarias montadas, distribuídas pelos dois regimentos de artilharia que foram mantidos.


