Semana de Arte Moderna
Semana de Arte Moderna, também chamada de Semana de 22, foi um evento cultural que ocorreu no Theatro Municipal de São Paulo de 13 a 17 de fevereiro de 1922. Contou com exposição de pinturas, esculturas e maquetes arquitetônicas, além de conferências e concertos nas noites dos dias 13, 15 e 17. Foi financiada principalmente por membros da elite paulista que haviam enriquecido com a produção cafeeira.
São Paulo no início da República
A expansão da produção cafeeira na região do oeste paulista tornou São Paulo o principal estado produtor de café a partir de 1889, quando ultrapassou o Rio de Janeiro. O crescimento econômico permitiu que os grande cafeicultores paulistas exercessem maior influência na política nacional. Com o objetivo de fazer o Governo Federal atender aos seus interesses, as oligarquias de São Paulo se aliaram às de Minas Gerais, estado com maior eleitorado do país até 1930, estabelecendo a política dos governadores e a política do café com leite, o que permitiu o revezamento dos mandatos presidenciais entre políticos paulistas e mineiros. Com o lucro proveniente das exportações do café, a elite paulista fazia investimentos necessários aos negócios, como a criação de ferrovias, docas, bancos, sociedades comerciais e máquinas, o que contribuiu para o processo de industrialização da cidade, outra característica marcante da São Paulo nas primeiras décadas do século XX. Além dos lucros do café, outro fator que contribuiu para a industrialização da cidade foi o aumento da imigração estrangeira. Enquanto a população nativa era analfabeta e acostumada ao trabalho escravo, que só foi abolido em 1889, os imigrantes frequentemente eram alfabetizado e eram dotados de habilidades técnicas e manuais que desenvolveram trabalhando em seus países de origem, característica que os tornou a mão de obra mais adequada para o trabalho nas indústrias paulistas.
A influência das Vanguardas
As primeiras décadas do século XX na Europa foram marcadas pela criação de correntes de pensamentos sobre a arte que mudariam e moldariam o meio intelectual e artístico nas décadas seguintes. As vanguardas europeias foram movimentos que propunham formas inéditas de se fazer arte, propondo uma ruptura com temas e técnicas utilizadas anteriormente. O primeiro desses movimentos, o Futurismo, iniciou-se com a publicação do Manifesto Futurista em 1909, o que influenciou todos os outros movimentos posteriores, tais como o Expressionismo, o Cubismo, o Dadaísmo e o Surrealismo. Em meados de 1880 surge no Brasil o Parnasianismo, uma escola literária que cujas principais características são descrições com pouco sentimentalismo, ao contrário do Romantismo, falta de interesse por questões políticas, poesias com dez sílabas por verso, purismo gramatical, rebuscamento da linguagem e o retorno aos clássicos. O Simbolismo foi outro movimento literário que coexistiu com o Parnasianismo, embora com menos adesão. Ainda que tenha incorporado algumas características do Parnasianismo, o Simbolismo se difere pela imprecisão dos significados, a falta de rigidez dos versos ao utilizar versos livres e a adoção de um vocabulário místico.
O Correio Paulistano e O Estado de São Paulo atribuiu a autoria da ideia da criação da Semana de Arte Moderna a Graça Aranha, porém é mais provável que a iniciativa tenha surgido de Emiliano Di Cavalcanti após ouvir Marinette Prado recordando-se do festival cultural que ocorrera em Deauville, a Semaine de Fêtes. Junto de Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia e Rubens Borba de Moraes, o grupo cogitou realizar na livraria Jacinto Silva uma exposição de quadros de vanguarda com conferências didáticas, almejando abrir caminhos para novas experiências modernistas. Apenas dias depois, quando Oswald de Andrade, Menotti, Di Cavalcanti e Brecheret se reuniram com Paulo Prado num salão do Automóvel Clube, que começou-se a planejar a concretização do evento, tendo o Theatro Municipal como espaço mais adequado. A escolha do ano de 1922 para a realização do evento foi uma tentativa de tornar a comemoração do Centenário da Independência do Brasil em manifesto de emancipação artística. Assim sendo, em 1921, O grupo estabeleceu contato com empresários com prestígio na sociedade para patrocinar o evento, tais como Antônio Prado Júnior, Armando Penteado, José Carlos de Macedo Soares, Olívia Guedes Penteado e Oscar Rodrigues Alves. Em seguida, buscou-se René Thiollier, da direção do Jornal do Commercio, que se encarregou de entrar em contato com o administrador do Theatro Municipal para fazer a reserva nos dias de 11 a 17 de fevereiro. Dentre todos os nomes da elite cafeeira paulista que ajudaram a financiar o evento, Paulo Prado é o que se destaca, principalmente por ter influenciado outros investidores a contribuírem para a realização da Semana.
O festival ocorreu entre os dias 13 e 17 de fevereiro no saguão do Teatro Municipal de São Paulo com a exposição de cerca de 100 obras, que era aberta ao público. No período da noite, também ocorriam três sessões lítero-musicais noturnas. A programação musical foi apresentada pela pianista Guiomar Novaes (1894-1979) e por Ernani Braga (1888-1948), que interpretaram composições de Heitor Villa-Lobos (1887-1959) e do francês Debussy (1862-1918). Participaram da Semana de Artes Moderna artistas dos mais variados segmentos. Entre os pintores, estavam nomes como Anita Malfatti (1889-1964), Di Cavalcanti (1897-1976), John Graz (1891-1980), Ferrignac (1892-1958), Zina Aita (1900-1967), Vicente do Rego Monteiro (1899-1970), Yan de Almeida Prado (1898-1987) e Antônio Paim Vieira (1895-1988). Também participaram escultores, como Victor Brecheret (1894-1955), Wilhelm Haarberg (1891-1986) e Hildegardo Leão Veloso (1899-1966), arquitetos, como Antônio Garcia Moya (1891-1949) e Georg Przyrembel (1885-1956), e escritores, como Graça Aranha (1868-1931), Guilherme de Almeida (1890-1969), Mário de Andrade (1893-1945), Menotti Del Picchia (1892-1988), Oswald de Andrade (1890-1954), Renato de Almeida, Ronald de Carvalho (1893-1935), Tácito de Almeida (1889-1940) e Manuel Bandeira (1884-1968).
13 de fevereiro
Abertura oficial do evento. Espalhadas pelo saguão do Teatro Municipal de São Paulo, várias pinturas e esculturas provocam reações de espanto e repúdio por parte do público. O espetáculo tem início com a confusa conferência de Graça Aranha, intitulada "A emoção estética da Arte Moderna".
15 de fevereiro
Guiomar Novaes era para ser a grande atração da noite. Contra a vontade dos demais artistas modernistas, aproveitou um intervalo do espetáculo para tocar alguns clássicos consagrados, iniciativa aplaudida pelo público. Mas a atração da noite foi a palestra de Menotti del Picchia sobre a arte estética. Menotti apresenta os novos escritores dos novos tempos e surgem vaias e barulhos diversos (miados, latidos, grunhidos, relinchos…) que se alternam e confundem com aplausos. Oswald de Andrade foi outro escritor que teve dificuldades para ler um fragmento de seu romance Os Condenados em função das vaias. Segundo Haroldo Lívio, o poeta Agenor Fernandes Barbosa foi o único participante aplaudido pelo público no segundo dia do evento.
17 de fevereiro
O dia mais tranquilo da semana, apresentações musicais de Heitor Villa-Lobos, com participação de vários músicos. O público em número reduzido, portava-se com mais respeito, até que Villa-Lobos entra de casaca, mas com um pé calçado com um sapato, e outro com chinelo; o público interpreta a atitude como futurista e desrespeitosa e vaia o artista impiedosamente. Mais tarde, o maestro explicaria que não se tratava de modismo e, sim, de um calo inflamado.
Na época, boa parte da mídia reagiu de forma conservadora ao Movimento da Semana de Arte de 1922 referindo-se aos vanguardistas como "subversores da arte", "espíritos cretinos e débeis" ou "futuristas endiabrados". A exceção foi o jornal Correio Paulistano, que, com o consentimento do governador de São Paulo Washington Luís, apoiou os lançamentos e críticas do movimento.
Os trabalhos expostos na Semana de Arte Moderna foram um esboço de reflexões que amadureceram no decorrer da década de 1920, como o combate ao Romantismo, ao Indianismo, ao Realismo, ao Parnasianismo, à métrica e o soneto, além de exaltar e propor uma recepção crítica dos postulados estéticos das vanguardas europeias, adaptando-os à realidade brasileira. Seus dois ideólogos principais, Mário de Andrade e Oswald de Andrade, defendiam a negação de todo "passadismo" e clamam por liberdade de expressão e pela deposição dos temas tradicionalistas e importados do exterior, mas já naquela época alguns críticos do movimento, como Ângelo Guido, identificaram muitos elementos alienígenas na base da sua ideologia, como o cubismo, o futurismo, o ultraísmo e o dadaísmo, que tinham origem europeia. A Semana não teve muita importância em sua época e levou anos para ganhar valor histórico, projetando-se ideologicamente ao longo do século. Por falta de uma ideologia comum a todos os seus participantes, dividiu-se em vários movimentos bastante distintos, todos se declarando herdeiros do movimento. Entre os movimentos que surgiram na década de 1920 estão o Movimento Pau-Brasil, o Movimento Verde-Amarelo e o Movimento Antropofágico. A principal forma de divulgação dessas novas ideias era por meio de revistas, como a Klaxon e a Revista de Antropofagia.


