Pesquisa · Mapa mental

Guerra Cristera

A Guerra Cristera é o nome pelo qual ficou conhecido os conflitos armados resultantes da perseguição e repressão conduzidas pelo Estado no México contra a Igreja Católica e seus fieis. Tratou-se de um levantamento popular contra as leis anticlericais impostas pela Constituição Mexicana de 1917 promulgada em 1.º de dezembro de 1917. A maior parte do conflito armado se desenrolou entre 3 de agosto de 1926 a 21 de junho de 1929, havendo no entanto atos isolados de violência tanto por parte do Estado Mexicano quanto por parte de remanescentes dos cristeros após esse período.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 14/07/2026
01

A constituição de 1917

Imagem: AntoFran · BY-SA · Openverse

Cinco dos artigos da constituição mexicana de 1917 visavam especialmente eliminar direitos da Igreja Católica na sociedade mexicana. O artigo 3.º exigia uma educação laica nas escolas. O artigo 5.º proibia as ordens monásticas. O artigo 24.º proibia o culto em público fora das igrejas, enquanto que o inciso II do artigo 27.º restringia os direitos de propriedade das organizações religiosas. Finalmente, a letra "e" do artigo 130.º retirava aos membros do clero direitos cívicos básicos: padres e líderes religiosos estavam proibidos de usar os seus hábitos, não tinham direito de voto e estavam proibidos de comentar assuntos da vida pública na imprensa. O espírito anticlerical do governo estendia-se ainda a alterações superficiais de topónimos no sentido da sua laicização. Como exemplo, o estado de "Vera Cruz" foi rebaptizado de Veracruz.

02

Os antecedentes da rebelião

Imagem: Catedrales e Iglesias · BY · Openverse

Quando as medidas foram postas em prática em 1917, o presidente do México era Venustiano Carranza. Carranza foi deposto devido às maquinações do seu antigo aliado Álvaro Obregón em 1919. Obregón seria presidente em finais de 1920. Apesar de partilhar do sentimento anticlerical de Carranza, aplicou as medidas anticlericais de forma selectiva e apenas em áreas em que o sentimento católico era mais fraco. Esta trégua precária entre o governo e a igreja terminou com a eleição de Plutarco Elías Calles em 1924. Calles era maçônico, e aplicou as leis anticatólicas com todo o rigor e por todo o país acrescentando a sua própria legislação anticatólica. Em Junho de 1926, promulgou a Lei de Reforma do Código Penal, conhecida como Lei Calles. Esta lei previa penas específicas para padres e religiosos que se atrevessem a violar as provisões da constituição de 1917. Como por exemplo, o uso de vestes religiosas em público era penalizado em 500 pesos.

03

Resistência pacífica

Imagem: Catedrales e Iglesias · BY · Openverse

Em resposta a estas medidas, a resistência das organizações católicas começou a intensificar-se. A mais importante destas organizações era a Liga Nacional de Defesa da Liberdade Religiosa, fundada em 1924. A ela juntaram-se a Associação Mexicana da Juventude Católica (fundada em 1913) e a União Popular, um partido político católico fundado em 1925. Em 11 de Julho de 1926 os bispos mexicanos votaram a favor da suspensão de todas as manifestações públicas de culto como resposta à lei Calles. Esta suspensão deveria entrar em efeito a partir de 1 de Agosto. Em 14 de Julho, deram o seu apoio aos planos para levar a cabo um boicote económico contra o governo, e que seria especialmente bem-sucedido no México centro-ocidental (os estados mexicanos de Jalisco, Guanajuato, Aguascalientes, Zacatecas). Os católicos residentes nestas regiões deixaram de ir aos cinemas e teatros e não utilizavam os transportes públicos; os professores deixaram de leccionar nas escolas seculares.

04

Escalada de violência

Em Guadalajara, no dia 3 de Agosto de 1926, cerca de 400 católicos armados encerraram-se na igreja de Nossa Senhora de Guadalupe. Envolveram-se num tiroteio com tropas federais, rendendo-se apenas quando ficaram sem munições. Segundo fontes consulares dos Estados Unidos, este confronto teria causado a morte a 18 pessoas e 40 feridos. No dia seguinte, em Sahuayo, Michoacán, a igreja paroquial local foi invadida por 240 soldados governamentais. O padre da paróquia e o seu vigário foram mortos na violência que se seguiu. Em 14 de Agosto, agentes governamentais levaram a cabo a eliminação da delegação da Associação da Juventude Católica em Chalchihuites, Zacatecas, executando o seu conselheiro espiritual , o padre Luis Bátiz Sainz. A partir daqui os acontecimentos sucedem-se de forma muito rápida. Um bando de rancheiros sob a liderança de Pedro Quintanar, ao tomar conhecimento da morte do padre Bátiz, ocupou a tesouraria local e declara-se em rebelião. No auge da sua rebelião controlava uma região que incluía toda a parte norte de Jalisco.

05

A guerra Cristera

A rebelião teve formalmente início com a publicação dum manifesto de Garza no dia de Ano Novo intitulado A la nación (À Nação). Nele declarava que é chegada a hora da batalha e a hora da vitória pertence a Deus. Com esta declaração, o estado de Jalisco que parecera calmo desde os acontecimentos da igreja de Guadalajara, inflamou-se. Grupos de rebeldes deslocando-se na região a nordeste de Guadalajara de Los Altos começaram a ocupar aldeias, muitas vezes equipados apenas com antigos mosquetes e paus. O grito de batalha dos Cristeros era ¡Viva Cristo Rey! ¡Viva la Virgen de Guadalupe! (Viva Cristo Rei! Viva a Virgem de Guadalupe!). No início o governo de Calles não levou esta ameaça muito a sério. Os rebeldes conseguiam bons resultados frente aos agraristas (uma milícia rural recrutada em todo o México) e frente às forças da Defesa Social (uma milícia local), mas eram sempre derrotados pelas tropas federais que guardavam as principais cidades. Por esta altura, o exército federal contava com 79 759 homens. Quando o comandante federal de Jalisco, general Jesús Ferreira, iniciou a campanha contra os rebeldes, afirmou calmamente que se trataria mais de uma caça que de uma campanha.

06

A diplomacia e a rebelião cristera

Imagem: Catedrales e Iglesias · BY · Openverse

Antes e depois dos sucessos dos rebeldes e do apoio do bispo Orozco y Jiménez, os bispos mexicanos apoiaram os Cristeros (esta afirmação é contestada por muitos, que dizem que exceptuando dois casos, o episcopado era hostil ao movimento). Após o ataque ao comboio liderado pelo padre Vega, os bispos foram expulsos do México mas continuariam a tentar influenciar o resultado do conflito a partir do exterior. Em Outubro de 1927 o embaixador dos Estados Unidos no México era Dwight Whitney Morrow. Ele iniciou uma série de reuniões com Calles, sempre ao pequeno-almoço, em que os dois discutiam toda uma variedade de assuntos, desde os levantamentos religiosos, ao petróleo e irrigação. Este facto valer-lhe-ia o título de diplomata de ovos e fiambre nos jornais dos Estados Unidos. Morrow pretendia que o conflito terminasse por razões humanitárias e com vista a encontrar uma solução para o problema do petróleo nos Estados Unidos. Foi assistido nos seus esforços pelo padre John Burke da National Catholic Welfare Conference. A Santa Sé encontrava-se também envolvida na busca da paz.

07

Os arreglos

Imagem: Catedrales e Iglesias · BY · Openverse

Morrow conseguiu o acordo entre as partes em 21 de Junho de 1929. O pacto que ele elaborou, os chamados arreglos (arranjos), permitiria o retomar do culto no México e fazia três concessões aos católicos: apenas os padres nomeados por superiores hierárquicos seriam obrigados a registar-se, a educação religiosa seria permitida nas igrejas (mas não nas escolas), e todos os cidadãos, incluindo o clero, poderiam efectuar petições para reformar as leis. Mas o ponto mais importante dos arreglos era que a igreja recuperaria o direito a usufruir das suas propriedades e os padres recuperavam o direito de viver nessas mesmas propriedades. Legalmente falando, a igreja não podia possuir propriedade imobiliária, e as suas antigas instalações permaneciam propriedade federal. No entanto, a igreja tomou o controlo destas instalações e o governo nunca voltou a tentar ficar com elas. Era um arranjo conveniente para as duas partes e o apoio da igreja aos rebeldes cessou.

08

Santos da guerra Cristera

Imagem: Catedrales e Iglesias · BY · Openverse

A Igreja Católica reconhece como mártires várias pessoas mortas durante a rebelião Cristera. Talvez o mais conhecido seja o beato Miguel Pro. Este padre jesuíta foi executado por um pelotão de fuzilamento em 23 de Novembro de 1927, sem direito a julgamento, acusado de que as suas actividades sacerdotais desafiavam o governo. O governo de Calles esperava utilizar imagens da execução como forma de levar os rebeldes à rendição, mas as fotos produziram o efeito contrário. Após verem as imagens, que o governo mandara imprimir em todos os jornais, os Cristeros sentiram-se inspirados pelo desejo de seguir o exemplo do padre Pro como mártires por Cristo. Foi beatificado em 1988. Em 21 de Maio de 2000, o papa João Paulo II canonizou um grupo de 25 mártires deste período (haviam sido beatificados em 2 de Novembro de 1992). Na sua maioria eram padres que não pegaram em armas, mas que se recusaram a abandonar as suas paróquias, tendo sido executados pelas forças federais.

Vídeos recomendados

Fontes consultadas

Continue pesquisando