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Julius Martov

Iuli Osipovich Tsederbaum, mas conhecido pelos seus pseudônimos, Julius Martov, L. Martov, ou simplesmente Martov, foi um teórico marxista, revolucionário e líder dos mencheviques, a facção minoritária do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR).

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 25/10/2026
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Primeiros anos

Família e infância

Martov nasceu Iuli Osipovich Tsederbaum em 24 de novembro de 1873 na cidade de Constantinopla, então capital do Império Otomano. A família de Tsederbaum, durante boa parte do século XIX, havia feito parte do movimento intelectual judaico conhecido como Haskalá (em português: sabedoria), popularmente denominado como o Iluminismo judaico: o avô de Iuli, Alexander Tsederbaum, havia sido o fundador dos primeiros jornais escritos em hebraico e em iídiche na Rússia e havia sido um defensor, durante as décadas de 1870 e 1880, de que a comunidade judaica da Rússia deveria se emancipar através da educação e procurar uma conciliação com o regime tsarista. Ao final da vida, Alexander, desiludido com o antissemitismo do governo russo mesmo frente às tentativas de aproximação por parte dos judeus, se tornou sionista e ortodoxo.

Juventude

Quando Iuli tinha quatro anos de idade, Osip e a família se mudaram para Odesa, na atual Ucrânia, onde presenciaram o pogrom de 1881, parte de uma grande onda de violência antissemita após o assassinato do tsar Alexandre II. Durante toda sua juventude, Iuli seria sujeito a constantes atos de violência antissemita. Alguns meses após o pogrom, Osip e sua família se mudaram para São Petersburgo. Em 1887, mudaram-se novamente, dessa vez para Tsarkoye Selo – atual município de Pushkin – e, em 1889, de volta para São Petersburgo, onde quase foram expulsos devido a dispositivos legais da Rússia que restringiam o direito de judeus viverem em determinados locais. Foram nesses anos que Iuli entrou em contato, pela primeira vez, com obras de literatura revolucionária e, também, com os atos terroristas do grupo Narodnaia volia (em português: Vontade do Povo). No último ano do ginásio, Iuli entrou em um grupo de estudos composto por alunos democratas, onde entraria em contato pela primeira vez com tratados políticos proibidos na Rússia, como os trabalhos de Ferdinand Lassale, Friedrich Engels e Karl Marx, particularmente o Manifesto do Partido Comunista, que lhe causou forte impressão.

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Primeiro exílio e volta para São Petersburgo

Exílio em Vilno

Assim, a tarefa dos sociais-democratas é conduzir uma agitação constante entre os operários da fábrica com base nas necessidades e demandas mesquinhas existentes. A luta suscitada por tal agitação treinará os operários para defender seus próprios interesses, aumentará sua coragem, dará-lhes confiança em sua força, uma consciência da necessidade de unidade e, finalmente, colocará diante deles as questões mais importantes que exigem soluções. Tendo sido preparada desta forma para a luta mais séria, a classe operária procede à resolução dessas questões vitais, e a agitação com base nessas questões deve ter como objetivo a formação da autoconsciência de classe. A luta de classes nesta forma mais consciente estabelece a base para a agitação política, cujo objetivo será alterar as condições políticas existentes em favor da classe operária. O programa subsequente dos sociais-democratas é evidente.

Volta para São Petersburgo

O exílio administrativo de Iuli terminou em 1895, ocasião na qual ele voltou para São Petersburgo. Ao chegar na capital, reuniu-se com os remanescentes do Grupo para a Emancipação do Trabalho de São Petersburgo, que havia fundado antes do exílio, e recomendou que deixassem de ser um grupo meramente propagandístico e passassem a adotar os métodos propostos no panfleto "Sobre a Agitação". Mais tarde, esse grupo seria fundido com outros grupos que mantinham um contato mais estreito com círculos de trabalhadores para formar a "Liga de Luta pela Emancipação da Classe Operária de São Petersburgo". Entre os fundadores dessa liga, além de Martov, estava Vladimir Ilitch Ulianov – que mais tarde assumiria o pseudônimo "Lênin". Logo de partida foram estabelecidos três comitês em três regiões industriais da cidade e também foi fundado o periódico oficial da Liga, denominado "Rabochee delo" ("Рабочее дело"; em português: Causa Operária).

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Sibéria e Iskra

Exílio em Turukhansk

Iuli Tsederbaum foi enviado para a vila de Turukhansk, na Sibéria, próxima ao Círculo Polar Ártico. Antes de partir, os marxistas russos haviam concordado em não resistir à punição do regime tsarista em fugindo para o exterior, mas utilizar o período no exílio para o desenvolvimento de tarefas intelectuais e o amadurecimento político. Durante esses anos, Tsederbaum trabalharia como jornalista para diversos periódicos siberianos e manteria em contato estreito com Vladimir Ulianov, com que desenvolveria uma amizade próxima. Devido ao clima difícil da Sibéria, Tsederbaum contrairia uma tuberculose crônica que o castigaria pelo resto da vida e seria, anos depois, a causa de sua morte.

Período no jornal Iskra

Ao final do exílio, Iuli Tsederbaum recebeu o convite de Ulianov para fundar um jornal que serviria como órgão de combate ao economicismo e revisionismo. Tsederbaum aceitou e, assim que seu exílio terminou, fundou, junto de Vladimir Ulianov – que agora usava o pseudônimo Lênin –, e Alexei Potresov o jornal Iskra ("Искра"; em português: "Faísca" ou "Centelha"). Enquanto Lênin e Potresov (junto de outros marxistas russos mais antigos como Gueorgui Plekhanov, Pavel Akselrod e Vera Zasulitch) organizavam o corpo editorial da Iskra em Munique, Tsederbaum organizava a rede de distribuição do periódico na Rússia, tarefa que empreendeu durante quase um ano até se juntar aos outros editores no exterior entre março e abril de 1901.

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Refundação do Partido Operário Social-Democrata Russo

Antecedentes

Desde 1900 os membros do Iskra estavam estabelecendo conexões na Rússia para a organização de um congresso de refundação do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) – criado originalmente em 1898 e desmantelado rapidamente pela polícia secreta tsarista. Lênin, em particular, estava atuando entre os grupos russos sob uma estratégia que levaria à formação de uma hegemonia pró-Iskra no congresso. Ao final de 1902, os simpatizantes do Iskra já eram maioria entre os grupos compostos de não-judeus. Pouco meses antes do congresso, Martov já indicava sua preferência para a forma da constituição do partido. Em um artigo escrito em abril de 1903 à revista Przeglad Socjaldemokratyczny, de Rosa Luxemburgo, Martov defendeu que, a fim de conciliar a necessidade de conspiração para a ação dos sociais democratas e o caráter do partido como uma organização de massas, era preciso que o partido compreendesse uma ampla rede de organizações menores (como sindicatos) que seriam, por sua vez, coordenadas – e teriam a integridade ideológica garantida – pelo partido. Pouco tempo depois Martov apresentou uma proposta de constituição partidária que compreenderia uma ampla delegação de poderes a organismos regionais. Lênin discordou da proposta de Martov e apresentou a sua própria – que, por sua vez, era bem mais centralizadora do que a de Martov – e que foi a que acabou sendo votada no Segundo Congresso do POSDR alguns meses depois.

II Congresso do POSDR

Quando o Segundo Congresso do POSDR foi aberto em Bruxelas no dia 30 de julho de 1903, a maioria dos seus membros estavam afiliados ao campo simpático às propostas do jornal Iskra. Seguindo junto de Lênin e de seus companheiros no periódico, Martov foi um dos mais ferrenhos opositores à proposta da Bund de autonomia dentro do partido para atuar junto aos trabalhadores judeus, que foi rapidamente rejeitada pelo congresso. Também nesse primeiro momento foi aceito de forma relativamente rápida a adoção do programa do Iskra – escrito por Lênin – para o POSDR. Pouco tempo depois dessas deliberações, entretanto, o congresso foi forçado a se deslocar de Bruxelas – onde estavam sob a "mira" da polícia belga, pressionada pela Rússia – para Londres.

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Líder menchevique

Apesar da vitória de Lênin no Segundo Congresso do POSDR, Martov logo se encontrou em uma posição favorável para contra-atacar. No Segundo Congresso da Liga Estrangeira em Genebra – a organização que representava o POSDR no exterior – Martov conseguiu obter uma maioria de 18 delegados "macios" (que contabilizavam 22 votos), ao passo que os apoiadores de Lênin – chamados de "duros" – só contabilizavam 15 delegados com 18 votos. Martov aproveitou a nova maioria para se distanciar de uma posição centralizadora que, durante o período do Iskra, o havia caracterizado: dizia ele que, com um partido operário formado, a tendência centralizadora de Lênin inevitavelmente levaria a organização a se degenerar em uma "organização golpista burocrática" ao invés de um partido verdadeiramente operário. Em novembro, Plekhanov, inquieto pela atitude intransigente de Lênin para com os seus críticos, trouxe Martov, Akselrod, Potresov e Zasulitch de volta ao conselho editorial do Iskra, levando Lênin a ficar novamente na minoria. O Comitê Central do POSDR, por sua vez, apesar de ser composto em sua maioria por bolcheviques, também se recusou a convocar um terceiro congresso partidário para submeter ou expulsar os apoiadores de Martov.

Revolução de 1905

A derrota russa na guerra russo-japonesa e a revolução que se seguiu fez com que, para Martov, as disputas internas do partido perdessem importância. Mesmo assim, em abril de 1905, os bolcheviques convocaram o seu próprio congresso partidário em Londres, ao que os mencheviques responderam com o seu próprio congresso em Genebra em maio. Nele Martov defendeu a democratização do partido, a introdução da eleição para cargos nas suas instituições e o abstencionismo dos socialistas do governo revolucionário que emergiria na Rússia, que Martov considerava despreparada para o socialismo. Durante a revolução, Martov defendeu que o papel dos revolucionários deveria ser formar uma oposição militante ao novo governo burguês, criando uma rede de sindicatos, cooperativas, conselhos rurais e sovietes que pressionassem o governo até que fossem produzidas as circunstâncias sociais e econômicas que fariam possível a revolução socialista. Em uma sociedade pouco industrializada o partido não deveria, segundo Martov, cair na tentação de tomar o poder a força ou entrar em coalizões com a burguesia no governo. No final de outubro, Martov regressou a Rússia de Viena e reconheceu nos sovietes (os conselhos operários que haviam sido formados durante a revolução) uma forma de auto-organização revolucionária alternativa ao governo burguês, e se opôs ao controle desses órgãos da classe trabalhadora pelo partido, como propunham os bolcheviques.

Primeira Guerra Mundial

O início da Primeira Guerra Mundial implodiu a Segunda Internacional e aprofundou as divisões entre os social democratas russos. De Paris, onde criou, com Trótski, o jornal internacionalista Nashe slovo ("Наше Слово"; em português: "Nossa Palavra"), adotou a postura que se tornaria majoritária entre os mencheviques: a de um internacionalismo pacifista aguerrido e de uma oposição completa ao conflito, a qual ele enxergava como uma guerra imperialista. Martov se opunha, nesse momento, à posição dos ditos "sociais imperialistas" que apoiavam o esforço de guerra de seus governos nacionais – uma posição conhecida como defensismo e defendida, dentro do partido menchevique, por socialistas como Potresov – e, ao mesmo tempo, ao derrotismo proposto por Lênin e defendido por boa parte dos bolcheviques, que defendia a transformação da guerra mundial em várias guerras civis internas.

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Revoluções de 1917

Revolução de Fevereiro

Após a Revolução de Fevereiro de 1917, Martov retornou à Rússia, mas era tarde demais para impedir alguns mencheviques de ingressarem no Governo Provisório. Ele criticou fortemente esses mencheviques como Irakli Tsereteli e Fedor Dan que, agora parte do governo da Rússia, apoiavam o esforço de guerra. No entanto, em uma conferência realizada em 18 de junho de 1917, ele não conseguiu obter o apoio dos delegados para uma política de negociações de paz imediatas com as Potências Centrais.

Revolução de Outubro

Em primeiro lugar, é imperativo assegurar uma resolução pacífica à crise. Sangue está sendo derramado nas ruas de Petrogrado! É necessário parar as ações militares em ambos os lados. Uma resolução pacífica da crise pode ser atingida pela criação de uma autoridade política que seria reconhecida por toda a democracia[nota 2]. Martov, Discurso proferido ao Segundo Congresso dos Sovietes. Após a tomada do poder pelos bolcheviques no início de novembro de 1917 (outubro no calendário juliano), como sinal de protesto contra a insurreição, os mencheviques e socialistas revolucionários presentes no Segundo Congresso de Sovietes se recusou a fazer parte do presídio da organização. Martov, naquele momento, tomou a palavra e implorou aos delegados que a luta cessasse e que os partidos socialistas entrassem em um acordo para a formação de um governo democrático. O apelo de Martov foi recebido, no congresso com uma onda de aplausos e a sua proposta foi aceita por unanimidade.

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Oposição ao governo bolchevique

Primeiros meses

Por um tempo Martov liderou o grupo de oposição menchevique na Assembleia Constituinte até que os bolcheviques a aboliram. Mais tarde, em uma ocasião, uma seção da fábrica escolheu Martov como seu delegado à frente de Lênin em uma eleição. Pouco tempo depois a fábrica encontrou o seu abastecimento reduzido.

Guerra civil

Durante a Guerra Civil Russa, Martov apoiou o Exército Vermelho contra o Exército Branco; No entanto, ele continuou a denunciar a perseguição de opositores políticos dos bolcheviques que eram pacíficos, tanto os social-democratas, quanto sindicalistas e anarquistas. Falando do Terror Vermelho, Martov disse: "A besta gostou de lamber o quente sangue humano. A máquina de matar homem foi posta em movimento ... Mas o sangue gera sangue ... Testemunhamos o crescimento da amargura da guerra civil, e o crescimento da bestialidade dos homens envolvidos nela ". A partir de 1920, com a retomada das comunicações entre a Rússia e o resto do mundo, Martov começou a entrar em contato com os membros dos partidos socialistas da Europa, especialmente àqueles ligados ao centro marxista, como Karl Kautsky, Jean Longuet e Friedrich Adler. Martov procurava, com isso, influenciar os socialistas não-russos a pressionar os bolcheviques com o objetivo de reformar o sistema repressivo instalado antes e durante a guerra civil.

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Últimos anos

Congresso de Halle

Martov, após receber o convite para participar do congresso do USPD em Halle, ficou receoso em sair da Rússia, com medo de que sua ausência exacerbasse a perseguição aos mencheviques. Martov adiou sua partida da Rússia por mais de um mês após o convite de Dittmann e Crispien. Em outubro Martov conseguiu obter permissão do governo russo para deixar o país legalmente. Nesse momento Martov já estava com a saúde muito frágil e tinha perdido quase que completamente a voz, ao ponto de seu discurso ter de ser lido por Alexander Stein. O seu principal opositor nesse Congresso foi o próprio presidente da Terceira Internacional, o bolchevique russo Grigori Zinoviev.

Exílio

Martov não tinha a intenção de permanecer na Alemanha e planejava retornar a Rússia, porém foi obrigado a ficar no exílio após a declaração de ilegalidade do Partido Menchevique, em 1921, após o Décimo Congresso do Partido Comunista. Após o Congresso de Halle, Martov se estabeleceu em Berlim, onde fundou, em fevereiro de 1921, o jornal "Sotsialistichesky vestnik" (em português: Mensageiro Socialista), a publicação oficial do Partido Menchevique no exílio. A primeira edição do jornal declarava que os seus objetivos eram: "servir as necessidades do movimento social democrata na Rússia, atualmente privado, graças às políticas do governo bolchevique, de seu órgão de imprense, e informar a opinião socialista europeia ocidental a respeito do desenvolvimento e dos problemas da revolução e do movimento proletário na Rússia." O jornal se tornaria o principal órgão dos mencheviques no exílio e seria editado pelos quarenta anos seguintes.

Morte

Durante o seu exílio na Alemanha a tuberculose de Martov deixou a sua saúde cada vez mais frágil. Em 1921, após o congresso do USPD e a fundação do Mensageiro Socialista, passou quatro meses internado em um sanatório na região da Floresta Negra. Em novembro de 1922 foi internado novamente, dessa vez em um sanatório em Schömberg, de onde seguiu as suas atividades políticas antes de falecer no dia 4 de abril de 1923.

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Fontes consultadas

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