Araracanga
A araracanga, também conhecida pelos nomes de aracanga, arara-macau, arara-piranga, macau e arara-vermelha-pequena, é uma espécie de ave pertencente à família Psittacidae, sendo a terceira maior representante do gênero Ara, que reúne araras e maracanãs. Ocupa um grande território na América que vai do sul do México até o norte do estado brasileiro do Mato Grosso. É uma das aves mais emblemáticas das florestas neotropicais, mas sua população vem declinando e em algumas áreas já foi extinta ou está em grande perigo. A população centro-americana está particularmente ameaçada. Entretanto, a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais, em 2009, classificou o estado da espécie globalmente como "pouco preocupante".
"Araracanga" e "aracanga" vêm do termo tupi ararakanga. "Arara" vem do tupi arara. "Ararapiranga" vem do termo tupi para "arara vermelha". O nome araracanga é o selecionado como nome vernáculo técnico para a espécie Ara macao pelo Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO).
Foi descrita pela primeira vez por Lineu em 1758. Tradicionalmente, tem sido considerada uma espécie monotípica, como a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais ainda o faz, mas, há alguns anos, foi proposta a divisão em duas ou três subespécies. O Sistema Integrado de Informação Taxonômica reconhece apenas duas: Ara macao macao (Linnaeus, 1758), presente na América do Sul e Ara macao cyanopterus (ou cyanoptera) Wiedenfeld, 1995, que ocorre na América Central. Os indivíduos desta espécie pesam cerca de 1,2 quilogramas, com 85–91 cm de comprimento. A plumagem do corpo é vermelha, asas em azul e amarelo com traços de verde, cauda vermelha com a base e laterais azuis, e face glabra e branca. Os olhos vão do branco ao amarelo. Têm pernas curtas e uma longa cauda pontuda, asas largas, um bico largo, curvo e forte com parte superior branca e inferior negra, e pés zigodáctilos, que os tornam hábeis escaladores e manipuladores de objetos. Quando voam e se alimentam, emitem um característico grito forte e rouco, como um RRAAAAH, e são capazes de articular sons imitando palavras humanas ou vozes de outros animais.
Imagem: Tony Gálvez · BY-NC-ND · Openverse
A Ara macao ocorre em uma vasta área americana, indo do sul e leste do México até o Panamá, com um hiato, então continuando por todo o norte da América do Sul até o norte do Mato Grosso, incluindo regiões adjacentes do Maranhão, Pará e Bolívia. No Peru e Equador ocorre em toda parte a leste da Cordilheira dos Andes. Já foi vista até no nordeste da Argentina. A União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais indica, como países nativos da Ara macao: Belize, Bolívia, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guiana Francesa, Guatemala, Guiana, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Peru, Suriname, Trinidad e Tobago e Venezuela. Foi introduzida pelo homem em Porto Rico e algumas áreas urbanas dos Estados Unidos, Europa e outros pontos da América Latina. Sua população total é estimada entre 20 000 e 50 000 indivíduos, mas está em declínio. Entretanto, o número é considerado ainda expressivo, o que, junto com a sua grande área de ocorrência e o ritmo relativamente lento do seu declínio populacional, fez a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais declarar a Ara macao como em condição "pouco preocupante" (LC). Porém, há um consenso de que a espécie precisa receber atenção. Já foi declarada como "ameaçada" na lista Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção.
Prefere viver em altitudes não superiores a mil metros, nas galerias das florestas tropicais, úmidas ou secas, frequentando os estratos arbóreos superiores, embora desça ao solo em ocasiões. Pode viver nas beiras das matas, nos descampados, desde que sobrevivam algumas árvores grandes e altas, e habitar até áreas suburbanas se não for molestada. Prefere a proximidade dos rios, mas pode obter água também de depósitos naturais em bromélias e forquilhas de troncos. Gosta de tomar banho de chuva e entre seus hábitos está roer muita madeira. Não tem grande fôlego, sendo capaz só de voos curtos, mas é um excelente escalador e acrobata das árvores. Manipula seus alimentos com uma pata com grande habilidade e parece gostar de se divertir com objetos vários que encontra. Pelo seu tamanho quase não tem predadores, mas felinos e aves de rapina de grande porte podem caçá-la. É uma espécie muito gregária e pode conviver com outras araras e papagaios. Voa em pares ou grupos de três, unidos frouxamente a um grande grupo. Alimenta-se em grupos grandes, preferencialmente de sementes de frutos ainda verdes, mas também come frutos maduros, folhas, larvas, flores, brotos, néctar e ocasionalmente terra, para obter suplementos minerais e eliminar toxinas da dieta. Tem um importante papel de dispersora de sementes no equilíbrio de seus ambientes, e como prefere as sementes, muitas vezes descarta as polpas dos frutos, que caem ao solo ou ficam expostas, sendo consumidas por outras aves, insetos e mamíferos que de outra forma não teriam acesso a elas. Com seu bico poderoso abre sementes muito duras, cujas sobras também servem de alimento para outras espécies.
Esta arara é uma figura destacada em muitas culturas indígenas americanas desde tempos imemoriais. Foi identificada em murais em Bonampak e foi esculpida em pedra em Copán, ambos monumentos da cultura Maia, que a identificava com o calor solar e a associava à deidade primordial chamada Sete Araras. Entre os Astecas era a ave que carregava até a vida além-túmulo as almas dos mortos nascidos no 11º dia de sua semana de treze dias. Uma arara, identificada como provavelmente a macao, era a principal deidade aviforme na cultura Izapan. Suas penas, usadas em adornos e artefatos religiosos, foram encontradas em muitos ítens arqueológicos, incluindo múmias do Peru. Também foi encontrado um esqueleto parcial desta arara sobre a cabeça de um esqueleto humano em um enterramento no Panamá, que pode ter sido de um xamã. Entre os Bribri da Costa Rica era um animal protetor; suas penas vermelhas eram usadas em ritos de cura e em cerimônias fúnebres para afugentar maus espíritos e iluminar o caminho dos mortos até o novo mundo. A água que elas bebiam de ocos em troncos também era considerada curativa. Desde antes da chegada de Colombo foi muito procurada, na região do norte do México e sudoeste dos Estados Unidos, para retirada de plumas, para funções rituais e para domesticação, com um grande centro de criação em Paquimé.


