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Aquarius (filme)

Aquarius é um filme franco-brasileiro, dos gêneros drama e suspense, escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho. É produzido por Emilie Lesclaux, Saïd Ben Saïd e Michel Merkt, coproduzido por Walter Salles e estrelado por Sônia Braga. Suas filmagens ocorreram no intervalo de sete semanas entre agosto e setembro de 2015, em vários bairros do Recife, bem como na Praia dos Carneiros, a 80 quilômetros da capital pernambucana.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 18/07/2026
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Sinopse

Aquarius é dividido em três capítulos: "O cabelo de Clara", "O amor de Clara" e "O câncer de Clara". O enredo começa em 1980, no aniversário de tia Lúcia (Thaia Perez), com a protagonista Clara (Bárbara Colen) casada e mãe de 3 filhos. Ela ainda é jovem, e se recupera de um câncer. Em seguida, a trama salta para 2016, e vemos que Clara (Sônia Braga), agora viúva, vive no edifício Aquarius há mais de 30 anos, criou seus filhos ali e guarda grandes lembranças do local. Ela é a última moradora do Aquarius, que é situado em área valorizada do Recife; todos os demais apartamentos foram comprados pela Construtora Bonfim, que pretende demolir o prédio e erguer ali um maior e mais moderno. Contudo, a personagem não vê motivos para se mudar, e então passa a sofrer variadas formas de assédio e a receber ofertas que não lhe interessam, principalmente de Diego (Humberto Carrão), o responsável pelo projeto do novo edifício. Para além deste conflito, vemos o dia a dia da protagonista, em seus momentos mais íntimos e triviais. Ela parece flertar com o salva-vidas Roberval (Irandhir Santos), tem uma dinâmica difícil com a filha Ana Paula (Maeve Jinkings), que quer que ela venda o apartamento, e é particularmente próxima de seu sobrinho Tomás (Pedro Queiroz), a quem aconselha a escutar Maria Bethânia e mostrar as músicas desta para a garota com que ele está se relacionando.

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Produção

Imagem: Brian Auer · BY-NC-ND · Openverse

Orçamento

Aquarius foi produzido por Emilie Lesclaux, através da CinemaScópio Produções, com coprodução de Saïd Ben Saïd, através da produtora francesa SBS Productions, e das brasileiras Videofilmes e Globo Filmes. O longa obteve parte de seu financiado através da Lei do Audiovisual, que determina que a iniciativa privada possa patrocinar projetos e depois descontar parte do valor em seu imposto de renda. O filme foi autorizado a captar 2,9 milhões de reais pela Lei, e destes conseguiu levantar cerca de 1,95 milhões de reais. Somando-se patrocínio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), o orçamento total da obra foi de 3,4 milhões de reais.

Filmagens e locações

As filmagens aconteceram ao longo de sete semanas entre 4 de agosto e 23 de setembro de 2015, em vários bairros da cidade do Recife, entre eles Boa Viagem, Santo Antônio, Casa Forte, Campo Grande, Pina, Setúbal, Brasília Teimosa e na Praia dos Carneiros, a 80 quilômetros do Recife. Cenas foram gravadas no Restaurante Leite, no Clube das Pás, na Livraria da Praça de Casa Forte, no Cemitério de Santo Amaro e no Edifício Oceania, que serviu como locação principal para as filmagens. O filme foi inspirado no Edifício Caiçara, erguido na década de 1930 e parcialmente demolido em 2013. Os planos iniciais eram que ele fosse gravado no próprio Caiçara, contudo, a demolição deste acabou impossibilitando a equipe de realizar as filmagens na locação. Com isso, as cenas tiveram que ser rodadas no Edifício Oceania, um prédio vizinho e com características bem parecidas com as do Caiçara. Antes de encontrar o Oceania, a produção buscou locações também em João Pessoa e Maceió. O ritmo de trabalho foi intenso, com a equipe chegando a fazer doze horas de filmagens por dia, seis dias por semana.

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Trilha sonora

Imagem: jurvetson · BY · Openverse

As músicas utilizadas em Aquarius servem como uma espécie de "ponte" para aquilo que era tocado principalmente nos anos 1970 – fase em que Clara trabalhou como crítica musical e que a personagem define como sua década preferida. Ainda que a trilha sonora não tenha sido lançada para compra em formato físico ou mesmo digital, a distribuidora Vitrine Filmes produziu cerca de 100 fitas cassetes com as canções do longa-metragem e as enviou para um público selecionado. As fitas vieram acompanhadas de uma carta escrita numa máquina de escrever, assinada pela personagem Clara. Também foi disponibilizada uma lista no serviço de streaming Spotify com todas as faixas utilizadas no filme; são elas:

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Lançamento

Imagem: Daniel Mennerich · BY-NC-ND · Openverse

Exibição e bilheteria

O longa-metragem teve sua primeira exibição mundial em 17 de maio, na sala Bazin, dentro do Festival de Cannes. Sua primeira sessão no Brasil ocorreu em 20 de agosto, no Cinema São Luiz, em Pernambuco, para um público de 500 pessoas. Seis dias depois, foi apresentado na 44.ª edição do Festival de Gramado, fora da competição oficial. Aquarius teve sua estreia em circuito comercial nos cinemas brasileiros em 1.º de setembro do mesmo ano. Disponível em mais de oitenta salas durante seu primeiro fim de semana em exibição, teve público estimado em 54 mil pessoas e arrecadação de 880 150 reais — tornando-se a melhor estreia da semana, com média de 600 pessoas por sala. Além disso, tratava-se até então da segunda melhor semana de lançamento de um longa-metragem nacional em 2016, superada apenas pela de Os Dez Mandamentos, que vendera três milhões de ingressos quando entrou em cartaz. Ao término de sua primeira semana completa em exibição, o filme contabilizou cem mil espectadores, expandiu seu circuito para 110 salas e aumentou o número de cidades em que se encontrava disponível de 20 para 33.

Home video e Televisão

Aquarius foi lançado em DVD e Blu-ray no Brasil no fim de novembro de 2016. Ele teve seus direitos de exibição adquiridos no país pela rede de canais por assinatura Telecine e estreou através do Telecine Premium no dia 16 de janeiro de 2017, às 22h. Em abril, Aquarius chegou à programação do Canal Brasil. O filme foi exibido pela primeira vez na televisão aberta brasileira na madrugada de 9 pra 10 de março de 2018 na Rede Globo dentro da sessão de filmes Super Cine.

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Análise e temas

Aquarius é profundamente crítico a um status quo pernambucano, nordestino e brasileiro. Ângela Prysthon, da revista Continente, observa que "ainda que apareçam a 'cor local', o sotaque, a crônica urbana recifense", o filme de Mendonça Filho é uma "tentativa de ruptura com certo padrão de caracterização regional que tenderia ao folclórico e ao caricatural". O próprio diretor diz que a obra é "sobre memória e sobre história, que não são muito valorizadas na nossa cultura". Ele quis fazer um filme "sobre arquivos pessoais", das relações de cada um com seu presente, passado e futuro. A ideia para o roteiro surgiu numa fase em que ele recebia muitas ligações de empresas oferecendo-lhe serviços, no que ele viu como "o mercado querendo entrar na sua vida". Clara é apresentada como uma personagem feminina forte e independente; Mendonça Filho sempre teve em mente que a obra seria protagonizada por uma mulher, pois segundo ele há aspectos sociopolíticos presentes no filme que não teriam o mesmo peso se o personagem central fosse um homem. Eliana Robert Moares, escrevendo para a Folha de S.Paulo, observa que o início do filme nos anos 1980, que mostra Lúcia, tia de Clara, como uma mulher de sexualidade libertária, indica uma "passagem de cetro" da geração mais velha para a mais nova, revelando "uma interessante linhagem de mulheres combativas que, oriundas da classe média, começa a ganhar visibilidade no Brasil dos anos de chumbo". Pedro Alexandre Sanches, escrevendo para a revista CartaCapital, aponta que aos poucos Clara percebe que "o mundo de alta prevalência masculina que a cerca passa a demonstrar de modo crescentemente violento (embora quase nunca explícito) que o projeto de continuidade da vida como ela era não tem futuro".

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Recepção

Opinião da crítica

A edição de janeiro de 2016 da revista francesa Cahiers du Cinéma apresentava Aquarius como um dos dez lançamentos internacionais mais aguardados do ano. Ele foi ovacionado após sua exibição no Festival de Cannes e, para Isabelle Regnier, do jornal francês Le Monde, foi o filme mais bonito do evento. As primeiras críticas vindas de Cannes foram igualmente positivas. Com base em 24 resenhas da imprensa brasileira, o website AdoroCinema lhe atribui uma nota média 4,5/5. Francisco Russo, do próprio AdoroCinema, deu ao filme a classificação máxima de 5 estrelas () e disse: "Aquarius é um belíssimo estudo sobre o Brasil atual e suas idiossincrasias, apontadas com olhar clínico e sem lantejoulas pelo diretor, muitas vezes de forma bastante política". Pablo Villaça, escrevendo para o portal Cinema em Cena, classifica Aquarius como um filme "sobre afeto", destacando que ele é “enriquecido por compreender e buscar a humanidade não só da protagonista, mas até de quase figurantes”. Nesse sentido, ele elogiou o trabalho de todo o elenco, que considerou “homogêneo em qualidade”, também dando à obra 5 estrelas ().

Listas de melhores do ano

Aquarius foi incluído nas listas de melhores filmes de 2016 de diversos críticos brasileiros e estrangeiros. Além disso, a atuação de Sônia Braga foi considerada uma das melhores do ano pelos veículos de mídia norte-americanos Rolling Stone, The Austin Chronicle, The Village Voice, The Hollywood Reporter, Slant Magazine, Salon, e IndieWire, bem como pelas revistas francesas Premiere e Les Inrocks, pelo portal da rede de televisão italiana Sky TG 24 e pelo website brasileiro iG. Por sua vez, Kleber Mendonça Filho foi apontado como um dos dez cineastas mais promissores da atualidade pela revista norte-americana Variety.

Prêmios e indicações

Em abril de 2016, o delegado geral do Festival de Cannes Thierry Frémaux anunciou que Aquarius estaria entre os 21 filmes daquele ano que concorreriam à Palma de Ouro, premiação máxima da competição francesa. Foi a única produção latino-americana selecionada, bem como a primeira produção brasileira a figurar na mostra competitiva desde Linha de Passe, oito anos antes. Aquarius participou de diversos outros festivais de cinema ao redor de mundo, tornando-se destinatário de vários prêmios; além do filme em si, a atuação de Braga foi particularmente reconhecida, rendendo-lhe indicações a Melhor Atriz em vários deles.

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Controvérsias

Protestos em Cannes

Durante o tapete vermelho de sua primeira exibição, no Festival de Cannes, a equipe de Aquarius — entre eles o diretor Kleber Mendonça Filho e a protagonista Sônia Braga — mostrou cartazes em inglês e francês com os dizeres "Um golpe está acontecendo no Brasil", "54 milhões de votos foram queimados" e "Dilma, vamos resistir com você" em protesto contra o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Em sua conta oficial no Twitter, Rousseff agradeceu o apoio de todos. O protesto causou polêmica imediata nas redes sociais e alguns internautas a favor do impeachment chegaram a organizar um boicote ao filme; o jornalista Reinaldo Azevedo, escrevendo para uma coluna on-line da revista Veja, afirmou que "assim que Aquarius estrear no Brasil, o dever das pessoas de bem é boicotá-lo". A frase foi incorporada pela distribuidora Vitrine Filmes a um dos pôsteres do longa-metragem, ao lado de avaliações positivas de grandes veículos de mídia, no que foi entendido por internautas como uma declaração silenciosa de que receber uma crítica negativa de Azevedo fosse algo bom.

Manifestações nas salas de cinema

Ao término da primeira exibição de Aquarius para um grande público, no Festival de Gramado, ouviram-se diversas vaias de "Fora Temer" por parte dos espectadores. A atitude foi replicada por pessoas em diversas salas de cinema do país ao longo da primeira semana de exibição do filme. Jornalistas observaram que as controvérsias que precederam o lançamento do longa-metragem no país deram-lhe uma aura de "desobediência civil" ou ainda de "símbolo de resistência" para grupos contrários ao governo Temer, mesmo que ele seja primariamente uma expressão artística, e não uma obra política.

Classificação indicativa

Em agosto de 2016, Aquarius recebeu do Ministério da Justiça brasileiro uma classificação indicativa de 18 anos, sob alegação de que o material contém "situação sexual complexa". A distribuidora Vitrine Filmes tentou reverter a decisão por meio de recurso, salientando que nos mais de sessenta países nos quais o longa-metragem será distribuído, apenas no Brasil ele recebeu a classificação máxima. O recurso foi negado; segundo a decisão oficial, o pedido de "reconsideração" da classificação do filme para "não recomendado para menores de 16 anos" foi indeferido pois este apresenta "sexo explícito e drogas", não cumprindo os critérios da faixa etária sugerida pela Vitrine Filmes.

Comissão da Secretaria do Audiovisual

À época do lançamento de Aquarius, o Ministério da Cultura, através da Secretaria do Audiovisual, era responsável por definir um júri de profissionais ligados ao cinema que se encarregaria de analisar os longas-metragens nacionais lançados no período e definir um que representaria o país no crivo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, buscando uma vaga na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar. No início de agosto de 2016, o anúncio dos nove jurados que comporiam o grupo daquele ano gerou nova polêmica, com críticas em fóruns especializados à escolha do jornalista Marcos Petrucelli para integrar a comissão. Isto se deve ao fato de Petrucelli, meses antes, haver atacado o ato da equipe de Aquarius em Cannes, além de acusá-la de ter usado verbas públicas para a viagem ao festival.

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Legado para o Edifício Oceania

Imagem: Daniel Mennerich · BY-NC-ND · Openverse

Em outubro de 2016, o Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural de Pernambuco (CPPC-PE) decidiu, por unanimidade, reavaliar um pedido de tombamento do Edifício Oceania, principal locação de Aquarius — o pedido original fora feito em 2003 e negado em 2006. Esta decisão de reabertura atende uma solicitação do arquiteto Milton Botler, que utilizou o longa-metragem como um dos argumentos de reabertura do processo de preservação do prédio. No mesmo mês, em entrevista ao portal UOL, ao comentar o assunto, o diretor Kleber Mendonça Filho afirmou: "Eu lembro de uma coisa no final da première de Aquarius, no [Cinema] São Luiz, no Recife, em 20 de agosto: [o secretário de Cultura de Pernambuco] Marcelino Granja se virou para mim, ainda com os créditos passando, e disse: esse filme acaba de tombar o Oceania". Além disso, por causa da popularidade do filme, o prédio se transformou em um ponto turístico da cidade do Recife, sendo comum pessoas fazerem selfies em frente a ele.

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Fontes consultadas

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