António Côrte-Real
António Sérgio Côrte-Real Ribeiro Alves, mais conhecido como António Côrte-Real, é um músico português, guitarrista, compositor e produtor musical que se notabilizou como guitarrista na banda de rock UHF.
Infância e juventude
António Côrte-Real nasceu em Setúbal, em 2 de fevereiro de 1976. Filho de Maria Duarte de Brito Côrte-Real e de António Manuel Ribeiro, poeta e músico notável do rock português, é o mais velho de três irmãos. Suas irmãs Bárbara e Carolina, psicóloga e design de moda, respetivamente, não fazem da música a sua profissão. No ano em que Côrte-Real nasceu, seu pai dava os primeiros passos no mundo das artes e do espetáculo. Com a democracia restabelecida pela Revolução de Abril e a tropa definitivamente afastada, António Manuel Ribeiro, com 22 anos, consegue em 1976 um estágio como jornalista no jornal desportivo Record. Durante alguns anos conciliou o estágio profissional com a pintura artística e os concertos que ia dando com a sua banda de covers Purple Legion nos bares e bailes da grande Lisboa. Nesse ano começou também a trabalhar na secretaria da Câmara Municipal de Almada para poder sustentar o primeiro filho Côrte-Real e depois o segundo. Ribeiro vacilou nos estudos e a música passou a ser o centro da sua vida. Em 1978 fundou os UHF e foi forçado a afastar-se do lar pelas inúmeras solicitações para concertos, acabando por voltar sempre ao seio familiar, não obstante ausências prolongadas. Côrte-Real cresceu em Almada inserido no ambiente musical e frequentemente assistia aos ensaios dos UHF. Em casa respirava-se música e, ainda criança, presenciou a proliferação desenfreada de bandas resultante do boom do rock português, em 1980, catalisado pela canção "Cavalos de Corrida" dos UHF. Côrte-Real sentiu-se influenciado por esse movimento que lhe abriu as portas para outras descobertas, nomeadamente do rock anglo saxónico. É pai de João Miguel, nascido em 2005.
Determinação pela música
António Côrte-Real nem sempre quis ser músico, mas os caminhos que foi percorrendo levaram-no à música, nomeadamente às guitarras. Na adolescência sentiu-se influenciado também pelo blues e determinado iniciou a carreira ainda como amador, em 1991, nos Falso Alarme. Passou por várias bandas de garagem e percebeu o perigoso e ardil mundo das drogas como modus vivendi de alguns músicos, numa altura em que lia um livro marcante na sociedade portuguesa, como relembra: "Os Filhos da Droga tocou-me na altura exata. Fala de drogas e rock'n'roll numa altura em que em Almada nas primeiras bandas de garagem comecei a ver esse filme bem à minha frente." Após a estreia com os Falso Alarme (1991–1993), fez parte dos Finisterra (1992–1996), MKD (1993), Sirius (1996–1999), UHF (desde 1996), Cronic (2002–2003), Revolta (desde 2006), Côrte-Real Trio (2011) e União das Tribos (desde 2012). Para o músico, as guitarras fazem parte da família e considera como seus heróis os guitarristas João Cabeleira, Jimmy Page, Jimi Hendrix, Billy Duffy, Eric Clapton ou The Edge, por exemplo. Sem se afastar do circuito dos concertos concluiu o 12º ano na Escola Secundária Elias Garcia, em 1995.
Os UHF e outros projetos
Com experiência no mundo do espetáculo, Côrte-Real foi convidado para estagiar nos UHF em 1996 como segundo guitarrista e músico profissional, passando depois a membro integrante e guitarrista principal. Sem desvincular-se dos UHF fundou as seguintes bandas: Fiel à conduta interventiva, Côrte-Real convidou para vocalista e baixo Bruno Alves (Porta Voz) e Anselmo Alves (ex-Lulu Blind) para baterista e fundou, em 2006, a banda Revolta composta por um power trio tendo como objetivo transmitir uma mensagem clara e direta sobre a vida dos nossos dias. Em 2007 percorreram o país tocando sobretudo no circuito de bares e, após a edição de uma demo de onde saiu a canção "Eu Quero Ser" que se impôs no top de algumas rádios, a banda entrou em estúdio e lançou os singles de avanço "Ninguém Manda em Ti" e "Nuclear (Não obrigado)". Com edição da AM.RA Discos e distribuição da Sony Music, o álbum Ninguém Manda em Ti (2009) foi uma aposta na sonoridade punk rock com letras em português. "Nesta vida nada é fácil/ Tudo custa mais do que devia/ Ser banal ter lucro fácil/ Queres viver outro dia/ É proibido ter ideias/ Pensar e falar/ Se queres ser alguém/ Tens de fingir e aguentar", diz o trecho do tema homónimo, para depois lançar as palavras de ordem "Ninguém manda em ti/ Mesmo que queira/ Fecha os olhos e sorri/ A vida inteira", que preenchem o refrão. No entanto, Côrte-Real ratifica o hip hop como a nova canção de intervenção e lembra que esse papel foi a partir de 1979 desempenhado pelo rock mas foi perdendo intensidade nos últimos anos: “As bandas rock que sobreviveram, salvo raras excepções, viraram-se para a melodia fácil (para passar na rádio) e para as letras de amor. O intervencionismo perdeu-se”, lamentou. O guitarrista recorda o exemplo maior de José Afonso, sempre interventivo e de nunca se ter calado. "E hoje", acrescentou, "há necessidade de um outro intervencionismo. Há liberdade mas não se fala. As pessoas acomodaram-se aos 60 canais de televisão, à internet… são utensílios importantes sim senhor, mas não nos podem tapar a visão", concluiu.
Participações
Côrte-Real participou nas gravações dos discos a solo de António Manuel Ribeiro: Sierra Maestra (2000), Somos Nós Quem Vai Ganhar (2003) e As Canções da Casa Escura (2021). Em 2010, Ricardo Soler, finalista do programa Operação Triunfo em 2007, estendeu o convite a Côrte-Real e aos também músicos dos UHF Fernando Rodrigues (baixo) e Ivan Cristiano (bateria) para participarem no disco Portugal Acústico, que reúne sucessos da música pop rock portuguesa. Canções como "À Minha Maneira" (Xutos & Pontapés), "Matas-me com o Teu Olhar" (UHF), "Aprender a Ser Feliz" (Pólo Norte), "Leve Beijo Triste" (Paulo Gonzo) ou "Se Te Amo" (Quinta do Bill), revelam um disco intimista em formato acústico e com novos arranjos.
Imagem: Portuguese_eyes · BY-SA · Openverse
Com passagem pela tabela oficial de vendas, Côrte-Real colaborou como guitarrista nos seguintes álbuns dos UHF: Sou Benfica – As Canções da Águia (23º lugar), Absolutamente Ao Vivo (14º lugar), Porquê? (19º lugar), Ao Norte Unplugged (21º lugar), A Minha Geração (14º lugar), O Melhor de 300 Canções (7º lugar) e A Herança do Andarilho (18º lugar). O álbum ACR3-Midnight in Lisbon (2010) no formato digital, do projeto Côrte-Real Trio, alcançou o primeiro lugar na tabela do site da eMusic – uma das maiores lojas mundiais de música – na categoria de blues. O álbum Amanhã (2017), da União das Tribos, atingiu o terceiro lugar do top de vendas da cadeia Fnac e no dia 18 de fevereiro chegou ao nono lugar na tabela nacional de vendas.


