Antônio Carlos Lemgruber
Antônio Carlos Braga Lemgruber foi um economista, professor e empresário brasileiro. Presidiu o Banco Central do Brasil entre março e agosto de 1985, sendo o primeiro dirigente da instituição após o fim do regime militar e o início da Nova República. Antes disso, destacou-se como pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV) e editor da revista Conjuntura Econômica, além de atuar como executivo do setor financeiro. Descendente de famílias suíças que se estabeleceram em Nova Friburgo no início do século XIX, Lemgruber viveu quase toda a sua vida na cidade do Rio de Janeiro.
Filho do engenheiro Fernando José Ramos Lemgruber e de Maria Mercedes Braga Lemgruber, Antônio Carlos pertencia a uma família de origem suíça que integrou a leva de colonos trazidos ao Brasil em 1819 por um acordo entre os governos do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e de cantões da Suíça. A família se fixou em Nova Friburgo, na região serrana do estado do Rio de Janeiro, embora os pais de Lemgruber residissem na capital. Cursou o ensino básico no Colégio São Bento, no Rio de Janeiro, e em 1966 ingressou na Faculdade de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diplomando-se em 1969. Ainda como estudante, trabalhou na sucursal carioca do jornal Folha de S.Paulo, onde cobria assuntos econômicos. Essa experiência jornalística proporcionou-lhe contato precoce com figuras influentes da economia brasileira, como os ministros Delfim Netto e João Paulo dos Reis Velloso, além do diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) para o Brasil, Alexandre Kafka.
De volta ao Brasil em 1974, Lemgruber foi indicado por Kafka aos professores Mário Henrique Simonsen e Julian Chacel, ingressando na Fundação Getulio Vargas com dupla atuação: pesquisador do Ibre e professor da Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE). Graças à experiência jornalística pregressa, tornou-se também editor da revista Conjuntura Econômica, cargo que exerceu de 1974 a 1979. Nesse período, conviveu com economistas que se tornariam figuras centrais da política econômica brasileira nas décadas seguintes, como Carlos Geraldo Langoni, Paulo Rabello de Castro, Luiz Aranha Corrêa do Lago e Paulo Nogueira Batista Júnior. Em 1979, deixou a direção da Conjuntura Econômica para fundar, em parceria com Chacel, o Centro de Estudos Monetários Internacionais, vinculado à FGV. O centro dedicava-se a pesquisas sobre inflação e políticas monetárias comparadas e firmou convênio com o Banco Central para a produção de estudos na área internacional. Paralelamente, Lemgruber prestava consultoria a instituições financeiras e a organismos multilaterais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Em agosto de 1981, Lemgruber decidiu trocar a carreira acadêmica em tempo integral pela de executivo financeiro, aceitando a diretoria da área internacional do Banco Boavista, instituição pertencente à tradicional família Paula Machado, do Rio de Janeiro. A vaga surgiu com a saída de Eduardo da Silveira Gomes Júnior, que havia sido diretor do Banco Central. Mesmo atuando no setor privado, manteve o vínculo com a EPGE como professor horista e prosseguiu desenvolvendo análises sobre inflação, taxa de câmbio e endividamento externo. A partir desse momento, Lemgruber passou a conciliar os perfis de banqueiro especializado em assuntos internacionais e de economista ligado à FGV, experiência que, segundo avaliação própria, foi determinante para sua futura indicação à presidência do Banco Central.
Nomeação e posse
No final de janeiro de 1985, poucos dias após a eleição indireta de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral, Lemgruber foi convidado para presidir o Banco Central. A indicação partiu do ministro da Fazenda designado, Francisco Dornelles, com quem mantinha relações desde os tempos da FGV. Com apenas 37 anos, tomou posse em 15 de março de 1985, sucedendo Affonso Celso Pastore. A composição da diretoria foi por ele próprio sugerida a Dornelles, que aceitou integralmente os nomes indicados, parte deles proveniente dos quadros do próprio Banco Central. A posse ocorreu em circunstâncias atípicas, pois coincidiu com a internação de Tancredo Neves, cuja gravidade não era de conhecimento público naquele momento. O vice-presidente José Sarney confirmou inicialmente Lemgruber e a equipe econômica no cargo, mas logo tensões em relação à condução da política econômica se fariam visíveis.
Contexto econômico e relações com o FMI
O cenário herdado pelo novo governo apresentava dificuldades acumuladas. A crise de 1983 — marcada por inflação altíssima, recessão e colapso do balanço de pagamentos — havia sido parcialmente revertida em 1984, quando a economia voltou a crescer e a balança comercial se estabilizou. Contudo, a inflação permanecia elevada e as relações financeiras do Brasil com o exterior continuavam fragilizadas. Em fevereiro de 1985, o país descumprira as metas acordadas na sétima carta de intenções firmada com o FMI, resultando na suspensão de parcelas de empréstimos programados para aquele ano. No discurso de posse, Lemgruber defendeu a execução de uma política monetária e fiscal austera e a redução gradual da inflação, enfatizando que o Banco Central operaria em coordenação com as diretrizes do Ministério da Fazenda. Em abril, viajou a Washington para reunir-se com o comitê interino do FMI e, em seguida, a Nova Iorque, onde encontrou banqueiros credores do Brasil. Tentou renegociar as condições estabelecidas no governo anterior pelos ministros Delfim Netto e Ernane Galvêas, propondo metas trimestrais de avaliação, mas acabou sendo obrigado a manter os termos já acordados. Em agosto, percorreu capitais europeias em busca da prorrogação de linhas de crédito comercial e de recursos interbancários, reunindo-se com representantes da banca espanhola, suíça, alemã e francesa.
Crise bancária e política monetária
Além do desafio macroeconômico, a diretoria de Lemgruber enfrentou a fragilidade do sistema bancário. Já no primeiro dia de gestão, o Banco Central precisou intervir no Brasilinvest, banco de pequeno porte então em dificuldades. Ao longo do mandato, outros casos de insolvência bancária se sucederam, sobretudo o do Banco do Comércio e Indústria de São Paulo (Comind), o Banco Auxiliar de São Paulo e o Maisonnave, que vieram a sofrer intervenção extrajudicial em novembro de 1985 — já sob a diretoria seguinte. Em termos de política monetária, a gestão adotou juros elevados — na faixa de 16% a 17% ao ano — combinados com controles de preços pontuais, numa tentativa de conter a pressão inflacionária sem provocar ruptura.
Divergências internas e saída
Alinhado com Dornelles, Lemgruber advogava uma orientação fiscal restritiva voltada à redução do déficit público e ao combate à inflação. Essa linha era contestada pelo ministro do Planejamento, João Sayad, defensor de uma abordagem que privilegiasse o crescimento econômico. O antagonismo entre as duas pastas tornou-se público e, segundo Lemgruber, refletia uma decisão deliberada de Tancredo Neves de manter as opções de política econômica em aberto ao nomear ministros com perfis distintos. Com a consolidação de Sarney na presidência, após a morte de Tancredo, Lemgruber e sua equipe suspeitavam que a permanência no cargo seria breve. O estopim veio com declarações públicas do secretário-geral do Ministério da Fazenda, Sebastião Marcos Vital, que desagradaram ao governo. Dornelles e Lemgruber optaram por pedir demissão coletiva, sendo exonerados por decreto de 26 de agosto de 1985. Na presidência do Banco Central, Lemgruber foi sucedido por Fernão Bracher.
Após deixar o governo, Lemgruber retornou ao Banco Boavista como diretor-geral e retomou as atividades de professor de economia na EPGE/FGV. Ocupou também a vice-presidência da Bolsa Brasileira de Futuros. Em novembro de 1996, em artigo que avaliava o Plano Real, argumentou que a estabilização lançada em 1994 havia gerado déficit público expressivo e baixo crescimento, propondo como alternativa um ajuste fiscal acompanhado da venda de ativos estatais e uma recuperação econômica liderada pelo setor privado.
Em 1991, Lemgruber deixou o Banco Boavista para tornar-se sócio e diretor do Banco Liberal, instituição financeira de menor porte sediada no Rio de Janeiro. Em 1997, participou das negociações que resultaram na transferência do controle acionário do banco para o Bank of America, que adquiriu participação majoritária. Em setembro de 2001, o Bank of America identificou irregularidades contábeis no Banco Liberal avaliadas em cerca de 50 milhões de reais, referentes a operações financeiras realizadas entre janeiro e abril de 1998. Segundo a auditoria, o patrimônio da instituição teria sido inflado por meio da falsificação de ativos de uma subsidiária nas Bahamas, o que levou o banco norte-americano a pagar um valor superior ao real na aquisição. Lemgruber, como um dos três sócios brasileiros responsáveis pela gestão, foi acusado de participação nas irregularidades e afastou-se do banco, passando a residir em Itaipava, na região serrana fluminense.
Lemgruber casou-se com Maria Ivone em 1969, durante o último ano da faculdade de economia. O casal teve uma filha, Flávia, nascida em 1975. Faleceu em 9 de fevereiro de 2011, no Rio de Janeiro.
Ao longo de sua carreira acadêmica, publicou os seguintes livros sobre economia: Contribuiu também com artigos para a Folha de S.Paulo e outras publicações da área econômica.


