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Affonso Celso Pastore

Affonso Celso Pastore foi um economista e professor brasileiro. Último presidente do Banco Central do Brasil durante o regime militar, chefiou a instituição de 1983 a 1985, período marcado pela renegociação da dívida externa brasileira. Antes disso, havia sido secretário dos Negócios da Fazenda do estado de São Paulo e construído uma longa trajetória na FEA-USP, onde chegou a professor titular e diretor. Na segunda metade de sua carreira, à frente da consultoria A. C. Pastore & Associados, consolidou-se como um dos principais analistas de macroeconomia do país, conhecido pela defesa da disciplina fiscal e da autonomia do Banco Central.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 12/07/2026
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Primeiros anos e formação

Imagem: Senado Federal · BY · Openverse

Descendente de imigrantes italianos, Pastore era filho de Francisco e Aparecida Pastore, e cresceu na capital paulista. Obteve o diploma de bacharel em ciências econômicas pela FEA-USP em 1961. Ainda durante a graduação, presidiu o Centro Acadêmico Visconde de Cairu, em 1959. Oito anos depois de formado, defendeu na mesma faculdade a tese de doutorado A resposta da produção agrícola aos preços no Brasil, recebendo o título de doutor em 1969.

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Carreira acadêmica

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Paralelamente às assessorias governamentais, Pastore construiu uma carreira acadêmica extensa. Na virada para os anos 1970, dividiu-se entre dois centros de pesquisa: o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), onde coordenou o núcleo de estudos, e o Instituto de Pesquisas Econômicas (IPE) da USP, cuja secretaria executiva exerceu de 1971 a 1976. Nesse mesmo período, ficou encarregado do curso de pós-graduação em macroeconomia da FEA-USP, função que desempenhou até 1975. Com a livre-docência em econometria, obtida em 1973, ampliou sua atuação internacional. Passou a integrar o National Bureau of Economic Research (NBER), onde organizou seminários sobre economia latino-americana até 1976. Na Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), chefiou as pesquisas no mesmo triênio. Em 1976, um concurso público consolidou seu vínculo com a FEA como professor adjunto de econometria; a promoção a titular e a nomeação para a diretoria da faculdade vieram em 1978.

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Assessorias governamentais

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A proximidade com Delfim Netto, que fora seu catedrático na FEA, definiu o rumo de Pastore na esfera pública. Em 1966, integrou-se ao gabinete de Delfim na Secretaria da Fazenda paulista, durante o governo Laudo Natel — associação que rendeu a ele e a outros discípulos o rótulo de "Delfim boy". Quando Delfim foi promovido ao Ministério da Fazenda, em 1967, Pastore o acompanhou e permaneceu vinculado ao núcleo de assessores que os ministérios da Fazenda e do Planejamento mantinham no IPEA, até 1973. Durante esse período, participou de missões no exterior: em 1967, prestou consultoria à delegação brasileira na avaliação do Comitê Interamericano da Aliança para o Progresso (CIAP), em Washington, e, no ano seguinte, integrou a representação do governo na reunião anual do Fundo Monetário Internacional. Em 1977, atuou como consultor do Comitê Empresarial Brasil-Estados Unidos.

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Secretaria da Fazenda de São Paulo

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A passagem de Pastore pelo governo estadual começou em março de 1979, quando o governador Paulo Maluf o nomeou para chefiar a Secretaria dos Negócios da Fazenda. Na função, participou do conselho técnico do Instituto de Economia Gastão Vidigal, a partir de 1980, e do conselho consultivo da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica, no ano seguinte. O final do período foi marcado pelo escândalo da Paulipetro, estatal paulista de exploração de petróleo que acumulou gastos acima do previsto e gerou um déficit orçamentário significativo. Em janeiro de 1983, Pastore declarou que a responsabilidade pelo rombo cabia a Osvaldo Palma, titular da pasta de Indústria, Comércio, Ciência e Tecnologia, e deixou a secretaria dois meses depois.

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Presidência do Banco Central

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Nomeação e contexto

Pastore chegou ao Banco Central em agosto de 1983, indicado pelo ministro Ernane Galvêas para o lugar de Carlos Geraldo Langoni. Já no discurso de posse, afastou qualquer expectativa de tratamento de choque e reafirmou a adesão ao programa acertado com o Fundo Monetário Internacional, mesmo que isso implicasse queda do PIB. Para ele, o pré-requisito de qualquer retomada era o controle das contas do governo.

Gestão da crise da dívida

O cenário que Pastore encontrou era de estrangulamento financeiro. A estratégia de tomar empréstimos no exterior para sustentar o crescimento, adotada nos anos 1970, havia entrado em colapso com o encarecimento do petróleo em 1979, que secou a oferta de crédito internacional. Antes mesmo de sua posse, desde 1982, o governo federal já negociava com os bancos credores a reprogramação de vencimentos, a liberação escalonada de novos recursos e a manutenção do fluxo de operações bancárias de curto prazo entre instituições estrangeiras e suas filiais no Brasil. A visão de Pastore para equacionar o problema ia além do ajuste interno: defendia um arcabouço internacional cooperativo, no qual as nações ricas e os organismos multilaterais contribuíssem com a abertura de mercados, a moderação dos juros globais e o reforço dos fundos disponíveis pelo FMI. No encerramento de 1984, essa linha de atuação resultou na assinatura de um acordo plurianual de reestruturação da dívida.

Política monetária e inflação

Apesar dos esforços de contenção monetária e fiscal, a inflação permanecia elevada. Em setembro de 1984, Pastore expôs publicamente o impasse em que se encontrava: a desvalorização cambial era necessária para garantir a competitividade externa, mas, ao mesmo tempo, realimentava os preços internos. Suspender esse mecanismo, porém, poderia agravar a recessão e desmontar parte do parque industrial. Diante desse dilema, projetava uma recuperação lenta, que começaria pelas vendas externas e pela produção rural, se espalharia depois para setores como habitação e consumo doméstico, e só ao cabo de cerca de três anos permitiria afrouxar os juros e atrair de volta o investimento privado.

Representações internacionais

Como presidente do Banco Central, teve assento no Conselho Monetário Nacional e no conselho de administração do Banco do Brasil. Exerceu ainda a função de governador suplente do Brasil em organismos multilaterais — o FMI, o BID, o BIRD, o Fundo Financeiro para o Desenvolvimento da Bacia do Prata (Fonplata) e o FAD.

Saída do cargo

Transmitiu a presidência em 15 de março de 1985, quando da posse do governo civil de José Sarney, encerrando o ciclo de dirigentes do Banco Central nomeados durante os governos militares iniciados em 1964.

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Setor privado e consultoria

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Ao deixar o governo, Pastore abriu um escritório de consultoria em São Paulo — a Pastore & Associados — para atender corporações de grande porte. Ainda em 1985, assumiu uma cadeira no conselho da Caterpillar do Brasil. Duas décadas depois, em 2002, passou a compor o conselho de administração do Grupo Gerdau. A fase final de sua carreira, a partir de 2006, foi dedicada à A. C. Pastore & Associados, consultoria focada em cenários macroeconômicos. Tornou-se também articulista frequente em veículos como o Valor Econômico e o Estado de S. Paulo.

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Posicionamentos econômicos

Imagem: Superior Tribunal de Justiça (STJ) · BY · Openverse

Ao longo de quatro décadas, Pastore ocupou posição de destaque no debate público sobre política econômica, situando-se de forma consistente no campo ortodoxo: sustentava que o equilíbrio fiscal era pré-condição para a estabilidade de preços e para o crescimento sustentado.

Oposição ao Plano Cruzado

Filiado ao Partido Democrático Social (PDS), Pastore combateu as políticas econômicas do governo José Sarney desde o início. Sua discordância com o Plano Cruzado (1986) era tanto conceitual quanto operacional. No plano conceitual, recusava a tese então dominante de que bastava neutralizar o componente inercial para deter a alta de preços — para ele, o motor da inflação era fiscal, não mecânico. No plano operacional, avaliava que travar preços e salários ao mesmo tempo que se expandia o crédito a juros baixos era receita para um superaquecimento da demanda que acabaria sufocando a oferta. A moratória da dívida, decretada pelo governo, reforçou sua convicção de que a equipe econômica era incapaz de chegar a acordos viáveis com os credores.

Defesa da austeridade fiscal

A ideia-força que atravessa toda a atuação pública de Pastore nos anos 1980 é a de que nenhum plano de combate à inflação sobreviveria a um governo que gasta mais do que arrecada. Apontava duas raízes estruturais para o rombo: o tamanho do aparato produtivo estatal — que a seu juízo precisava ser enxugado via privatização — e a indisciplina financeira dos bancos controlados pelos estados. Completavam sua agenda a renegociação do passivo externo e a geração de superávits mediante cortes orçamentários e, se necessário, novos tributos. À Assembleia Constituinte, dirigiu críticas duras, classificando como fantasiosa a ideia de inscrever na carta um limite para a taxa de juros.

Análise do Plano Collor

O Plano Collor, anunciado pela ministra Zélia Cardoso de Melo em março de 1990, motivou uma de suas análises mais contundentes. Pastore considerou equivocada a ideia central do pacote — a de que os preços subiam por haver dinheiro demais aplicado em ativos indexados. Partindo dessa discordância, concluiu que o sequestro de quatro quintos da poupança financeira dos brasileiros não teria efeito duradouro sobre a inflação, pois não enfrentava a origem fiscal do problema. Em lugar de confiscos, sua proposta era libertar o Banco Central da obrigação de garantir a recompra de títulos federais, conferindo-lhe poder real para regular a quantidade de moeda em circulação. Reiterou também a bandeira da independência institucional do banco, que, em seu modelo, deveria ser proibido tanto de transferir recursos ao Tesouro Nacional quanto de participar das colocações primárias de papéis da dívida.

Posição sobre o Plano Real

Diferentemente dos planos anteriores, o Plano Real obteve de Pastore uma avaliação inicialmente favorável. Ele reconheceu a engenhosidade da transição gradual promovida pelo ministro Fernando Henrique Cardoso no governo Itamar Franco: a nova moeda fora introduzida sem os traumas de congelamentos ou bloqueios de ativos que haviam marcado as tentativas anteriores. Fez, porém, uma ressalva que se revelaria profética: estabilizar preços não implicava, por si só, redistribuir renda. A partir de 1995, já com Fernando Henrique no Palácio do Planalto, sua postura mudou de apoio cauteloso para crítica aberta. O cerne da objeção era que, embora o Real tivesse cortado o elo entre emissão de moeda e inflação, a conta pública continuava deficitária. Para financiar esse buraco, o governo precisava de juros altos que atraíssem dólares — um arranjo que multiplicava a dívida interna e engessava a economia. Em 1997, acusou o presidente de gastar prestígio político para viabilizar a emenda da reeleição, quando o prioritário seria aprovar reformas estruturais capazes de blindar o país contra ataques especulativos. Um ano depois, passou a considerar o plano de estabilização insustentável enquanto não se enfrentasse o desequilíbrio fiscal.

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Morte

Affonso Celso Pastore morreu em São Paulo no dia 21 de fevereiro de 2024, aos 84 anos de idade.

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Vida pessoal

Era casado com Maria Cristina Pinotti, com quem teve três filhos.

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