Anticiclone do Atlântico Sul
O anticiclone do Atlântico Sul, também conhecido como alta subtropical do Atlântico Sul (ASAS) ou anticiclone de Santa Helena, é um sistema de alta pressão semipermanente sobre o sul do oceano Atlântico. Assim como as demais altas subtropicais, que se encontram sobre os principais oceanos do planeta e em ambos os hemisférios, está localizado próximo à latitude de 30°. Sua formação ocorre a partir do ar quente e úmido das regiões equatoriais, que se desloca na altura da troposfera em direção aos polos. Durante o transporte esse ar passa por resfriamento, além de se tornar mais seco e denso e, portanto, propício à subsidência. Próximo à latitude de 30°, a massa tropical atlântica força o ar seco a descer e, ao mesmo tempo, a atmosfera se aquece e a umidade relativa diminui, impedindo a formação de instabilidades. A força exercida pelo ar descendente é o que gera a elevação da pressão sobre a superfície.
Os sistemas de alta pressão, também chamados de centros anticiclônicos ou anticiclones, são classificados em polares, migratórios e subtropicais (ou semipermanentes). As altas subtropicais, a exemplo da alta subtropical do Atlântico Sul (ASAS), encontram-se sobre os principais oceanos do planeta e próximas à latitude de 30° de ambos os hemisférios, a chamada latitude dos cavalos. A ASAS também é chamada de anticiclone de Santa Helena devido à localização próxima da ilha de Santa Helena, única porção de terra nessa latitude. Sua formação se inicia no ar quente e úmido das regiões equatoriais. Esse ar, ao atingir a troposfera, desloca-se em direção aos polos e passa por resfriamento durante o transporte, além de se tornar mais seco e denso e, portanto, propício à subsidência. Quando chega próximo à latitude de 30°, a subsidência é influenciada pela circulação de massas de ar descendentes: o ar seco é forçado a descer e, ao mesmo tempo, a atmosfera se aquece e a umidade relativa diminui, impedindo a formação de instabilidades. A força exercida pelo ar descendente é o que gera a elevação da pressão sobre a superfície. No caso da ASAS, o aumento da pressão é feito a partir da massa tropical atlântica (mTa).
O posicionamento da ASAS, sobretudo no que se refere ao deslocamento longitudinal do centro do sistema, constitui um influenciador direto no clima da América do Sul, principalmente do Brasil, além de parte da costa sudoeste da África. Sua localização atua na regulação das estações seca e chuvosa em boa parte dessas áreas, através das manipulações do direcionamento dos ventos e/ou da geração de bloqueios atmosféricos. O dipolo subtropical do Atlântico Sul (DSAS) é outro fator diretamente ligado à posição da ASAS e, aliado à circulação de ventos do anticiclone, também possui influência no clima daquelas regiões.
Oscilação e interação com a temperatura da superfície do mar
A oscilação longitudinal da ASAS dura cerca de seis meses, com sua atuação mais a leste nos meses de outubro e abril e mais a oeste entre julho e agosto e de janeiro a março. Já o deslocamento norte–sul varia conforme a ZCIT, que empurra o anticiclone para uma posição mais a sul durante os meses de dezembro, janeiro e fevereiro. A variação leste–oeste de seu centro varia em média 8,3°W ao longo do ano, ao passo que a oscilação norte–sul apresenta uma diferença média de 4,5°S. A pressão no centro do sistema varia entre 1 021 hPa de dezembro a abril e 1 026 hPa em agosto. No entanto, cabe ressaltar que não existe um ciclo cumprido à risca e fatores como frentes frias geram variações no sistema. Além disso, eventos de El Niño podem favorecer uma atuação do anticiclone mais a norte, enquanto que a La Niña tende a incentivar o deslocamento para sul.
Influência no regime de chuvas
O deslocamento da alta subtropical do Atlântico Sul para oeste, independentemente da época do ano, eleva a pressão atmosférica nessa região e o geopotencial associado a uma crista. Na costa africana, por sua vez, a pressão diminui, bem como o geopotencial, levando à configuração de um cavado. Por outro lado, a ASAS deslocada para leste inverte essa situação. O afastamento da ASAS da costa brasileira e sua aproximação do sudoeste da África estão ligados ao aumento da intensidade dos ventos que incidem no litoral dessa região, bem como as ressurgências relacionadas. Dessa forma, nos meses de verão, com a relativa acareação com a África, o anticiclone gera predomínio de tempo bom na costa oeste africana, devido ao transporte de ar tropical.
O deslocamento da alta subtropical do Atlântico Sul em direção ao continente sul-americano no verão acarreta longos períodos de chuvas irregulares e com temperaturas acima da média. O avanço da ASAS sobre o Brasil na estação chuvosa configura então uma situação de bloqueio atmosférico fora de época sobre a maior parte do Sudeste, Centro-Oeste e Sul brasileiro, o chamado veranico, impedindo o avanço das frentes frias, a influência da umidade da Amazônia e a formação dos sistemas de umidade. O bloqueio no verão também propicia a entrada de ondas de calor, que são intensificadas pela diminuição da nebulosidade e pela radiação solar intensa típica da estação. A atuação prolongada e em posição anormal da ASAS foi a responsável pelo quadro de seca na Região Sudeste do Brasil na década de 2010, contribuindo com a crise hídrica, entretanto o interior do Brasil em geral apresentou irregularidades. O verão 2013–2014 foi o mais quente e seco no país em 71 anos. Segundo um estudo publicado no periódico Nature Geoscience em 2019, perturbações na atmosfera originadas sobre o oceano Índico, onde são notadas sob a forma de precipitações intensas, deslocam-se em direção leste até atingirem a América do Sul cerca de uma semana depois. Sobre o Atlântico Sul, essa perturbação é percebida por meio do fortalecimento do ar quente e seco atuante sobre o mar e o seu deslocamento em direção ao continente, através de ventos em circulação anti-horária. O veranico que agravou a seca no Sudeste brasileiro em 2014 foi fortalecido pelo aquecimento da temperatura do mar no Atlântico Sul, provocado justamente pela ausência de nebulosidade no oceano e posterior influência da radiação solar. Isso intensificou ainda mais o ar seco e quente que penetrou o continente, parte de uma onda de calor marinha.
Esse sistema afeta muito a navegação, uma vez que os ventos associados geralmente não são fortes e as embarcações precisam ir para o norte ou sul do centro da região de alta pressão, dependendo da direção da viagem, para encontrar ventos favoráveis em força e direção. Como a ASAS influencia diretamente na intensidade e direção dos ventos, posteriormente gera impactos na produção de energia eólica do Brasil, em especial na Região Nordeste, onde os ventos são relativamente mais intensos e constantes em relação ao restante do país. Por essa razão, a região concentra a maior parte das unidades de produção. O anticiclone mais próximo da costa brasileira gera circulação mais intensa no Nordeste, enquanto que seu deslocamento para leste implica o enfraquecimento dos ventos. A maior influência da ASAS no continente sul-americano durante o inverno implica a configuração da estação seca e, por causa da subsidência, favorece a queda das temperaturas. A falta de chuvas e a diminuição da umidade relativa do ar agravam a concentração de poluentes nos centros urbanos, especialmente nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. No entanto, mesmo no inverno, o anticiclone pode favorecer a entrada de massas de ar quente e seco, condições que propiciam a proliferação de queimadas. Com isso, entre o final do inverno e o começo da primavera os focos de incêndio se tornam comuns, principalmente no Brasil central, bem como os valores extremos de baixa umidade. A circulação da alta subtropical do Atlântico Sul sobre o Brasil também é capaz de gerar um transporte da poluição produzida pelas queimadas da Amazônia em direção à Bolívia, Paraguai, norte da Argentina e partes das regiões Sul e Sudeste do Brasil.


