Urso-polar
O urso-polar, também conhecido como urso-branco, é uma espécie de mamífero carnívoro da família Ursidae encontrada no círculo polar Ártico. Ele é o maior carnívoro terrestre conhecido e também o maior urso, juntamente com o urso-de-kodiak, que tem aproximadamente o mesmo tamanho. Embora esteja relacionado com o urso-pardo, esta espécie evoluiu para ocupar um estreito nicho ecológico, com muitas características morfológicas adaptadas para as baixas temperaturas, para se mover sobre neve, gelo e na água, e para caçar focas, que compreende a maior porção de sua dieta.
A espécie foi descrita como Ursus maritimus por Constantine John Phipps, 2º Barão de Mulgrave, em seu livro "A voyage towards the North Pole" publicado em 1774. (a) Em 1825, John Edward Gray cunhou o termo genérico Thalarctos(b) para o urso-polar levando em conta as diferenças na coloração, formato do crânio, número de pré-molares e nos hábitos. A taxonomia da espécie passou por mudanças ao longo dos anos, com uma corrente de pesquisadores sustentando que a espécie merecia figurar em um gênero distinto, sendo assim utilizando o binômio Thalarctos maritimus, enquanto outro grupo continuava a usar a combinação original da espécie, fazendo com que a mesma permanecesse no gênero Ursus. A controversa posição taxonômica da espécie só foi estabilizada na década de 1990, quando análises genéticas, especialmente de sequências de DNA mitocondrial, comprovaram o parentesco entre o urso-pardo e o urso-polar.
O urso-polar é encontrado no círculo polar ártico e áreas continentais adjacentes. A área de distribuição inclui territórios em cinco países: Dinamarca (Groenlândia), Noruega (Svalbard), Rússia, Estados Unidos (Alasca) e Canadá. Os limites meridionais de sua distribuição são determinados pela disposição anual do gelo flutuante e do gelo permanente durante o inverno. A espécie têm sido registrada ao norte até 88º e ao sul até a ilha St. Matthew e ilhas Pribilof, no mar de Bering, e baía de James e ilha de Terra Nova, no Canadá. Avistamentos esporádicos são relatados em Berlevåg na Noruega continental e nas ilhas Kurilas no mar de Okhotsk. Além disso, animais errantes ocasionalmente chegam na Islândia. Na décadas de 1960 e 1970, os pesquisadores começaram a obter informações sobre a estrutura das populações de urso-polar dispersas por todo o Ártico e sobre a movimentação realizada pelos mesmos. Em 1993, durante o encontro da "IUCN's Polar Bear Specialist Group", a primeira tabela oficial da situação dessas populações foi formalizada com reconhecimento de quinze subpopulações. Em 2009, um total de dezenove subpopulações foram reconhecidas. Estes grupos reconhecidos devido a uma fidelidade sazonal a algumas áreas em particular, são geneticamente similares, não havendo evidências de que algum grupo tenha evoluído separadamente por períodos significativos de tempo.
O urso-polar é o maior carnívoro terrestre, o urso-de-kodiak(Ursus a. middendorffi) ocupa o segundo lugar sendo mais robusto que o polar, só que ligeiramente menor em tamanho.[quem?] Um urso polar adulto pesa entre 350 a 700 kg e mede entre 2,4 a 3 metros de comprimento total. O corpo de um urso-polar é grande e encorpado, muito similar ao do urso-pardo, exceto pela ausência da protuberância nos ombros. O pescoço é mais longo que em qualquer outra espécie do gênero, e a cabeça é relativamente pequena e achatada. A espécie apresenta um acentuado dimorfismo sexual, sendo os machos maiores que as fêmeas em tamanho, e também com os dentes caninos maiores e uma arcada molar mais longa. Existe uma grande oscilação no tamanho dos ursos em diferentes regiões geográficas devido a existência de uma variação clinal de Spitzenberg, onde os ursos são menores, ao estreito de Bering, onde são maiores. Presumivelmente a variação clinal também é similar através da Sibéria em direção ao mar de Bering, apesar de não ter sido investigada. O maior espécime já registrado foi um macho que pesava 1,002 quilos quando foi morto em Kotzebue Sound, no noroeste do Alasca, em 1960, e que está em exposição no aeroporto de Anchorage.
O urso-polar é um animal solitário, exceto na época reprodutiva, e em certas épocas do ano quando machos adultos são altamente sociáveis. O pico de atividade ocorre no final da primavera e início do verão quando as focas são mais abundantes. A espécie vive numa área de vida que incluem os locais de alimentação, de ninho, de acasalamento e de refúgio. Essas áreas não são defendidas e sobrepõe-se com a de outros ursos. Se as condições do gelo permitirem, um urso pode utilizar a mesma área ano após ano. As áreas de vida das fêmeas variam de pequenas delimitações de até 200 quilômetros quadrados a extensas áreas de até 960 000 quilômetros quadrados. Vários fatores afetam a quão grande será a área utilizada por uma fêmea num ano. Mães com filhos mais velhos têm áreas maiores, fêmeas com recém-nascidos áreas menores. Diferenças no tamanho entre populações também são afetadas pela dinâmica do gelo marinho, e são maiores nas áreas de gelo flutuante e menores no gelo permanente. As áreas de vida de machos são pouco estudadas, mas devem ser similares as das fêmeas adultas.
O urso-polar é o membro mais carnívoro da família. Sua dieta consiste principalmente de focas-aneladas (Phoca hispida), e em menor frequência focas-barbudas (Erignathus barbatus). Outras focas, como a foca-da-groenlândia (Pagophilus groelandicus) e a foca-de-topete (Cystophoca cristata), também podem fazer parte da dieta. Ocasionalmente se alimenta de pequenos mamíferos, aves, ovos, peixes e vegetação (raízes, bagas, musgos e líquens) quando outras fontes não estão disponíveis. Referências escassas relatam ursos atacando belugas (Delphinapterus leucas) e narvais (Monodon monoceros). Oportunista também se aproveita de carcaças de baleias, morsas (Odobenus rosmarus), bois-almiscarados (Ovibos moschatus) e caribus (Rangifer tarandus). As focas tornam-se presas quando vêm a superfície para respirar em buracos ou quando estão descansando no gelo. Os ursos-polares caçam principalmente na interface entre água e gelo; raramente conseguindo caçar em terra ou em águas abertas. O método mais comum utilizado pela espécie é a "caça de espera". O animal utiliza-se do olfato apurado para localizar um orifício de respiração utilizado pelas focas, e agacha-se próximo em silêncio esperando a foca aparecer. Quando a presa expira, o urso sente a respiração, e atinge o buraco com uma das patas dianteiras, e arrasta o animal para fora do gelo. O urso-polar mata a foca mordendo sua cabeça até esmagar o crânio. O urso-polar também utiliza a "caça por perseguição", que consiste em perseguir as focas que estão descansando sobre o gelo, surpreendendo-as com uma aproximação furtiva e então lançando-se ao ataque. Um terceiro método de caça consiste em invadir os ninhos que as focas fêmeas fazem no gelo para dar a luz e criar os filhotes.
O urso-polar tem um sistema de acasalamento poligâmico e em algumas regiões esse relacionamento é promíscuo. Machos e fêmeas permanecem juntos por um curto período de tempo enquanto as fêmeas estão receptivas, não havendo qualquer outro vínculo entre os sexos. A estação reprodutiva ocorre no final do inverno e início da primavera, de março até junho. A maioria das ovulações ocorrem em abril e maio, fazendo que o estro não seja sincronizado. As fêmeas entram em estro a cada dois ou três anos após o desmame dos filhotes ou após perderem as crias antes do desmame. Esta associação prolongada entre fêmea e filhotes resulta em uma relação distorcida entre os sexos funcionais, com dois a três machos disponíveis para cada fêmea no cio, levando a uma maior concorrência entre os machos para o acesso às fêmeas no cio. Consequentemente, os machos podem formar hierarquias de dominância, muitas vezes instáveis, através de combates que resultam em mordidas, escoriações e dentes quebrados, especialmente os caninos.
O urso-polar está classificado como "vulnerável" pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN) desde 2006. A espécie estava classificada como pouco preocupante até 2005, quando a categoria foi elevada baseada em suspeitas de uma redução na população superior a 30% dentro de três gerações (45 anos) devido ao declínio na área de ocupação, na extensão da distribuição e na qualidade do habitat. A espécie está listada no "Apêndice II" da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES). Em 11 de junho de 2014, o governo da Noruega redigiu uma proposta para incluir o urso-polar no "Apêndice II" da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS). O Departamento do Interior dos Estados Unidos em 14 de maio de 2008 listou o urso-polar entre as espécies ameaçadas sob o "Endangered Species Act". No Canadá, o "Committee on the Status of Endangered Wildlife in Canada" recomendou em abril de 2008 que o urso fosse classificado como uma espécie de interesse especial de conservação sob o "Species at Risk Act". Na Rússia está listado no "Red Data Book of the Russian Federation". Na Noruega a espécie tem proteção total contra a caça predatória desde o tratado de Svalbard de 9 de fevereiro de 1920.
Poluição e desenvolvimento
A posição do urso-polar no topo da cadeia alimentar do Ártico faz com que ele seja exposto a níveis elevados de poluentes. Entre os grupos de poluentes, destacam-se os hidrocarbonetos, os poluentes orgânicos persistentes (POPs) e os metais pesados. Uma característica chave dos poluentes é que eles tendem a persistir no meio ambiente e são resistentes à degradação. Muitos dos poluentes organoclorados são lipofílicos e ligam-se firmemente às moléculas de gordura. Os ursos-polares são particularmente vulneráveis a estes agentes, especialmente o dicloro-difenil-tricloroetano (DDT) e o pentaclorofenol (PCP), por causa da dieta rica em gordura. Estudos têm sugerido que altas concentrações de PCP têm associação direta com a diminuição da resistência às infecções devido ao comprometimento do sistema imune. Certas áreas do Ártico, como o nordeste da Groenlândia, o mar de Barents e o mar de Kara, têm níveis mais elevados de poluentes devido ao transporte global e padrões de deposição. Com base em estudos em outras espécies, é razoável acreditar que a carga de poluentes dos ursos-polares em algumas áreas estão afetando negativamente o sistema imunológico, a regulação hormonal, os padrões de crescimento, a reprodução, e as taxas de sobrevivência.
Mudança climática
A IUCN, Arctic Climate Impact Assessment, United States Geological Survey e muitos biólogos especialistas em ursos-polares têm expressado sérias preocupações sobre o impacto das mudanças climáticas, incluindo a crença que o aquecimento global põe em risco à sobrevivência da espécie. O principal perigo causado pela mudança climática é a desnutrição e inanição devido à perda do habitat. Os ursos-polares caçam focas nas plataformas de gelo, e a elevação das temperaturas podem fazer com que o gelo do mar derreta mais cedo a cada ano, levando os ursos para a costa antes de terem constituído reservas de gordura suficientes para sobreviver ao período de carência alimentar no final do verão e início do outono. A redução da cobertura de gelo também força os ursos a nadarem longas distâncias, o que esgota ainda mais seus estoques de energia e, ocasionalmente, leva ao afogamento. Calotas polares mais finas tendem a deformar mais facilmente, o que parece torná-las um ambiente mais difícil para os ursos-polares conseguirem caçar focas. A nutrição insuficiente leva a diminuição das taxas reprodutivas em fêmeas adultas e menores taxas de sobrevida em filhotes e juvenis, além de baixa condição corporal em ursos de todas as idades.
Controvérsias
As preocupações sobre o futuro da espécie são frequentemente contrastadas com o fato que as estimativas populacionais têm aumentado nos últimos 50 anos e são relativamente estáveis.
Cativeiro
O primeiro registro de um urso-polar cativo, provavelmente, pertence a um urso branco mantido no zoológico privativo de Ptolomeu II Filadelfo, rei do antigo Egito (285-246 a.C.), em Alexandria, há 2300 anos. Os romanos também possuíam registros de ursos-polares. Calpúrnio, em 57 d.C., escreveu sobre ursos perseguindo focas em um anfiteatro inundado. Os reis da Noruega frequentemente mantinham ursos-polares cativos desde Haroldo I em 800. Ursos-polares foram dados como presentes por islandeses para Henrique III, Sacro Imperador Romano-Germânico, em 1054 e para o rei Sueno II da Dinamarca, em 1064. O rei Haquino IV da Noruega presenteou Frederico II, Sacro Imperador Romano-Germânico, quando este estava com a corte em Palermo, na Sicília. Por sua vez, Frederico, em 1233, enviou o animal como presente para o sultão aiúbida Camil em Damasco. Em 1252 um urso-polar foi dado ao rei Henrique III pelo rei Haquino V da Noruega. O urso foi mantido na Torre de Londres e segundo uma lenda o animal saia para pescar no rio Tâmisa. Nos Estados Unidos, o primeiro urso-polar foi exibido em Boston, em 1733.
Para os povos indígenas do Ártico, os ursos-polares têm desempenhado durante muito tempo um importante papel cultural e material. Restos da espécie foram encontrados em sítios arqueológicos datando de há 2000 a 3000 anos e pinturas rupestres em cavernas de 1500 anos de idade foram descobertas na península de Chukchi. De fato, têm sido sugerido que as habilidades na caça às focas e a construção de iglus dos povos do Ártico foi em parte adquirida dos ursos-polares. Os inuítes e esquimós têm muitas lendas folclóricas cujo personagem é o urso-polar, incluindo lendas em que os ursos são os seres humanos quando dentro de suas próprias casas e que colocam as peles quando vão para fora, e histórias de como a constelação que assemelha-se a um grande urso cercado por cães surgiu. Estas lendas revelam o profundo respeito para com os ursos, que é retrato como espiritualmente poderoso e aparentado aos humanos. A postura quase humana quando em pé e sentado, e à semelhança de uma carcaça de urso para com o corpo humano, talvez tenham contribuído para a crença de que os espíritos dos seres humanos e ursos eram intercambiáveis.


